Retrato em preto e branco

Estudantes do Colégio Amapaense, dirigentes do Grêmio Ruy Barbosa, numa manhã ensolarada de domingo no início da década de 1960. Foto feita na Piscina Territorial, que era o badalado ponto de encontro da juventude naquela época.
Em pé, da esquerda para a direita: Iranildo Pontes, Laercio Monteiro, Edemburgo Almeida, José Maria Nery, Ernani Marinho e Francisco Quintela.
Agachados: Abemor Coutinho, Pedro Assis Azevedo, José Borges Tavares, Augusto Monte e Guioberto Alves.

Há 30 anos o poeta e jornalista Alcy Araújo partia para o cais definitivo

“Canto a terra
a dor dos aflitos
e a inútil esperança dos desesperançados.
Também os negros, os índios e o verde
e presto relevantes serviços topográficos
demarcando itinerários de poesia.”
Alcy Araújo
(1924-1989)

Há 30 anos o poeta dos anjos, dos jardins, do cais Alcy Araújo partiu para o cais definitivo

Encontro sempre Deus no meu jardim à noite principalmente se há luar.
(Alcy Araújo)

“Eu sou Alcy Araújo, poeta do cais. Proprietário de canções e esperanças
quando são mais nítidas as horas de sofrer.”

Alcy Araújo Cavalcante – o  poeta do cais, dos anjos, das borboletas, do jardim clonal, dos marinheiros e de tudo que merece ser amado – nasceu no distrito de Peixe Boi (PA), no dia 7 de janeiro de 1924.
Criança ainda transferiu-se com a família para Belém, vivendo depois em pequenas cidades da região norte para onde seu pai, Nicolau Cavalcante, era destacado para implantar os serviços de Correios e Telégrafos.
De retorno a Belém, Alcy cursou a Escola Industrial tornando-se mestre marceneiro e de outras especialidades relacionados ao ofício, que exerceu por algum tempo.

No entanto o talento literário, a vocação pelo jornalismo e um precoce desenvolvimento intelectual levaram Alcy a trocar a bancada da oficina pela escrivaninha do jornal, em 1941, com 17 anos de idade.
Por mais de uma década trabalhou nos principais jornais do Pará como repórter,articulista,  redator e chefe de reportagem, entre eles a Folha do Norte, O Estado do Pará e O Liberal.

Veio para o Amapá na década de 50, trazido pelo poeta e amigo Álvaro da Cunha. Aqui exerceu importantes cargos, assessorou vários governadores, dirigiu jornais, lutou pela emancipação política e administrativa desta região, combateu a exploração dos recursos naturais, fez importantes trabalhos de pesquisa sobre rizicultura, erosão dos solos, pesca no litoral, entre outros. Contudo, acredito que a maior contribuição dele ao Amapá deve ser aferida pela sua imensa e constante participação na vida intelectual e artística – tanto através da imprensa, como nos demais instrumentos e instâncias da cultura amapaense.
Amante das artes, foi ele que lutou, ao lado de R.Peixe, pela criação da Escola de Artes Cândido Portinari e do Teatro das Bacabeiras.

“Aqui estão as minhas mãos, falando palavras feitas de pássaros e de ausências e
cantando canções sonhadas em segredo.” (Alcy Araújo)

Junto com Álvaro da Cunha, Ivo Torres, Arthur Nery Marinho e Aluízio da Cunha, movimentou o segmento cultural amapaense criando clubes de arte, promovendo noites lítero-musicais, apoiando artistas plásticos, músicos, poetas e escritores,  fundando e dirigindo revistas culturais difundindo a cultura do Amapá por este Brasilsão, entre mais tantas coisas que deixariam imenso este texto se fossem listadas aqui.

“Ele foi um dos mais macapaenses de todos os paraenses que ajudaram a desenvolver o Amapá”, escreveu certa vez o jornalista Hélio Penafort.

Foi editor, noticiarista, diretor, colunista, articulista e editorialista de vários jornais amapaenses. Jornalista emérito, arguto analista dos problemas dos problemas sócio-econômicos do Amapá, foi na poesia que Alcy Araújo universalizou mais profundamente seu talento. É um dos poucos poetas do Norte a figurar na “Grande Enciclopédia Brasileira Portuguesa”, editada em Lisboa. Está também nas enciclopédias “Brasil e Brasileiros de Hoje”  e “Grande Enciclopédia da Amazônia”e em tantas outras obras como “Introdução à Literatura”, “Poesia do Grão Pará”, Antologia Internacional Del Secchi, Coletânea Amapaense de Poesia e Crônica, Antologia Modernos Poetas do Amapá e coletânea “Contistas do Meio do Mundo”.

Em 1965, pela Editora Rumo, foi lançado seu primeiro livro: Autogeografia (poemas e crônicas). Em 1983, comemorando os 40 anos de Alcy dedicados à poesia,  a Editora do MEC lançou no Rio de Janeiro seu livro “Poemas do Homem do Cais” e em 1997 foi lançado pela Associação Amapaense de Escritores o livro “Jardim Clonal”.

Numa noite de sábado, 22 de abril de 1989, Alcy Araújo partiu para o cais definitivo levado pelas mãos do seu Anjo da Guarda. Partiu deixando inéditos, prontinhos para publicação, os livros “Ave Ternura”, “Histórias Tranquilas”, “Cartas pro Anjo”, “Mundo Partido”, “Terra Molhada”, “Tempo de Esperança”, “Poemas pro Anjo do Natal”, entre outros, que a família tem esperança de um dia vê-los publicados e sonha com a publicação da “Poesia Completa”, deste que foi o maior poeta do Amapá.
Alcy Araújo Cavalcante, meu pai, tinha a alma pura,  de criança que acredita no Natal e na Esperança e assim cheio de esperança colocou sua poesia a favor da luta por um sociedade melhor, livre das desigualdades e das injustiças.

Participação
Alcy Araújo

Estou convosco.
Participo dos vossos anseios coletivos.
Vim unir meu grito de protesto
ao suor dos que suaram
nos campos e nas fábricas.

Aqui estou
para juntar minha boca
às vossas bocas no clamor pelo pão
sancionar com este rumor que vai crescendo
a petição de liberdade.

Estou convosco.
Para unir meu sangue ao sangue
dos que tombaram
na luta contra a fome e a injustiça
foram vilipendiados em sua glória
de mártires
de heróis.

Vim de longe
percorrendo desesperos.
Das docas agitadas de Hamburgo
das plantações de banana da Guatemala
dos seringais quentes do Haiti.
Vim do cais angustiado de Belém
dos poços de petróleo do Kuwait
das minas de salitre do Chile
Passei fome nos arrozais da China
nos canaviais de Cuba
entre as vacas sagradas da Índia
ouvindo música de jazz no Harlem.
Afundei nas geladas estepes russas.
morri ontem no Canal da Mancha
e hoje no de Suez.
Tombei nas margens do Reno
e nas areias do Saara
lutando pela vossa liberdade
pelo vosso direito de dizer
e de amar.

Estou convosco.
Voluntariamente aumento o efetivo
dos que não se conformam
em viver de joelhos
morrendo sufocando lágrimas
nas frentes de batalha
nas prisões
para dar à criança recém-parida
o riso negado aos vossos pais
o pão que falta em vossas mesas.

Meu filho
e o filho do meu filho
saberão que o meu poema não se omitiu
quando vossas vozes fenderem o silêncio
e ecoarem inutilmente nos ouvidos de Deus.

Alcy não se separava da sua máquina de escrever – uma olivetti portátil – nem quando precisava ficar internado para cuidar da saúde. Na foto, o poeta internado no Hospital São Camilo, recebendo a visita do amigo e compadre padre Jorge Basile e escrevendo.

Aos 73 anos morre em Belém ex-secretário da Educação do Amapá

O dia amanheceu triste e uma forte chuva desabou sobre Macapá confundindo-se com as lágrimas de tantos amapaenses que choram a partida do professor João Bosco Rosa Ferreira.

Aos 73 anos de idade, Bosco faleceu na madrugada de hoje no Hospital Adventista de  Belém. O corpo está sendo velado na Capela Matriz de Icoaraci (PA) e o sepultamento será amanhã, 8, no cemitério de Santa Izabel.

Culto, alegre, brincalhão, solidário, deixa seu nome gravado em letras de ouro na história  da educação, cultura, resistência – e até do jornalismo – no Amapá.
Foi meu vizinho durante décadas. E como lembra a minha irmã Alcilene, no Repiquete, “sua casa era sempre cheia de alegrias, amigos, música, serestas, políticos e política. Em alguns momentos era quase um bunker da oposição. Mas principalmente, era cheia de simpatia, cultura e afeto.”

Foi na casa de Bosco que vi (na década de 70) pela primeira vez o mago do violão Sebastião Tapajós tocar. Os dois eram grandes amigos.

Professor dos mais queridos, Bosco lecionou e dirigiu várias escolas, lutou pela criação da Universidade Federal do Amapá e foi secretário de Estado da Educação. Foi na gestão dele que aconteceu a primeira eleição para diretor de escola. A iniciativa não foi da Seed, foi dos professores da Escola Integrada de Macapá (antigo GM), mas foi abraçada por ele.

Foi diretor executivo do Senac e na época incentivou os jornalistas a criarem seu sindicato. Disponibilizou uma das salas do Senac para as reuniões, com direito a cafezinho e orientações. E foi lá que foi fundado o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Amapá na década de 90.

De cultura invejável, Bosco foi, por vários anos, membro titular do Conselho Estadual de Cultura. Tive a honra de fazer parte deste Conselho ao lado dele.

Neste momento, da minha janela, olho a casa onde Bosco morou por muitos anos e onde vivem seus filhos. A chuva agora deu uma trégua. Ergo os olhos para o céu e peço a Deus que receba João Bosco Rosa Ferreira na Luz e conforte o coração dos familiares e amigos.

Morre Bibi Ferreira. O teatro fica menor

A atriz, cantora e diretora Bibi Ferreira, de 96 anos, morreu hoje (13) de enfarte em sua casa.
O corpo dessa grande diva  será velado a partir de amanhã (14) no Theatro Municipal, no centro do Rio.
Em setembro do ano passado, em seu perfil numa rede social, Bibi  comunicou sua saída da vida pública. Ela escreveu:  “Nunca pensei em parar, essa palavra nunca fez parte do meu vocabulário, mas entender a vida é ser inteligente. Fui muito feliz com minha carreira. Me orgulho muito de tudo que fiz. Obrigada a todos que de alguma forma estiveram comigo, a todos que me assistiram, a todos que me acompanharam por anos e anos. Muito obrigada! Bibi”.

Velha praça

Praça da Matriz em 1935 (hoje Veiga Cabral)

No coreto se apresentavam as bandas de música da Guarda Territorial e do Mestre Oscar. Foi ouvindo estas bandas que interpretavam de forma magistral clássicos da música que muitos casais começaram a namorar e casaram, aí pertinho do coreto mesmo, na bicentenária igreja de São José.

O poeta Arthur Nery Marinho – que veio para o Amapá em 1946 – chegou a tocar  no coreto e relembra a velha praça nesta poesia publicada no livro “Sermão de Mágoa”, em 1993.

Praça Antiga
Arthur Nery Marinho

Velha praça, velha praça,
tenho saudade de ti.
Não da bonita que estás
mas da que eu conheci.

A praça do tio Joãozinho
e do seu Naftali:
o primeiro era Picanço
e o segundo Bemerguy.

A praça do João Arthur
também a praça do Abraão,
a praça que outrora foi
da cidade o coração.
A praça em que se jogava
todo dia o futebol,
esporte que só parava
quando já dormia o Sol.

Parece que isto foi ontem,
mas tanto tempo passou,
o que deixou de existir
minha saudade gravou.
Vejo a barraca da Santa,
vejo ali o ABC.
Há muito tempo não existem
mas a minha saudade os vê.

Da igreja o velho coreto
eu avisto, neste ensejo.
Do mestre Oscar vejo a banda
e lá na banda eu me vejo.

Eu considero um castigo
não apagar da lembrança
o que me foi alegria
e agora é desesperança.

Velha praça, velha praça,
renovaste e linda estás.
Não tens, porém, a poesia
do que ficou para trás.

Especial Macapá – Quando o aeroporto era na Av. FAB

Av. FAB domingo a tarde

Essa avenida larga, movimentada, tida como a principal de Macapá, por onde passam todos os ônibus e onde ficam escolas, secretarias de governo, hospitais, tribunais, Assembleia Legislativa, Câmara de Vereadores e Prefeitura, foi o primeiro campo de aviação de Macapá. Por isso quando virou avenida recebeu o nome de Avenida FAB (Força Aérea Brasileira). Aí  pousavam todos os aviões que chegavam em Macapá e daí decolavam.

O José Ribamar Pessoa – que trabalhou no aeroporto da avenida Fab – contou ao blog que não havia cerca, muro, nada que impedisse que as pessoas chegassem bem pertinho do avião para receber quem estava chegando ou se despedir de quem estava partindo. “Naquela época, era permitido a todos receber autoridades, familiares, etc embaixo da aeronave, inclusive também no embarque”, conta.

O poeta Manoel Bispo – que chegou gitinho em Macapá – conta que  quando a molecada ouvia o barulho do avião corria pro “aeroporto” vislumbrando ganhar uma grana pra comprar gibis, picolés e garantir o da matinê do cinema.
É que naquela época não existia táxi em Macapá e quase nenhum carro particular (ônibus nem pensar). A pessoa chegava, descia do avião e ia a pé pra casa. É aí que a molecada entrava. Se aproximava do passageiro e oferecia o serviço: carregar a maleta, do aeroporto até a casa. “O ‘carreto’ mais longo que fiz com uma mala na cabeça foi do aeroporto pro bairro do Trem. A maleta era daquelas de madeira, mas me rendeu um bom dinheirinho”, me disse o poeta certa tarde.

Dia desses o Celso Façanha estava lembrando dos seus tempos de moleque e disse que uma vez viu “com esses olhos que a terra há de comer” um avião quase entrar num prédio ali por perto de onde é hoje a Escola Integrada.

Deixemos o Celso contar:

– Era um dia de chuva, a pista tava um lamaçal, o avião aterrissou mas não conseguiu parar logo. Foi indo, indo, indo…  e só conseguiu  parar ali perto do GM, quase que entra num prédio onde era o Irda. Quando a porta  abriu  o primeiro passageiro a descer foi o Pernambuco, um açougueiro brabo. Ele desceu reclamando: “Pô, esse cara (piloto) podia ter logo me deixado em casa.”

Minha mãe, a professora Delzuite Cavalcante, contava que, sentada no pátio da nossa casa, via os pousos e decolagens.

“Era ali, dizia apontando com o dedo, o campo de aviação e daqui a gente via tudo.”

E minha avó completava: “o avião passava aqui na ilharga.”

 

Ao ler esse texto, Mazinho Silva deixou agora sua contribuição na caixa de comentários. Contribuição tão importante que reproduzo aqui:

“Boa Noite,
Gostaria de fazer um pequeno reparo na informação ora apresentada, pois como um amapaense nascido (25 de agosto de 1952) e criado aqui, na Rua General Rondon, 1226, esquina da Avenida Procópio Rola, posso dizer com certeza total a quem interessar possa que, ao contrário do que muitos pensam ou relatam, a pista de aviação nunca foi localizada exatamente onde hoje se encontra a Avenida FAB e sim, entre a Avenida FAB e a Avenida Procópio Rola, que à época era apenas uma via projetada. Portanto, afirmo e reafirmo que a pista de pouso de Macapá, Território Federal do Amapá, localizava-se exatamente onde hoje se encontram os prédios do governo do Amapá entre as duas avenidas acima citadas. A Pista tinha sua cabeceira principal na frente do Fórum Desembargador Leal de Mira e terminava exatamente onde hoje está construído o Palácio do Governo do estado do Amapá (nessa época a Rua General Rondon não atravessava a Avenida FAB), onde havia uma cerca de arame farpado, que se estendia em sua laterais até as proximidades da Escola Industrial,para evitar a travessia de animais e veículos, Lembro disso desde os cinco anos de idade pois assistia os aviões DC-3 e C-47 manobrando ao final da pista, bem ao lado da minha casa e por várias vezes, vi os aviões varando a pista e parando somente ao final, na área de escape, próximo da Escola Industrial, em razão da pista molhada e que era feita em cima do solo original, sem piçarra ou asfalto. E, por medida de segurança, quando os aviões varavam a pista, os passageiros desembarcavam e vinham andando com os sapatos ou sandálias na mão pois a pista estava escorregadia. O prédio do aeroporto ficava na Avenida FAB, bem em frente à Igreja Batista. Era um prédio extremamente pequeno, construído em Madeira e coberto com telhas de barro. Caso alguém tenha fotos da época, poderão comprovar o que aqui estou relatando. Conta-se inclusive que a Avenida FAB não tem buracos em razão de ali ter sido a pista de pouso, o que não procede pois a pista não era asfaltada e nem havia piçarra na sua superfície. Apenas a terra nua.
Espero ter contribuído positivamente com a História Real da nossa terra.

Cordialmente,

Valdemar das Graças Figueira da Silva (Mazinho Silva)”

Macapá era assim

Avenida Mendonça Furtado entre as ruas Jovino Dinoá e Odilardo Silva

 

O bairro da Favela (hoje Bairro Central) era assim, cheio de áreas de ressacas e muito verde. Nos igapós as crianças se divertiam pegando peixinhos e tomando banho, ouvindo lendas e criando histórias cheias de encantos e magias. O bairro era habitado em sua maioria por intelectuais, boêmios e artistas. A ponte sobre o igapó era também ponto de encontro dessa turma que, após o trabalho, se reunia para contar as novidades e “tomar uma” para desestressar.
Sabe quem são esses distintos senhores da foto?

(Querido leitor, se quiser escrever sobre Macapá (antiga ou atual), postar fotos, contar causos, ou fazer qualquer outro tipo de homenagem a esta cidade cortada pela Linha do Equador você tem espaço garantido neste blog. Basta enviar seu texto e/ou fotos para o email alcinea.c@gmail.com  que seu material será imediatamente publicado.)