Chá da tarde

Pra você
Rostan Martins

Só pra você,
todo o meu amor,
todo o meu carinho,
o meu coração,
a minha emoção.

Só pra você,
toda a minha amizade,
toda a minha tranquilidade,
toda a minha serenidade,
toda a felicidade.

Só pra você,
com toda a minha paixão,
vou fazer uma oração,
com emoção,
coração.

Só pra você,
toda a beleza das flores,
todas as cores.

Só pra você,
o nascer do sol,
o pôr do sol,
o sol.

Só pra você,
a minha alma,
a minha calma,
as calmas,
o meu poema,
os poemas só, pra você.

Poema do Retorno

Em junho de 2011 declamei este poema no Senado, numa sessão especial da Comissão de Direitos Humanos sobre poesia. Para mim foi um momento marcante, principalmente quando ao término o poeta Thiago de Mello disse que estava comovido com minha poesia, me abraçou e me deu um beijo. E isso não tem preço.

Poema do Retorno
Alcinéa Cavalcante

Voltaste
driblando nuvens e pássaros
e trazendo nas mãos
estrelas azuis que me encantam.

Durante a tua ausência
tentei plantar a paz,
clamei pelo direito de ser livre
e colhi dores e desenganos
que abriram feridas profundas
e machucaram o meu verso,
inaugurando revoltas e frustrações.

Voltaste
trazendo no olhar marrom
esperanças que arranham
as minhas desesperanças.

Mais uma vez,
talvez inutilmente,
uniremos nossos gritos
pedindo liberdade para viver
amar
cantar
e sorrir.

Serão protestos aos crimes
cometidos contra a liberdade
os nossos gritos
(ainda que não encontrem eco).

Mas, se te faz bem,
posso dizer
que não é proibido
sonhar que todos os caminhos se abrirão
e a liberdade será uma realidade palpável.

(Do meu livro Estrela Azul – lançado em julho de 2001)

Um poema de Arilson de Souza

Coisa de Poeta
Arilson de Souza

E assim, me veio essa [loucura] de falar das flores,
conversar com os pássaros
e explicar amores.

[Loucura] em ver a lua descer do céu,
em ver o sol entrar no mar.
[loucura] em me imaginar com asas de Ícaro e rumo ao horizonte poder voar!

Essas coisas insanas,
que acalma a alma e a alegra
coisas inerentes à esses “tolos”…
“Tolos sonhadores” que se chamam poetas!

Poeta em destaque – Pat Andrade

A gaveta está aberta…
pega da pena e vai.
cumpre a tua sina, poeta.
(Pat Andrade)

A poesia de Pat Andrade atravessou os mares e ancorou em Portugal, mais precisamente na Cidade do Porto, onde ontem foi declamada e aplaudida no Sarau da Lua Minguante.

Numa rápida entrevista ao blog, Pat contou que  através da poesia extirpa dores e desamores, frustrações, cansaços, angústias, rancores. “É através da lente imaginária da poesia que posso ver um mundo melhor, com mais amor, harmonia, inteligência.

Ela se apaixonou pelos versos  ainda quase criança. Pré-adolescente fez um caderno de versos no qual copiava trechos de poemas que lia por aí e gostava. Nele também rabiscou seus primeiros versos.
Pergunto a ela quais seus poetas preferidos e ela lembra que seu primeiro amor nessa arte foi Vinicius de Moraes. E conta:
“Aos 15 anos, ganhei de presente da minha mãe – que também escreve poesia – um diário com poemas de Vinícius de Moraes, meu primeiro poeta, meu primeiro amor na poesia.
Depois veio o Augusto dos Anjos, com sua poesia maldita e forte. Foi ele que me ensinou que ninguém assistirá ao formidável enterro de minha última quimera…

E depois disso, já estava na veia. Outros poetas vieram: Mário Quintana, Paulo Leminski, Maiakovski, Cora Coralina, Charles Bukowski, Drummond, Martha Medeiros e tantos outros.

Todos meio irreais, intocáveis, distantes, embora objeto de minha admiração.

Aí, vieram os mais próximos, os que eu quase podia tocar: Alcy Araújo, Isnard Lima, Ruy Barata.
E, finalmente, os que posso ver, ouvir, conversar e amar. Entre eles, Joãozinho Gomes, Alcinéa Cavalcante, Manoel Bispo, Obdias Araújo, Fernando Canto, Marven Franklin e outros.

Põe poesia
na mesa vazia
e faz dela
o teu prato do dia
poe poesia
na noite insone
e, se der, mata
a tua fome…
(Pat Andrade)

“A poesia me salva de muitas maneiras”, diz  Pat. “A poesia me sustenta. Dela tiro um pedaço do pão de cada dia”. Sim, Pat sai por aí vendendo poesia. Com seus livros (que ela mesma produz, cada um deles uma carinha única, como capas exclusivas e ilustrações autorais) e cartões poéticos embaixo do braço vai aos cafés, restaurantes, bares,  eventos literários, shows e onde mais couber poesia. “Todos os dias faço  longas caminhadas, porque acredito que “todo artista tem de ir aonde o povo está” (e também porque preciso)”.
Por onde chega é recebida com carinho. Sua poesia encanta,  por isso todos querem comprar.  Além disso, Pat é doce, delicada, papo super agradável. Sua presença – como as flores – embeleza e deixa pleno de ternura qualquer ambiente.
Mas ela diz que não é sempre assim, não. “Infelizmente, nem tudo são flores. Assim como há quem goste de poesia e me trate com o mais profundo carinho, o sentimento inverso também se faz notar, às vezes com mais intensidade, até”.
Ah, mas quando isso acontece – que é muito raro, eu sei – ela responde com poesia, como essa:

meu traje te incomoda,
minha aparência te choca,
meu olhar te aborrece,
minha voz te provoca,
minha natureza te fere,
minha fala te anula,
minha poesia te cala.
(Pat Andrade)

E a poesia acaba calando mesmo o mal educado. Sua poesia tem atravessado fronteiras. Já chegou em Portugal e no Brasil está conquistando bons espaços. Recentemente alguns de seus poemas foram selecionados para a Coletânea Jaçanã e outros estarão na 15ª edição da revista  LiteraLivre.
Grande parte de suas poesias está publicada no Blog de Rocha, do jornalista Elton Tavares.

Há 30 anos o poeta e jornalista Alcy Araújo partia para o cais definitivo

“Canto a terra
a dor dos aflitos
e a inútil esperança dos desesperançados.
Também os negros, os índios e o verde
e presto relevantes serviços topográficos
demarcando itinerários de poesia.”
Alcy Araújo
(1924-1989)

Há 30 anos o poeta dos anjos, dos jardins, do cais Alcy Araújo partiu para o cais definitivo

Encontro sempre Deus no meu jardim à noite principalmente se há luar.
(Alcy Araújo)

“Eu sou Alcy Araújo, poeta do cais. Proprietário de canções e esperanças
quando são mais nítidas as horas de sofrer.”

Alcy Araújo Cavalcante – o  poeta do cais, dos anjos, das borboletas, do jardim clonal, dos marinheiros e de tudo que merece ser amado – nasceu no distrito de Peixe Boi (PA), no dia 7 de janeiro de 1924.
Criança ainda transferiu-se com a família para Belém, vivendo depois em pequenas cidades da região norte para onde seu pai, Nicolau Cavalcante, era destacado para implantar os serviços de Correios e Telégrafos.
De retorno a Belém, Alcy cursou a Escola Industrial tornando-se mestre marceneiro e de outras especialidades relacionados ao ofício, que exerceu por algum tempo.

No entanto o talento literário, a vocação pelo jornalismo e um precoce desenvolvimento intelectual levaram Alcy a trocar a bancada da oficina pela escrivaninha do jornal, em 1941, com 17 anos de idade.
Por mais de uma década trabalhou nos principais jornais do Pará como repórter,articulista,  redator e chefe de reportagem, entre eles a Folha do Norte, O Estado do Pará e O Liberal.

Veio para o Amapá na década de 50, trazido pelo poeta e amigo Álvaro da Cunha. Aqui exerceu importantes cargos, assessorou vários governadores, dirigiu jornais, lutou pela emancipação política e administrativa desta região, combateu a exploração dos recursos naturais, fez importantes trabalhos de pesquisa sobre rizicultura, erosão dos solos, pesca no litoral, entre outros. Contudo, acredito que a maior contribuição dele ao Amapá deve ser aferida pela sua imensa e constante participação na vida intelectual e artística – tanto através da imprensa, como nos demais instrumentos e instâncias da cultura amapaense.
Amante das artes, foi ele que lutou, ao lado de R.Peixe, pela criação da Escola de Artes Cândido Portinari e do Teatro das Bacabeiras.

“Aqui estão as minhas mãos, falando palavras feitas de pássaros e de ausências e
cantando canções sonhadas em segredo.” (Alcy Araújo)

Junto com Álvaro da Cunha, Ivo Torres, Arthur Nery Marinho e Aluízio da Cunha, movimentou o segmento cultural amapaense criando clubes de arte, promovendo noites lítero-musicais, apoiando artistas plásticos, músicos, poetas e escritores,  fundando e dirigindo revistas culturais difundindo a cultura do Amapá por este Brasilsão, entre mais tantas coisas que deixariam imenso este texto se fossem listadas aqui.

“Ele foi um dos mais macapaenses de todos os paraenses que ajudaram a desenvolver o Amapá”, escreveu certa vez o jornalista Hélio Penafort.

Foi editor, noticiarista, diretor, colunista, articulista e editorialista de vários jornais amapaenses. Jornalista emérito, arguto analista dos problemas dos problemas sócio-econômicos do Amapá, foi na poesia que Alcy Araújo universalizou mais profundamente seu talento. É um dos poucos poetas do Norte a figurar na “Grande Enciclopédia Brasileira Portuguesa”, editada em Lisboa. Está também nas enciclopédias “Brasil e Brasileiros de Hoje”  e “Grande Enciclopédia da Amazônia”e em tantas outras obras como “Introdução à Literatura”, “Poesia do Grão Pará”, Antologia Internacional Del Secchi, Coletânea Amapaense de Poesia e Crônica, Antologia Modernos Poetas do Amapá e coletânea “Contistas do Meio do Mundo”.

Em 1965, pela Editora Rumo, foi lançado seu primeiro livro: Autogeografia (poemas e crônicas). Em 1983, comemorando os 40 anos de Alcy dedicados à poesia,  a Editora do MEC lançou no Rio de Janeiro seu livro “Poemas do Homem do Cais” e em 1997 foi lançado pela Associação Amapaense de Escritores o livro “Jardim Clonal”.

Numa noite de sábado, 22 de abril de 1989, Alcy Araújo partiu para o cais definitivo levado pelas mãos do seu Anjo da Guarda. Partiu deixando inéditos, prontinhos para publicação, os livros “Ave Ternura”, “Histórias Tranquilas”, “Cartas pro Anjo”, “Mundo Partido”, “Terra Molhada”, “Tempo de Esperança”, “Poemas pro Anjo do Natal”, entre outros, que a família tem esperança de um dia vê-los publicados e sonha com a publicação da “Poesia Completa”, deste que foi o maior poeta do Amapá.
Alcy Araújo Cavalcante, meu pai, tinha a alma pura,  de criança que acredita no Natal e na Esperança e assim cheio de esperança colocou sua poesia a favor da luta por um sociedade melhor, livre das desigualdades e das injustiças.

Participação
Alcy Araújo

Estou convosco.
Participo dos vossos anseios coletivos.
Vim unir meu grito de protesto
ao suor dos que suaram
nos campos e nas fábricas.

Aqui estou
para juntar minha boca
às vossas bocas no clamor pelo pão
sancionar com este rumor que vai crescendo
a petição de liberdade.

Estou convosco.
Para unir meu sangue ao sangue
dos que tombaram
na luta contra a fome e a injustiça
foram vilipendiados em sua glória
de mártires
de heróis.

Vim de longe
percorrendo desesperos.
Das docas agitadas de Hamburgo
das plantações de banana da Guatemala
dos seringais quentes do Haiti.
Vim do cais angustiado de Belém
dos poços de petróleo do Kuwait
das minas de salitre do Chile
Passei fome nos arrozais da China
nos canaviais de Cuba
entre as vacas sagradas da Índia
ouvindo música de jazz no Harlem.
Afundei nas geladas estepes russas.
morri ontem no Canal da Mancha
e hoje no de Suez.
Tombei nas margens do Reno
e nas areias do Saara
lutando pela vossa liberdade
pelo vosso direito de dizer
e de amar.

Estou convosco.
Voluntariamente aumento o efetivo
dos que não se conformam
em viver de joelhos
morrendo sufocando lágrimas
nas frentes de batalha
nas prisões
para dar à criança recém-parida
o riso negado aos vossos pais
o pão que falta em vossas mesas.

Meu filho
e o filho do meu filho
saberão que o meu poema não se omitiu
quando vossas vozes fenderem o silêncio
e ecoarem inutilmente nos ouvidos de Deus.

Alcy não se separava da sua máquina de escrever – uma olivetti portátil – nem quando precisava ficar internado para cuidar da saúde. Na foto, o poeta internado no Hospital São Camilo, recebendo a visita do amigo e compadre padre Jorge Basile e escrevendo.

Bilhete

Bilhete

No Marabaixo da Favela
recebi tua carta
escrita num pedacinho do céu.
Quando a manhã chegar
dourando o dia
pego emprestado um raio de sol
e com ele te escrevo a resposta
numa pétala de flor
e te mando enfeitadinha
com um laço de amor.
(Alcinéa Cavalcante)

Um poema de Obdias Araújo

Veiga
Obdias Araújo

Era tardinha e o poeta
Aspergia sementes
De versos na praça.

Que poema não pega de galho.
Precisa plantar a semente
Socar bem a terra
E ficar ali o tempo todo
Regando com rimas
O brotinho até que
A vergôntea libere
O primeiro botão
E finalmente desabroche
Em cores multiformes
A flor do poema.

Que a flor vem do botão
Que vem do galho que vem
Da plantinha que vem
Da semente que vem
Das mãos pródigas do poeta
Aspergindo sementes
De versos na praça!