Chá da tarde

A Rede
(Glória Araújo)

A rede velha comeu foi fogo
com nós dois pra lá e pra cá,
O suor cobria nosso corpo
Ajeita a rede, balança a rede,
A rede querendo rasgar
E nenhum queria parar.

Eu rangia os dentes e gemia
Ele dizia: agüenta, meu bem,
Que já vou terminar.

Depois de muito esforço
puxamos a rede e o que vimos
valeu todo o sacrifício
O peixe era enorme
dava para o almoço e jantar.

Chá da tarde

Vida de rio
Mauro Guilherme

É esse o rio que me leva,
Flutuo, volteio, passo,
Como o vento a ir e vir.
Ondas do meu mundo,
Águas ternas e doces,
Deixem-me a brisa sentir.
O rio é tão grande,
A vida é tão dura,
Às vezes tufões a seguir.
Rios da minha vida,
Águas dos meus olhos,
Ainda estou por aqui.

Chá da tarde

Rosa sangrando
Alcy Araújo

A rosa sangrava
como um poeta.
Uma rosa atropelada
por passos apressados
de operários na calçada.
A rosa sangrava
defronte do anúncio luminoso
amenizado pela luz da manhã
que nascia do mar.
Era uma rosa rubra
sangrando
sem jardim
sem mão mulher
sem os cabelos de Izaura.
Nunca mais esqueci
aquela rosa sangrando
como um poeta bêbado
despetalado na calçada.
(Do livro “Jardim Clonal”

Do Amapá ao xaxado

DO AMAPÁ AO XAXADO
João Aires da Silva

Desculpe, há um intruso no Ceará!
Caboclo marabaixo e gaiato.
Em plena terra de Luiz Gonzaga,
Desafia o Cearense no xaxado!

Não sei de onde veio à ideia,
Dos passos de xaxado dançar!
Compadre Lampião, lá de cima disse,
Esse cabra podia no meu bando entrar!

Disse-lhe então Maria Bonita,
Cuidado, não se iluda Virgulino Lampião!
Esse cabra não é daqui e só dança marabaixo,
Não é do Sertão; está de passagem, é lá do Mazagão.

Compadre Lampião meio desconsertado,
Disse a São Pedro; aprendi e sei que não tombo.
No tempo que corria na caatinga do sertão,
Desse cabra tirava uma tira do lombo!

São Pedro retrucou e lhe disse baixinho,
Já esqueceste que aqui há preces e afago?!
Esse cabra que queres tirar uma tira do lombo,
É protegido e é lá da terra de São Tiago!

João Aires da Silva
Beberibe/CE

Chá da tarde

RELICÁRIO
José Queiroz Pastana

Um sonho antigo me tornou emotivo
Colocou o meu coração num relicário
Entregou a felicidade de forma inocente
Prometeu gostar de mim altivamente.

Renunciou à vaidade a bela Senhora
Afagado fingimento em dolorido temor
De vossa lembrança branda e suave
Estampado no rosto o mal de vos amar.

Deixei o mundo p’ra trás, agora é você
Por vós morro de amor o tempo todo
O desejo libertino dos teus belos olhos
Causa dentro de mim um grande frisson.

Desolado por causa da vossa ausência
Sei que não mereço tamanha angústia
Os meus olhos brilham esperançosos
Quando da alegria se tiver vosso amor.

(Extraído da coletânea Poetas na Linha Imaginária)

Flor de Jade

Flor de Jade
Obdias Araújo

Perdoa meus arroubos
Meu excesso de romantismo
Meu deslumbramento de menino
Minha sede de amante
Meu olhar fixo no teu.

Perdoa se às vezes pareço te querer
Presa em meus braços. Quero sim
Te envolver em meu abraço
E sentir que fechas os olhinhos
Prazerosa como a siamesa no cio…

Perdoa se não te trago ouro
Incenso e mirra. É que
Gaspar Belchior e Baltasar
Zeraram o estoque.

-Taí Alcy Cavalcante de Araújo
Homem do Cais
E taí Alcinéa Cavalcante
Eles que nunca me permitiram
Falsear a verdade.

Mas posso te dar uma
Floresta de Origamis
Um copo de Don Perignon
Safra 195i
E uma flor de jade
Que roubei do caramanchão
Quando Tondo foi buscar
Minha quinta ou sexta xícara de café
E mais algumas pupunhas
Que eu sempre repetia
O mesmo pedido
Para ficar alguns minutos
Sozinho contigo…

Você lembra
Telmitcha?
Era já noite e duas
Estrelas e meia
Testemunhavam
Nossos beijos
E aplaudiam
Nossas juras
De eterno
Amor

Chá da tarde

MINHA POESIA
Alcy Araújo

A minha poesia, senhor, é a poesia desmembrada
dos homens que olharam o mundo
pela primeira vez;
dos homens que ouviram o rumor do mundo
pela primeira vez.
É a poesia das mãos sem trato
na ânsia do progresso.
Ídolos, crenças, tabus, por que?
Se os homens choram suor
na construção do mundo
e bocas se comprimem em massa
clamando pelo pão?
A minha poesia tem o ritmo gritante
da sinfonia dos porões e dos guindastes,
do grito do estivador vitimado
sob a lingada que se desprendeu,
do desespero sem nome
da prostituta pobre e mãe,
do suor meloso da gafieira
do meu bairro sem bangalôs
onde todo mundo diz nomes feios,
bebe cachaça, briga e ama
sem fiscal de salão.
– Já viu, senhor, os peitos amolecidos
da empregada da fábrica
que gosta do soldado da polícia?
Pois aqueles seios amamentaram
a caboclinha suja e descalça
que vai com a cuia de açaí
no meio da rua poeirenta.
Cuidado, senhor, para o seu automóvel
não atropelar a menina!…

Um poema de João Aires

Em volta do mundo
João Aires da Silva

Caminhando pelas voltas do mundo vou,
Deixando na costa o teu agrado.
Há dias que em vão te procuro,
Estou cansado, mas não paro sossegado.

Dia e noite os pés a caminho se vão,
São pares de passos contados e cansados.
As muitas vozes que ouço não são as tuas
Corro lento, de pés descalços e calejados.

Vem mulher, apareças de corpo e alma,
Os dias que se passam são minha tortura.
As ladeiras que subo e desço cansam o corpo,
Nasce na minh’alma a esperança futura.

Atravesso montes e caminhos penosos,
Procuro mas não acho o corpo teu.
Acena mulher; apareças ao meu alcance,
Abre os teus braços ao corpo meu.

Noturno

De noite
eu vigio estrelas.
Embriago-me de amor e luar.
Passeio com Hemingway em Paris.
Visito os becos de Goiás com Cora Coralina.
E com Quintana eu tento descobrir
o que é que os grilos
passam a noite inteirinha fritando.

Dormir
é bom de manhãzinha
quando o sol
– ainda sonolento e tímido –
pula minha janela
pra me ninar.

(Alcinéa Cavalcante)