Soneto à vida

Soneto à vida
Bruno Muniz

E por que não te olhar, se te preciso;
que tanto tem o rumo sem amar.
A língua doce que extrapola o tímpano:
o jeito torpe teu de me emboscar.

Que graça tem a vida se preciso
de um porto leve e calmo pra morar,
mas se te encontro há febre no sorriso,
coisas assim que são de se entristar.

E se decoras, por fim, nossos desejos,
que versam o dorso teu nos azulejos
pautando às horas nuas, o passar,

serão por falsos versos multicores,
se dos teus olhos fiz os meus licores
e do amor o meu embriagar.

Poema – Ato de amor

Ato de amor
Carlos Nilson Costa*

Não nasci de uma ficção,
e sim de um ato de amor
com um DNA que condena
o sopro
Das injustiças,
Das mazelas,
Das injúrias

Nasci como nasce um capim,
uma roseira,
ou a força do amor:
Rasgando o ventre amado
de minha Mãe.

Quero ser um louco
a perambular por aí,
Sem saber pra onde vou,
como fui.
Quero andar por aí,
buscando o inatingível.
Soluçando o amor perdido
e encontrando o amor presente.

Que sumam da minha frente
As turbulências da vida,
pois as derroto sem pudor, violentando a convenção
e rasgo o espaço como um raio
e mando às favas quem não falar de amor.

*Carlos Nilson Costa é professor, poeta, artista plástico e membro da Academia Amapaense de Letras

Majo Queiroga – poeta, artista plástica, teraupeuta holística é apaixonada pela arte de escrever

Escritora, poeta e artista plástica, Majo Queiroga não tem hora marcada para escrever. Se tiver uma xícara de café ao lado escreve qualquer hora e em qualquer lugar, a mão ou no  computador. “Adoro escrever”, diz, mas vive perdendo seus escritos. “Escrevia em papéis avulsos, parei porque perdia; passei a escrever em cadernos, parei porque perdia os cadernos; passei a digitar e muitos trabalhos meus se perderam porque HD queimou, notebook bugou ou outras desventuras”, conta.

Caçula de uma família de 17 irmãos do interior da Paraíba, Majo só começou a estudar aos 10 anos. “Meu pai não admitia que as mulheres fossem estudar para não virar rapariga e não ficar mal falada. Então com muita luta aos 10 anos minha mãe conseguiu nos colocar na escola.” Foi com essa idade que Majo descobriu e se apaixonou pela arte de escrever e começou a fazer versos.  “Eu me imaginava tão grande  e me sentia tão poderosa quando tinha as iluminações e as escrevia”. E naquela época ela nem tinha acesso aos livros. Mas ia tendo “iluminações” e escrevendo e nunca mais parou.  Nem de escrever, nem de  estudar. É professora de francês do CELCFDM. arte educadora, especialista em Didática do Ensino Superior e em Metodologia do Ensino de Francês Língua Estrangeira. Nessa área publicou o livro  “As novas formas de ensinar e aprender Francês Du tableau à l’ écrain”,  no qual aborda a introdução da tecnologia no ensino de língua estrangeira.
Livros de poesia? Ainda não publicou nenhum. Mas está nos seus planos e nas cobranças dos amigos.
Por enquanto dedica-se ao curso de medicina natural chinesa na UFRN.
Outra paixão dela é a terapia holística. Ela é mestre em Sistemas de Reiki. Terapeuta de EFT. Floral de Bach. Aromoterapeuta.

Um poema de Álvaro da Cunha

Segredo
Álvaro da Cunha

O Verso é apenas uma forma
pálida e imprecisa.
Não diz do intraduzível sentimento,
da realidade latente e obsessiva,
do espírito intangível,
irrevelado e esquivo que há em mim.

Ninguém se iluda:
Sou um misto de êxito e desordem.
Conheço o receio da palavra
e a indecisão do gesto.

Dos apetites rudes,
clamorosos,
do meu corpo,
da volúpia sofrida e revoltada,
do meu sensualismo pela vida,
da ternura que anda em minha alma,
eu não diria nada.

O Verso é apenas uma forma
pálida e imprecisa.

(Extraído da Antologia Modernos Poetas do Amapá – 1960)

Poema do Louco

Poema do Louco
Ivo Torres

Caminha o louco.
O céu do louco tem cor
permanente.

A alma do louco acoita
canções, que muitos cantam,
sem conhecer.

O louco não gosta de flores.
Aliás, nunca viu flores
genuínas.
Nem mulheres.
Nem meninos.
Nem nunca foi menino.

Não tem casa.
Não tem leito.
Não tem relógio.
Só tem a rua.

A rua branca
e sincera do seu mundo.

Neste momento, o louco chora,
porque lhe disseram que há
loucos que se curam.

(Extraído da Antologia Modernos Poetas do Amapá – 1960)

Poema com destino à Noruega

Poema com destino à Noruega
Alcy Araújo

Eu ando com a cabeça baixa e dolorida
tateando na sombra dos guindastes
o corpo flácido das mulheres das docas
dentro da noite no cais.

Por que passam por mim tantos
marinheiros, navios, ondas balouçantes?

Se eu pudesse
descansaria a cabeça dolorida
num saco, num fardo, numa caixa,
depois escreveria um poema simples
e montava-o na onda com destino à Noruega.
E a moça loira que o lesse ao sol da meia-noite
não saberia nunca que sou negro, fumo liamba
e tenho as mãos revoltadas e calosas.

(Do livro Autogeografia – Macapá-AP – 1965)

Um poema de Arthur Nery Marinho

Poema
Arthur Nery Marinho

Vem.
Já começa a chover.
E, neste inverno,
outras flores virão
em substituição
às que morreram no verão passado.

A água do poço, agora, é cristalina.
Parece até com lágrima divina,
se
a divindade é pura como a água.

Vem.
Meu pequenino lar,
melhor que o mundo,
se alegre está,
maior prazer terá
ao dar-te abrigo, por um dia que seja.

(Extraído da Antologia Modernos Poetas do Amapá – 1960)

Um poema de Bruno Muniz

Soneto ao horizonte
Bruno Muniz

Como fosse o céu poente de uma estrela,
um quase-instante em fina alegoria,
parnasiana e compulsivamente,
à cor dos olhos, turvos, se perdia.

Desengonçada a paz que a nuvem coube
à sina de um naufrágio azul brilhante,
como se as pombas pelos versos caiem
alvura tanta que no céu se esconde.

Diria eu saber ouvir estrelas?
dirias tu que falo aos cotovelos?
Se tão te avexa indefinir o dia,

deixo-te então cabido às asperezas
a caminhar cingido aos tornozelos
o escuro estampido da mente vazia.

Bruno Muniz é autor do livro “Cem versos putos sobre mim” (que já li, reli e recomendo) e anuncia para o breve o lançamento de “Depois vá ver o mar”, já aguardado com ansiedade pelos amantes da boa poesia.