Há 101 anos padre Júlio Maria Lombaerd fundou uma banda de música em Macapá

UM DIA NA HISTÓRIA
Por Nilson Montoril*

16/09/1919 – O Padre Júlio Maria Lombaerd fundava, em Macapá, uma Banda de Música a qual denominou “Philarmônica São José”.
Inicialmente, 15 garotos tocavam instrumentos de sopro diversos e ele, além de regente e instrutor, era clarinetista e saxofonista.
Posteriormente, a Philarmônica foi regida por um músico vindo da cidade da Vigia, no Pará, e chegou a ter 25 componentes. Os instrumentos, todos novos, foram doados por instituições europeias, que apoiavam as atividades de catequese realizadas pelo ilustre sacerdote belga.

*Nilson Montoril é professor, historiador e presidente da Academia Amapaense de Letras

 

Por onde andam?

Carnaval no Santana Esporte Clube nos anos 60. Essas crianças pularam, dançaram, cantaram todas as marchinhas de carnaval e fizeram guerra de confetes e serpentinas. Passados todos estes anos por onde andam e o que fazem essas crianças da foto?

Meu pai

Num dia de tristeza me faltou o velho
E falta lhe confesso que inda hoje faz
(…)
Eh, vida voa
Vai no tempo, vai
Ai, mas que saudade
Mas eu sei que lá no céu o velho tem vaidade
E orgulho de seu filho ser igual seu pai
Pois me beijaram a boca e me tornei poeta
Mas tão habituado com o adverso
Eu temo se um dia me machuca o verso
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
(Trechos de “Espelho”, de João Nogueira e Paulo César Pinheiro)
E sinto uma grande saudade também do meu sogro Moacyr Monteiro Costa. Ele foi como um pai para mim por isso sempre digo que foi um privilégio tê-lo como sogro.
Sei que neste segundo domingo de agosto, Alcy e Moacyr – que estão lá no céu, bem pertinho de Deus – sorriem para nós e nos abençoam.

Daquelas tardes de domingo

Cine Macapá – Av Raimundo Álvares da Costa esquina com a Rua Tiradentes

A cidade era pequena e todo mundo ia a pé logo depois do almoço pro cinema. Ninguém reclamava do sol quente, ninguém se queixava do calor.
Os meninos levavam dezenas de gibis embaixo do braço pra trocar na fila. As meninas sonhavam com o dia em que o Zorro tiraria a máscara.
Lembro de “seu Pedro” na portaria recebendo a molecada com um largo sorriso. De vez em quando deixava um entrar sem pagar ingresso, pois tinha uma pena danada das crianças que não tinham dinheiro para o ingresso.

Retrato em preto e branco

No dia 13 de setembro de 1970, após desfilar garbosamente sob o sol escaldante na Avenida Fab, essa “patota” do Colégio Amapaense bateu esse retrato pra guardar de recordação e lá se vão 50 anos.
Agachados, da esquerda para a direita: Orivaldo, Josué Monteiro, Vera Costa, José Maria e Aloisio Cantuária. Em pé: Laércio (atrás do Zé maria) e Mário Bandeira, de perfil, com as mãos na cintura, entre Orivaldo e Josué.

34 anos de saudade

20 de julho é Dia do Amigo e há exatos 34 anos minha mãe, professora Delzuite Maria Carvalho Cavalcante, pioneira do magistério amapaense, partiu ao encontro do maior e melhor amigo: Deus.
A saudade é imensa. E ainda dói.

Paraense, Delzuite Cavalcante veio para o Amapá ainda muito jovem, a convite de Janary Nunes, tão logo foi criado o Território Federal do Amapá. Lecionou em diversas regiões do interior, às margens de rios e estradas, desenvolvendo seu trabalho no Araguari, Aporema, Cajari e Campina Grande. Sob a luz de lamparinas preparou uma geração de jovens.
Em Macapá, lecionou no Alexandre Vaz Tavares. Fez parte do primeiro quadro de professores das escolas Coaracy Nunes e José de Anchieta. Trabalhou também com educação de adultos no Centro de Ensino Emílio Médici.

Poetisa, amante da cultura e da educação, ao deixar a sala de aula continuou seu trabalho em outros setores de formação da juventude, como a Divisão de Assistência ao Estudante e o Departamento de Assuntos Culturais (hoje Secult).

Delzuite Cavalcante era filha de um português, Domingos Pereira de Carvalho, com Jacinta Alves Carvalho.

Casou-se em 1953 com o poeta e jornalista Alcy Araújo Cavalcante com quem teve quatro filhos: Alcione, Alcinéa, Alcilene e Alcy Filho. Teve duas filhas adotivas: Genassuema e Adélia.

Mãe, na saudade dos que te amam descansa na paz de Deus.

Era assim…

Era assim o Hospital  construído no governo Janary Nunes. Foi uma das primeiras obras em alvenaria de Macapá. Chamava-se Hospital Geral de Macapá (HGM). Sua fachada foi completamente mudada numa reforma feita no governo João Capiberibe.  Em 2003 sua denominação foi mudada para Hospital de Clínicas Alberto Lima (HCAL), em homenagem a um dos maiores e mais dedicados médico amapaense: o pioneiro Alberto Lima, falecido em 1986.
O projeto e a construção do HGM foram do engenheiro e escultor português Antônio Pereira da Costa – que foi responsável  também por outras importantes obras como a escola Barão do Rio Branco e as casas da Praça Barão e esculpiu a imagem de São José (que fica na frente da cidade) e os bustos de Tiradentes (na Polícia Militar) e Coaracy Nunes (no aeroporto) e os leões do Fórum de Macapá (atual sede da OAB).Na frente do Hospital tinha uma pracinha que testemunhou o amor entre vários casais. Contam que namorados das enfermeiras ou das moças que estavam ali internadas “davam plantão” na pracinha para jogar beijos para suas amadas quando elas, de vez em quando, apareciam na janela.

Abrem-se as cortinas do céu para receber Carlos Lima

A plateia ficou atônita, depois uma cachoeira de lágrimas invadiu o teatro  e sob intensos aplausos e choro as cortinas foram cerradas no palco deste plano.
Abrem-se as cortinas do céu para receber o ator, diretor, dramaturgo, professor, declamador Carlos Lima, meu amigo-irmão de uma vida inteira, que faleceu na noite desta quinta-feira  vítima de Covid-19. Uma das pessoas mais importantes do setor cultural no Amapá.
Eu fiquei sem palavras, deixei que as lágrimas corressem livremente pelo meu rosto nesta madrugada em que Júpiter e Saturno dão um espetáculo no céu como que para recepcionar meu amigo.
Carlos Lima fez parte do Movimento Poesia na Boca da Noite. Na foto, Carlinho declamando um poema meu no Pano da Poesia na edição que contou com a participação especial do poeta mineiro Jayme Tijolin

Um pouco da intensa vida de Carlinho é contada neste texto do blog Santana do Amapá:

Um amapaense graduado e apaixonado pelo teatro 
Carlos Alberto Silva Lima era professor de Artes, dramaturgo, ator, diretor de teatro e administrador. Era graduado em Educação Artística pela Universidade Federal do Amapá (Unifap). Desde a década de 1980 que vinha se dedicando ao teatro no Amapá, tendo por base seu trabalho que havia iniciado na cidade de Santana, da qual era residente.
Em função de sua dedicação à arte, foi convidado para dirigir por um período o Teatro das Bacabeiras em Macapá quando na ocasião desenvolveu vários projetos: “Cine ao Meio Dia” onde com entrada franca, pessoas do comércio aproveitavam sua hora do almoço para apreciarem numa das salas do teatro, os mais diversificados filmes; Projeto “Seis e Meia” que acontecia às quarta-feiras; “Projeto Escadaria 2007” que acontecia uma vez ao mês, com várias atividades culturais, mais precisamente no dia de lua cheia; e “Projeto Café da Manhã” que acontecia sempre às segundas feiras, onde além do café se discutia as futuras atividades e pautas do teatro.

Nascido na cidade de Serra do Navio no dia 17 de janeiro de 1961 e foi lá que, ainda criança começou a participar na escola da mineradora ICOMI em dramatizações no âmbito da própria instituição.

Também participava do “canto coral”. Seu 1º personagem foi uma mesa, como ele próprio descreveu certa vez: “Quando eu comecei a fazer teatro, fui uma mesa e jogavam só uma toalha em cima de mim e o ator ficava sentado na mesa. Eu não podia fazer nada, Aí! Eu ficava pensando: Poxa! É muita humilhação para um ator”.

De Serra de Navio mudou-se para a cidade de Belém (PA) onde obteve experiências na área do teatro com o professor e diretor Cláudio Barradas. Na capital paraense fez curso de Teatro na Escola Técnica do Pará. O teatro era algo constante na vida de Carlos Lima. Este ator era tão apaixonado pelo teatro quando afirmou: “Eu brinco de teatro 24 horas por dia, vou para o restaurante com teatro porque sem arte não consigo viver”.

Em 1980 retornou ao Estado do Amapá para fixar residência, instalando-se dessa vez na cidade de Santana onde deu continuidade ao trabalho no Teatro na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, na histórica Vila Maia, juntamente com João Porfírio (o conhecido “Popó”) entre outras atrizes como: Fátima Trindade, Roberto Prata e Sílvio Romero. Em Macapá conheceu a professora Nazaré Trindade que era atriz reconhecida no Amapá, com quem muito aprendeu sobre teatro.

Além de se dedicar ao palco propriamente dito, Carlinhos como era conhecido pelos mais íntimos, quando ainda era aluno da Escola Augusto Antunes, resolveu enveredar pela linha dramatúrgica e foi nos bancos escolares que escreveu “A Raposa Espertalhona”, seu 1º texto teatral que tinha como personagem principal uma raposa.

“Seu Portuga” 
A sua obra prima seria “Seu Portuga e a Língua Portuguesa” que foi criado em 1994, que é um espetáculo premiado e uma das montagens emblemáticas da arte cênica amapaense. O trabalho foi exibido em vários estados do Brasil e no exterior.

Em mais de duas décadas de existência, com o objetivo de incentivar o estudo da língua portuguesa, o grupo fez muitas apresentações em escolas públicas e particulares. O espetáculo era uma “aula” de português – repleta de humor e elegância. O texto, a produção e a direção sempre assinadas pelo próprio ator Carlos Lima (Seu Portuga).

Ao lado das atrizes Sueli Matos e Josiane Ferreira, Carlos Lima interpretaria o personagem principal (“Seu Portuga”). Com um passeio pela história do nosso idioma, fala das classificações gramaticais e das reformas ortográficas. Vai da “fonética à sintaxe, através da personificação de elementos da gramática, como o gerúndio e o pronome pessoal”. Tudo isso numa representação teatral cheia de grandes surpresas artísticas e muito riso.

O velho trapiche de muitas histórias, causos e lendas

O VELHO TRAPICHE

Ainda lembro do velho Trapiche Eliezer Levy, de muitas histórias, causos e lendas.

Nele atracavam embarcações de bandeiras de vários países e os gringos aproveitavam para tomar um sorvete, servido em taça de inox pelo famoso garçom Inácio, no Macapá Hotel.

Era desse trapiche que saíam os navios com destino a Belém. No final das férias iam lotados de universitários que voltavam para as faculdades (não havia ensino superior no Amapá). Nas tardes de domingo o velho trapiche era a passarela da juventude. Depois da sessão da tarde nos cines João XXIII e Macapá os jovens iam como em procissão passear ali. Um passeio obrigatório.

À noite era comum ver na ponta do trapiche um pescador solitário. Um pescador de peixes, ou de estrelas, ou de poesia ou de raios da lua.

Lembro da tão cantada em verso e prosa “Pedra do Guindaste” de muitas lendas. Uns diziam que meia noite a pedra transformava-se num navio de ouro maciço enfeitado com diamantes e esmeraldas. Outros contavam que era uma princesa encantada. E tinha gente que jurava ter visto “com esses olhos que a terra há de comer” a pedra se transformar em princesa quando o relógio marcava meia-noite em ponto.

Um dia colocaram uma imagem de São José, padroeiro de Macapá, em cima da pedra. Pouco tempo depois um navio chocou-se com ela e praticamente nada restou. No lugar foi construído um pedestal de concreto para São José, colocado de costas para a cidade, mas abençoando todos que aqui chegam pelo majestoso rio Amazonas.