A poesia de Alcy Araújo

MINHA POESIA
Alcy Araújo
(1924-1989)

A minha poesia, senhor, é a poesia desmembrada
dos homens que olharam o mundo
pela primeira vez;
dos homens que ouviram o rumor do mundo pela primeira vez.
É a poesia das mãos sem trato
na ânsia do progresso.
Ídolos, crenças, tabus, por que?
Se os homens choram suor na construção do mundo
e bocas se comprimem em massa
clamando pelo pão?
A minha poesia tem o ritmo gritante da sinfonia dos porões e dos guindastes,
do grito do estivador vitimado
sob a lingada que se desprendeu,
do desespero sem nome
da prostituta pobre e mãe, do suor meloso da gafieira
do meu bairro sem bangalôs
onde todo mundo diz nomes feios,
bebe cachaça, briga e ama
sem fiscal de salão. – Já viu, senhor, os peitos amolecidos
da empregada da fábrica
que gosta do soldado da polícia? Pois aqueles seios amamentaram
a caboclinha suja e descalça
que vai com a cuia de açaí
no meio da rua poeirenta.
Cuidado, senhor, para o seu automóvel
não atropelar a menina!…

Um poema de Ana Alves

Onde estás?
Ana Alves

Procuro
Não acho
Disfarço
Um abraço.

Te encontrando
Vou lembrando
Nosso encontro
Nossa felicidade
Cheia de saudade.

Revelo o temor
De te perder
Teu aconchego
Na ânsia de te ver
No momento presente
A felicidade da gente.

Ana Alves é autora do livro de poemas “Meus momentos de inspiração”, lançado ano passado. O primeiro de tantos que ela tem prontos para lançamento. O próximo  é “Navegando nas Palavras”, que será lançado este semestre.

Marven Franklin, o poeta da fronteira, é homenageado no Pará

O poeta Marven Junius Franklin, conhecido como  “Poeta da Fronteira” (ele mora em Oiapoque, município que faz fronteira com a Guiana Francesa) será homenageado no próximo dia 28 em Belém. Ele receberá o prêmio   Destaque da Literatura do Extremo Norte, durante o XXXV Baile dos Artistas.

Ele já tem no currículo premiações importantes do cenário literário como o III Prêmio Henrique José de Souza de Literatura, Concurso Literário de Presidente Prudente, Concurso Nacional Novos Poetas e Concurso de Poesias da Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil de Mariana (MG), entre outros.

Autor do livro “Oiapoque in Blues”, o poeta retrata em seu trabalho a materialização de uma fronteira imaginária, que se concretiza aos olhos do leitor graças à sua poética ficcional. Grato por ser reconhecido mais uma vez fora do Amapá (ele é paraense mas há anos mora no Amapá), ele ressalta que a homenagem é uma realização pessoal e uma contribuição para a literatura produzida no norte do país. “Estou grato por fazer parte de um evento que já é consagrado no cenário paraense. Essa é uma das muitas alegrias que a poesia me proporciona”, declarou Marven Franklin.

(Texto: Ana Anspach – Fotos: página pessoal de Marven no Facebook)

(Nota – Eu fico muito feliz com essa homenagem ao Marven. Ele merece e engrandece a literatura produzida no Amapá. Já li, reli e recomendo seu livro “Oiapoque in blues”. Se você ainda não leu pode adquirir direto com o autor acessando sua página no Facebook https://www.facebook.com/pg/Marvenpoeta/photos/?ref=page_internal )

O fim do mundo

O fim do mundo
 
Quando disseram
que o mundo ia acabar
Tia Lila pegou seu terço
e pôs-se a rezar.
 
O dono da venda
dividiu toda a mercadoria com seus funcionários
e distribuiu o dinheiro do caixa para os mendigos.
 
A recatada dona Clotilde
jogou-se aos pés do marido
e implorando perdão
confessou que o tinha traído com o compadre.
 
Seu Joaquim, um santo homem, ajoelhou-se no meio da rua
ergueu as mãos para o céu
e pediu perdão a Deus pelos assassinatos que cometeu
como matador de aluguel.
 
No dia seguinte
o dono da venda pedia esmolas,
a recatada Clotilde, expulsa de casa,
foi morar num velho puteiro,
Seu Joaquim foi preso.
 
Só Tia Lila continuou do mesmo jeito.
De terço na mão continuou rezando
e entre uma oração e outra murmurava:
– É mesmo o fim do mundo
– Dona Clotilde, hein, quem diria?
– Seu Joaquim com aquela cara de santo, hein!
É o fim do mundo!
É o fim do mundo!
(Alcinéa Cavalcante)

Chá da tarde

Rio de mim
Annie de Carvalho e Tiago Quingosta

Boca do Amazonas,
rasga-me com teus dentes,
mastiga minha solidão,
engole meu receio
e depois me beija.

Encharca minha mente,
minha natureza selvagem.
Necessito de ti, inunda-me, arrasta-me.
Em teus bancos de areia,
Afoga-me e salva-me.

Quero ser o teu afluente,
tua bacia hidrográfica.
Drena meu sangue e faz-me tua corrente.
Mergulha meus receios
e minhas lágrimas.

Nos teus braços eu quero
um acalento voraz,
sedimenta então minha dor.
Entrego-te tudo o que me apraz,
nem que seja para jogar-me nas tuas afiadas pedras.

Tua vazão já me mataria
por não suportá-la.
Dói!
Mas ficar sem ti é morte súbita.
Leva-me ou me destrói!

Chá da tarde

Um poema de Arilson Souza

Entrelaçadas

Preta é a pele.
Pele da vida.
Vida de negro.
Negro da vida.
Alma sem cor.
Cor sem discriminação.
Discriminar causa dor,
e dor não rima com coração.
Coração, alma,vida…
Encaixe perfeito!
Pele, cor, preta…
Sem preconceito!

Perguntas a Papai Noel

Perguntas a Papai Noel
Arthur Nery Marinho

Quando em criança o sapato
que tinha pus à janela
lhe esperando. Noutro dia
nem sapato e nem chinela.

Quando em rapaz lhe pedi
para me dar meu amor.
Aqui estou sozinho e triste
fazendo versos de dor.

Que lhe fiz, que não me olha?
que lhe fiz, que não me escuta?
Responda, Papai Noel!
Papai Noel filho da puta!
(Do livro “Sermão de Mágoas”, 1993 – Jornalista, poeta e músico, Arthur Nery Marinho nasceu em 27/09/1923 em Chaves-PA. Veio para o Amapá em 1946 e aqui faleceu em 24/03/2003)

Tempo – Belo poema de José Pastana

Tempo
José Queiroz Pastana

Passam os minutos
Sinto o anseio
No passar das horas
Fica o desespero.

Passam as horas
Sinto o desespero
No passar dos dias
Fica a esperança.

Passam os dias
Sinto a esperança
No passar do tempo
Fica a velhice.

Passa o tempo
Sinto a velhice
No passar da morte
Fica a saudade.

Passa a saudade
Sinto a alegria
No passar da desilusão
Fica a poesia.