Há 30 anos o poeta e jornalista Alcy Araújo partia para o cais definitivo

“Canto a terra
a dor dos aflitos
e a inútil esperança dos desesperançados.
Também os negros, os índios e o verde
e presto relevantes serviços topográficos
demarcando itinerários de poesia.”
Alcy Araújo
(1924-1989)

Há 30 anos o poeta dos anjos, dos jardins, do cais Alcy Araújo partiu para o cais definitivo

Encontro sempre Deus no meu jardim à noite principalmente se há luar.
(Alcy Araújo)

“Eu sou Alcy Araújo, poeta do cais. Proprietário de canções e esperanças
quando são mais nítidas as horas de sofrer.”

Alcy Araújo Cavalcante – o  poeta do cais, dos anjos, das borboletas, do jardim clonal, dos marinheiros e de tudo que merece ser amado – nasceu no distrito de Peixe Boi (PA), no dia 7 de janeiro de 1924.
Criança ainda transferiu-se com a família para Belém, vivendo depois em pequenas cidades da região norte para onde seu pai, Nicolau Cavalcante, era destacado para implantar os serviços de Correios e Telégrafos.
De retorno a Belém, Alcy cursou a Escola Industrial tornando-se mestre marceneiro e de outras especialidades relacionados ao ofício, que exerceu por algum tempo.

No entanto o talento literário, a vocação pelo jornalismo e um precoce desenvolvimento intelectual levaram Alcy a trocar a bancada da oficina pela escrivaninha do jornal, em 1941, com 17 anos de idade.
Por mais de uma década trabalhou nos principais jornais do Pará como repórter,articulista,  redator e chefe de reportagem, entre eles a Folha do Norte, O Estado do Pará e O Liberal.

Veio para o Amapá na década de 50, trazido pelo poeta e amigo Álvaro da Cunha. Aqui exerceu importantes cargos, assessorou vários governadores, dirigiu jornais, lutou pela emancipação política e administrativa desta região, combateu a exploração dos recursos naturais, fez importantes trabalhos de pesquisa sobre rizicultura, erosão dos solos, pesca no litoral, entre outros. Contudo, acredito que a maior contribuição dele ao Amapá deve ser aferida pela sua imensa e constante participação na vida intelectual e artística – tanto através da imprensa, como nos demais instrumentos e instâncias da cultura amapaense.
Amante das artes, foi ele que lutou, ao lado de R.Peixe, pela criação da Escola de Artes Cândido Portinari e do Teatro das Bacabeiras.

“Aqui estão as minhas mãos, falando palavras feitas de pássaros e de ausências e
cantando canções sonhadas em segredo.” (Alcy Araújo)

Junto com Álvaro da Cunha, Ivo Torres, Arthur Nery Marinho e Aluízio da Cunha, movimentou o segmento cultural amapaense criando clubes de arte, promovendo noites lítero-musicais, apoiando artistas plásticos, músicos, poetas e escritores,  fundando e dirigindo revistas culturais difundindo a cultura do Amapá por este Brasilsão, entre mais tantas coisas que deixariam imenso este texto se fossem listadas aqui.

“Ele foi um dos mais macapaenses de todos os paraenses que ajudaram a desenvolver o Amapá”, escreveu certa vez o jornalista Hélio Penafort.

Foi editor, noticiarista, diretor, colunista, articulista e editorialista de vários jornais amapaenses. Jornalista emérito, arguto analista dos problemas dos problemas sócio-econômicos do Amapá, foi na poesia que Alcy Araújo universalizou mais profundamente seu talento. É um dos poucos poetas do Norte a figurar na “Grande Enciclopédia Brasileira Portuguesa”, editada em Lisboa. Está também nas enciclopédias “Brasil e Brasileiros de Hoje”  e “Grande Enciclopédia da Amazônia”e em tantas outras obras como “Introdução à Literatura”, “Poesia do Grão Pará”, Antologia Internacional Del Secchi, Coletânea Amapaense de Poesia e Crônica, Antologia Modernos Poetas do Amapá e coletânea “Contistas do Meio do Mundo”.

Em 1965, pela Editora Rumo, foi lançado seu primeiro livro: Autogeografia (poemas e crônicas). Em 1983, comemorando os 40 anos de Alcy dedicados à poesia,  a Editora do MEC lançou no Rio de Janeiro seu livro “Poemas do Homem do Cais” e em 1997 foi lançado pela Associação Amapaense de Escritores o livro “Jardim Clonal”.

Numa noite de sábado, 22 de abril de 1989, Alcy Araújo partiu para o cais definitivo levado pelas mãos do seu Anjo da Guarda. Partiu deixando inéditos, prontinhos para publicação, os livros “Ave Ternura”, “Histórias Tranquilas”, “Cartas pro Anjo”, “Mundo Partido”, “Terra Molhada”, “Tempo de Esperança”, “Poemas pro Anjo do Natal”, entre outros, que a família tem esperança de um dia vê-los publicados e sonha com a publicação da “Poesia Completa”, deste que foi o maior poeta do Amapá.
Alcy Araújo Cavalcante, meu pai, tinha a alma pura,  de criança que acredita no Natal e na Esperança e assim cheio de esperança colocou sua poesia a favor da luta por um sociedade melhor, livre das desigualdades e das injustiças.

Participação
Alcy Araújo

Estou convosco.
Participo dos vossos anseios coletivos.
Vim unir meu grito de protesto
ao suor dos que suaram
nos campos e nas fábricas.

Aqui estou
para juntar minha boca
às vossas bocas no clamor pelo pão
sancionar com este rumor que vai crescendo
a petição de liberdade.

Estou convosco.
Para unir meu sangue ao sangue
dos que tombaram
na luta contra a fome e a injustiça
foram vilipendiados em sua glória
de mártires
de heróis.

Vim de longe
percorrendo desesperos.
Das docas agitadas de Hamburgo
das plantações de banana da Guatemala
dos seringais quentes do Haiti.
Vim do cais angustiado de Belém
dos poços de petróleo do Kuwait
das minas de salitre do Chile
Passei fome nos arrozais da China
nos canaviais de Cuba
entre as vacas sagradas da Índia
ouvindo música de jazz no Harlem.
Afundei nas geladas estepes russas.
morri ontem no Canal da Mancha
e hoje no de Suez.
Tombei nas margens do Reno
e nas areias do Saara
lutando pela vossa liberdade
pelo vosso direito de dizer
e de amar.

Estou convosco.
Voluntariamente aumento o efetivo
dos que não se conformam
em viver de joelhos
morrendo sufocando lágrimas
nas frentes de batalha
nas prisões
para dar à criança recém-parida
o riso negado aos vossos pais
o pão que falta em vossas mesas.

Meu filho
e o filho do meu filho
saberão que o meu poema não se omitiu
quando vossas vozes fenderem o silêncio
e ecoarem inutilmente nos ouvidos de Deus.

Alcy não se separava da sua máquina de escrever – uma olivetti portátil – nem quando precisava ficar internado para cuidar da saúde. Na foto, o poeta internado no Hospital São Camilo, recebendo a visita do amigo e compadre padre Jorge Basile e escrevendo.

Bilhete

Bilhete

No Marabaixo da Favela
recebi tua carta
escrita num pedacinho do céu.
Quando a manhã chegar
dourando o dia
pego emprestado um raio de sol
e com ele te escrevo a resposta
numa pétala de flor
e te mando enfeitadinha
com um laço de amor.
(Alcinéa Cavalcante)

Um poema de Obdias Araújo

Veiga
Obdias Araújo

Era tardinha e o poeta
Aspergia sementes
De versos na praça.

Que poema não pega de galho.
Precisa plantar a semente
Socar bem a terra
E ficar ali o tempo todo
Regando com rimas
O brotinho até que
A vergôntea libere
O primeiro botão
E finalmente desabroche
Em cores multiformes
A flor do poema.

Que a flor vem do botão
Que vem do galho que vem
Da plantinha que vem
Da semente que vem
Das mãos pródigas do poeta
Aspergindo sementes
De versos na praça!

Um poema de Joãozinho Gomes

Belíssimo esse poema do Joãozinho Gomes ao saudoso poeta Isnard Lima, meu compadre de água bentas.

Ébria antemanhã
Joãozinho Gomes

A Isnard Lima Filho

Madrugada febril
ébria antemanhã
que a meu brio se inebria
que me breia ao breu
do embriagado mês de abril
hábil mês de abril
que se abre ao bar do Abreu
ao bardo que eu venero
bardo que idolatro
e entre litros o soletro
e não me sinto
neutro ante o seu cetro
e não me sinto
outro ante o seu trono
e não me sinto
outono ante os insetos.

Um poema de Marven Junius Franklin

Passos lerdos
Marven Junius Franklin

E sobre os ensejos
eu me perco em segundos
ao recordar teu regaço
afável…

E as horas passam…
passam as locomotivas [as catraias]
& meus passos lerdos…

(passa o amor – que antes era infindável).

E meus passos
correm as alamedas
querendo alcançar a tua sombra.

E nessa mesa de bar [em mesa de canto]
colho as horas para te ver calhar

(mesmo que mudes de rua ao me enxergar).

Nessa tarde chuvosa de domingo…

Barquinhos de papel

Que sonhos transportam
estes barquinhos de papel
soltos pela gurizada
nos riozinhos formados pela chuva?
Em que porto da vida eles ancoram?
Em que altura da vida-rio eles naufragam?

Na infância (já tão distante)
também soltei barquinhos de papel
e quando a chuva cessava
saía correndo de casa para resgatá-los.
Uns encalhavam em alguma pedra na margem da rua
outros caiam na boca-de-lobo
e de lá, por conta própria, seguiam viagem
levando meus sonhos por todos os rios e mares
e  perdiam a rota do retorno.

(Alcinéa Cavalcante)

A poesia de Alcy Araújo

MINHA POESIA
Alcy Araújo
(1924-1989)

A minha poesia, senhor, é a poesia desmembrada
dos homens que olharam o mundo
pela primeira vez;
dos homens que ouviram o rumor do mundo pela primeira vez.
É a poesia das mãos sem trato
na ânsia do progresso.
Ídolos, crenças, tabus, por que?
Se os homens choram suor na construção do mundo
e bocas se comprimem em massa
clamando pelo pão?
A minha poesia tem o ritmo gritante da sinfonia dos porões e dos guindastes,
do grito do estivador vitimado
sob a lingada que se desprendeu,
do desespero sem nome
da prostituta pobre e mãe, do suor meloso da gafieira
do meu bairro sem bangalôs
onde todo mundo diz nomes feios,
bebe cachaça, briga e ama
sem fiscal de salão. – Já viu, senhor, os peitos amolecidos
da empregada da fábrica
que gosta do soldado da polícia? Pois aqueles seios amamentaram
a caboclinha suja e descalça
que vai com a cuia de açaí
no meio da rua poeirenta.
Cuidado, senhor, para o seu automóvel
não atropelar a menina!…

Um poema de Ana Alves

Onde estás?
Ana Alves

Procuro
Não acho
Disfarço
Um abraço.

Te encontrando
Vou lembrando
Nosso encontro
Nossa felicidade
Cheia de saudade.

Revelo o temor
De te perder
Teu aconchego
Na ânsia de te ver
No momento presente
A felicidade da gente.

Ana Alves é autora do livro de poemas “Meus momentos de inspiração”, lançado ano passado. O primeiro de tantos que ela tem prontos para lançamento. O próximo  é “Navegando nas Palavras”, que será lançado este semestre.

Marven Franklin, o poeta da fronteira, é homenageado no Pará

O poeta Marven Junius Franklin, conhecido como  “Poeta da Fronteira” (ele mora em Oiapoque, município que faz fronteira com a Guiana Francesa) será homenageado no próximo dia 28 em Belém. Ele receberá o prêmio   Destaque da Literatura do Extremo Norte, durante o XXXV Baile dos Artistas.

Ele já tem no currículo premiações importantes do cenário literário como o III Prêmio Henrique José de Souza de Literatura, Concurso Literário de Presidente Prudente, Concurso Nacional Novos Poetas e Concurso de Poesias da Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil de Mariana (MG), entre outros.

Autor do livro “Oiapoque in Blues”, o poeta retrata em seu trabalho a materialização de uma fronteira imaginária, que se concretiza aos olhos do leitor graças à sua poética ficcional. Grato por ser reconhecido mais uma vez fora do Amapá (ele é paraense mas há anos mora no Amapá), ele ressalta que a homenagem é uma realização pessoal e uma contribuição para a literatura produzida no norte do país. “Estou grato por fazer parte de um evento que já é consagrado no cenário paraense. Essa é uma das muitas alegrias que a poesia me proporciona”, declarou Marven Franklin.

(Texto: Ana Anspach – Fotos: página pessoal de Marven no Facebook)

(Nota – Eu fico muito feliz com essa homenagem ao Marven. Ele merece e engrandece a literatura produzida no Amapá. Já li, reli e recomendo seu livro “Oiapoque in blues”. Se você ainda não leu pode adquirir direto com o autor acessando sua página no Facebook https://www.facebook.com/pg/Marvenpoeta/photos/?ref=page_internal )