Má Temática

MÁ TEMÁTICA
Rui Guilherme

Um domingo a mais
Ou somente menos um dia?
Conta que rouba a paz,
Que traz sombra à alegria
De viver, de curtir, de sonhar.
Má, bem ruim essa temática:
Abate, leva ao pesar
À sensação estática
De ver a vida passar tão depressa,
De ver que alegria, dor, tudo cessa
Nessa operação errática:
Noção quase eclesiástica,
Produto dessa matemática
De não saber se um domingo a mais
Não é senão menos um dia

Cada poeta com sua mania – I

O poeta Ronilson Medeiros tem a mania  – um tanto estranha – de escrever poemas do fim para o começo ou do meio para o começo. E faz isso durante a madrugada quanto todos estão dormindo. “Às vezes abandono o poema em algum canto da casa ou jogo fora quando não gosto“, diz.
“Nunca escrevi um poema por vontade própria. Ou seja, a inspiração vem sem aviso prévio, sempre.
Geralmente um poema é uma descarga de tudo que acontece de dia ou alguma coisa mal resolvida no passado”, conta. E acrescenta que nunca escreve quando está alegre, apenas quando está triste.

Poeta em destaque: Arilson de Souza

Você consegue imaginar alguém envolvido com números e fórmulas de repente no meio de uma aula de matemática escrever um belo poema? Parece difícil ou quase impossível, mas não para o poeta e professor de matemática Arilson de Souza. Este negro simpático, bonito, bom papo, que tem tanta intimidade com os números e com as letras. “Tenho duas grandes paixões: passar conhecimentos e escrever”, diz ele. Para ele qualquer hora é hora de escrever, seja dia, noite ou madrugada. “Às vezes acordo de madrugada com uma poesia na cabeça e ja vou escrevendo”, conta. E se a poesia vem quando está dando aulas, envolvido com cálculos e fórmulas? Ah, não tem problema. Ele dá uma paradinha e rabisca no papel os versos. E já fez várias poesias assim.

Para ele, escrever é uma necessidade tal como se alimentar. “Escrevo diariamente, pois assim como o alimento me energiza o corpo, a poesia energiza a minha alma. Faço poesia para dar vazão aos meus sentimentos, minhas poesias retratam meu momento, é como se elas fossem uma fotografia minha , só que “por dentro”, uma fotografia dos meus sentimentos”, explica.

Ele escreve desde a adolescência, mas só há pouco tempo começou a publicar. Para isso usa as redes sociais. Diz que antes engavetava seus poemas por insegurança, por achar que não gostariam de seus versos. “Quando conheci você Alcinéa, a Jô Araújo, o José Pastana, o Marven Franklin fiquei animado, deixei a timidez de lado e passei a publicar nas redes sociais”. E agradou, Agradou tanto que sua poesia é bastante elogiada e hoje ele é chamado para declamar em vários eventos culturais.

No final deste mês ele terá a inesquecível experiência de autografar uma obra. Trata-se de uma coletânea do Movimento Afrologia que reúne os melhores poemas produzidos no Amapá voltados para o negro. O Movimento Afrologia visa valorizar a cultura negreira, sua religião e subjetividade.

Preta é a pele.
Pele da vida.
Vida de negro.
Negro da vida.
Alma sem cor.
Cor sem discriminação.
Discriminar causa dor,
e dor não rima com coração.
Coração, alma,vida…
Encaixe perfeito!
Pele, cor, preta…
Sem preconceito!
(Entrelaçadas – Arilson de  Souza)

Ano que vem, Arilson publicará seu primeiro livro solo. Um retrato de seus sentimentos. “Minhas poesias retratam muito o meu momento. Se estou triste escrevo coisas tristes; se estou alegre escrevo coisas alegres. Minhas poesias têm meus sentimentos”, conta.
Além de escrever muito, Arilson lê muito e dentre seus autores preferidos cita Carlos Drummond, Alcinéa Cavalcante, Vinicius de Moraes e Guimarães Rosa. Foi estimulado a ler pela mãe. “Minha mãe sempre me dizia que a leitura me levaria longe em todos os sentidos.” O primeiro livro que leu foi Dom Quixote. Além de escrever poemas, gosta de fazer letras de música, já fez até rock e de vez em quando faz um ladrão de marabaixo. Marabaixo, aliás, é outra de suas paixões.

E de verso em verso, de ladrão em ladrão, Arilson vai construindo uma bela carreira literária para orgulho dos amapaenses.

Reverso da saudade
(Arilson de Souza)

Já não lagrimo mais
pela saudade que em meu peito jaz.
Já não me importo tanto
com a dor que outrora motivou meu pranto.

Entendi que mais bem me faz,
partículas de efêmera felicidade,
ao invés da nostalgia oriunda da perdurável saudade.

Pois, mesmo que hoje, as aflições das reminiscências
se externem como algo sem fim,
Ainda assim, amanhã haverá flores no jardim!
Ainda assim, ofertarão rosas e jasmins!
Ainda assim, as águas correrão para o mar!
Ainda assim, haverá tempo para amar!

O fim do mundo

O fim do mundo
 
Quando disseram
que o mundo ia acabar
Tia Lila pegou seu terço
e pôs-se a rezar.
 
O dono da venda
dividiu toda a mercadoria com seus funcionários
e distribuiu o dinheiro do caixa para os mendigos.
 
A recatada dona Clotilde
jogou-se aos pés do marido
e implorando perdão
confessou que o tinha traído com o compadre.
 
Seu Joaquim, um santo homem, ajoelhou-se no meio da rua
ergueu as mãos para o céu
e pediu perdão a Deus pelos assassinatos que cometeu
como matador de aluguel.
 
No dia seguinte
o dono da venda pedia esmolas,
a recatada Clotilde, expulsa de casa,
foi morar num velho puteiro,
Seu Joaquim foi preso.
 
Só Tia Lila continuou do mesmo jeito.
De terço na mão continuou rezando
e entre uma oração e outra murmurava:
– É mesmo o fim do mundo
– Dona Clotilde, hein, quem diria?
– Seu Joaquim com aquela cara de santo, hein!
É o fim do mundo!
É o fim do mundo!
(Alcinéa Cavalcante)

A poesia de Demócrito Marinho

A NOITE
Demócrito Marinho

Enquanto o sol se oculta
Ela vem chegando silente
Vai despertando prazeres
Bares se enchem de gente.

Igrejas se enchem de gente
Praças se enchem de gente
Shoppings se enchem de gente
Cinemas se enchem de gente.

As ruas se enchem de gente
Com tantos rostos diferentes
Um é do bom Ricardo Pontes
Que segue rindo tão contente.

Noite de Luau na Samaúma
Sob um clima envolvente
Poetisa Alcinéa Cavalcante
Declama versos docilmente.

E na madrugada da noite
Há um mundo diferente
E só quem pode contá-lo
São as brisas coniventes.

E nisso o Ronilson dorme
E a Jô Araújo faz poesias
Pastana toma um bom vinho
Enchendo a alma de alegria.

Chá da tarde

Ingratidão
Arilson Souza

Por que ingrata comigo sois,
se com afeto adornei tua vida,
se com zelo tratei tua ferida
e a ti ofertei girassóis?

Por que me tens ingratidão,
se a ti entreguei o “bom” que há em mim,
se com lágrimas de devoção reguei teu jardim
e te alberguei em meu coração?

Por que me propicias imensurável trauma,
se a ti consignei todo meu carinho,
se contigo dividi meu aconchegante “ninho”
e a ti cedi minh’alma?

Por que me imputas colossal dor,
se a ti prendei pétalas de rosas,
se teu nome entoei em versos e prosas
e a ti dediquei o fidedigno amor?

Por quê?

Meio-dia

Meio-dia
Para onde vai
esse menino de andar tristonho
com uma camisa verde desbotada amarrada na cabeça?
Ele não caminha em direção ao sol.
Caminha sob o sol.
O sol queima.
O asfalto queima.
As lágrimas queimam.
Para proteger a cabeça tem uma camisa verde desbotada.
Para proteger os pés um par de tênis surrado.
Mas quem – ou o que – pode protegê-lo da tristeza que aflige seu coração e se derrama em lágrimas queimando sua face?
(Alcinéa Cavalcante)

Chá da tarde

A Rede
(Glória Araújo)

A rede velha comeu foi fogo
com nós dois pra lá e pra cá,
O suor cobria nosso corpo
Ajeita a rede, balança a rede,
A rede querendo rasgar
E nenhum queria parar.

Eu rangia os dentes e gemia
Ele dizia: agüenta, meu bem,
Que já vou terminar.

Depois de muito esforço
puxamos a rede e o que vimos
valeu todo o sacrifício
O peixe era enorme
dava para o almoço e jantar.

Chá da tarde

Vida de rio
Mauro Guilherme

É esse o rio que me leva,
Flutuo, volteio, passo,
Como o vento a ir e vir.
Ondas do meu mundo,
Águas ternas e doces,
Deixem-me a brisa sentir.
O rio é tão grande,
A vida é tão dura,
Às vezes tufões a seguir.
Rios da minha vida,
Águas dos meus olhos,
Ainda estou por aqui.