#TBT

Encontro de poetas da minha casa. Na foto: Flávio Cavalcante, eu, Mauro Guilherme, Neth Brazão, Celestino, Raquel Braga, Manoel Bispo, Maria Ester, Rui Guilherme e Cléo Araújo.
Saudade dessas aglomerações poéticas.

Siga na luz, meu amigo Mauro Guilherme

Meu poetamigo meu amigo-irmão, o mundo fica menos poético, menos doce, menos musical, menos alegre, sem você. Segue na luz. Aqui a gente fica vendo o rio sempre indo, nunca voltando; sempre partindo, nunca ficando. Às vezes até parece que ele passa chorando.

Vítima de Covid faleceu hoje, aos 55 anos em Macapá,  o promotor de Justiça, poeta, cronista, contista, cantor e compositor Mauro Guilherme.
Escritor premiado, inclusive nacionalmente, Mauro é autor de mais de dez livros de poesias, romances e contos e organizou diversas antologias de autores amapaenses.
Era um grande incentivador dos escritores e poetas do Amapá. A todos estimulava e ajudou vários a publicarem livros. Dava uma grande valor a literatura produzida no Amapá, tanto que era um dos primeiros a comprar e divulgar as obras locais.

Participava ativamente dos movimentos literários.
“A existência do Mauro Guilherme foi rica, pródiga de talento e criatividade, e o seu legado literário, artístico e humano vai contribuir para todos nós que convivemos com ele e também para outras gerações, em um ciclo vital e perene da Arte, sempre tão necessária e essencial”, disse o presidente da Associação Amapaense de Escritores, Paulo Tarso.

O jornalista e escritor Elton Tavares, ressaltou que “Mauro foi um exemplo de empenho na disseminação da cultura e da literatura amapaense. Toda essa trabalheira aí de conversar com autores, organizar formatação dos livros, artes para capas e etc, só com muito amor pela arte literária”.

Nas redes sociais centenas de pessoas lamentaram a morte dele e destacaram suas inúmeras qualidades.

Mauro foi meu grande amigo. Não era apenas um irmão de poesia. Era um irmão de alma. Nossa AMIZADE era maiúscula mesmo. A partida dele me deixou triste demais. Durante todo o dia eu tentei escrever alguma coisa, mas as lágrimas embaçavam meus olhos e eu não conseguia ver, com nitidez, o teclado para escrever alguma coisa. Mas sei que tudo que eu pensasse escrever ou que tente escrever agora não será suficiente para falar da nossa AMIZADE e da sua importância para a literatura amapaense. Nem dos tantos sonhos que sonhamos juntos para valorizar cada vez mais os escritores e suas obras.

E os nossos saraus? Durante a pandemia não nos encontramos pessoalmente nenhuma vez; mas por telefone falávamos da saudade dos nossos saraus e encontros poéticos na minha casa e planejavamos um grande e longo sarau para depois da pandemia, juntando todos para matar saudade, declamar, cantar e trocar afetos. E, de repente, ele parte assim. Sem cantoria, sem sarau de poesia, sem avisar, sem despedida. Partiu como quem vai ali na esquina comprar um guaraná e já volta.
Gratidão, meu amigo, por sua amizade, afeto, ensinamentos… Ah, Mauro Guilherme, foi um privilégio muito grande ter sua AMIZADE (assim maiúscula mesmo).
Que Deus te receba na luz, conforte teus familiares e amigos.

(A foto na abertura desse texto é de um sarau em homenagem a ele. Homenagem feita pelos escritores da coletânea “Quinze dedos de prosa”  com direito a discursos e a entrega de uma  placa a ele como nosso reconhecimento pelo apoio dado aos escritores amapaenses. Dá pra ver a placa em cima da mesa. Né? Abaixo posto mais algumas fotos desse evento)

Prefácio do livro Poesia de Rio, de Mauro Guilherme

Eu tive a honra de participar de várias coletâneas de poesias, de contos e de crônicas organizadas por Mauro Guilherme
E honra maior foi prefaciar o livro dele “Poesia de Rio”, lançado em 2019.
Eis o prefácio:

Ele canta, toca e compõe belíssimas canções. Escreve excelentes contos, romances e poesias. É um dos escritores mais premiados. Nascido em Belém (PA) em 1965, Mauro Guilherme mudou-se para o Amapá em 1991 trazendo na bagagem uma vasta produção literária.
“Aquele tempo que o tempo levou,
não foi tempo perdido.
Foi quando tudo começou.”
De dia atua como promotor de Justiça no Ministério Público do Amapá. De noite tira o terno e a gravata, pega a caneta e agendas e escreve, escreve, escreve… “Escrevo quando todos dormem”, conta.
“A lua está sumindo,
mas o sol pode não chegar.
Tudo isso é vida
tudo isso é tempo
que vai se partindo.
Tudo isso é santo.
Tudo isso é lindo.”
Gosta de escrever à mão, em agendas. Depois corrige, corta palavras, acrescenta outras e aí sim, coloca tudo no computador. “Escrevo em agendas para não perder os escritos. Tenho sempre uma no criado mudo do meu quarto”, revela. E já são muitas agendas. Cheinhas de poemas, romances e contos – vários deles já publicados e premiados.
Começou a escrever com 13 anos de idade, na época em que lia a coleção “Para gostar de ler” (Ed. Ática), que trazia contos, crônicas e poesia de grandes escritores. Ainda tem em sua estante a coleção quase inteirinha.
Ainda na adolescência se encantou por Augusto dos Anjos, depois Drummond, Bandeira e tantos outros.
Embora tenha começado a escrever poesias aos 13 anos, só 20 anos depois lançou seu primeiro livro de poemas: Reflexões Poéticas. “Depois que escrevo passo anos lendo e refletindo se o que escrevi vale a pena ser publicado. Se sim, então publico”, diz. Foi assim com os livros Reflexões poéticas (1988), Humanidade Incendiada (2003), Destino (2007), O Trem de Maria (2009), As Histórias de João Pescador (2010) Histórias de Desamor (2012), História de Pássaro (2015), Contos Estranhos (2017) e Contos Musicais (2018)
Por sua obra, já ganhou mais de uma dezena de prêmios, dos quais destaco os concedidos pela Associação Nacional de Escritores, União Brasileira de Escritores e UFPa.
“Nós que estamos aqui,
vamos indo,
vamos logo,
vamos todos,
vamos juntos…
Ruim andar sozinho
feito cão sem dono.”
Mauro Guilherme participa de várias antologias literárias. No Amapá organizou as coletâneas “Poetas na Linha Imaginária”, lançada em 2013, “Poesia na Boca do Rio” (2015) e Quinze dedos de prosa (2016)
Sentimento de Rio
Olha o rio fugindo,
Sempre indo,
Nunca voltando.
Olha o rio seguindo,
Sempre partindo,
Nunca ficando.
Às vezes até parece,
Que ele passa chorando.
O livro “Poesia de Rio” é fruto de um novo projeto que idealizou, o “Escritores Unidos”, onde dez escritores participam, cada um lançando uma obra.

Alcinéa Cavalcante
Membro da Academia Amapaense de Letras

Retalhos e Linhas

Há nove anos, no dia 9 de março de 2012, a poeta, cronista, contista e professora Deusa Ilário lançou seu segundo livro de poemas e crônicas “Retalhos e Linhas“. Com prefácio do professor, músico e poeta Orivaldo Souza e capa de Ana Maria Barbosa e Márcio Wendel, o livro tem 284 páginas impregnadas de lirismo, ternura e amor.
Sou um pouco de flor, sou um pouco de pedra, sou relva e sou selva”, define-se a poeta.  Sobre Deusa, a professora Maria  José Costa da Silva – que assina a orelha do livro – diz: “Essa doce mulher é a própria poesia no corpo, na alma.” É verdade. Deusa é pura poesia, é maré cheia de versos, é chuva de lirismo.

Quem ler Retalhos e Linhas faz uma viagem em uma canoa. cujo remador tem habilidade, sensibilidade, carinho e desejo de sempre manter o remo no lugar certo, de modo que as águas que navegamos, enquanto leitores, estão sempre tranquilas. ternas como se tivessem, e estão cuidando de todas as vidas embarcada nesta canoa”, ressalta Orivaldo no prefácio.

De poeta para poeta

Efeméride
Obdias Araújo para Carlos Nilson Costa

Certa vez me vi no portão de tua casa.
Havia nuvem no céu e sorvete na esquina
e declamavas para mim teu penúltimo soneto.

Se alguém disser que minto discordarei veemente
pois vestias verde com rosa Dulce estava na janela
eu estava bêbado e um caminhão
se arrebentou no muro.

Gosto de pensar que
naquele dia
bem como hoje
era teu
aniversário.

Um Carnet Social
só para o Poeta!

Felicidade

Felicidade
Alcy Araujo (1924-1989)

O poeta hoje está feliz. Está feliz e tem um belo assunto para você. É que neste dia está aniversariando Alcinéa Maria. Não sei se você conhece alguma coisa da minha vida particular e sabe que eu amo Alcinéa Maria. A que tem cabelos cor de mel e olhos grandes e castanhos, que também me ama, que sente uma necessidade inevitável da minha presença, do meu amor e do meu carinho. Que vai até as lágrimas se eu lhe causo qualquer desgosto, mesmo involuntário.

Alcinéa Maria, a que me espera de braços abertos, tendo nos lábios o mais belo sorriso que eu conheço, cada vez que volto para o seu amor, a que vem feliz ao meu encontro, a que pede carinhosamente para que eu não parta, para que eu não a deixe ficar.

Hoje a bem amada está fazendo aniversário e o poeta está imensamente feliz. Confesso que hoje beijei sua face linda, acariciei seus cabelos cor de mel, sob a luz difusa da aurora e recebi em troca o seu carinho. Confesso que quase não tive forças para deixá-la. Porém, logo mais estarei ao seu lado. Digo mais que só me afastarei para vê-la mais feliz do que nunca assistir a minha volta. Você que ama sabe o que é a dor do afastamento e a suprema alegria da volta. Nada é mais belo do que a volta para a Bem-Amada.

Outra confissão que faço a você, aos que não conhecem certos detalhes da minha vida, é que minha esposa sabe que amo Alcinéa Maria e não tem ciúmes, e fica feliz sabendo que minha Bem-Amada é feliz ao meu lado.

Como hoje a Bem-Amada está fazendo aniversário, a minha esposa vive comigo os mesmos momentos de felicidade e de alegria.

Um dia magnífico, o de hoje. Alcinéa Maria, a de cabelos cor de mel, olhos grandes e castanhos, completa quatro anos dentro da sua inocência de anjo.

Deus te abençoe, minha filha.

(Crônica publicada em fevereiro de 1956 em jornal. Está também no livro Autogeografia lançado em 1965)

Reencontro argilomolhado – uma crônica de Alcy Araújo para o poeta Juraci Siqueira

Reencontro argilomolhado
Alcy Araújo (1924-1989)
Estou só. Com meus comigos. Nem sequer penteei os cabelos. O primeiro cigarro tem gosto de merda e argila. Não ligo a TV para as primeiras notícias e ignoro o triiim do telefone.
Um quadro de Frank Asley e outro de Áldeno me espiam da parede. Minha estante, meus cinzeiros, minha bengala estão imóveis. A “Remington 33” é azul e os meus óculos bifocais brilham de pernas abertas, prostituídos pelos meus olhos cansados de ver.
Eu estou só. Um poema clonal transita na manhã que estremunha meu acordar. Além do mais, minhas soledades reincidentes.
Eis que adentra Antonio Juraci Siqueira. Encadernado na “Piracema de Sonhos”. É um reencontro. Revejo o poeta de avental e sandálias, no açougue onde, bem ao lado no botequim do João do Roque, eu frequentava mesas despidas de encanto e vestidas de pensamentos alcoolados.
Discutíamos meteorologia, quando os barômetros estavam em nós, nos pressionando… É o mesmo Juraci. Acontece que mais cheio de verdes, que ele gapuiou sabe Deus em que brenhas existenciais. Os seus versos agora têm lonjuras amazônicas, se multiplicam em reinos mágicos, em terra molhada, em lianas gotejantes.
Isto posto, me inundo e choro, porque descubro que me perdi nas enseadas, no cais de Belém, na foz do Cajari, após o parto de catedrais no ventre da selva inchada de cantos.
E todos os peixes, todos os igapós, todos os barrancos, cipós, sonhos, botos, boiunas me envolvem, me carnivoram, me enlunecem.
“Piracema de Sonhos” não é apenas um reencontro – livro úmido, ecossistemático, cromático, vivo como um peixe ovado que sobe o rio – é o milagre de me fazer um pouquinho menos só e um pouco mais poeta.
Fico indeciso entre duas garrafas (pinga e vodka) e tomo uma talagada de cachaça, pois o momento tinha cheiro de paxiúba acabada de cortar.
Foi aí que lembrei que um dia houve uma cabocla de pele macia como penugens, que me amou, sem falar de “espelhos ou de punhais” Então rezei um verso e escrevi esta crônica para voltar aos meus comigos.
Obrigado, Juraci. Vou contar dos teus sonhos para o poeta Álvaro da Cunha. As iaras sabem que tu existes, na lâmina prateada do Cajari. O Paes Loureiro, também. E eu, pô.
(Crônica de Alcy Araújo  publicada no jornal “Combate”, no dia 16 de maio de 1987, em Macapá, após receber, das mãos do poeta Juraci Siqueira, um exemplar autografado do livro “Piracema de Sonhos”, vencedor do I Concurso Literário de Temática Regional, gênero poesia, promovido pela Secretaria de Estado de Cultura, Desportos e Turismo, em 1985. Na crônica Alcy  lembra de quando  frequentava o bar do João do Roque ao lado do açougue onde Juraci trabalhava e quando diz: “discutíamos meteorologia” é porque, na época, Juraci estudava para fazer vestibular em Meteorologia).

Noturno

De noite
eu vigio estrelas.
Me embriago
de amor e luar.
Passeio com Hemingway em Paris.
Visito os becos de Goiás
com Cora Coralina.
E com Quintana
tento descobrir
o que é que os grilos
passam a noite inteirinha fritando.
Dormir
é bom de manhãzinha
quando o sol
– ainda sonolento e tímido –
pula minha janela
pra me ninar.
(Alcinéa Cavalcante)

Um soneto de Obdias Araújo

Soneto da crueldade
Obdias Araújo

Eu fiz uma canção para você
Consolo-me, cantando o dia inteiro
Na cama, na cozinha, no chuveiro,
O canto que compus para você.

Eu posto sempre, sempre, esta canção
Nos feicebuques do cotidiano
Pra sensibilizar seu coração
Com minha dor, com meu pesar insano.

Pisa, machuca, fere-me, magoa.
Vai e me deixa assim, plantado à toa
Chorando, entregue à minha própria dor

Sempre sorrindo, finge-se de cega
E na rede veloz em que navega
Bloqueia o nome do compositor…