De poeta para poeta

Efeméride
Obdias Araújo para Carlos Nilson Costa

Certa vez me vi no portão de tua casa.
Havia nuvem no céu e sorvete na esquina
e declamavas para mim teu penúltimo soneto.

Se alguém disser que minto discordarei veemente
pois vestias verde com rosa Dulce estava na janela
eu estava bêbado e um caminhão
se arrebentou no muro.

Gosto de pensar que
naquele dia
bem como hoje
era teu
aniversário.

Um Carnet Social
só para o Poeta!

Felicidade

Felicidade
Alcy Araujo (1924-1989)

O poeta hoje está feliz. Está feliz e tem um belo assunto para você. É que neste dia está aniversariando Alcinéa Maria. Não sei se você conhece alguma coisa da minha vida particular e sabe que eu amo Alcinéa Maria. A que tem cabelos cor de mel e olhos grandes e castanhos, que também me ama, que sente uma necessidade inevitável da minha presença, do meu amor e do meu carinho. Que vai até as lágrimas se eu lhe causo qualquer desgosto, mesmo involuntário.

Alcinéa Maria, a que me espera de braços abertos, tendo nos lábios o mais belo sorriso que eu conheço, cada vez que volto para o seu amor, a que vem feliz ao meu encontro, a que pede carinhosamente para que eu não parta, para que eu não a deixe ficar.

Hoje a bem amada está fazendo aniversário e o poeta está imensamente feliz. Confesso que hoje beijei sua face linda, acariciei seus cabelos cor de mel, sob a luz difusa da aurora e recebi em troca o seu carinho. Confesso que quase não tive forças para deixá-la. Porém, logo mais estarei ao seu lado. Digo mais que só me afastarei para vê-la mais feliz do que nunca assistir a minha volta. Você que ama sabe o que é a dor do afastamento e a suprema alegria da volta. Nada é mais belo do que a volta para a Bem-Amada.

Outra confissão que faço a você, aos que não conhecem certos detalhes da minha vida, é que minha esposa sabe que amo Alcinéa Maria e não tem ciúmes, e fica feliz sabendo que minha Bem-Amada é feliz ao meu lado.

Como hoje a Bem-Amada está fazendo aniversário, a minha esposa vive comigo os mesmos momentos de felicidade e de alegria.

Um dia magnífico, o de hoje. Alcinéa Maria, a de cabelos cor de mel, olhos grandes e castanhos, completa quatro anos dentro da sua inocência de anjo.

Deus te abençoe, minha filha.

(Crônica publicada em fevereiro de 1956 em jornal. Está também no livro Autogeografia lançado em 1965)

Reencontro argilomolhado – uma crônica de Alcy Araújo para o poeta Juraci Siqueira

Reencontro argilomolhado
Alcy Araújo (1924-1989)
Estou só. Com meus comigos. Nem sequer penteei os cabelos. O primeiro cigarro tem gosto de merda e argila. Não ligo a TV para as primeiras notícias e ignoro o triiim do telefone.
Um quadro de Frank Asley e outro de Áldeno me espiam da parede. Minha estante, meus cinzeiros, minha bengala estão imóveis. A “Remington 33” é azul e os meus óculos bifocais brilham de pernas abertas, prostituídos pelos meus olhos cansados de ver.
Eu estou só. Um poema clonal transita na manhã que estremunha meu acordar. Além do mais, minhas soledades reincidentes.
Eis que adentra Antonio Juraci Siqueira. Encadernado na “Piracema de Sonhos”. É um reencontro. Revejo o poeta de avental e sandálias, no açougue onde, bem ao lado no botequim do João do Roque, eu frequentava mesas despidas de encanto e vestidas de pensamentos alcoolados.
Discutíamos meteorologia, quando os barômetros estavam em nós, nos pressionando… É o mesmo Juraci. Acontece que mais cheio de verdes, que ele gapuiou sabe Deus em que brenhas existenciais. Os seus versos agora têm lonjuras amazônicas, se multiplicam em reinos mágicos, em terra molhada, em lianas gotejantes.
Isto posto, me inundo e choro, porque descubro que me perdi nas enseadas, no cais de Belém, na foz do Cajari, após o parto de catedrais no ventre da selva inchada de cantos.
E todos os peixes, todos os igapós, todos os barrancos, cipós, sonhos, botos, boiunas me envolvem, me carnivoram, me enlunecem.
“Piracema de Sonhos” não é apenas um reencontro – livro úmido, ecossistemático, cromático, vivo como um peixe ovado que sobe o rio – é o milagre de me fazer um pouquinho menos só e um pouco mais poeta.
Fico indeciso entre duas garrafas (pinga e vodka) e tomo uma talagada de cachaça, pois o momento tinha cheiro de paxiúba acabada de cortar.
Foi aí que lembrei que um dia houve uma cabocla de pele macia como penugens, que me amou, sem falar de “espelhos ou de punhais” Então rezei um verso e escrevi esta crônica para voltar aos meus comigos.
Obrigado, Juraci. Vou contar dos teus sonhos para o poeta Álvaro da Cunha. As iaras sabem que tu existes, na lâmina prateada do Cajari. O Paes Loureiro, também. E eu, pô.
(Crônica de Alcy Araújo  publicada no jornal “Combate”, no dia 16 de maio de 1987, em Macapá, após receber, das mãos do poeta Juraci Siqueira, um exemplar autografado do livro “Piracema de Sonhos”, vencedor do I Concurso Literário de Temática Regional, gênero poesia, promovido pela Secretaria de Estado de Cultura, Desportos e Turismo, em 1985. Na crônica Alcy  lembra de quando  frequentava o bar do João do Roque ao lado do açougue onde Juraci trabalhava e quando diz: “discutíamos meteorologia” é porque, na época, Juraci estudava para fazer vestibular em Meteorologia).

Noturno

De noite
eu vigio estrelas.
Me embriago
de amor e luar.
Passeio com Hemingway em Paris.
Visito os becos de Goiás
com Cora Coralina.
E com Quintana
tento descobrir
o que é que os grilos
passam a noite inteirinha fritando.
Dormir
é bom de manhãzinha
quando o sol
– ainda sonolento e tímido –
pula minha janela
pra me ninar.
(Alcinéa Cavalcante)

Um soneto de Obdias Araújo

Soneto da crueldade
Obdias Araújo

Eu fiz uma canção para você
Consolo-me, cantando o dia inteiro
Na cama, na cozinha, no chuveiro,
O canto que compus para você.

Eu posto sempre, sempre, esta canção
Nos feicebuques do cotidiano
Pra sensibilizar seu coração
Com minha dor, com meu pesar insano.

Pisa, machuca, fere-me, magoa.
Vai e me deixa assim, plantado à toa
Chorando, entregue à minha própria dor

Sempre sorrindo, finge-se de cega
E na rede veloz em que navega
Bloqueia o nome do compositor…

Faz Tempo

Faz Tempo

Faz tempo
que eu não escrevo
um poema
um verso
um soneto.

Faz tempo que eu não rabisco
uma crônica
um conto
uma reportagem.

Minha caneta ficou rebelde.
Deu agora de ter vontade própria
e a única coisa que quer fazer
é rabiscar teu nome.

E nem és notícia.
Muito menos um poema.

(Alcinéa)

Estas mãos – Alcy Araujo

Estas mãos
Alcy Araujo (1924-1989)

Chegaste muito de leve e eu te estendi as minhas mãos. As mãos que falam a linguagem que eu não escrevo e as palavras que eu não posso dizer. Sei que entendes as minhas mãos e compreendes a sua gramática simples, feita de verbos e de pássaros.

O poeta declarou que foi com as mãos que o homem fez o sonho. Eu construí, com minhas mãos, a minha alma. Elas falam do meu amor, da minha esperança, da necessidade de tua luz dentro da noite em que produzi o barro e a estátua do nosso desespero.

Uma vez colheste as minhas mãos e elas se transformaram em imagens que tu abrigaste em teu seio, onde se transmudaram em pássaros e reproduziram ternuras há milênio, conclusas.

Um dia encontraste as minhas mãos cheias de lágrimas. Em outro, elas carregavam rudeza e maus-tratos. Em outro mais conduziam o gesto de bondade, que aquele lavrador crucificado que falava em aramaico, semeou pelo mundo.

Sei que te lembras quando elas estavam nervosas e coléricas e derramavam gritos de revolta. E quando tocaram muito de leve os teus cabelos, e era noite, e éramos o amor. E lembras também quando elas acariciaram a tua pureza e enxugaram as lágrimas que cresceram em teus olhos e iluminaram nossa sofrência, hora em que descobrimos nós dois e a nossa solidão.

E aqui estão as minhas mãos que se purificaram pelo teu beijo e cantam canções que só tu não desconheces, porque foram feitas dos segredos de nos dois.

Mãos que encontram as tuas mãos na renovação das partidas e na ânsia dos encontros repetidos. Mãos que se separam das tuas e para elas voltam em cada dor, em cada sonho, em cada aflição.

Aqui estão as minhas mãos: tuas mãos. Que te amam e imploram o perdão que tu não negas. Que são o sal das lágrimas. Que são paz e sol, silêncio e mar. Que são barcos e murmúrios.

Aqui estão as minhas mãos, falando palavras feitas de pássaros e de ausências e cantando canções sonhadas em segredo. Deposita nelas a tua esperança, porque posso dizer a ti: com elas construí os nossos destinos e o nosso amar, perante o Deus inaugural e uno, que nos ensinou o grande e aberto gesto de sofrer.

(Extraído do livro Ave Ternura)

Estrela no Céu – Belíssima crônica natalina de Alcy Araújo

ESTRELA NO CÉU
Alcy Araújo Cavalcante (1924-1989)

Olho para o Oriente e vejo, além da minha compreensão, uma estrela no céu. Não é a minha estrela da guarda. É uma estrela diferente, no brilho e na cor. Querem me convencer que é um cometa. Não acredito. Descubro que tem vida e transporta uma mensagem de fé, de esperança e de concórdia.

Posso ouvir sua voz no silêncio da noite e sinto seu perfume e a sua música. Apesar de ser assim não fico assombrado. Não tenho nenhum medo dos meus medos cotidianos. Sinto que a estrela fala comigo e diz: “Segue a minha luz”  e estendo os braços em direção à cidade de Belém.

Alguma coisa muito bela vai acontecer na cidade, porque a estrela tem música e o céu está perfumado nestas noites claras em que os anjos passam apressados no azul. E o azul é mais azul e a luz é mais luz. Deve ser tempo de nascer esperança.

Também é muito estranha a passagem daquela caravana de Reis Magos. Eles são de tribos diferentes. Um tem a pele cor de ébano. O outro tem a pele curtida pelo sol do deserto. E há um terceiro, de cabelos dourados e pela branca como a neve das estepes. Não sei onde os seus caminhos se encontraram. Mas eles vão juntos e olham para a estrela. Sinto que estão fascinados. Isto diz que vai acontecer uma coisa muito importante no mundo. E eu não tenho nenhum medo.

Deve ser uma coisa muito linda, tanto que meu coração sente uma imensa alegria. Acho que vai nascer um menino na cidade de Belém. Mesmo porque as flores estão sorrindo e quando as flores sorriem é porque vai nascer uma criança.

Este negócio de anjos passando também é muito significativo.

Meu coração se apercebe que uma grande luz se aproxima do mundo e que a escuridão enorme dos nossos pecados pode ser dissipada.

Há mais uma coisa. Olho para Roma e vejo que os deuses fitam-se com admiração e assombro e sei que está chegando uma nova era. Esses reis passando, essa estrela diferente, essa música vinda dos céus, esses anjos … tudo é muito concludente.

Na certa vai nascer uma criança na cidade de Belém da Judéia e haverá paz aos homens de boa vontade.

Para meus filhos

PARA MEUS FILHOS
Alcy Araújo Cavalcante (1924-1989)
Escrevo para meus filhos. Para dizer que é tempo de esperança entre tantas desesperanças e que há, no coração grisalho, a certeza de que me realizei em vocês, em cada nascimento de vocês, em cada Natal de vocês.
Poderia dizer outras palavras, alinhar outras expressões. Mas acho que dizendo que me realizei em vocês, estou dizendo o melhor que vem do meu dentro, do que sou, do que amo como pai e como homem, cargueado pelas vivências cotidianas e relativas.
Desejo que vocês e todos que tomarem conhecimento desta crônica fiquem sabendo que eu os amo, porque vocês estão em mim, nas minhas horas nuas, nos meus instantes mais íntimos, nas coisas que mais me pertencem, como me pertencem as mágoas que plantei como um lavrador de angústias.
Estamos mudando e eu não vou garimpar palavras, nem costurar termos estabelecidos, nem concretar um poema. Não que vocês não mereçam. É que tenho medo de não ser transparente, não existir à luz equatorial, não exibir suficientemente esta alegria de curtir vocês em cada vereda por onde passam meus pés nus e pesados como barcos que buscam o fundo do mar, do grande mar absoluto.
Gostaria de construir nesta página o meu sonho, o destino de cada um. E vocês teriam as mais belas profissões, como as de santos, poetas, sacerdotes, pintores… mas quem sou eu, além de um pai, para construir destinos?
Todavia, eu ergo as mãos plenas de carinho e acaricio a cabeça de cada um, num gesto de bênção. Deus os abençoe, pelo muito que consegui ser como poeta e como homem sofrido. Feliz Natal para vocês…