Futebol de luto – Bill Maravilha perde o pênalti da vida

Grande craque na década de 1970, faleceu na tarde de hoje o ex-jogador Bill Maravilha – um dos maiores goleadores do futebol amapaense.
Bill tinha 63 anos de idade. Informações que chegam ao blog dão conta que ele passou mal em casa, foi levado ao Hospital de Emergência mas não resistiu a um infarto fulminante, perdendo um definitivo pênalti da vida.
O corpo está sendo velado na sede do MV-13 (Odilardo Silva, Bairro do Trem) e o sepultamento será amanhã.Bill Maravilha jogou no Macapá, Santana e Ypiranga Clube. Foi neste último que passou mais tempo e se tornou ídolo da torcida. Ele fez parte também da seleção amapaense.
Baixinho, mas super veloz, Bill não perdia uma oportunidade de fazer gol. Brincava com a bola e esta lhe obedecia sem contestar. Foi realmente um grande craque.
Na juventude fui sua amiga e, como repórter esportiva na época, entrevistei-o várias vezes. Nos últimos anos poucas vezes encontrei o Bill e nesses raros encontros o assunto sempre era futebol. Rememorávamos suas inesquecíveis jogadas e os tempos áureos do futebol tucuju.
Mas, às vezes, também se trocava o bate-papo sobre futebol pelo bate-papo poético. A foto acima é um registro da presença no craque no Movimento Poesia na Boca da NoiteBill e Dayse Pelaes num entardecer na calçada da casa do escritor César Bernardo em encontro do Movimento Poesia na Boca da Noite. Ele acompanhava atentamente as performances poéticas.

No Macapá Verão de 1981

Julho de 1981 – Eleita Miss Macapá Verão, Elisena Barbosa recebe o prêmio das mãos do saudoso jornalista Haroldo Franco, dono do Jornal do Povo.
O Jornal do Povo era um dos patrocinadores desse concurso de beleza.

Anarriê – Dia de São João era assim

Hoje é dia de passar fogueira, comer canjica e pé-de-moleque, beber aluá, quebrar o pote, subir no pau de sebo, ver o boi e o pássaro, testemunhar casamento na roça… Não, não. Não é mais assim. A cidade cresceu e a tradição foi se perdendo. As quadrilhas já não são as mesmas, já não se grita “anarri-ê”, nem “lá vem a chuva”, “olha o toco”… As meninas que dançam quadrilha já não usam vestidos de chita e os meninos deixaram de usar camisas quadriculadas e calças remendadas. Hoje o figurino é outro e a evolução também. E o Chico Tripa pegou o beco.
Lembro do meu pai fazendo pé-de-moleque, da minha mãe fazendo aluá, de toda gente da minha rua fazendo fogueira, munguzá, cocadinha. Lembro das festas no terreiro. Em algumas casas era uma festança… no quintal, que se chamava terreiro, todo enfeitado com bandeirinhas feitas com pedaços de papel de pão e de revistas, principalmente revistas de fotonovelas.
Lembro do Rouxinol, na esquina da Leopoldo Machado com a Almirante Barroso. Era uma mercearia, mas como tinha um grande quintal o proprietário, Sr. Luís, realizava ali as mais famosas festas juninas da cidade. E chamava quadrilhas, bois e pássaros para se apresentarem. Depois começava o arrasta-pé. E no chão batido as damas da alta sociedade dançavam de salto Luís XV com seus cavalheiros impecavelmente vestidos. A molecada ficava na cerca olhando. Os melhores bois e pássaros se apresentavam lá. Um dos pássaros era do Cutião, o mesmo homem que fazia a boneca da banda. Era uma festa ver o pássaro do Cutião passar, imagine vê-lo se apresentar.
Outra festa inesquecível era numa casa na Avenida Padre Júlio, entre a Leopoldo Machado e a Jovino Dinoá. Lá tinha pau de sebo e quebra-pote.
Até aqui falei no bairro da Favela. Mas o bairro do Trem também era pura alegria. Era de lá a quadrilha mais famosa da cidade. Organizada, ensaiada e marcada pelo “chefe Biroba”. Ninguém marcava tão bem e com tanta animação quanto ele.

(Alcinéa Cavalcante)

Tardes de domingo

Ah, as famosas sessões de domingo à tarde, no Cine João XXIII, onde a gente se divertia com Carlitos, se empolgava com o Zorro e chorava com a Paixão de Cristo.

A entrada era pela Rua São José (onde hoje é o  shopping Vila Nova) e a saída pelo Largo dos Inocentes, bem atrás da Igreja de São José.

Nas tardes de domingo um programa imperdível era assistir filmes do circuito nacional no Cine João XXIII.
Era lá que os jovens marcavam o primeiro encontro com a namorada ou namorado. Quem chegava primeiro guardava a cadeira do outro (a) e quando as luzes se apagavam, aí sim, todas as cadeiras eram ocupadas e os novos casaizinhos assistiam ao filme de mãos dadas. Nada de beijo na boca no primeiro encontro.
Era lá também que a molecada trocava revistas e figurinhas. Muitos meninos iam ao cinema só para trocar revistas. Chegavam lá com aquele monte de  Zorro, Tarzan, Superman, Roy Rogers, dentre outras,  embaixo do braço (não se usava mochila nessa época). Às vezes a fila parava por causa das trocas. Era um tal de “já leu? Já leu? Não. Bora trocar essa por essa” e assim todos voltavam para casa felizes com “novas” revistas para ler que, claro, seriam trocadas no domingo seguinte.
Ah, depois do cinema os jovens  iam dar uma voltinha no trapiche Eliezes Levy (que era também um passeio obrigatório nas tardes de domingo) e se os pais tivessem dado um dinheirinho extra era como um “vale-sorvete”. Sim, quem com um dinheirinho no bolso deixaria de tomar um sorvete servido em taças de inox pelo garçon Inácio no Macapá Hotel? Lembro de colegas que passavam a semana toda juntando uns trocadinhos  (inclusive o dinheiro dado pelos pais para a merenda) só pra tomar no domingo o sorvete do Macapá Hotel.

Do meu velho álbum de retrato

Essa menina aí sou eu com 16 anos. Minha rua não tinha asfalto, as casas não tinham muros, no máximo uma cerquinha de madeira pintada de branco. A maioria das casas era de madeira, cobertas de palhas ou telhas de barro e as janelas eram venezianas. A casa que aparece nesta foto era do professor de educação física e campeão de natação Anselmo Guedes, o “Tio”, a família ainda mora no mesmo endereço, mas a casa já não é assim. Hoje é de alvenaria e muro alto.
E ao lado da casa do “Tio” a casa do Siqueira, motorista de ônibus e de caminhão. Quando o caminhão estava lá estacionado, a molecada se divertia brincando na carroceria. O Siqueira deixava. Não se importava com isso.
Ele era casado com a professora Rosa, com quem teve vários filhos cujos nomes começavam com a letra R. Depois que ele morreu a família mudou-se para outro bairro. A casa foi vendida, demolida e construída outra no lugar.

O início da televisão em Macapá

O início da televisão
Cléo Farias de Araújo*

Antes de 1974, só assistia televisão quem viajasse pra fora de Macapá. Belém era o lugar mais próximo. Era comum alguém, “querendo aparecer” pros outros, dizer que assistiu tal programa ou tal novela em Belém. Imagem, mesmo, só nos cines João XXXIII, Macapá e Paroquial, pois ainda estávamos na era da novela de rádio.

Depois de algum tempo, surgiram boatos de que, na casa do Seu Assis da SEVEL, a antena era tão poderosa que pegava uma emissora de Caracas, na Venezuela. Aí começou a multiplicação de antenas na cidade. Lembro que tinha uma na casa do Pachequinho e outra, na casa do seu José Maria Papaléo, da CAESA. Motivado, meu pai chegou até a comprar uma TV p/b, Colorado RQ, com pernas girafa. Papai, eu e meu irmão mais velho, instalamos a antena. Pra conseguirmos alguma possibilidade de imagem, a antena teria que ficar em lugar bem alto. Assim fizemos. Era um monte de cano de ferro, cheio de argolas, por onde passávamos umas cordas, a fim de sustentá-la. No dia da inauguração da nossa “retransmissora”, parece que o mundo todo estava fora do ar, pois só apareceu chuvisco. E a gente ficou com “cara de burro na frente da igreja”. Descobrimos que, ao menos lá em casa, esse empreendimento foi mera balela. Ainda assim, ficamos vários dias, olhando a TV, enquanto um de nós ia lá fora, para mudar a antena de posição.

Imagem e som inteligíveis, só mesmo com a criação da TV, em nosso pedaço tucuju, no ano de 1974, para a transmissão da copa do mundo da Alemanha. Posteriormente, em 1975, virou TV Amapá. Ali, por algum tempo, trabalhei indiretamente, pois eu tocava numa banda (na época, chamavam-se conjuntos) que fazia a parte musical do programa “Tabajara Família Show”, nas manhãs de sábado, com supervisão de Damião Jucá de Lima.

Porém, há um fato a registrar, pois, em certo lugar de Macapá as transmissões começaram quase dez anos antes.

Em 1967, tal qual Chico Orellana, em relação a Cabral, vindo da Leopoldo Machado, aportou na Av. Mendonça Furtado, ao lado da casa do Sr. Milton Barbosa, um inventor que antecipou o sonho da imagem e som, fora do cinema, ou seja, reproduzidos, conjuntamente, em um aparelho portátil. Esse garoto, com apenas 11 anos criou, de maneira econômica, o invento que revolucionou sua família: uma televisão.

A peça criada, consistia numa caixa de papelão (daquelas nas quais se acondicionavam latas de leite daquela marca famosa) com o fundo cortado, como se fosse uma TV de verdade. No lugar, colava-se papel de seda branco ou amarelo-claro. Atravessando horizontalmente a caixa, a fim de segurar os artistas, um pedaço de fio grosso ou barbante. Para iluminar o invento e fazer com que as figuras aparecessem na TV, era usada uma vela ou lamparina (casa de pobre tinha muito disso). Além disso, o garoto cortou uma figurinhas em papel de embrulho, daqueles rosa ou cinza, das compras feitas nas tabernas do seu Nabi, seu Manoel da Estrela, no Borracha ou no seu Ladico, pois antigamente não havia supermercado e, geralmente, todo dia tinha que se fazer compra para atender as necessidades caseiras.

Como todos os filhos daquela família estudavam pela manhã, suas tardes, após o almoço, eram nas sessões de TV, já que os moleques daquele tempo não dormiam à tarde.

Passearam pela telinha vários heróis. Da Branca de Neve ao Zorro, pois o inventor, copiando o som das novelas de rádio (O Direito de Nascer e Jerônimo, o Herói do Sertão), aprendeu a fazer bem o barulho dos tiros, tropel de cavalos, água jorrando e trovão. Todos os dias a TV era ligada, para alegria da molecada daquela casa. Tempo em que a imaginação transportava os “telespectadores” aos níveis mais altos dos sonhos infantis. Tudo ia muito bem, até o dia em que a mãe da família chegou em casa, à tardinha e nenhuma tarefa doméstica fora feita.

Camas por arrumar,
Casa por varrer,
Louça por lavar,
Tudo por fazer!

Naquele dia ficou fácil se ver pedaço de zorro, Roy Rogers, seus cavalos, Noviça Voadora, Tarcísio Meira e Glória Menezes de papel por todo lado. Até o Batman e o Superman sucumbiram, pois agindo igual ao pessoal da ditadura, quando acabou com o “Jornal do Povo”, a dona da casa não só destruiu a emissora, como distribuiu “aplausos” pelas “mãos” de um famoso “artista”: um galho de goiabeira retirado naquele momento e destinado a “reger a orquestra de ociosos”.

Depois, “de couro quente”, após realizarem as tarefas domésticas, a meninada foi autorizada a construir outra emissora, com a seguinte lição: “Primeiro a obrigação. Depois, a devoção”!

*Cléo Farias de Araújo é advogado, escritor, poeta, membro da Academia Amapaense de Letras