Um poema de Álvaro da Cunha

Segredo
Álvaro da Cunha

O Verso é apenas uma forma
pálida e imprecisa.
Não diz do intraduzível sentimento,
da realidade latente e obsessiva,
do espírito intangível,
irrevelado e esquivo que há em mim.

Ninguém se iluda:
Sou um misto de êxito e desordem.
Conheço o receio da palavra
e a indecisão do gesto.

Dos apetites rudes,
clamorosos,
do meu corpo,
da volúpia sofrida e revoltada,
do meu sensualismo pela vida,
da ternura que anda em minha alma,
eu não diria nada.

O Verso é apenas uma forma
pálida e imprecisa.

(Extraído da Antologia Modernos Poetas do Amapá – 1960)

Poema do Louco

Poema do Louco
Ivo Torres

Caminha o louco.
O céu do louco tem cor
permanente.

A alma do louco acoita
canções, que muitos cantam,
sem conhecer.

O louco não gosta de flores.
Aliás, nunca viu flores
genuínas.
Nem mulheres.
Nem meninos.
Nem nunca foi menino.

Não tem casa.
Não tem leito.
Não tem relógio.
Só tem a rua.

A rua branca
e sincera do seu mundo.

Neste momento, o louco chora,
porque lhe disseram que há
loucos que se curam.

(Extraído da Antologia Modernos Poetas do Amapá – 1960)

Poema com destino à Noruega

Poema com destino à Noruega
Alcy Araújo

Eu ando com a cabeça baixa e dolorida
tateando na sombra dos guindastes
o corpo flácido das mulheres das docas
dentro da noite no cais.

Por que passam por mim tantos
marinheiros, navios, ondas balouçantes?

Se eu pudesse
descansaria a cabeça dolorida
num saco, num fardo, numa caixa,
depois escreveria um poema simples
e montava-o na onda com destino à Noruega.
E a moça loira que o lesse ao sol da meia-noite
não saberia nunca que sou negro, fumo liamba
e tenho as mãos revoltadas e calosas.

(Do livro Autogeografia – Macapá-AP – 1965)

Um poema de Arthur Nery Marinho

Poema
Arthur Nery Marinho

Vem.
Já começa a chover.
E, neste inverno,
outras flores virão
em substituição
às que morreram no verão passado.

A água do poço, agora, é cristalina.
Parece até com lágrima divina,
se
a divindade é pura como a água.

Vem.
Meu pequenino lar,
melhor que o mundo,
se alegre está,
maior prazer terá
ao dar-te abrigo, por um dia que seja.

(Extraído da Antologia Modernos Poetas do Amapá – 1960)

Um poema de Bruno Muniz

Soneto ao horizonte
Bruno Muniz

Como fosse o céu poente de uma estrela,
um quase-instante em fina alegoria,
parnasiana e compulsivamente,
à cor dos olhos, turvos, se perdia.

Desengonçada a paz que a nuvem coube
à sina de um naufrágio azul brilhante,
como se as pombas pelos versos caiem
alvura tanta que no céu se esconde.

Diria eu saber ouvir estrelas?
dirias tu que falo aos cotovelos?
Se tão te avexa indefinir o dia,

deixo-te então cabido às asperezas
a caminhar cingido aos tornozelos
o escuro estampido da mente vazia.

Bruno Muniz é autor do livro “Cem versos putos sobre mim” (que já li, reli e recomendo) e anuncia para o breve o lançamento de “Depois vá ver o mar”, já aguardado com ansiedade pelos amantes da boa poesia.

Um poema de Aluízio da Cunha

Não me peças, Maria
Aluízio da Cunha

Não me peças, Maria,
um poema de amor,
profundamente musicado pelas rimas.
Não me peças, Maria,
um poema de amor.
Olha, Maria,
os jatos perturbaram
a melodia nascente
da primeira canção deste poeta.

(Extraído da Antologia Modernos Poetas do Amapá – 1960)

Um poema de Ana Alves

Meus sonhos
Ana Alves de Oliveira

Meus sonhos
São enfeitados
com a beleza das flores,
iluminados com o brilho das estrelas,
aquecido com a luz do sol.

São transformados
pela alegria do florescer da primavera
e vou colorindo com as doces lembranças
vividas em outro
tempo.

Vou colorindo meus sonhos
com a cor da primavera
e  bordando com a cor da rosa amarela .
Meus sonhos são feitos de felicidade.

Um poema de Alcy Araújo

VERDE PRETÉRITO
Alcy Araújo

O sapo era verde
no lago verde.
O lodo era verde
no mar tão verde.

Eu era verde
ao poema verde.

A amada era verde
de olhos verdes.
O amor era verde
nos anos verdes.

A fonte era verde
a esperança era verde
e logo secou.

O sinal era verde
o carro era verde
a infância era verde
e se apagou.
(Do livro Autogeografia – 1965)