As Máscaras

As Máscaras
Fábio Nescal

Há tantos rostos inocentes
Neste cenário universal
Rostos suaves e irreverentes
Não usam máscaras de carnaval.

Rostos tristonhos… indiscretos
Ser viventes, dissimulado…
Rostos secretos escondem mistérios
As vezes são mal-encarados.

Rostos fingidores… sedutores
Não demonstram o que há
Por trás dessas máscaras
O que vamos encontrar?

A máscara da hipocrisia
Intensifica perante a sociedade
Nas ilusões do dia a dia
Sem a essência da dignidade.

Poema para o amigo

Poema para o amigo
Alcinéa Cavalcante

É possível que eu te conte
uma história de príncipes e fadas
que escutarás com o olhar perdido na infância.
Ou que te conte uma piada tão engraçada
que rolaremos de tanto rir.
Nossas gargalhadas contagiarão os passantes
e de repente todo mundo estará rindo
sem nem saber por que.

É possível
que eu faça um café com tapioca e te chame
pois café, tapioca e amigo tem tudo a ver.

É possível que eu chegue na tua casa sem avisar
só pra te ofertar uma rosa que acabara de nascer
e te oferecer um Johrei.

É possível que eu te ofereça uma música no rádio
ou te mande, pelo Correio,
uma carta numa folha de papel almaço.

É possível que eu te ligue
no meio da noite
no meio do dia
a qualquer hora
– mesmo na mais imprópria –
só pra dizer:
Amigo, eu amo você.
(Alcinéa Cavalcante)

Um poema de Luis Carlos Cardozo

Poema do 55
(Luis Carlos Cardozo)
I
Se eu fosse cronometrar
Tudo o que me aconteceu
Desde os tempos de criança
Até a idade que Deus deu
Diria que o que fiz menos
Foi andar com o pé no chão
São uns cinquenta anos de sonhos
E o resto de realização…
II
Trabalho desde os dez anos,
Não vim aqui reclamar.
Da cuba de picolé a enxada de capinar,
De cambista do jogo do bicho
aos móveis pra polir e montar,
Foi tudo um aprendizado
Até num concurso eu passar.
III
Estudar foi uma vida:
Desde as noites mal dormidas
E lamparina acesa pra ler.
Foi com essa lida sofrida
Que na faculdade da vida
Consegui crescer e vencer.
Mas já conto uns trinta anos
Que eu leio por prazer.
IV
Chorar, chorei uns dez anos
Menino choraminguento!
E choro até hoje em dia
De tristeza ou contentamento!
Mas sorrir, mostrar o dente
Foi de quarenta pra frente
Sorrio até em velório
Ou pensamento indecente…
V
Viajar é outra coisa
Que em anos posso contar
Quando não vou de transporte
Viajo só no pensar
Mas ao entrar no avião
No carro ou embarcação
Já começa a emoção:
Vou pra felicidade!
Vou tomar banho de rio!
Vou me salgar no mar!
VI
Amar, eu fui aprendendo
Até hoje não sei direito
O amor não traz uma bula
Não tem razão nem preconceito
Já vivi tempos amando
Mas depois do tempo passar
Vi que não era amor
E tive que descartar
VII
Mas se eu contabilizar
Amor por filho e parente
Por amigos, bichos e plantas
O sol, a lua e o mar
Amo desde que nasci!
Amo a Deus! (perdão! quase esqueci!)
E amor pra deitar na cama
Tô esperando de pijama!
VIII
Mas se no poema coubesse
Os anos que vivi em vão
Fazendo coisas não nobres
Para quem se diz cristão:
Eu calcularia por baixo
Um pouco mais de um milhão…
Graças a Deus que só conto
As coisas que contam ponto!
E se não é para o meu bem
Não conto o que não convém!
Pra esse humilde poeta
Cinquenta e cinco! Amém!

O poeta Luis Carlos Cardozo

Um poema em prosa de Fernando Canto

Um pouco além do arquipélago, onde acho que Deus mora
Fernando Canto

Aqui estou olhando a barra azul do outro lado do rio como um cachorro sem osso e babento à espera do Gira Sol de luz que vem do Mar.
Vem, sim. Vem, sim. Ele que traz poesia em suas pétalas e o vento de um ventilador gigante-amarelado em suas palhetas, lá das bandas do Pau Cavado, ou para lá do arquipélago do Bailique, onde eu acho que Deus mora.
Aqui me sento e sinto o valsear incorpóreo de um barquinho de papel vindo de longe, da Casa dos Oiampis, talvez, de um rio de brumas, transportando minha angústia e o meu coração quase sem pulso.
Estou pleno de mim. Assim como a alvineira que acabou de destroçar suas velhas folhas para um verde jovem na frente da cidade. São cores que me acendem em alcalinas manhãs e ocres tardes. Sou, talvez, um compasso sem giro, um quadro inacabado no sfumatto verdadeiro do meu ser, na memória da eternidade interrompida que recorda e me projeta aos rastros de anjos num caminho em busca do Criador.
Ardo. Creio. Ando. Ando não. Vivo a imaginar que o interior do meu corpo diz que o lado externo pode me trazer uma boca aberta de palavras indizíveis e nunca articuladas.
Agora, este instantinho… Acho que o Céu fica um pouco mais além do Pau Cavado, mais além ainda das Ilhas que Bailam e seus resíduos no oceano. E ele e suas marés vêm pelos flancos, encontrar-me neste estado com suas ondas de lâminas quebradas, luzindo sob o Gira Sol ouro-lírico da linha do equador.

(Este poema em prosa dá nome ao novo livro de Fernando Canto, que será publicado ainda este ano. que pretendo publicar ainda este ano, se der tudo certo. São reflexões místicas, sobre a condição humana e o lugar em que o escritor vive)

Um poema de Aluízio Cunha

Os olhos da menina
Aluízio Cunha

Olho os olhos tristes da menina
que perdeu a mãe
que foi ser estrela
que foi ser lua
areia sideral
fragmento de sol.

Olho os olhos d’água
querendo sufocar as praias
alagar o mundo
inundar o globo
afogar o universo
querendo deslumbrar-se em Deus.

Olhos os teus olhos
bem profundamente, menina,
e supreendo
doce amor
amarga saudade.

Um poema de Arthur Marinho

Paisagem Amazônica
Arthur Nery Marinho

Para escrever
meu revoltado verso
jamais dei a volta
ao mundo, meu senhor.

Vim pelas margens dos igarapés
onde o sorriso é doentio e triste
e a ignorância há séculos persiste
e é pálida e mirrada
a própria flor.

Um poema de João Gomes

Um sentimento
Alex João Costa Gomes

Senti seu cheiro ao acordar
Senti o cheiro do seu café invadindo o quarto
Senti uma voz firme e ouvi até um grito, parecia um ralho
Senti o aperto da sua mão ao dirigir
Senti seu corpo tremer, parecia que todos os seus músculos se contorciam
Senti muitas e intensas alegrias
Senti seu olhar em minha direção, como se falasse que me ama
Senti tantas emoções
Senti, sinto, sentimos.

Um poema de Arilson de Souza

Coisa de Poeta
Arilson de Souza

E assim, me veio essa [loucura] de falar das flores,
conversar com os pássaros
e explicar amores.

[Loucura] em descrever a lua descer do céu,
em versar o sol penetrar no mar.
[loucura] em me vestir com asas de Ícaro, e rumo ao horizonte poder voar!

Essas coisas insanas,
que acalmam a alma e a alegra
coisas inerentes a esses “tolos”…
“Tolos sonhadores” que se chamam poetas!