Um poema de Arthur Marinho

Paisagem Amazônica
Arthur Nery Marinho (1923-2003)

Para escrever
meu revoltado verso
jamais dei a volta
ao mundo, meu senhor.

Vim pelas margens dos igarapés
onde o sorriso é doentio e triste
e a ignorância há séculos persiste
e é pálida e mirrada
a própria flor.

Um poema de Raquel Braga

INFÂNCIA
Raquel Braga

Quando eu era pequenina
No início do entendimento
Sonhava ser bailarina
E dançar sem pensar no tempo.

E o tempo passou tão depressa
Que transformou completamente
A menina dos meus sonhos, tão liberta
Na mulher que hoje vês na tua frente.

Mas, embora este corpo não aparente
Minha alma continua uma criança
Que te vê ao lado meu, eternamente,
Na vontade de esvair-se numa dança.

(Poema extraído da coletânea “Poetas na Linha Imaginária”- Editora Scortecci, 2013)

Um poema de Álvaro da Cunha

ANÚNCIO
Álvaro da Cunha

Eu estou sonhando com um regaço de virgem,
onde eu ponha a cabeça
e adormeça
quando este mundo se despedaçar.
Será que este quebranto no meu corpo
não é cansaço,
mas um pretexto para repousar?

– A vida é triste, o mundo é triste,
o amor é triste.
Quem me censura o ato de sonhar?

(Ainda posso encontrar o meu desejo
sem arredar um pé deste lugar)

E vou escrever anúncios no jornal:

“Poeta, em Macapá,
está precisando de um regaço de virgem
onde ponha a cabeça
e adormeça
quando este mundo se despedaçar”.
(Extraído da Antologia Modernos Poetas do Amapá – Macapá-AP, 1960)

Um poema de Sílvio Leopoldo

DOS OLHOS DA MINHA AMADA
Sílvio Leopoldo

Os olhos da minha amada
são sonhos de eterno amante,
são rosários de ternura,
são luzes do meu instante.

O olhar da minha amada
é mensagem de poesia,
de tanto encantar-me, tanto!
Até parece fantasia…

Mas não é não fantasia
as duas estrelas do dia
brilhando em face de fada.

São olhos lindo, serenos,
imensamente serenos!
os olhos da minha amada.

Poeta e compositor, Sílvio Leopoldo publicou os seguintes livros: Primeiros Poemas (1967); Velas do meu Mar (1970); Lira Ligeira (1976); Era uma Vez num Fundo de Gaveta (1990); Cantares do Bordel (1999).  Silvio faleceu em 2007 em Belém.

Um poema de Aluízio da Cunha

Não me peças, Maria
Aluízio da Cunha

Não me peças, Maria,
um poema de amor,
profundamente musicado pelas rimas.
Não me peças, Maria,
um poema de amor.
Olha, Maria,
os jatos perturbaram
a melodia nascente
da primeira canção deste poeta.

(Poema extraído da Antologia Modernos Poetas do Amapá lançada em 1960)

A poesia de Alcy Araújo

MINHA POESIA
Alcy Araújo
(1924-1989)

A minha poesia, senhor, é a poesia desmembrada
dos homens que olharam o mundo
pela primeira vez;
dos homens que ouviram o rumor do mundo pela primeira vez.

É a poesia das mãos sem trato
na ânsia do progresso.

Ídolos, crenças, tabus, por que?
Se os homens choram suor na construção do mundo
e bocas se comprimem em massa
clamando pelo pão?

A minha poesia tem o ritmo gritante da sinfonia dos porões e dos guindastes,
do grito do estivador vitimado
sob a lingada que se desprendeu,
do desespero sem nome
da prostituta pobre e mãe, do suor meloso da gafieira
do meu bairro sem bangalôs
onde todo mundo diz nomes feios,
bebe cachaça, briga e ama
sem fiscal de salão.

– Já viu, senhor, os peitos amolecidos
da empregada da fábrica
que gosta do soldado da polícia?
Pois aqueles seios amamentaram
a caboclinha suja e descalça
que vai com a cuia de açaí
no meio da rua poeirenta.

Cuidado, senhor, para o seu automóvel
não atropelar a menina!…

Poema com destino à Noruega

Poema com destino à Noruega
Alcy Araújo Cavalcante (1924-1989)

Eu ando com a cabeça baixa e dolorida
tateando na sombra dos guindastes
o corpo flácido das mulheres das docas
dentro da noite no cais.

Por que passam por mim tantos
marinheiros, navios, ondas balouçantes?

Se eu pudesse
descansaria a cabeça dolorida
num saco, num fardo, numa caixa,
depois escreveria um poema simples
e montava-o na onda com destino à Noruega.
E a moça loira que o lesse ao sol da meia-noite
não saberia nunca que sou negro, fumo liamba
e tenho as mãos revoltadas e calosas.

(Do livro Autogeografia – Macapá-AP – 1965)

Chá da tarde

ARRASTA-ME
João Barbosa

O vento arrasta a poeira,
da cidade a ribanceira.
E a água quebra a onda
Sobre a praia bem ordeira.
Ouço gritos,
Vejo vultos
E caminho.
E meus rastros na areia
Pela enchente são apagados.
Mas ando,
Corro
E vôo.
Busco o pico mais alto,
Subo a escada do amor
E olho sobre nossa cabeça.
Pretendo a paz!
E a vejo de asas pequenas,
Fugindo de alguém que a persegue.
Então, me vejo longe
E pequeno para abraça- la.
Mas rasgo de mim um pedaço de amor
E dôo à alguém que ficou.
E que desse amor,
Faça uso como eu
E outros multiplicadores.
Mas que haja mudança no coração
E cabeça do atroz.
E que a paz volte com suas asas
Crescendo sobre nós.

Às margens do rio

Às margens do rio
Jaci Rocha

Trago as mãos ásperas
Do sal das lágrimas
Que já verti.
Sem ti, saudade virou poesia
Verbo que chega e fica
E não pede mais permissão…
 
 Remo a canoa da vida
De um jeito manso e macio
Guiada por teu olhar
Na outra margem do rio…
Mas, ainda é agosto
e as marés rasas 
não dizem como atravessar!
A tênue fronteira da vida
Não se enternece para o amor!
(Quem sabe, no cair do próximo luar…)
 
Roda a estação…
Roda, rosa-louca do tempo!
… e porque  me geraste de amor
Eu te envio flores com meu pensamento!