Chá da tarde

Coração Fracassado
Waldemiro Gomes (1895-1981)

Meu pobre coração: Tu fracassaste;
Sofreste a desventura de supor,
Que amando tanto quanto tu amaste
Não podia morrer tão grande amor!

Amor de coração de sentimentos;
De dores de saudade, de alegrias;
De comum tão total de pensamentos;
De sonhos a nascer todos os dias!

Amor que se refunde a cada instante;
Exaltando querer: idolatria!
Amor! Tão grande amor!
Amor constante.
Meu pobre coração: tu fracassaste.

Mas sublime na dor e na agonia:
Ao deixar de bater me perdoa.

Poeta em destaque – Fernanda Rabelo

Será que
Será que é fácil, será que é difícil

Será que vivo ou apenas existo

Será que tracejo um caminho diferente

Ou será que eu sou só um pouco insistente?
(Fernanda Rabelo)

“Eu não consigo me intitular poeta, mas ao que tudo indica eu escrevo poesias”, diz Fernanda Rabelo, 24 anos, que, estimulada por amigos que conhecem seu talento,  pretende lançar seu primeiro livro de poesias e pensamentos até o final do ano. Para arrecadar recursos para a impressão está fazendo uma rifa (veja no final do texto).
Embora diga que não consegue se intitular poeta, Fernanda é poeta sim. Sua poesia é leve, lírica, gostosa de ler e de sentir.
Ela começou a escrever ainda adolescente, quando cursava o ensino fundamental e se apaixonou pela literatura. Mas seu sonho na época era escrever letras de música. “Não consegui“, diz. Daí partiu para a poesia. “Quando eu aprendia uma palavra ‘bonita’ eu queria tentar falar coisas bonitas em rima”, conta.

Fernanda diz que não tem um poeta preferido. É poesia? Ela lê tudo. Desde Salomão na Bíblia, ao coreano Kim in Yook, de quem destaca o poema “A física do amor’.

“Eu gosto muito de ler poesias, elas tocam fundo na gente, parece que o mundo é mais bonito, ou mais profundo nos olhos de um poeta”

Fernanda não tem uma rotina para escrever. Escreve a qualquer hora e em qualquer lugar, basta que sinta vontade ou necessidade de se expressar. Quando surge essa vontade ou necessidade, ela anota em um caderninho ou no celular. “A inspiração vem das minhas emoções. Eu sinto, tenho ideias, anoto e depois tento fazê-las ter sentido, ou parecer com poemas. Eu vejo a escrita como um teórico que li, que diz que a literatura é criadora de mundos. Da mesma forma como a palavra me liga ao outro, me permite entender o outro e me comunicar com ele.”

Eu escrevo para expressar o que as vezes me machuca e oprime, escrevo também pra compartilhar as palavras bonitas que não consigo dizer.

Além de poesias, Fernanda escreve contos. “Eu comecei uma história, e ela é intitulada ‘Outro mundo’, eu escrevi a primeira parte, mas na chegada ao outro mundo acabei deixando a história de lado”. Conto que ela pretende retomar depois que lançar seu livro de poesias.

Formada em Filosofia e atualmente cursando Letras/Inglês, considera que sua rotina diária é bastante comum: ajuda nas tarefas domésticas, estuda, faz seu devocional (ela é cristã), ouve música, canta, lê e assiste filmes ou programas de TV que lhe façam “esquecer um pouco da realidade”.

“O primeiro livro que li foi a Bíblia, eu vejo como um manual, como um livro de história que eu uso para saber coisas sobre o passado e previsões do futuro.”

Três poemas de Fernanda Rabelo
A procura de um herói
Ah, como a gente quer alguém que nos salve

Como a gente quer alguém com um tom suave

Não só nas palavras, mas no toque

Alguém que nos conforte

Alguém que nos leve desse temporal

Alguém que no fim nos livre de todo esse mal.

O menino sozinho
Eu me machuco

Eu me desculpo

E finjo que tudo vai ficar bem

Eu me enlouqueço

Eu estremeço

E no fim do dia o bem vem

Nas minhas experiências há tantas carências, quanto

as de um menino andando na lua

E pinto, eu risco

No meu peito rabisco a falta que eu sinto tua.

Inconstância
A inconstância enche meus dias

este, ou aquele, tanto faz!

Este hoje, aquele amanhã

É isso que a inconstância faz.


Não importa se o amanhã existirá,

afinal… ter sempre o mesmo pra quê?

É sobre ser sábio na ignorância e saber

que não posso ter pra sempre você.

Entardecer

Entardecer

Te  prometo, Poeta,
que no próximo entardecer
vou pintar um arco-íris
para deixar tua tardezinha
menos triste.

Hás de sentir que o entardecer
pode ser tão belo
quanto o alvorecer
que ilumina teu rosto
e abre sorrisos no teu olhar.

Presta atenção, Poeta,
o entardecer
é o momento solene
no qual Deus apaga o sol
para acender a lua e as estrelas
Principalmente aquela estrela
que tanto te encanta
quando estás
tecendo sonhos
e versos na madrugada.
(Alcinéa)

Explicação

Explicação

Vivo do ato de escrever
sobre tragédias
e espetáculos
sobre o candidato vitorioso
e o derrotado
sobre o deputado corrupto
e o governante que finge ser honesto
sobre a exportação da mandioca
e a importação da farinha
sobre a fome e a riqueza
sobre o real e o dólar.

Perdoa-me, Anjo.
Não sobrou tempo
para escrever
um poema de amor.

(Alcinéa Cavalcante)

Musical

Musical

Depois do show
quero descansar a cabeça
no teu ombro
no teu braço
no teu peito
e sonhar
para que a canção
não fique apenas na brevidade
desta noite
mas se eternize em nós.

(Alcinéa)

Poema para o amigo

Poema para o amigo
É possível que eu te conte
uma história de príncipes e fadas
que escutarás com o olhar perdido na infância.
Ou que te conte uma piada tão engraçada
que rolaremos de tanto rir.
Nossas gargalhadas contagiarão os passantes
e de repente todo mundo estará rindo
sem nem saber por quê.
É possível
que eu faça um café com tapioca e te chame
pois café, tapioca e amigo tem tudo a ver.
É possível que eu chegue na tua casa sem avisar
só pra te ofertar uma rosa que acabara de nascer
e te oferecer um Johrei.
É possível que eu te ofereça uma música no rádio
ou te mande, pelo Correio,
uma carta numa folha de papel almaço.
É possível que eu te ligue
no meio da noite
no meio do dia
a qualquer hora
– mesmo na mais imprópria –
só pra dizer:
Amigo, eu amo você.
(Alcinéa Cavalcante)

Vem, amado

Vem, amado

Vem, amado meu,
enquanto existem borboletas amarelas
e um beija-flor
beija a flor
que Deus plantou no meu jardim.

Vem, amado meu,
enquanto o vento brinca com as nuvens
criando códigos
que só nós dois sabemos decifrar.

Vem, amado meu,
enquanto há risos de crianças
e a tarde está pintada de ternura.

Não demores, amado meu,
Pois o meu amor é breve
como esta louca vontade
de sair bailando contigo pela vida.

(Alcinéa Cavalcante)

Chá da tarde com Maria Helena Amoras

A Rosa
Maria Helena Amoras

Na escuridão do tempo
eu vi a rosa passageira
era muito mais bela
que a rainha do amanhecer.

Entre o mistério da noite
estava exposta e descoberta
uma visão estranha do lilás
que aos meus olhos desperta.

Não sei a cor, mas era linda.
Se era branca ou vermelha,
violeta, azul ou cinza
nada igual se assemelha.