Hoje – 98 anos do nascimento do poeta e jornalista Alcy Araújo

Alcy Araújo Cavalcante – o poeta do cais, dos anjos, das borboletas, do jardim clonal, dos marinheiros e de tudo que merece ser amado – nasceu no distrito de Peixe Boi (PA), no dia 7 de janeiro de 1924.
Criança ainda transferiu-se com a família para Belém, vivendo depois em pequenas cidades da região norte para onde seu pai, Nicolau Cavalcante, era destacado para implantar os serviços de Correios e Telégrafos.
De retorno a Belém, Alcy cursou a Escola Industrial tornando-se mestre marceneiro e de outras especialidades relacionados ao ofício, que exerceu por algum tempo.

“Canto a terra, a dor dos aflitos
e a inútil esperança dos desesperançados.
Também os negros, os índios e o verde
e presto relevantes serviços topográficos
demarcando itinerários de poesia.”
Alcy Araújo

No entanto o talento literário, a vocação pelo jornalismo e um precoce desenvolvimento intelectual levaram Alcy a trocar a bancada da oficina pela escrivaninha do jornal, em 1941, com 17 anos de idade. Por mais de uma década trabalhou nos principais jornais do Pará como repórter,articulista, redator e chefe de reportagem, entre eles a Folha do Norte, O Estado do Pará e O Liberal.
Veio para o Amapá na década de 50, trazido pelo poeta e amigo Álvaro da Cunha. Aqui exerceu importantes cargos, assessorou vários governadores, dirigiu jornais, lutou pela emancipação política e administrativa desta região, combateu a exploração dos recursos naturais, fez importantes trabalhos de pesquisa sobre rizicultura, erosão dos solos, pesca no litoral, entre outros. Contudo, acredito que a maior contribuição dele ao Amapá deve ser aferida pela sua imensa e constante participação na vida intelectual e artística – tanto através da imprensa, como nos demais instrumentos e instâncias da cultura amapaense.
Amante das artes, foi ele que lutou, ao lado de R.Peixe, pela criação da Escola de Artes Cândido Portinari e do Teatro das Bacabeiras.
“Aqui estão as minhas mãos, falando palavras feitas de pássaros e
de ausências e cantando canções sonhadas em segredo.” (Alcy Araújo)
Junto com Álvaro da Cunha, Ivo Torres, Arthur Nery Marinho e Aluízio da Cunha, movimentou o segmento cultural amapaense criando clubes de arte, promovendo noites lítero-musicais, apoiando artistas plásticos, músicos, poetas e escritores, fundando e dirigindo revistas culturais difundindo a cultura do Amapá por este Brasilsão, entre mais tantas coisas que deixariam imenso este texto se fossem listadas aqui.
“Ele foi um dos mais macapaenses de todos os paraenses que ajudaram a desenvolver o Amapá”, escreveu certa vez o jornalista Hélio Penafort.
Foi editor, noticiarista, diretor, colunista, articulista e editorialista de vários jornais amapaenses. Jornalista emérito, arguto analista  dos problemas sócio-econômicos do Amapá, foi na poesia que Alcy Araújo universalizou mais profundamente seu talento. É um dos poucos poetas do Norte a figurar na “Grande Enciclopédia Brasileira Portuguesa”, editada em Lisboa. Está também nas enciclopédias “Brasil e Brasileiros de Hoje” e “Grande Enciclopédia da Amazônia” e em tantas outras obras como “Introdução à Literatura”, “Poesia do Grão Pará”, Antologia Internacional Del Secchi, Coletânea Amapaense de Poesia e Crônica, Antologia Modernos Poetas do Amapá e coletânea “Contistas do Meio do Mundo”.
Em 1965, pela Editora Rumo, foi lançado seu primeiro livro: Autogeografia (poemas e crônicas). Em 1983, comemorando os 40 anos de Alcy dedicados à poesia, a Editora do MEC lançou no Rio de Janeiro seu livro “Poemas do Homem do Cais” e em 1997 foi lançado pela Associação Amapaense de Escritores o livro “Jardim Clonal”.
Ano passado a Prefeitura de Macapá editou e lançou o seu livro “Ave Ternura” e reeditou o “Autogeografia”.
Numa noite de sábado, 22 de abril de 1989, Alcy Araújo partiu para o cais definitivo levado pelas mãos do seu Anjo da Guarda. Partiu deixando inéditos, prontinhos para publicação, os livros “Ave Ternura”, “Histórias Tranquilas”, “Cartas pro Anjo”, “Mundo Partido”, “Terra Molhada”, “Tempo de Esperança”, “Poemas pro Anjo do Natal”, entre outros.
Alcy Araújo Cavalcante, meu pai, tinha a alma pura, de criança que acredita no Natal e na Esperança e assim cheio de esperança colocou sua poesia a favor da luta por um sociedade melhor, livre das desigualdades e das injustiças.
Participação
Alcy Araújo
Estou convosco.
Participo dos vossos anseios coletivos.
Vim unir meu grito de protesto
ao suor dos que suaram
nos campos e nas fábricas.
Aqui estou
para juntar minha boca
às vossas bocas no clamor pelo pão
sancionar com este rumor que vai crescendo
a petição de liberdade.
Estou convosco.
Para unir meu sangue ao sangue
dos que tombaram
na luta contra a fome e a injustiça
foram vilipendiados em sua glória
de mártires
de heróis.
Vim de longe
percorrendo desesperos.
Das docas agitadas de Hamburgo
das plantações de banana da Guatemala
dos seringais quentes do Haiti.
Vim do cais angustiado de Belém
dos poços de petróleo do Kuwait
das minas de salitre do Chile
Passei fome nos arrozais da China
nos canaviais de Cuba
entre as vacas sagradas da Índia
ouvindo música de jazz no Harlem.
Afundei nas geladas estepes russas.
morri ontem no Canal da Mancha
e hoje no de Suez.
Tombei nas margens do Reno
e nas areias do Saara
lutando pela vossa liberdade
pelo vosso direito de dizer
e de amar.
Estou convosco.
Voluntariamente aumento o efetivo
dos que não se conformam
em viver de joelhos
morrendo sufocando lágrimas
nas frentes de batalha
nas prisões
para dar à criança recém-parida
o riso negado aos vossos pais
o pão que falta em vossas mesas.
Meu filho
e o filho do meu filho
saberão que o meu poema não se omitiu
quando vossas vozes fenderem o silêncio
e ecoarem nos ouvidos de Deus.

Anonovesco

Anonovesco
Alcy Araújo Cavalcante

(1924-1989)

Aceitarei sem mágoas milhões de luas. Não bem luas. Que o plural acaba com a poesia. Satélite. Assim o telescópio perceberá melhor os anéis de Saturno. Ser satélite. Girar em torno de. Há necessidade de uma gramática celeste. Melhor ainda, geografia celestial, de asas. Asas circunferenciais, eclipsiodais, tridimensionais, vista-visionais, de fim de ano, natalinas. Faltam tantos dias relativos para o começo de outro fim.

Sempre o começo. O início. O inaugural. O inaugural e a esperança de que após o fim o início recomeça. Há muitas casas no reino de meu Pai. A todos a melhor casa. Esperança de último. Esperança de ser o primeiro inquilino na interpretação simplista do Livro.

Enquanto isso, falece o gesto de bondade. Não observar o aviso – é proibido pisar na rosa. Superior mesmo é nascer pássaro e defecar na flor silvestre.
Também seria bom nascer borboleta e pousar na flor com asas de arco-íris. Digo, arco-da-velha. Nunca porém nascer disco voador, viajar milhões de mundo, encontrar milhões de humanidades. Uma é suficiente.

O necessário mesmo é reler Júlio Verne. Viajar deitado. Sem sair de casa. Acordado, à espera de Papai Noel de barbas brancas, saco de nylon e brinquedos de matéria plástica.

Depois esperar o dia da Fraternidade Universal e os três reis magos. Principalmente Baltazar, o que nasceu no Harlem, há mil novecentos e oitenta e oito anos, um mês e dezoito dias. Explico: Baltazar porque o poeta não tem preconceitos raciais.

Viva o ano novo que começa quando nasce uma criança.
(Do livro “Autogeografia”, 1965 – Macapá-AP)

Um poema de Carlos Nilson Costa

Ato de amor
Carlos Nilson Costa*

Não nasci de uma ficção,
e sim de um ato de amor
com um DNA que condena
o sopro
Das injustiças,
Das mazelas,
Das injúrias

Nasci como nasce um capim,
uma roseira,
ou a força do amor:
Rasgando o ventre amado
de minha Mãe.

Quero ser um louco
a perambular por aí,
Sem saber pra onde vou,
como fui.
Quero andar por aí,
buscando o inatingível.
Soluçando o amor perdido
e encontrando o amor presente.

Que sumam da minha frente
As turbulências da vida,
pois as derroto sem pudor, violentando a convenção
e rasgo o espaço como um raio
e mando às favas quem não falar de amor.

*Carlos Nilson Costa é professor, poeta, artista plástico e membro da Academia Amapaense de Letras. Ele lança nesta quarta-feira, na Biblioteca Pública Elcy Lacerda, a partir das 19h, seu livro “Antologia e iconografia poética”.

Segredo – Álvaro da Cunha

Segredo
Álvaro da Cunha

O verso é apenas uma forma
pálida e imprecisa.
Não diz do intraduzível sentimento,
da realidade latente e obsessiva,
do espírito intangível,
irrevelado e esquivo que há em mim.

Ninguém se iluda:
Sou um misto de êxtase e desordem.
Conheço o receio da palavra
e a indecisão do gesto.

Dos apetites rudes,
clamorosos,
do meu corpo,
da volúpia sofrida e revoltada,
do meu sensualismo pela vida,
da ternura que anda em minha alma,
eu não direi nada.

O Verso é apenas uma forma
pálida e imprecisa.

Um poema de Jarbas Ataíde

Onde encontrar a liberdade?
Jarbas Ataíde
Qual o preço da liberdade?
E onde ela é encontrada?
Eleve suas mãos! Pergunte:
Onde encontrá-la de verdade?
Caminhe nas estradas e trilhas!
De coração e peito aberto!
Pare, interrompa os passos na via!
Para refletir sua tarde, manhã e dia!
Pense, indague, questione,
Mas deixe os olhos bem abertos!
Não se iluda com estradas íngremes!
E nem com pedras, tropeços e apertos!
Marque quantos passos andou,
Quantos dias deu uma pausa!
O importante é quando começou!
Quando decidiu olhar para seu interior !
Lá encontrarás a resposta!

A poesia de Alcy Araújo

MINHA POESIA
Alcy Araújo (1924-1989)

A minha poesia, senhor, é a poesia desmembrada
dos homens que olharam o mundo
pela primeira vez;
dos homens que ouviram o rumor do mundo
pela primeira vez.
É a poesia das mãos sem trato
na ânsia do progresso.
Ídolos, crenças, tabus, por que?
Se os homens choram suor
na construção do mundo
e bocas se comprimem em massa
clamando pelo pão?
A minha poesia tem o ritmo gritante
da sinfonia dos porões e dos guindastes,
do grito do estivador vitimado
sob a lingada que se desprendeu,
do desespero sem nome
da prostituta pobre e mãe,
do suor meloso da gafieira
do meu bairro sem bangalôs
onde todo mundo diz nomes feios,
bebe cachaça, briga e ama
sem fiscal de salão.
– Já viu, senhor, os peitos amolecidos
da empregada da fábrica
que gosta do soldado da polícia?
Pois aqueles seios amamentaram
a caboclinha suja e descalça
que vai com a cuia de açaí
no meio da rua poeirenta.
Cuidado, senhor, para o seu automóvel
não atropelar a menina!…

Um poema de Jaci Rocha

Diário de bordo
Jaci Rocha

De conversar com as nuvens
e com o vento frio de março
Parti! Com minhas asas e cactos
Tudo o mais deixei para trás …

Debaixo do braço
trouxe ainda meu caderno de versos
E um pequeno dicionário
De onde rabisquei certos significados…

Vou à procura de absurdos,
Aventurar no fantástico do mundo
Criar um diário de bordo
E cada dia, conhecer algo novo…

ah! vou juntar-me às andorinhas
e perder o medo de avião
Navegar pelos mares de maio
E em setembro conhecer o verão!

Jaci Roch é advogada e poeta. Seus poemas são de uma leveza impressionante. Para conhecer mais e se encantar  visite o blog A Lua não dorme (clique aqui), onde Jaci publica poemas seus e de outros autores e belas imagens

Chá da tarde

Coração Fracassado
Waldemiro Gomes (1895-1981)

Meu pobre coração: Tu fracassaste;
Sofreste a desventura de supor,
Que amando tanto quanto tu amaste
Não podia morrer tão grande amor!

Amor de coração de sentimentos;
De dores de saudade, de alegrias;
De comum tão total de pensamentos;
De sonhos a nascer todos os dias!

Amor que se refunde a cada instante;
Exaltando querer: idolatria!
Amor! Tão grande amor!
Amor constante.
Meu pobre coração: tu fracassaste.

Mas sublime na dor e na agonia:
Ao deixar de bater me perdoa.

Poeta em destaque – Fernanda Rabelo

Será que
Será que é fácil, será que é difícil

Será que vivo ou apenas existo

Será que tracejo um caminho diferente

Ou será que eu sou só um pouco insistente?
(Fernanda Rabelo)

“Eu não consigo me intitular poeta, mas ao que tudo indica eu escrevo poesias”, diz Fernanda Rabelo, 24 anos, que, estimulada por amigos que conhecem seu talento,  pretende lançar seu primeiro livro de poesias e pensamentos até o final do ano. Para arrecadar recursos para a impressão está fazendo uma rifa (veja no final do texto).
Embora diga que não consegue se intitular poeta, Fernanda é poeta sim. Sua poesia é leve, lírica, gostosa de ler e de sentir.
Ela começou a escrever ainda adolescente, quando cursava o ensino fundamental e se apaixonou pela literatura. Mas seu sonho na época era escrever letras de música. “Não consegui“, diz. Daí partiu para a poesia. “Quando eu aprendia uma palavra ‘bonita’ eu queria tentar falar coisas bonitas em rima”, conta.

Fernanda diz que não tem um poeta preferido. É poesia? Ela lê tudo. Desde Salomão na Bíblia, ao coreano Kim in Yook, de quem destaca o poema “A física do amor’.

“Eu gosto muito de ler poesias, elas tocam fundo na gente, parece que o mundo é mais bonito, ou mais profundo nos olhos de um poeta”

Fernanda não tem uma rotina para escrever. Escreve a qualquer hora e em qualquer lugar, basta que sinta vontade ou necessidade de se expressar. Quando surge essa vontade ou necessidade, ela anota em um caderninho ou no celular. “A inspiração vem das minhas emoções. Eu sinto, tenho ideias, anoto e depois tento fazê-las ter sentido, ou parecer com poemas. Eu vejo a escrita como um teórico que li, que diz que a literatura é criadora de mundos. Da mesma forma como a palavra me liga ao outro, me permite entender o outro e me comunicar com ele.”

Eu escrevo para expressar o que as vezes me machuca e oprime, escrevo também pra compartilhar as palavras bonitas que não consigo dizer.

Além de poesias, Fernanda escreve contos. “Eu comecei uma história, e ela é intitulada ‘Outro mundo’, eu escrevi a primeira parte, mas na chegada ao outro mundo acabei deixando a história de lado”. Conto que ela pretende retomar depois que lançar seu livro de poesias.

Formada em Filosofia e atualmente cursando Letras/Inglês, considera que sua rotina diária é bastante comum: ajuda nas tarefas domésticas, estuda, faz seu devocional (ela é cristã), ouve música, canta, lê e assiste filmes ou programas de TV que lhe façam “esquecer um pouco da realidade”.

“O primeiro livro que li foi a Bíblia, eu vejo como um manual, como um livro de história que eu uso para saber coisas sobre o passado e previsões do futuro.”

Três poemas de Fernanda Rabelo
A procura de um herói
Ah, como a gente quer alguém que nos salve

Como a gente quer alguém com um tom suave

Não só nas palavras, mas no toque

Alguém que nos conforte

Alguém que nos leve desse temporal

Alguém que no fim nos livre de todo esse mal.

O menino sozinho
Eu me machuco

Eu me desculpo

E finjo que tudo vai ficar bem

Eu me enlouqueço

Eu estremeço

E no fim do dia o bem vem

Nas minhas experiências há tantas carências, quanto

as de um menino andando na lua

E pinto, eu risco

No meu peito rabisco a falta que eu sinto tua.

Inconstância
A inconstância enche meus dias

este, ou aquele, tanto faz!

Este hoje, aquele amanhã

É isso que a inconstância faz.


Não importa se o amanhã existirá,

afinal… ter sempre o mesmo pra quê?

É sobre ser sábio na ignorância e saber

que não posso ter pra sempre você.