Crônica do Sapiranga

HOJE É TÃO   DIFERENTE!
Milton Sapiranga Barbosa

O  que é  que está  acontecendo com  as  crianças de hoje?
Que mundo  é  esse  que  vivemos  hoje onde  as  crianças não podem mais  ser  crianças?

Me  fiz  estas perguntas na manhã  ontem,  dia  25/12/12, e não encontrei resposta que pudesse explicar com  exatidão o que  esta  havendo com elas. Aliás que já  vinha notando, há tempos, que  as  crianças de hoje  não brincam  como  as  crianças dos  anos 40,50, 60 e 70. 
No  dia 25 de dezembro, no meu tempo de moleque, assim  que  acordava, olhava logo para  debaixo da rede para  ver o que Papai Noel  tinha deixado em  cima  do tamanco, da bota  escolar ou no sapato durabel. Fosse  uma  bola  de sernambi ou um  pião de lata  aquele que tinha uma haste   em forma de  espiral, que se pressionava para baixo  e em seguida solta e ele  saia rodando e  só parava quando a haste voltava a sua posição inicial) Lembram? Podia também ser um carrinho de madeira  ou de plástico, um tamborzinho.
Fosse qual  fosse o brinquedo deixado pelo bom velinho, a  alegria  era imensa e nem  bem raiava o  dia, eu e meus amigos, Duca, Arideu, Torquato, Clávio, Joaquim, Percival, Monte, Zé Homero, Dedé, Pilão  e outros tantos. Era  bonito  ver  a meninada correndo  para mostrar  o  brinquedo para  o amigo  de  travessura do bairro da Favela. 
As  meninas   saiam com suas  bonecas,  dos  mais  variados tamanhos  e modelos  e, juntas   com suas  colegas,  inventavam mil e uma  brincadeiras.
O menino  que  ganhava uma  bola, ficava todo “pavulagem”, pois  mesmo  que  não fosse  craque , tinham  vaga  garantida  na  pelada e ainda se dava ao luxo  de escolher os melhores peladeiros  para seu   time. Afinal  era  o  dono da  bola, ou ele jogava ou  então não dava a bola.
Hoje não, hoje é  tão  diferente! As  crianças ficam trancadas dentro  de  seus  quartos,  com ar condicionado,  jogando  vídeo games ou  conectados , acessando as redes sociais  que  abundam  na  internet, longe  uma das  outras.
Que  chato!
Po rque  as  crianças de hoje  não podem ou  não  querem  brincar   como crianças?  Por que    não brincam mais de peteca, de pião, de pira, de ioiô, não jogam bola (não digo na  rua ou avenida, pois  tem muito carro trafegando  por  elas) , mas como  tem praça espalhada  pela  cidade, onde eles poderiam jogar tranquilamente? Brincar  ao   ar livre  em vez  de jogar vídeo game dentro de um quarto, é muito mais sadio.
Meninada  de hoje, não  fique  dentro de casa  quando   estiver chovendo, é  tão gostoso brincar  na chuva, tanto que  até hoje, um  amigo  meu, o Amadeu, que já  tem até netos e já passou  dos 50 anos, é  só  chover  que  ele  vai    para  o  meio da rua  tomar banho, lembrando do    tempo   que  morava  próximo  a  estação central da Caesa.  Quanto  mais grossa  melhor, diz  o Amadeu, com absoluta razão.
Esse  relato  foi  motivado, por  que na  terça  feira 25,  parado na  esquina  na  rua  Leopoldo Machado com Avenida Timbiras, olhei  para um  lado e para outro  e  não vi  um  menino  puxando um carrinho  amarrado com barbante, na  rua, jogando um pião, chutando uma bola. Não  vi uma  menina, toda prosa  com  sua  boneca  no   colo. O que vi,  foi  um  menino   brincando  com  os  patins  que ganharam de Papai Noel, mas esse  é um brinquedo perigoso, que  até  hoje  me arrependo de ter  atendido uma cartinha da minha  filha Elinne, que pediu para o papai  um  par de patins. Ganhou  e no  segundo dia que  treinava  se  equilibrar  sobre as  rodinhas, caiu e  quebrou  um braço. Não me perdoei até hoje. Depois  do acidente, presente de Natal só de fosse boneca Barbi, mas a pedido  dela.
Quero   deixar  aqui um  pedido. Pai, apesar das  modernidades   de hoje, internet, sala de bate papo, vídeo game,twitter, etc, etc, lembre-se das   brincadeiras  de   seu  tempo ou as  que  seu pai   lhe  contava que  fazia quando criança. Libere   seu  filho   para viver   como   criança. Garanto,  e muitos  vão  assinar embaixo,  que ele   será  muito  mais  sadio   e  feliz.
Bom ano  novo  a  todos, sempre.  

Crônica do Sapiranga

BLUE BLADE
Milton Sapiranga Barbosa

Um amigo  de longa data, num bate papo  informal,  sugeriu que eu fizesse crônicas sobre  temas  variados.  Disse-lhe de imediato que  não iria atender seu  pedido, pois sempre que me deparo com  alguma coisa, fato ou objeto, que  lembre de minha  infância feliz, vivida no querido bairro da Favela, as lembranças afloram.

Quando me lembro  da Macapá  de antigamente, quando se podia dormir com as janelas abertas, escorar  a porta com um “mucho”, e andava-se  a qualquer hora, do  dia ou da noite, sem perigo de ser atacado por algum  desocupado. Quando  a maioria da população era compadre  e comadre, e mais importante, se  respeitavam, não  tem  jeito, o  coração aperta e a viagem no  túnel  do tempo da memória é  inevitável.
Se não vejamos. Outro  dia, estava eu num  papo molhado com  amigos, quando de repente me aparece um  cidadão, com uma caixa de gilete nas  mãos, querendo trocar a dita cuja  por uma “bujudinha”, Caninha da Roça (água que passarinho não bebe).


Pronto, foi o bastante, viajei no tempo e entrei no templo da  saudade, como  vocês  lerão a seguir .
Na  época  de ouro  do rádio brasileiro, antes  de inventarem a televisão, internet e outras  geringonças eletrônicas, o rádio à  válvulas era o veículo que  o  povo brasileiro se servia para ouvir músicas  e se informar do que acontecia no Brasil  e no Mundo através dos noticiários.
Quem não se lembra do Repórter Esso (Rádio Nacional), na vibrante  voz  de Heron Domingues, que informava as mais importantes noticias do Brasil e do Mundo, como por exemplo: O Fim da  Segunda Guerra Mundial, a morte de  Getúlio Vargas, a  conquista do Brasil na Suécia, etc, etc… ?

Ao ver  aquele pacotinho de Gillette Blue  Blade, com a foto do seu inventor e seu impecável bigode, lembrei de alguns   famosos  gingles,  do  tempo  que publicidades  no  rádio eram  chamadas de “ reclames”. Quem  nasceu  na  década de 40, 50  e/ou 60, certamente  ainda  deve  se  lembrar de um  destes; Grapette, quem  bebe Grapette, repete; Pílulas de Vida  do Dr. Ross, fazem bem  ao  fígado de  todos  nós. Pequeninas, mas resolvem; e do Xarope São João: – Alô, quem  fala? r- É a tosse. – Aqui quem fala  é o Xarope São João! FUGIU Hein? – ~É  sempre  assim, falou São João, a tosse vai  embora na hora. E outro: do Leite em pó MOCOCA que  dizia; A vaquinha Mococa está  mugindo, muuuu. A vaquinha Mococa está dizendo: Beba leite  em pó Mococa.  do Talco  Ross: Passa , passa o  Talco Ross, quero ver passar. Passa, passa o Talco Ross  para refrescar: Tinha também: Pasta Dental Golgate, remove  todas  as cáries: Use Mitical que  acaba  com  as  coceiras- Melhoral, Melhoral, é melhor e não faz mal.  e do Flip Guaraná, ouvia-se um  barulho  de vidro se estilhaçando (presumidamente em copo caindo no chão), porque o locutor  dizia: Quebrou? Flip da outro!.Alguns  desses produtos anunciados na  época de ouro do rádio, deixaram de ser  fabricados, outros ainda  estão por  aí.  Lembrei  ainda  do sabonete Eucalol, que  trazia   figurinhas para colecionar.  Do Sabonete Lifeboy, Biscoitos  Aymoré,  Sabão em pó Rinso, Café  Moinho de Ouro, Sabonete Lever – o sabonete das  estrelas de Hollywood,-Alka Seltzer e outros e outros, que deixo para  que vocês também viajarem  no tempo.
Na  época de ouro do Rádio, as emissoras  mais  ouvidas  por  aqui, sintonizadas  em  rádios das marcas Phillips, Mullard, Transglobe e mais pra  frente o Motorádio,  eram: Prc-5, Rádio Clube do Pará: Mayrink Veiga, Tupy  e Rádio Globo.
Também  se ouvia muito A Voz da América e a Rádio Nacional. Na Mayrink  eu gostava de  ouvir  os  programas  humorísticos  como do  Edifício Balança, Balança, mais não cai   e a Turma da Maré Mansa,  que tinha o quadro O primo rico (Paulo Gracindo) e o primo pobre(Brandão Filho), não perdia um. Já  na  Tupy  e na Globo  eram   as  jornadas  esportivas, ainda mais  quando jogava  o  meio  querido  Fluminense.
E  foi  lembrando as  jornadas esportivas  que lembrei do principal  patrocinador do  futebol ;  a Gillette  Azul, que  era assim  decantada pelos  narradores  Waldir Amaral,  Jorge  Cury e outros menos  votados: O  tempo  passa  e a barba cresça e  aí  entrava  o  gingle que  dizia assim: ALEGRIA, ALEGRIA, FAÇA A BARBA TODO DIA  COM GILLETTE  AZUL:  ALEGRIA, ALEGRIA, FAÇA A BARBA TODO DIA COM GILLETTE MONO TEC (era um  aparelho  para  barbear (parecendo um T, em  que se  rodava em baixo  e abria  duas  abas em cima, onde era  colocada  a   Gillette).

Pois  é  meus amigos,  quando  vi o  pacotinho da Gillete  Blue Blade –  com   as  três  lâminas  de aço inoxidável , ainda  intactas, fui   envolvido por uma  áurea de saudade e não pude satisfazer  o  pedido  do  dileto  amigo. Afinal  de contas,  como disse  a   conceituada  jornalista paulista  Regiane  Ritter:  SÓ TEM  SAUDADE, QUEM  FOI   FELIZ. E  eu   fui feliz na minha  infância, na querida  Favela.

Crônica do Sapiranga

A bala da paz
Milton Sapiranga Barbosa

Eu, Milton Sapiranga Barbosa , neste ano de 2012 vou  completar   67 anos, Ela, neste mesmo ano  já chegou  aos 100 . Eu nasci para o bem. Ela para o mau. Suas irmãs, gêmeas, cumpriram a missão  para a qual foram criadas, infelizmente.

Elas feriram, mutilaram, mataram, pois  sempre estavam participando de conflitos, de guerras, de todo tipo de desordem da qual elas pudessem lesionar alguém.
Ela não. Apesar de sua estigma, nunca fez  uma vitima. Não  quis  ser  rotulada como um  artefato mortal. Se manteve no anonimato, em  silêncio, na sua, como se diz por aí.
Suas irmãs, não. Explodiram, desapareceram, mas  antes  mataram muita gente.

Por outro lado, ela, mesmo após  passado  cem  anos,  continua  intacta,  virgem.  Está fininha, brilhante, linda, mesmo  sem ter feito lipo   e sem ter  visitado  o  Ivo Pitanguy.

Sua tristeza  é saber  que  suas irmãs não  seguiram seu  exemplo, só queriam viver em guerras, destruindo vidas, deixando milhares  de famílias  chorando a morte de um ou mais ente querido, destruindo bens e mais bens, atingindo pessoas inocentes. Ela, certamente, chorou muito devido as ações  maldosas  de  suas irmãs. Ela, pura, sempre que os  soldados  iam   ao  paiol  municiar suas  armas, costumava dar um  jeito de escapulir dos dedos dos soldados, ficar  quieta, lá no fundo da caixa, rezando para não ser descoberta. E  assim  foi  se salvando de ir  para a frente de batalha, ferir, mutilar, matar pessoas  que ela nem  conhecia.

Por isso,   antes  de  partir  desta  para melhor,  vou  deixá-la   para  meus  herdeiros,  na  esperança  de que  daqui a  mais 100 ou 200  anos,  ela  possa  servir de  exemplo para quem   vive  sempre  guerreando, tirando vidas  de  pessoas  inocentes.
Que aprendam  que  viver  em paz  é uma benção  de Deus e se vive  muito mais e feliz. Ela  está  ainda entre nós  e vai  ficar ainda por muito tempo. Pois    sempre  foi  do bem.  Ela jamais  vai querer  explodir, ferir seu  guardião ou  gente  em volta dele.
Eis  ela  aí, A BALA  de um  fuzil  fabricada  em  1912, uma  BALA  da PAZ, pois nunca  foi  e nem  será  detonada.


P.S. Este pequeno  relato  foi  feito para  homenagear  as  pessoas  que completaram um  século de vida sem nunca terem feito mal  a  ninguém. Em  especial  ao  senhor Zacarias Teixeira Leite, que  sempre  foi um  exemplo para  seus  filhos e demais familiares, aos  seus amigos    e também para os  garotos  do  bairro da Favela, que sempre seguiram seus  conselhos, ensinamentos,  e o  respeitavam  como um pai, tanto   que  todos trilharam o caminho  do bem e seu ZACA  teve grande parcela  em nossas vidas.

Crônica do Sapiranga

CHOREI,  E MUITO !
Milton Sapiranga Barbosa

Depois que os  desfiles cívicos, pátrios  e carnavalescos foram transferidos  da Av. FAB para à  avenida Ivaldo Veras(Sambódromo), nunca mais  me  interessei em  ir  assistir  desfiles no  local acima  mencionado,  até que  neste  ano de  2011, não  pude  deixar de ir, por  dois motivos  que  julguei importantíssimos,  como  vocês  poderão  comprovar a  seguir.

Minha   filha  caçula, Elinne, quando  fui  visitá-la  no  sábado, 03/09,  me  fez um  convite muito  especial, pedindo  que  fosse assistir o desfile  do Pedro Caíque, seu  filho(  aquele moleque da crônica O filho da lavadeira e o neto indagador ). Lembram? De  imediato  prometi  que não ia  faltar. Primeiro, porque  naquele dia em  que ele  desfilaria, eu  estaria  de berço, completando 66 anos  de  vida,  e segundo, por que, sem dúvida,  veria  naquele  moleque, da terceira geração da Dona Alzira, um  pouco  de mim, já que  ele  carrega nas veias um de meu sangue. Não,  eu poderia  deixar  de  ver meu Neto desfilar  pela  primeira  vez  na  vida  e logo no dia  de meu  aniversário.

Na  quarta  feira, 07/09, às  06  da manhã  já  estava acordado. Depois  de rezar  e agradecer à Deus por  me  dar, até  então,  o  dobro  de   sua  idade,   tomei um reconfortante banho, vesti  uma  roupa  nos  trinques, bebi o café matinal , saindo  em seguida  pedalando  minha  bike   rumo  ao  sambódromo.
Como   o trajeto da casa  onde moro  até ao local do  desfile dista uns  mil  e quinhentos  metros aproximadamente, ou mais,  fui  relembrando, feliz,  como  pinto no lixo, dos  meus  tempos  de jardim de infância  até à  quinta  série, iniciado no  anexo  da Escola  Normal  e concluído  no Grupo Escolar Barão do Rio Branco.
Lembrei das  professoras  que  me  deram ensinamentos  e  alguns  cascudos, também. Como  foram diversas, não  cito nomes para não cometer injustiça.
Lembrei  com saudade da  “Turma  da Graxa”, pois  por  dois  anos, por  ser baixo  e magrinho, sempre ficava no  pelotão da “bagunça”,   já  que   na graxa não havia preocupação  com  o passo  certo. Bem  que tentávamos,  dando  aquele “pulinho”  para  acertar o  passo(assim pensávamos), com o  do  colega  que marchava ao lado  direito ou  na frente, mas as  vezes eles  também estavam marchando errado, e a coisa  ia  do jeito que  dava até o final  do desfile da escola.Mas o orgulho de  passar  em frente ao Palanque  Oficial era indescritível.
Recordei  da Turma do Bastão , da  Escola  Industrial,   comandada  pelo  saudoso professor, árbitro, atleta e  escoteiro, Expedito da  Cunha Ferro(91), que   com uma  varinha na mão direita, exigia muita  atenção  e disciplina  dos  “bonecos  de anil” por  ele  selecionados .
Quando a Turma do Bastão parava  em  frente  ao  palanque  e  começava a fazer  evoluções, com uma  precisão incrível, era  um  espetáculo  e os  aplausos  e  fogos  eram  ensurdecedores.

De  repente, ainda envolto nessas  gostosas  lembranças de  meu  tempo de primário, cheguei  na Ivaldo Veras, acho  que uns  10  minutos  antes de começar  o  desfile de  7  de setembro. As  dependências  do  sambódromo já  estavam lotadas. E  agora? Como  iria ver meu  neto passar garboso pela  avenida. Felizmente, liberado por  uma  policial  militar, consegui lugar  em uma  das  cabines  que  abrigam os  jurados nos   desfiles carnavalescos. Lá, daquele  lugar privilegiado, fiquei  atendo, assistindo  o passar dos membros da Polícia Militar, um pelotão da Legião Estrangeira, e  os  alunos das diversas  escolas  de Macapá  e  dos  meus  olhos   começaram a  cair  gotas e mais  gotas  de lágrimas .
Como  tinha  gente  ao  redor, de vez  enquanto  eu ia  até  a escada enxugar lágrimas  saudosas  que  teimavam em cair devido a forte emoção que  tocava meu  coração, por  lembrar da minha  infância  feliz.
De  repente,   lá  vem o  pelotão da Polícia Ambiental e dentro  de um carro  patrulha,  envergando  o  uniforme da  companhia, no posto  de  Tenente, era  meu  netinho Pedro Caíque  Barbosa Baía.
Outra  vez  voltei no  tempo. Ao  vê-lo,  comodamente sentado naquela   viatura, foi  então  que  chorei pra valer,  ao lembrar,  do  dia  em que  cheguei  atrasado para receber o  material que  o governador Janary Nunes mandava  distribuir para os alunos da época (macacão   e botas). Quando  chegou a minha vez, o macacão  estava na medida  certa, mas as botas estavam  dois números acima  do que   eu  calçava, 38 em vez  de  36. Mas  quem disse  que  recusei? Eu não  ficaria sem  desfilar  de forma alguma.
No  dia  7, bem cedo, coloquei uns  pedaços  de  papéis nos  bicos  das botas,  calcei duas meias  de  jogador  do  meu  cunhado justo (grande  zagueiro  do Amapá Clube) e mais  a meia da  escola e  fui  todo  contente  para  a avenida  FAB.
Minha  escola Barão do Rio Branco, foi a  quarta  a desfilar, pegando já um  forte  sol  pela  frente. Quando passamos  em frente  ao palanque, ao  olhar  pra  direita, avistei  minha  mãe Alzira e minha irmã Mariazinha batendo  palmas e ostentando largos  sorrisos  em  seus  rostos.
Elas, eu tinha  certeza,  estavam aplaudindo orgulhosas   aquele  moleque  magrela, que  mesmo  com enorme  sacrifício  de  marchar   com  aquelas  enormes botas  e  com pesos  extras, passava  garboso  diante  do  público e  das  autoridades, como se  tudo  estivesse  normal.

Terminado o  desfile, fui liberado para  ir  tomar  banho na  praia  da  Fortaleza de São José, que naquele  tempo  era  bem limpinha  e tinha muita  areia. Tirei  as botas  longe  dos  colegas, tomei  banho  e  depois trouxe as botas  nas mãos, pois  se eles vissem o tanto  de papel e pano que havia  utilizado no calçado para poder  desfilar, era  gozação  por  toda a  vida. É, chorei de verdade, ainda mais que  depois  que  meu  neto  desfilou, correu  ao meu  encontro,  me  deu  um   forte  abraço  de parabéns  pelo  meu  aniversário,  depois    que lhe  prestei  continência. Afinal  estava  diante  de um Tenente Mirim da Polícia Ambiental. CHOREI,  SIM !  E VOCE, NÃO  CHORAVA?

Crônica do Sapiranga

Dia primeirio de junho, eu não respeito senhor!
Milton Sapiranga Barbosa

Neste  primeiro  de junho, como  de costume, mesmo  estando de férias,  acordei as   6 da manhã.
Após  agradecer  a Deus pelo  ótimo  sono e   por  ver nascer  mais um novo dia,  assisti, no  canal   96  da Via Embratel,  as peripécias da  dupla Tom  e Jerry. A  eterna briga do gato com o rato.
Durante o primeiro  intervalo  do  desenho animado, percebi  que Macapá  estava silenciosa, muito silenciosa.  Não se  ouvia pipocar  de fogos   e  nem  a  salva  de tiros  disparados pelos  canhões da Fortaleza de São José de Macapá,  acordando a cidade   e  homenageando  o  primeiro governador  do  Território Federal  do Amapá, Janary Gentil  Nunes, cujo   aniversário é comemorado no primeiro  dia do  mês  da quadra  junina no Brasil.
Aí   bateu  uma tremenda  saudade da Macapá  de antigamente. Lembro  que  naquele  tempo, o  primeiro de junho, era  repleto de comemorações, que iniciavam ao   romper da aurora  e  varavam noite  a dentro.  Tinha churrasco, torneios  de futebol, natação, festa na piscina territorial  e  em diversas sedes  de  clubes  locais. Tinha marabaixo  na casa  da dona Gertrudes  e  do Mestre Julião Ramos. Todos  prestando   homenagem ao  Governador  do Amapá, inclusive imortalizado por Mestre Ladislau na cantoria que dizia: “Pra onde  tu  vás rapaz, por  este caminho  sozinho.? Vou  fazer minha  morada, lá prós campos do Laguinho” / Dia primeiro de junho, eu não respeito senhor, eu  saio gritando vivas, ao nosso  Governador”  e por  aí vai.
Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, gostou  e gravou  os versos   de “Ladrão” de Ladislau.
Ao  sentir   que   se  aproxima a quadra junina, lembrei  também  das  noitadas  de festejos   de  Santo Antonio (13), São João (24),  São  Pedro (29)   e  São Marçal (se  dizia São Marçá) no  dia  30, encerrando  as  festividades  da quadra junina.
Me vi   outra  vez, junto   com  meus  amigos  de infância, entre eles, Moacir, Pilão, Arideu, Dodoca, Zé Rodinha, Deodato, Mucura, Boquinha e  tantos outros, percorrendo  ruas  e  avenidas  da  Favela,  em  desabalada  carreira  para  poder  ter impulso  e pular as   fogueiras   que  eram  acesas   em  frente  de cada  residência  do  bairro.  Os   adultos, sempre  que  percebiam que  íamos  pular, nos  avisavam  que  era perigoso, que  alguém podia  se ferir. E   eles  tinham razão. Mas  sabe  como  é  moleque, não  tem noção  do perigo. Muitas vezes  alguém   errava  o pulo, batia  numa haste  de lenha  e ia  ao  chão, arranhando joelhos, mãos, cotovelos  e alguns  até   ficavam  com  a cara  esfolada. Era  bonito  de se ver o  bairro iluminado  por   fogueiras  armadas nos  mais  diversos tamanhos  e com  todo tipo  de madeira  disponível.
A minha  querida  mãezinha, preferia  fazer  a  fogueira em  frente de casa  com   galhos de muricizeiro, pois  depois  que  a sirene da Usina de Força e Luz apitava avisando que eram  21  horas,  ela  apagava   e  no  outro  dia  aproveitava  o carvão para  colocar no  ferro de engomar (passar  roupa)   e  os  pedaços que  não  tinham  sidos queimado  totalmente,  ela  usava  para  cozinhar   o feijão do  dia  a  dia (até   hoje não sei  porque, o  feijão  cozido no  fogão  a lenha  tem um sabor  diferente, do cozido no  fogão a gás. Será  pelo  cheiro da fumaça que  entranha no caldo?. Ah, essa modernidade).
As  vésperas  e nos  dias   que   os  santos Antonio,  João e Pedro são  homenageados, nós saíamos pulando  fogueiras  até   as   existentes  em bairros  adjacentes (como  Trem e Bairro Alto) por exemplo, mas     no  dia  30,  nós  nos  aquietávamos. É  que   São Marçal  é  homenageado  com  fogueiras  feitas  de  paneiros, muitos paneiros, que  provocam altíssimas  labaredas  e aí sim, pular  era  por  demais  perigoso  e  só  então  acatávamos os  conselhos  dos  mais  velhos.
Puxa, como  era bom naquele  tempo. Ir de casa  em casa   e  se  deliciar  com cuiadas e  cuiadas de mingau  de vários sabores, mas  o  preferido, não tenho dúvidas,  era  o  de milho branco. Comer canjica, milho  assado,   milho cozido, tacacá, aluá  e  outras  iguarias  da época, era uma delícia só.
Naquele  tempo  o  vizinho   fazia  questão da presença das  comadres  e  compadres, muitos  só  de  fogueira, naquela   de: “Santo Antonio disse, São  João  confirmou, que   o Milton há de ser meu  afilhado, que  Jesus  Cristo mandou”. E não é, que mesmo sem ser abençoado por um  padre,  valia, se  respeitava  e tomava-se benção, sempre  que se encontrava  um padrinho ou madrinha de fogueira?.
As mulheres  passavam fogueira  e  se travam  de “ Meu Botão”, “ Minha Rosa”,  “ Minha Flôr”, “Minha Boneca”,  e  depois  só  se  tratavam por  esses  nomes, por  toda a vida, sempre  que  se  encontravam.
E  as     apresentações   dos  Bois Bumbás,  com  seus  caçadores , índios, pagés, catirinas, etc, etc?.  Tinham  também  exibições  de  cordões, sendo  que  o mais famoso  deles   foi  o  cordão do Uirapuru, na  minha opinião, mas na verdade, todos  eram bacanas de se  assistir .
Meus  olhos  estão  nublados por  lágrimas  saudosas  que  teimam  em rolar  face abaixo, não  me  deixando  mais continuar minha  viagem     pela   romântica, festiva,  segura  e bela  Macapá  de antigamente.  Saudade, muita saudade  dos  bons  tempos vividos, principalmente, na minha  querida  Favela.

Crônica do Sapiranga

S.O.S – A Lagoa  dos Índios está morrendo!
Milton Sapiranga Barbosa

Creio que  todos estão lembrados da crônica Raiva e Tristeza, na qual eu lamentava o descaso dos chamados órgãos  competentes, criados para   proteger  o Meio Ambiente, Flora e Fauna,  falando especificamente sobre a Lagoa dos Índios, que no meu entender, se bem cuidada  e protegida, seria um  dos mais bonitos cartões  postais de Macapá.  Enfatizando que a mesma  estava completamente abandonada, cheia  de lixos diversos,  na sua outrora  límpidas águas. Até óleo despejaram  no local, matando  diversas  espécies de peixes, entre eles, traíra, piranha, pratinhas e  uéuas.
E foi ao passar outra vez naquele logradouro, que  me veio a mente  as pessoas, adultas e moleques, como eu, a época, que  deixaram sua marca, pela perícia na pesca ou por outra particularidade  qualquer.  Entre eles  o  “Jacaré”, que  era quem ordenava a hora e  o término  do banho.  Quem desobedecesse sofria as conseqüências. Certa vez, um desavisado, que não  conhecia  a Lei Jacaré, foi chegando na ponte, tirou  camisa  e tibum. Pra que? O Jacaré passou mão na sua zagaia, que  estava sempre ao  seu lado e atirou no  rumo do “atrevido”. O bico do ferro central  da zagaia entrou no bumbum dele, que  saiu as pressas de dentro d`água   em desabalada carreira, não sem antes  ter aquela arma retirar de suas nádegas pelo próprio Jacaré, que simplesmente disse: “Ainda não  é hora do banho”. O moleque, apavorado  com  o olhar feroz  do seu  algoz,  esqueceu  até a camisa em cima do corrimão da ponte.
O Jacaré era  tão bravo, que sucuri, de meia boca,   enrolava na  perna  dele  e ele saía tranquilamente de dentro do lago, como se ela fosse uma sanguessuga,  que tivesse presa  a sua  perna.
Lembrei também  do Joanico,  filho da dona Otávia, que morava na esquina da Leopoldo com a Cora de Carvalho (por onde será que ele anda?  Soube que ele estava morando  às margens do Rio Matapí e que mordido por uma cobra  teve uma das pernas amputadas). Ele, Joanico,  que também era bom na zagaia,  um dia  arpoou uma bota na Lagoa só para  mostrar que ela tinha o órgão vaginal igual ao de uma mulher. Tinha  até  cabelos. A molecada  toda foi olhar. Ele explicou  que se um humano quisesse fazer as vezes do boto, morreria,  se não tivesse alguém que  o tirasse de cima dela. (Será? Não sei!)
Na Lagoa, que tem ligação com  o Rio Amazonas através do Igarapé da Fortaleza,  se podia pescar Pirapitinga, Tucunaré, Cuiú, Apaiarí, Surubim.etc, etc. Lembrei  do Célio Paiva (um grande zagueiro do Juventus, filho do seu Barbosa da Sapataria), que  chegava  por lá   só  a tarde, por volta das   17 horas . Sentava  à sombra de  um esteio  e só começava a pescar  17h45, pois  era  quando um imenso cardume de jacundás aparecia no local. Ele fazia a festa, grandes cambadas, pois o jacundá é um dos peixes mais fácies de fisgar, pois o mesmo engole  a isca  com uma voracidade  incrível. Ele não errava um.
Tinha  também  o  Sabará (outro  craque que jogou no Juventus, São José e Paissandu), que  preferia  pescar  dentro da lagoa, ao que  ele  apelidou   de pescaria “ cabecinha no fundo. É que ele ficava dentro do lago com água pelo pescoço, daí o nome que ele empregava para  sua maneira de pescar.
Lembrei  do velho e bom preto “Seu Gonzaga”, pescando em sua canoa  no meio do aningal,  pitando um  “porronca” cigarro feito com fumo de rolo -tabaco puro-  e, sempre que eu e o Deodato, o Dudu, perguntávamos se  estava batendo    bem “pratinha” (peixe da família do pacu)  naquele ponto ele dizia: “meu filho tá, mas é na miúda, na miúda, na miúda”. Como nós já havíamos descoberto seu truque, sabíamos que  ele  estava pegando só pratinha graúda, que chamávamos de “pires”, devido  seu tamanho  se parecer  com o parceiro da xícara, e íamos para perto dele  e também passávamos a puxar  só pratinha graúda.  Ele ficava carrancudo, mas nós nem aí, fazíamos a festa.
Ali fiz grandes amizades que perduram até hoje. Como homenagem  listo  alguns : o Dmoá,

Os irmãos Ruy, Antônio e Walter Maia e o Geraldo Galo (camisa preta)

Clóvis, Wálter Damasceno, os irmãos Miranda Maia (Wálter, Ruy, Antonio, Paulo, Pires),  os Irmãos Lemos (Romeu, Ceará, Picolé),  os  irmãos Queiroz do Couto (Dudu, Bilica, Chico e Jorge), Bené Valadares,  Catara, Lucide, Luciberto, Chope, Chico Almeida e seu irmão  Jorge , Galo, Carrapeta, João Dutra, Manduca, Alcides etc.etc…  Apesar das boas recordações, constatei, que apesar de ter mostrado  em rede mundial minha revolta, raiva e tristeza,  nada, nadica mesmo de nada, foi feito para tentar salvar a Lagoa  dos Índios,  que  a  cada  dia que  passa, vai morrendo  aos poucos, infelizmente.

Cadê Ibama, Sema, Semam, Polícia Ambiental?  Não  deixem a Lagoa morrer. Por favor,   ajam  enquanto é tempo. Salvem a Lagoa dos Índios, pelo amor  de Deus!

P.S.  Quero convocar os amigos listados acima, para formarmos um mutirão e  marcarmos um dia  na semana, para  realizarmos  uma limpeza no local, para ver  se as  autoridades (in) competentes  criam  vergonha  e passam  a dar uma melhor  atenção  a Lagoa dos Índios.

Crônica do Sapiranga

Bendita Chuva
Milton Sapiranga Barbosa

Manhã  de sábado chuvosa, fiquei impossibilitado de pegar a bike e sair pedalando pela beira rio, apreciando a beleza  do rio amazonas, com destino a banca  do Dorimar, para comprar jornais e  encontrar  amigos  de infância, que quando não  estão por lá, estão no bar da praça ou a sombra do jambeiro em frente à casa do João Silva.

Sem poder sair  o jeito foi pegar o controle remoto e procurar um canal da via Embratel que estivesse apresentando um bom programa.
Nos canais de esportes só  matérias repetidas. Uma,  com  o Vágner Love,  já passou bem umas 5 vezes. De repente aparece na tela um aviso que a  rede TeleCine estaria com seus canais abertos, sem custo algum,   até  o dia 20 do mês em curso.
Não relutei um instante sequer e fui direto no Tele Cine Premium. Nada de bom. Fui acionando o botão do controle até chegar ao Tele Cine Cult.
Aí meus olhos brilharam e o coração bateu aceleradamente. Lá estavam Yul Brinner, James Coburn, Charles Bronson, Steve Mc Quem, os principais atores do filme The Magnificente Seven, título original, mas  que  para nós brasileiros  ficou sendo  Os Sete Homens de Ouros.
O filme era tão bom que assistir 3 vezes e sem gastar um tostão, pois  casais que não queriam enfrentar  a enorme fila que passava da casa do Agostinho Souza, pediam para comprar  três ingressos, dois pra eles  e um, lógico, para este que vos escreve. Terminado o filme na TV, me veio à lembrança de uma leva  de  filmes de grandes bilheterias exibidos nas telas do Cine Territorial, dos barracões dos padres, da Capelinha de N.S. de Fátima, da Prelazia, depois Cine João XIII e da paróquia do Trem, depois Cine Paroquial  e do Cine Macapá. Filmes que tenho certeza, muitos dos que lerem esta crônica, vão lembrar e viajar no avião da saudade, como aconteceu comigo, senão vejamos: Os Perigos de Nyoka(a Rainha das Selvas), um seriado que lotava os barracões que vibravam e torciam quando ela aparecia para salvar alguém. Adorei assistir: Marcado Pela Sarjeta (com Paul Newman e Sal Mineo), que narrava a trajetória de um homem  de origem pobre, que passou pela prisão e se tornou um dos maiores pugilistas de todos os tempos: Rocky Graziano. Lembram dos filmes, Acorrentados, Ao mestre Com Carinho, Sementes da Violência, todos estrelados por Sidney Poltier (primeiro negro a ganhar um  Oscar)?
E os filmes do mestre Alfred  Hitchcock: Um Corpo que Cai, Psicose, Os pássaros e Janela Indiscreta. Os longas metragens exibidos nos Cines Macapá e João XXIII, como os épicos  Ben Hur, Manto Sagrado, Os Canhões de Navarone, Cleópatra- A Rainha  do Egito, Spartacus, A ponte do Rio Kwai, Os  Dez Mandamentos, Lawrence da Arábia e por aí vai. Lembrei do filme que marcou a estréia do Cine Macapá; Ladrão de Casaca.
E o musical A Noviça Rebelde, com a incomparável Julie Andrews que  ano passado completou 45 anos de seu lançamento . Lembrei dos grandes filmes de faroestes como:  Rastro de Ódio, O Último Pistoleiro, Dólar Furado, A Conquista do Oeste, No Tempo das Diligências.  E os filmes com a dupla Oscarito e Grande Otelo, os reis das chanchadas, que fizeram milhões de pessoas rirem com  suas trapalhadas em: Aviso aos Navegantes, Cacareco Vem Aí, De Vento e Popa, Matar  ou Correr, uma sátira do  bang bang Matar ou Morrer. E o baiano, meu  xará (Milton)- Zé Trindade, em Marido de Mulher Boa,  Mulheres a Vista, Genival  é de Morte. E o caipira  Mazzaropi, que não fazia filme sobre  o Brasil, mas sim para o Brasil inteiro rir; Jeca  Contra o Capeta, As Aventuras de Pedro Malasarte.

É meus amigos, ainda me lembro de grandes filmes  da época de ouro do cinema, antes do advento da ielevisão e agora  dos filmes em DVDs, piratas ou não.

No domingo, 20/02, quando encerrou a gratuidade da Rede Telecine, ainda fui presenteado com as exibições dos filmes: O Meninão com Jerry Lewis e Dean Martin: O Destino do Poseidon com Ernest Borgnine  e  Glória Feita de Sangue com o meu ator preferido; Kirk Douglas.  Ainda  faltou  citar muitos filmes  famosos, com Cantinflas, John Wayne, Burt Lancaster, Charlton Hestone outros grandes artistas. Mas isso deixo para vocês trabalharem um pouco a memória.

Obrigado meu Deus. Saudade não mata, mas estou morrendo de saudade  das domingueiras nos  cinemas da nossa velha e querida Macapá, de trocar revistas com a molecada, de comprar ingressos para casais que detestavam filas e receber uns trocados e as vezes até ter o ingresso pago por eles. De dar aquela esticadinha até o  Macapá Hotel para apreciar  a beleza do rio Amazonas, degustando um bauru com  flip guaraná e em depois dar  um passei no trapiche para fechar mais um domingo feliz em minha vida.. Bons Tempos.

Crônica do Sapiranga

Bar Popular
Milton Sapiranga Barbosa

O Bairro da Favela, nas  décadas de 50/60, tinha vários estabelecimentos  comerciais que  serviam  como pontos de referências  e de grandes concentrações de  pessoas.
Entre  eles podemos destacar o Salão  do Pecó,  o  Salão Rouxinol, embrião  do famoso  dançará Merengue, que primeiro  funcionou  as proximidades  onde mais tarde seria construído o Hospital  São  Camilo  e São Luiz  e depois, em definitivo, até  seu  fechamento, lá próximo  ao  quartel do  34 BIS.  Tinha  também o Posto Teixeira & Scotti, a Casa Leão de Ouro, o Bar Canta Galo, o Bar  do Pina, o Mercadinho da Favela, As Casas Duas Estrelas  e Amin Richeni, a Batedeira do  Seu Mirico, a Mercearia  do Cacú, Casa da Tia Gertrudes e  a  Sapataria do Seu Barbosa.  Na lista acima está  faltando  o Bar e Mercearia Popular, do Sr. Manoel Raimundo Monteiro, que foi esquecido de propósito por ser a razão principal desta crônica, em atendimento ao pedido do meu amigo, o competente advogado Adelmo Caxias.

O Bar Popular, apesar da seriedade  de  seu proprietário, que  dificilmente sorria (a não ser  que a piada contada  por  algum  freqüentador  fosse  muito boa) recebia  um  bom número  de pessoas no  dia  a dia. Lá se podia comprar gêneros alimentícios ou tomar uma biritinha (os adultos), na maior tranqüilidade.  Contudo, era sempre no  sábado à noite, a partir  das 20 horas,  que  um  mundão  de gente  marcava  presença  no local, para assistir o  Show de Calouros,  um  deleite  para  moradores locais  e  de bairros vizinhos.
Mas  nem  só calouros  se apresentavam.  Por lá, como convidados, passaram cantores e cantoras famosos da época,  do naipe  de um Agostinho Costa, que  tinha  um belo timbre de voz  e cantava como  ninguém  as músicas gravadas  por Nélson Gonçalves, Carlos Galhardo, Silvio  Caldas  e outros menos votados.
A  bela Terezinha Laranjeira, a Maria  Edilamar e a Belinha Barriga (uma  queria ser melhor que a outra, sendo uma versão  tucuju  da Marlene e Emilinha Borba), também por  lá  apareciam vez ou  outra para  delírio do  grande público. Cantor ou Cantora que desafinasse ou esquecesse a letra da música, levava  estrondosa vaia e gritos de fora, vai cantar no banheiro da tua casa e outros apupos, que dificilmente voltava a subir no palco.
Contudo, sem medo  de errar, posso  afirmar  que  o momento mais  esperado do Show de Calouros era quando o Osmar  Melo  ou  o Edoelson  Alencar  anunciavam: “Vem  aí o Grande Cantor  Nélson Nery”.
“Grande” e “Cantor”, era pura  gozação dos apresentadores, pois  ele não passava de 1,50 de altura  e não  cantava  lá  essas  coisas. O senhor Nélson Nery, de letra bonita  e extremamente organizado  em  suas  estatísticas  sobre  quase  tudo: Futebol, Cantores, Músicas, etc, etc., era  pai  dos amigos Milton, Dedé, Adinélson, Maria Lucia, Socorrinho, Carlos Alberto, que  sofriam  com  as  gozações  que  os moleques faziam quando seu pai  subia  ao palco.
É  que  ele, acho  que  sempre  que  aprontava das  suas, chegando tarde em casa ou tendo bebido  além da conta, era  repreendido  por  sua esposa. Para limpar  a barra em casa, ele se valia   do Show de Calouros do Bar Popular.
O Grande Nélson Nery só sabia cantar uma música  que dizia  mais ou menos  assim: “o nome dela tem apenas quatro letras. é carinhosa, é  divina  e  é mulher”  e por  aí  afora.  Por  que isso?. É  que  sua  esposa  era conhecida  por  “YAYÁ”, daí…

Quando  do Show de Calouros, os moleques  da Favela não permitiam  que  moleques de outros bairros  paquerassem  as meninas da Favela. Uma vez, munidos  de cintos, mas  sem chegar  a bater, pois eles não eram  besta de esperar, colocamos  pra correr uma turma de garotos que veio lá  do Igarapé das Mulheres tirar casquinha  com  nossas  menininhas. É mas também um  dia  eles  fizeram  o mesmo conosco .
Ficou  um a um,  crescemos e  ficamos  amigos.   O Bar  Popular do Sr Manoel Raimundo, sem dúvida, quando  em Macapá  se podia dormir com as janelas abertas e a porta escorada por um banquinho,  era  o grande point  dos favelenses ou favelianos, como queiram. Depois que  seu Manoel Raimundo  fechou o Bar Popular, ficou um grande vazio, pra não  dizer saudade,  no coração  de cada morador  do querido bairro da Favela.

Crônica do Sapiranga

Só de ouvir contar!
Milton Sapiranga Barbosa

Em  crônicas  anteriores publicadas neste conceituado blog, sempre fiz questão de lembrar dos Pretos Velhos  que moravam no bairro da Favela, pois que eles contribuíram e muito  com seus conselhos e, às vezes  ralhando, com autorização  dos pais, para nossa formação.  Contei também  que   eles narravam histórias  maravilhosas  e assombrosas para a molecada do bairro. Narrativas  que  deixavam os moleques  com os cabelos em pé, com exceção deste humilde cronista, que tem os cabelos pixaim, mas  que também ficava  com  muito medo.
Entre as  muitas  histórias  ouvidas, duas  ainda estão bem vivas  em minha memória, pois falavam de assombrações, coisas  do outro mundo.

Uma delas, eles, os Pretos Velhos, contavam de  uma bela mulata, dessas que nós homens classificamos de “ gostosas”, de “fechar o comércio”  e por aí vai. A tal mulata, tarde da noite,  costumava  chamar  um táxi, entrava e depois de rodar por um bom tempo por  ruas e avenidas  da antiga Macapá, mandava  o motorista seguir pela av. General Gurjão   e  dobrar à esquerda, entrando na  rua Eliezer Levy, que ainda não era mão única. Nessas alturas, pelo longo trajeto  percorrido, o motorista  mostrava um  sorriso de orelha a orelha, prevendo que ia fechar o dia com uma  boa  grana no bolso e ainda na  companhia de uma   mulata como  aquela. Pois  sim!.

Quando o carro  chegava  em frente ao portão  do  primeiro residencial dos mortos de Macapá, ela mandava  parar o carro, depois de perguntar  quanto  ela devia . O motorista informava o valor da corrida e solícito dizia: “A senhora  não devia  saltar aqui, é muito perigoso. Entre   que  vou  deixá-la  na  porta de sua  casa,  sem cobrar mais  do que  já  foi  acertado”.  E ouvia como resposta.  “Bom  homem, não se preocupe, não tem  perigo algum, pois  aqui é a minha casa há muito tempo”. Em seguida, ela  adentrava ao  cemitério, virando fumaça.  Quem  contava  a história da  Mulata do Cemitério, dizia  que  teve motorista  que  ficou   lelé  da cuca. Também não era pra menos.

A segunda história de assombração  que não esqueço, também tem  como personagem  uma mulher  bonitona, só que loura, que  costumava  aparecer  pedindo  carona  em  um ponto qualquer da  estrada Macapá Santana, que  já  foi  rodovia Duque de Caxias e atualmente é chamada de Duca Serra.

Bem trajada e  com   um  corpo  escultural, era um  colírio  para os  olhos de qualquer um. Motorista que trafegava   na  estrada ,como   dizia  dona Lalí,  (mãe do Alopércio, Haroldo e José Maria Franco, e do Carrapeta- adotivo -), “ NAS HORAS MORTAS”, indo ou vindo  de Santana, não  se furtava  em dar  carona aquele  espetáculo  de mulher.  Tão logo a “bela” entrava  e sentava no banco do passageiro, se mostrava receptiva a uma  boa cantada. Ela  deixava  claro ao homem que lhe dava  carona que aquela  noite  prometia. A “fera”, o motorista prestativo, vendo a oportunidade  de uma conquista  fácil, partia pra cima  e tinha amplo  sucesso. Trocadas  as  primeiras  carícias e algumas apalpadelas aqui e ali,  o casal  saltava  e  a  estonteante mulher levava  seu  parceiro  mata  a dentro  até chegar em uma clareira, bem longe  de onde  o carro fora  estacionado. Embriagado pela beleza daquela  “deusa”que  lhe caíra nos braços,  o motora  se deixava conduzir  sem  reclamar. Chegando  a tal clareira, a loura, já despida,  juntava  um monte de folhas e se deitava em cima  pronta para o ato sexual.  Seu acompanhante, já babando de desejo por aquele pitéu, também  se livrava rapidamente das vestes  e partia  feliz  pro rala e rola. Só  que  quando  ele, já com o membro em riste  ia   realizar a penetração, a  mulher  dava  uma  gargalhada  apavorante  e sumia, como por encanto. E  o seu parceiro ia com tudo de encontro a folhagem que serviria de cama para os dois.

Completando a  história da “ bela loura da estrada”,  o narrador dizia,  que teve  motorista que   ficou  vagando, perdido na mata por muitos e muitos dias, outros  endoideceram e outros,  nunca mais  apareceram. Só  os carros foram encontrados abandonados na mata.

P.S.-Se verdadeiras ou não essas  histórias,  nunca pude  comprovar, pois   não  há  relato oficial  de alguém  que tenha  passado por quaisquer  um  desses  aperreios  assombrosos contados acima.  Portanto, por favor, não me acreditem

É só de ouvi contar.