Minha primeira lembrança de Copa do Mundo

A primeira lembrança que tenho de Copa do Mundo é de 1962, quando o Brasil foi bicampeão no Chile.
Estávamos no Rio de Janeiro mamãe, eu e meu irmão Alcione. A cidade maravilhosa toda enfeitada. Eu era muito criança ainda e quase nada entendia do que se passava. Sabia apenas que o Brasil estava participando de algo muito importante e que todos torciam pelo sucesso.
Só se falava nisso, mas eu nem dava trela. Era conversa de adulto e eu só queria brincar.
No dia que a Seleção chegou ao Brasil trazendo o título foi a maior festa. O povo se amontoando nas ruas e nas janelas dos edifícios para saudar os bicampeões do mundo. Mas para mim, tão criança ainda, o espetáculo foi a chuva de papel picado que caía dos edifícios e foi essa chuva que guardei na memória. Que coisa linda para uma criança ver. Eu nem olhava para o carro aberto que conduzia os jogadores, nem lembro como estavam trajados. Eu só olhava para cima, encantada com a chuva de papeizinhos coloridos.
Não pergunte em que rua ou avenida estávamos para ver o desfile da Seleção. Sei que fomos – eu e meu irmão – com minha mãe, pois ela era muito fã do goleiro Gilmar e do lateral Djalma Santos, por isso queria vê-los de perto e aplaudi-los.

Só muitos anos depois me interessei pelas histórias da Copa. Principalmente dessa em que vi pela primeira vez uma chuva de papel picado.

Pois bem, em 1962 o Brasil foi bicampeão com um timaço onde formavam Gilmar, Djalma Santos, Nilton Santos, Didi, Zagalo, Vavá, Pepe, Bellini, Zito, Garrincha, Pelé e Amarildo.
O Gilmar, de quem minha mãe era super fã, foi um dos maiores goleiros do Brasil. Aliás, do mundo. Foi considerado pela FIFA como um dos vinte maiores goleiros do mundo do século XX.

O Brasil fez uma campanha bonita. Foram cinco vitórias e um empate. 14 gols a favor e 5 contra. Venceu o México por 2 a 0; a Espanha por 2 a 1; a Inglaterra por 3 a 1; o Chile por 4 a 2; empatou com a Tchecoslováquia na primeira fase em 0 a 0.
A final foi no dia 17 de junho no estádio nacional do Chile com o Brasil sagrando-se bicampeão ao derrotar a Tchecoslováquia por 3 a 1. O placar foi aberto por Josef Masopust aos 15 minutos do primeiro tempo, mas dois minutos após Amarildo fez o gol de empate. O primeiro tempo terminou 1 a 1. No segundo tempo o Brasil entrou com mais garra em campo e aos 24 minutos Zito marcou o segundo gol do Brasil e aos 33 minutos Vavá fechou o placar.

Quarta-feira, o Brasil entra em campo para enfrentar a Escócia. Já não sonho com chuva de papel picado; sonho com a vitória da nossa seleção, que nesta Copa de agora nos decepcionou na estreia  empatando com o Marrocos e e voltou a nos dar esperança  vencendo o Haiti.

(Alcinéa Cavalcante)

Noturno

Noturno
Alcinéa Cavalcante

A noite
eu vigio estrelas
Me embriago
de amor e luar
Passeio com Hemingway em Paris
Visito os becos de Goiás
com Cora Coralina
E com Quintana
tento descobrir
o que é que os grilos
passam a noite inteirinha fritando.

Dormir
é bom de manhãzinha
quando o sol
– ainda sonolento e tímido –
pula minha janela
pra me ninar.

De quando os vizinhos eram os parentes mais próximos

Naquele tempo vizinhança era uma grande família. Falava-se que o vizinho era o parente mais próximo. E isso fazia muito sentido, pois qualquer sufoco – não importava a hora – recorria-se primeiramente ao vizinho.
Uma dor à noite? Corre lá no vizinho pra ver se ele tem um analgésico ou um chazinho.
Acabou o açúcar na hora de fazer o café? Ninguém ia tomar café amargo. “Menino, pega uma xícara e vai lá na vizinha pedir emprestado um pouco de açúcar”.
Ia  viajar e era dificil pegar taxi? (Naquele tempo se chamava carro de praça). O vizinho que tinha carro se prontificava a levar o viajante ao aeroporto.
Ia sair e não ficaria ninguém casa? Era só deixar a chave na casa do vizinho que o primeiro que chegasse ia lá pegar.
E aniversário de vizinho hein? Todo mundo queria ajudar a fazer a festa. Uma vizinha fazia o bolo, outra oferecia o vatapá, outra fazia o risoto e outras se ofereciam para moer a maniva da maniçoba… os homens ajudavam a botar a cerveja pra gelar naqueles enormes barris com imensas pedras de gelo e moinha. A moinha que um já tinha ido buscar na véspera numa serralheria.
Quando chegava um novo vizinho ele tratava logo de se apresentar indo de casa e falando: “Sou fulano de tal, estou me mudando hoje pra cá com minha família, trabalho nisso e naquilo e estou me colocando às ordens.”
A vizinhança mandava logo um bolo, ou qualquer outra guloseima, para os “novos parentes” como manifestação de boas vindas.
Era o tempo de cadeiras na calçada (não havia assaltantes) em animadas rodas de conversa enquanto as crianças brincavam de bombaqueiro, caí no poço, bandeirinha, tome esse anelzinho não diga nada a ninguém, esconde-esconde…
Todo mundo se conhecia, se gostava, se ajudava, repartia os frutos dos quintais.
Hoje praticamente os vizinhos não se conhecem, sequer se cumprimentam.
Lembrei disso porque ainda tenho alguns vizinhos “parentes mais próximos”. Dia desses, minha vizinha Josy – que tem coqueiros em seu quintal – bateu à minha porta com um cacho de côco. “Côco do Chicola, vizinha”. E tem também o Janjão que volta e meia me traz sapotilhas do seu quintal ou uma porção de cação cozido feito por ele.

(Alcinéa Cavalcante)

De um dia inesquecível

Em junho de 2011 declamei este poema no Senado, numa sessão especial da Comissão de Direitos Humanos sobre poesia. Para mim foi um momento marcante, principalmente quando ao término o poeta Thiago de Mello disse que estava comovido com minha poesia, me abraçou e me deu um beijo. E isso não tem preço.

Poema do Retorno
Alcinéa Cavalcante

Voltaste
driblando nuvens e pássaros
e trazendo nas mãos
estrelas azuis que me encantam.

Durante a tua ausência
tentei plantar a paz,
clamei pelo direito de ser livre
e colhi dores e desenganos
que abriram feridas profundas
e machucaram o meu verso,
inaugurando revoltas e frustrações.

Voltaste
trazendo no olhar marrom
esperanças que arranham
as minhas desesperanças.

Mais uma vez,
talvez inutilmente,
uniremos nossos gritos
pedindo liberdade para viver
amar
cantar
e sorrir.

Serão protestos aos crimes
cometidos contra a liberdade
os nossos gritos
(ainda que não encontrem eco).

Mas, se te faz bem,
posso dizer
que não é proibido
sonhar que todos os caminhos se abrirão
e a liberdade será uma realidade palpável.

(Do meu livro Estrela Azul – lançado em julho de 2001)

Meus 70 anos. Feliz aniversário pra mim!

Hoje estou completando 70 anos de idade. Setenta mesmo! De uma vida de muitas alegrias, realizações e amor. Claro que tem os momentos de tristeza, de dor profunda, de coração sangrando, mas nestes 70 anos tive bem mais momentoss alegres, de coração sorrindo, tantas coisas boas. Uma infância feliz, uma juventude espetacular e uma maturidade serena e terna.
O coração ainda sangra pela ausência física do meu grande amor (sábado, 21, fará 10 meses que ele partiu). Mas sei que lá de pertinho de Deus ele deve estar sorrindo, feliz por minha trajetória. Ainda existe muito amor entre nós, o amor permanece sim, apenas muda-se o jeito de amar. Sei também que meus avós, meus pais, meus sogros e minha irmã Aldine de lá do céu estão me abençoando e me desejando felicidades.
Aqui neste plano, meus amigos amanheceram o dia me ligando e mandando mensagens carinhosas, tornando meu dia bem melhor.
Não tenho do que me queixar da vida, pois Deus me presenteou com grandes amigos, com os melhores pais do mundo, com irmãos maravilhosos, sobrinhos tão amáveis e um filho que é o meu melhor amigo, o meu suporte, que cuida de mim e me dá forças nos momentos que mais preciso. Tenho uma neta que enche minha casa de alegria (ontem ela me disse: “Vó, vou dormir com você pra de manhã cedo te acordar dizendo feliz aniversário”. E assim foi.) Tenho uma nora que também me apoia muito.
Vou seguindo pela vida, as vezes capengando, às vezes correndo. Aceito a velhice como algo super normal e natural e a cada dia agradeço a Deus, a Jesus, a Nossa Senhora e a Meishu-Sama por mais um dia. “Envelhecer é uma graça de Deus”, disse certa vez o saudoso cientista Waldemiro Gomes. E eu concordo.
Nestes 70 anos construí minha trajetória. Uma trajetória bonita (desculpem a falta de modéstia) em todos os campos que atuo ou atuei.
Tenho tanta coisa pra dizer, tenho tantas ternuras guardadas na memória, tenho tantos amigos a agradecer… ah, são tantas coisas boas, mas esse texto já está ficando longo demais e não quero cansá-los por isso encerro aqui manifestando minha gratidão a todos que fazem parte da minha vida, que contribuíram de alguma forma com meu crescimento, que ficaram sinceramente felizes com minhas vitórias, que me confortaram nos momentos de dor.
Obrigada por tudo, minha amada famíia e meus adoráveis amigos. Obrigada aos que já partiram mas deixaram boas lembranças e ensinamentos.
E pincipalmente, obrigada, Deus, Jesus, Meishu-Sama e Nossa Senhora.

Paisagem antiga

Avenida Almirante Barroso em 1971

PAISAGEM ANTIGA
(Alcinéa Cavalcante)

Quero de volta
a paisagem antiga da minha rua
com suas casinhas brancas
cobertas de palha
gamela no jirau
fogão de barro na cozinha
e passarinhos no quintal.

Quero de volta
aquela paisagem antiga
com a casa avarandada de Mané Pedro
e a casa sem pátio da Maria Banha.
Os meninos de pés descalços
jogando bola na rua sem asfalto
e as meninas de sapatinho branco
brincando de roda.

Quero de volta
a paisagem antiga da minha rua
com minha casa de venezianas cor de rosa,
minha mãe no alpendre
bordando flores nos lençóis
e minha avó rezando o terço.

Quero de volta
a paisagem antiga da minha rua
só pra sonhar de novo
os sonhos que sonhei na infância
quando todos sabiam
viver como irmãos.

Meus livros no Luau na Samaúma

Nesta sexta-feira, 7, estarei na tenda literária do Luau na Samaúma. autografando três dos meus  livros: Boca da Noite, Para não Esquecer e Estrela Azul.
Boca da Noite é o mais recente e foicontemplado pelo edital da Lei Paulo Gustavo, edital 02/2024-Fomento Multilinguagens- Mestre Guiga Melo (in memorian)- Fumcult-AP-PMM

Leia o prefácio escrito pela renomada escritora Lulih Rojanski:

“Onde estão os novos poetas? Esta pergunta, tão simples quanto poderosa, acendeu uma centelha que se transformaria num dos mais vibrantes e afetivos movimentos culturais do Amapá. Poesia na Boca da Noite nasceu do desejo genuíno de reencontrar a poesia na sua forma mais pura – viva, compartilhada, dita em voz alta, de coração aberto, em meio ao barulho da cidade, ao vento das praças e ao brilho tímido dos olhos que escutam e sentem.
Esta coletânea que a escritora Alcinéa Cavalcante nos apresenta é o retrato de um tempo e de um gesto coletivo. É o registro de uma iniciativa que ousou desafiar o silêncio e a timidez dos cadernos fechados, dos versos guardados em pen-drives e memórias. De uma garagem de casa a uma calçada, de praças periféricas a instituições públicas, o “Boca da Noite” floresceu firme em sua proposta: devolver a poesia ao povo, ao cotidiano, aos encontros humanos que ela naturalmente inspira.
Este livro é o testemunho de um movimento que não se acomodou em salas fechadas ou vitrines coletivas. Ao contrário, fez-se no asfalto, no chão da cidade, onde operários, juízes, estudantes, crianças e senadores dividiam o mesmo pano – o Pano da Poesia – e se igualavam como poetas ou amantes da palavra. Um gesto democrático,radical e doce, onde a  única hierarquia possível era a do afeto.
Aqui, os versos que agora repousam impressos são aqueles que um dia voaram livres, nas noites amapaenses, costurados por sonhos, coragem e muita ternura.São palavras que resistiram à indiferença, ao ceticismo e ao comodismo.Palavras que encantaram crianças em hospitais, despertaram vozes adormecidas e emocionaram quem achava que poesia era coisa do passado.
Ao folhear estas páginas, você encontrará histórias, encontros, afetos, lutas e celebrações. Encontrará o reflexo de uma Macapá que, mesmo atravessada por desafios, soube abrir espaço para a beleza e a sensibilidade. Porque enquanto houver alguém disposto a libertar um verso da gaveta, haverá poesia.

Lulih Rojanski
Escritora”

Poeminha em noite de super lua

Poeminha em noite de super lua
Alcinéa Cavalcante

Vamos namorar na praça, meu bem,
aproveitando este luar que se derrama sobre a cidade.
Abraçados contaremos história do espaço sideral
e embarcaremos numa nave brilhante
que nos espera no centro da praça.

Trocaremos juras de amor entre as estrelas
E lá do alto veremos a Terra
como um imenso bolo confeitado com anelina azul-ternura.

Vamos namorar na praça, meu bem,
e embarcar na nave brilhante
que pousará na superlua
onde com um lápis mágico faremos um desenho.

Já pensou, meu bem, na surpresa dos astronautas
quando virem na lua um coração com nossos nomes dentro?

(Poema publicado no meu livro Caneta Dourada lançado em junho 2019)

Editora O Zezeu anuncia novo livro de Alcinéa Cavalcante: Boca da Noite

Texto: Lulih Rojanski

A editora O Zezeu acaba de divulgar, por meio de suas redes sociais, a chegada do mais novo livro da escritora amapaense Alcinéa Cavalcante. Intitulada Boca da Noite, a obra reúne depoimentos que resgatam a história do grupo Poesia na Boca da Noite, que marcou época em Macapá com encontros, saraus e recitais.

Personalidades como Tiago Quingosta, Graça Penafort, Flávio Cavalcante, Leacide Moura, Paulo Tarso Barros, César Bernardo e Rostan Martins assinam os depoimentos que vão levar o leitor a remexer em suas memórias afetivas e despertar emoções esquecidas.
O livro, contemplado pelo edital da Lei Paulo Gustavo, edital 02/2024-Fomento Multilinguagens- MestreGuiga Melo (in memorian)- Fumcult-AP-PMM, apresenta ainda uma seção especial com alguns dos poemas declamados pelos integrantes do grupo, além de um acervo de fotografias que registram os momentos mais significativos dessa experiência cultural coletiva. A iniciativa busca preservar a memória de um movimento que levou poesia para praças, ruas e espaços públicos da cidade, tornando a arte acessível e viva no cotidiano dos amapaenses.
Quem é Alcinéa Cavalcante
Nascida em Macapá, Alcinéa Cavalcante construiu uma trajetória marcada pela literatura, pelo jornalismo e pela militância cultural. Autora de livros de poesia e de crônicas, é também referência no registro da memória cultural e política do Amapá. Sua escrita transita entre a delicadeza poética e a força do testemunho social, sempre enraizada na realidade amazônica.
Ao longo de sua carreira, Alcinéa se destacou como incentivadora de novos talentos, atuando em projetos literários e culturais que fomentam a criação e a circulação da poesia dentro e fora do Estado. Reconhecida como uma das vozes mais expressivas da literatura amapaense contemporânea, ela reforça, com Boca da Noite, seu compromisso com a preservação da memória coletiva e com a valorização da cultura local.

Livros de Alcinéa Cavalcante
1. Poemas – 1976 – Lançado na I Feira de Arte (FEART)
2. Estrela Azul – 2001 (Tarso Editora), lançado na inauguração da Biblioteca Hélio Penafort, do Sesc-AP
3. Sambou… – 2008 (co-autoria com Rostan Martins)
4. Zero Voto – 2008 (co-autoria com Rostan Martins)
5. Varal – 2008 – (co-autoria com Rostan Martins e Osvaldo Simões)
6. Alguma Poesia – 2011 (Edição independente)
7. Paisagem Antiga 1ª Edição – 2012 (São Paulo: Scortecci, 2012), lançado na Bienal Internacional do Livro de São Paulo
8. Paisagem Antiga 2ª Edição – 2016 (São Paulo: Scortecci, 2016
9. Em pequenos versos (Edição Independente, 2016)
10. Ainda lembro (Edição independente, 2017), lançado no aniversário da cidade de Macapá
11. – A Pedra Encantada do Guindaste (Edição independente, 2017),
12. Prosa de Bolso (Edição independente, 2018)
13. Poesia de Bolso (Edição independente, 2019)
14. Caneta Dourada – 2019 (Portugal: Ed Mágico de Oz, 2019) – Lançado em Portugal e em Macapá
15. Poetas do Amapá – 2022 (Formato: eBook Kindle, 2022)
16. Para não esquecer – 2024 (Ed. O Zezeu)

O lançamento oficial de Boca da Noite deverá acontecer em breve, em data a ser anunciada pela autora, cujo trabalho já é amplamente reconhecido no Estado do Amapá.
O livro já está à venda no site da editora.

A pedra encantada do guindaste

Não me pergunte porque aquela pedra, ali no rio Amazonas, bem na frente da cidade de Macapá, é chamada de Pedra do Guindaste. Eu não sei. O que sei é que nela morava uma princesa de olhos claros e cabelos cor de mel. Sei também que em noites de lua nova, a pedra se transformava num imenso navio azul.

Açucena – é este o nome da princesa – foi trazida para Macapá para conhecer seu noivo González, um dos homens mais ricos da região, dono de terras a perder de vista, incontáveis cabeças de gado e minas de ouro. Era culto, elegante e bonito.

Açucena não o amava, mas não se opôs à vontade do rei.

Casaria com González, não tivesse visto certa manhã, um sorriso tão lindo, tão amplo, tão cheio de ternura, que se sentiu abraçada por esse sorriso. E aquele par de olhos? Ah, naqueles olhos brilhava esperança. E em Açucena nasceu a esperança de ser feliz, de amar, de ter um amor para a vida inteira.

Desistiu de González.

O rei e a rainha não aceitaram, afinal tinham prometido a mão da filha ao homem rico e promessa de rei tem que ser cumprida. Além disso, o dono do sorriso que encantou Açucena jamais poderia entrar num palácio, nunca – nem em sonho – poderia fazer parte da família real. Ele era negro, sem estudos e sem posses. Era um escravo que passava o dia inteiro carregando pedras, sob o sol escaldante, para a construção da Fortaleza de São José de Macapá. Trazia no corpo as marcas das chibatas, mas no olhar um brilho diferente, que iluminava a alma e o coração da princesa. Não era proprietário de terras, de gados, de ouro… mas era proprietário de esperanças, versos e ternura. Se descobriram apaixonados um pelo outro. Açucena todos os dias, antes do sol nascer, postava-se à beira do rio, quase ao lado do local onde estava sendo erguida a Fortaleza, para vê-lo passar e ser abraçada por aquele sorriso tão amplo.

Obrigada pelo rei a casar com González, Açucena decidiu fugir. Num final de tarde, quando a primeira estrela surgiu, ela jogou-se no rio e foi nadando, nadando, nadando em direção à Pedra do Guindaste e lá se escondeu da família, do mundo, do luxo, de González e de toda riqueza material.

Os mais antigos contam que todos os dias, antes do sol nascer, uma princesa surgia, como que por encanto, naquela pedra. Mas só era vista por pessoas extremamente apaixonadas. Conta-se também que em noites de lua nova a pedra, como num passe de mágica, se transformava num iluminado navio, mas só olhos cheios de ternura poderiam vê-lo.

Passados anos e anos e anos, um artista português esculpiu uma imagem de São José e colocou-a em cima da Pedra do Guindaste. Açucena sabia que São José era o santo padroeiro de Macapá e começou a rezar e pedir ao santo a graça de viver e ser feliz com seu grande amor.

Não demorou muito, numa noite escura – sem lua e sem estrelas – e de maré alta, uma embarcação chocou-se com a pedra, quebrando-a. Quem passou de manhã cedinho pela frente da cidade, viu uma linda princesa de cabelos cor de mel e um lindo príncipe negro se beijando no convés de um imenso navio que deslizava nas águas do rio Amazonas. Navio, rio e amor dourados por um sol bochechudo. Há quem jure que viu o casal acenando dando adeus para a cidade.

O certo é que depois disso nunca mais ninguém viu a princesa, nem o navio, nem o escravo de sorriso amplo e olhos ternos.

A imagem de São José foi recolhida do rio. O governo mandou colocar um bloco de concreto em cima do que restou da pedra e em cima desse bloco a imagem do santo padroeiro. E como uma lenda puxa outra, hoje conta-se que se um dia a água do rio subir tanto e molhar as sandálias de São José, Macapá irá para o fundo.

Alcinéa Cavalcante

Este meu conto está publicado em várias antologias, das quais destaco  Lindas Lendas Brasileiras (Ed. Scortecci- lançada em 2014 em São Paulo); e Les Plus Belles Oeouvres De Ce Siècle (Editora Divine Édition, lançada em 2018 no Museu do Louvre (Paris) e no Museu do Perfume (Marrakech). O conto, claro, foi traduzido para o francês com o nome La Pierre Enchantée du Guindaste.

Mais um livro – Lançamento em breve

Há 14 anos, em uma agradável tarde de janeiro de 2011, quatro poetas tomavam café e batiam papo, lembrando de uma época em que Macapá vivia um período de efervescência cultural, com seus saraus, salões de arte, etc. Plantava-se ali, a semente de um movimento que invadiria ruas, praças, palácios e qualquer lugar onde coubesse arte e poesia. Os poetas Alcinéa Cavalcante, Glória Araújo, Osvaldo Simões e o professor e artista plástico Rostan Martins fundavam, ali, o Movimento Poesia na Boca da Noite. Esta obra relembra a história, traz depoimentos dos membros e uma pequena mostra de poemas e imagens de quando o grupo “esquecia” poesia por aí…

A obra foi contemplada pelo edital da Lei Paulo Gustavo, edital 02/2024-Fomento Multilinguagens- Mestre Guiga Melo (in memorian)- Fumcult-AP-PMM

O livro já está em pré-venda no portal da editora O Zezeu aqui

Ainsi Écrivent les Bresiliénnes

Há dez anos foi lançada no Salon du Livre, em Paris, a antologia Ainsi Écrivent les Bresiliénnes. Tal antologia, editada pela  Divine Édition e Rebra fez grande sucesso na França e em outros países da Europa.
E eu faço parte desta importante antologia. E isso me orgulha.

Eis o meu poema publicado nessa antologia:

E a minha mini biografia: