O essencial é bem visível aos olhos

O essencial é bem visível aos olhos
Obdias Araújo
A casa da Rua São José canto com a Avenida Capitão Pedro Baião ainda vive na memória.
Toda vez que a prefeitura elevava a rua desafiando o Ar Mar Zonas, meu pai construía outra casa sobre a anterior.
Lembro-me bem desta, dos meus 10… 12 anos. A janelinha lá em cima era o quarto de Ivonete, a mais velha das irmãs que durante muito tempo, junto com Ivonilde, me subistituiu mamãe.
O coqueiro emoldurando a Ivonilde foi plantado por meu pai. Lembro do Mestre Zaca amarrando trouxinhas de sal em seu tronco, para adoçar a água de seus cocos.
Eu, o Eurico da Casa Santa Maria, o Jorge Caroço e o Jorge Malcher éramos gazeteriros e desviávamos o caminho da Escola Teixeira Gueiros para a Vacaria do Barbosa. Roubar mangas, cajus e cutites.
Lembro que doutra feita por aqui passaram o Capitão-mor Feliciano Coelho de Carvalho mais os capitães Ayres de Sousa Chichorro e Pedro Baião de Abreu.
Iam com eles trinta soldados e duzentos e cinquenta índios tucujus – todos flecheiros.
A tropa acampou no tubulão defronte à Casa Gisele e eles faziam tanta zoada que Maurício Ghamachi e Mamed Ganem jogaram umas tantas moedas para que aplacassem a sede.
Sempre gostei de ter nascido aqui. Nem tanto pelo santo que deu azo ao nascimento do menino Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo nem quanto pelo militar que dá nome à rua.
Mas é que, de noitinha, as saracuras piam chamando seus companheiros ao descanso e sopra o terral avisando Zacarias da urgência de novas venezianas.
Não quero crescer. Não quero nunca nunca sair daqui. Afinal de contas, nasci aqui e a casa da Rua São José canto com a Avenida Capitão Pedro Baião ainda vive na memória.

63 anos do acidente aéreo que matou Coaracy Nunes, Hamilton Silva e Hildemar Maia

Destroços do avião “Paulistinha” que no dia 21 de janeiro de 1958 caiu na região do Macacoari

No acidente morreram o deputado federal Coaracy Nunes, o promotor público Hildemar Maia e o piloto Hamilton Silva.
Os três tinham ido participar da festa em louvor a São Sebastião naquela comunidade no dia anterior. No retorno, o pequeno avião apresentou problema, bateu numa árvore e explodiu.
Coaracy Nunes foi o primeiro deputado federal do Amapá. Estava exercendo o terceiro mandato quando morreu. Foi eleito pela primeira vez em 1946. Nesta época o Amapá tinha apenas 2.712 eleitores. Coaracy foi eleito com 2.385 votos.
Chamado de   “Deputado da Amazônia” foi reconhecido nacionalmente por suas ações em defesa  da região e não apenas do Amapá. Sua primeira grande luta ao assumir o mandato foi pela criação da SPVEA (depois Sudam). É de sua autoria o projeto de criação da Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA) e autorização da construção da Hidrelétrica do Paredão.
A chegada dos corpos de Coaracy Nunes, Hildemar Maia e Hamilton Silva no trapiche Eliezer Levy
O último adeus – Manhã de 22 de janeiro as urnas funerárias com os corpos de Coaracy Nunes e Hildemar Maia são embarcadas numa aeronave da Cruzeiro do Sul.
Hildemar foi sepultado em Belém; Coaracy Nunes no Rio de Janeiro, no cemitério São João Batista. O corpo do piloto Hamilton Silva está sepultado em Macapá, no cemitério N.S. da Conceição (Centro).
No sétimo dia a comunidade de Macacoari fez uma caminhada até o local do acidente onde foi celebrada a missa pelo padre Ângelo Bubani

A casa da minha infância – Bela crônica de Wagner Gomes

A casa da minha infância
Wagner Gomes*

Dias atrás, minha irmã Lidú, me presenteou com uma fotografia, que feitas as contas, tem mais de sessenta anos e conta um pouco da minha história.
É a foto da nossa primeira residência em Macapá, capital do ex Território Federal do Amapá, construída por meu pai. Ficava localizada na Av. Antônio Coelho de Carvalho, entre as ruas Hamilton Silva e Leopoldo Machado, onde atualmente funciona uma Clinica e um pouco antes era um Hotel.
Lá passei toda minha infância. Hoje, ao ouvir o badalar dos sinos da Igreja, me veio a memória um dos meus passatempos preferidos daquela época: ver o adestramento dos recrutas do Tiro de Guerra 130. Lembrei do Sgto Rosevaldo que ao deixar a cidade, foi se despedir dos moradores do local. Do Sgto Pompeu, que quando mandava os recrutas se arrastarem e alguém ousava levantar a cabeça, perguntava em uma voz alta: ‘quer uma fotografia minha simples ou colorida?’.
Com entrada pela Antônio Coelho de Carvalho, no Estádio Municipal Glicério Marques, ficava a Junta de Alistamento Militar, que era.presidida pelo senhor Reynaldo Lima, auxiliado pelo Cabo Lázaro. Também era o alojamento do Sargento Instrutor e uma espécie de Quartel Geral, onde ficavam os ‘fuzis’. Desse local tenho muitas histórias e estórias … que contarei em outra oportunidade.
Lendo Manoel de Barros, o conhecido ‘poeta das miudezas’, aprendi, quando ele diz:
“Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade.
Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos.
……
Hoje encontrei um baú cheio de punhetas.
……
No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do quintal: Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra dentro”.

Nota: na foto, meu pai Pedro Pinto Gomes, de pé, ao lado de minha mãe Maria Murila Costa Gomes, sentada, em primeiro plano. Ao fundo, eu, sentado ao chão. Minha irmã Lidú, está em pé, subida no pátio. E um pouco mais à frente meu irmão, Jackson Gomes, sentado sem camisa, junto com o Paulo Carneiro, com camisa, meu vizinho.

*Wagner Gomes é advogado e cronista

Retrato em preto e branco

1987 – Nos estúdios da Rádio Nacional, em Macapá, o jornalista e radialista João Lázaro entrevista o consagrado cantor de samba Moreira da Silva.
Depois que se aposentou, João Lázaro foi morar em São Paulo, mas não perde os laços com o Amapá. Seu amor por essa terra o levou a criar o bombado blog Porta-Retrato (https://porta-retrato-ap.blogspot.com), fonte de pesquisa sobre coisas, pessoas e lugares do Amapá.


PORTA-RETRATO – Macapá/Amapá – DEZ ANOS

porta-retrato-ap.blogspot.com

PORTA-RETRATO – Macapá/Amapá – DEZ ANOS

porta-retrato-ap.blogspot.com

Para não esquecer Mãe Luzia

Francisca Luzia da Silva, a Mãe Luzia, a Mãe Negra , nasceu em Macapá no dia 9 de janeiro de 1854 e faleceu em 24 de setembro de 1954.
Além de parteira, Mãe Luzia era excelente lavadeira. Quem a conheceu conta que ela só lavava roupa seminua, ou seja, sem blusa e sutiã. Mesmo sem nunca ter sentado num banco de escola, foi considerada “o primeiro doutor da região”. Era a parteira mais famosa destas paragens. Não se tem notícia de que algum bebê que ela tenha “aparado” e cuidado tenha morrido.
Cuidava das grávidas com rezas e  ervas e dava-lhes amor e segurança como uma mãe dá para uma filha. A qualquer hora do dia largava a bacia de roupa para fazer um parto. A qualquer hora que fosse chamada à noite levantava e corria para “aparar” mais uma criança, para mostrar-lhe o mundo pela primeira vez.
Seu trabalho não terminava com o parto. Ela cuidava da criança e da mãe por vários dias, fazendo visitas diárias, dando-lhes banhos, fazendo curativos e rezas.
Pelas mãos abençoadas de Mãe Luzia inúmeros bebês vieram ao mundo.

Mãe Luzia que cuidou, tratou, curou inúmeras crianças, está na poesia dos poetas amapaenses, no altar do nosso samba, no carnaval  (foi enredo de Maracatu da Favela)  e num magistral samba de Alcy Araújo e Nonato Leal. Hoje tem seu nome estampado na única maternidade pública do Amapá, em Macapá.

Mãe Luzia
Álvaro da Cunha

Velha, enrugada, cabelos d’algodão,
fim de existência atribulada, cuja
apoteose é um rol de roupa suja
e a aspereza das barras de sabão.

Mãe Luzia! Mãe Preta! Um coração
que através dos milagres de ternura
da mais rudimentar puericultura
foi o primeiro doutor da região.

Quantas vezes, à luz da lamparina,
na pobreza do catre ou da esteira,
os braços rebentando de canseira
Mãe Luzia era toda a medicina.

Na quietude humílima do rosto
sulcado de veredas tortuosas,
há um clamor profundo de desgosto
e o silêncio das vidas dolorosas.

Oh, brônzea estátua da maternidade:
ao te encontrar curvada e seminua,
vejo o folclore antigo da cidade
na paisagem ancestral da minha rua.

Rufar de tambores no céu para receber Paulo Rodrigues

Hoje tem rufar de tambores no céu para receber o carnavalesco Paulo Rodrigues. Aqui a gente chora sua partida, mas lá no céu haverá mais alegria, cor e arte.
Infectado pelo novo coronavírus, Paulinho faleceu hoje, aos 64 anos, no Hospital Universitário. Colecionador de títulos do carnaval amapaense foi um dos mais talentosos carnavalescos do Amapá, tendo passado por várias agremiações como Piratas Estilizados, Maracatu da Favela, Piratas da Batucada, Império do Povo, dentre outras.
Ele iniciou no samba ainda criança na ala de tamborins de Maracatu da Favela. Lembro dele, com 8 ou 10 anos de idade tocando tamborim na Maracatu. Nessa época a verde-rosa saía pelas ruas da cidade homenageando algumas personalidades e parava na frente da nossa casa para homenagear meu pai, Alcy Araújo, que era um dos compositores da escola. A primeira vez que vi Paulinho com seu tamborim foi exatamente nessa época.
Mas não foi só no carnaval que Paulo Rodrigues se destacou. Ele se destacou e foi muito respeitado também em outros segmentos artísticos, como as artes plásticas. Era muito talentoso nessa arte. De vasta cultura, Paulo Rodrigues era reconhecido e respeitado por todos que amam cultura e arte. Foi membro  do Conselho Estadual de Cultura, presidente da Associação Cultural Amigos do Samba e da Liga das Escolas de Samba.
Outra paixão de Paulo Rodrigues era o futebol, ajudou vários clubes, foi dirigente do Oratório e atualmente exercia o cargo de vice-presidente da Federação Amapaense de Futebol.

Por sua competência, Paulo exerceu alguns cargos no governo, dentre os quais o de diretor da Rádio Difusora de Macapá.

Era meu amigo. Hoje choro sua partida como já chorei tanto este ano a morte de tantos amigos, de tantas pessoas queridas, de tantos conhecidos… Não está fácil, não.

Vai, meu amigo, não te importa como nossas lágrimas. Faz uma grande festa no céu com aqueles que partiram antes, com aqueles nossos amigos do carnaval e com aqueles queridos craques do futebol.

Eles brilharam nas quadras

A foto – que pertence ao arquivo da família Porpino – foi feita pelo famoso fotógrafo Pedro Pinto, da Folha do Norte e O Liberal, no finalzinho dos anos 40, quando esta seleção amapaense de vôlei foi participar de um campeonato em Belém.Em pé: 5-Ubiracy Picanço, 3-Altair Lemos, 9-José Porpino (meu padrinho de batismo),  7-Avertino Ramos e Ten Wadyh Charone
Agachados:  8-Raimundinho, 6-Edilson Borges de Oliveira e 10-José Cabral

Nota triste – Aos 64 anos morre o promotor Eraldo Zampa

É com profunda tristeza que registro o falecimento, aos 64 anos de idade, do querido Eraldo Zampa, ocorrido na madrugada de hoje em Brasília, onde se tratava de complicações pós Covid-19.
Zampa era paulista, mas estava no Amapá desde 1991 quando foi aprovado no primeiro concurso para promotores de Justiça. Aqui fez uma carreira brilhante, constituiu família e se considerava amapaense.
Conheci o Zampa em 1992. Ele e Rommel Araújo (aliás, os dois eram como irmãos, tanto que os filhos de Zampa chamam de tio para o Rommel). Eu cobria as eleições daquele ano, Zampa era o promotor eleitoral e Rommel, hoje desembargador, era juiz eleitoral. Durante a campanha todos os dias eu mantinha contatos com eles em busca de notícias e costumava brincar dizendo que eles nem dormiam trabalhando 24 horas por dia para garantir eleições limpas, para evitar compra de votos e toda e qualquer espécie de ilícito que candidatos costumam cometer.
Os dois jogavam duro com os candidatos, mas de todos tinham o maior respeito.
Da relação entrevistados/entrevistadora nasceu uma bonita amizade decorada de afeto, carinho e respeito. A amizade se fortaleceu ainda mais quando Zampa casou-se com minha amiga jornalista Sândala Barros.
Acordar com a notícia da morte de Zampa fez meu domingo cinzento. Sempre que um amigo parte leva consigo um pouco da alegria da gente.
Zampa parte num dia de eleição e eu aqui fico relembrando de tantas eleições das quais ele participou como promotor eleitoral e eu ficava perturbando toda hora atrás da notícias. E tinha também nos intervalos o cafezinho e o bate-papo descontraído com ele e Rommel e histórias, muitas histórias e estórias.
Ah, Zampa, você parte. Leva um pouco da nossa alegria, mas deixa muitas lembranças boas.
À minha amiga Sândala eu digo: como eu gostaria de estar neste momento pertinho de ti, te abraçando e fazendo qualquer coisa para tentar minimizar tua dor e dos teus amados e lindos filhos Vitória e Felipe. Na impossibilidade disso, elevo uma prece a Deus pedindo que  Ele dê forças e conforto para vocês e receba o Zampa na luz.
(Alcinéa)

Nota de pesar do Ministério Público do Amapá 

É com profundo pesar que o Ministério Público do Amapá (MP-AP), em nome de seus membros e servidores, externa condolências aos familiares e amigos do promotor de Justiça Eraldo Afonso Zampa, que veio a óbito neste domingo (15), vítima de parada cardíaca, em Brasília-DF.

Eraldo Zampa atuou com dedicação e presteza e deu sua contribuição a esta instituição. Tinha 29 anos de serviços prestados ao MP-AP, ingressando na carreira, após aprovação no Primeiro Concurso para promotores de Justiça.

O corpo será trasladado para Macapá e será velado no prédio da Procuradoria-Geral de Justiça do Ministério Público do Amapá, no Araxá, seguindo as recomendações sanitárias de prevenção à pandemia de coronavirus, com número limitado de pessoas para as homenagens póstumas.

Que Deus, em sua infinita sabedoria e misericórdia, leve conforto aos familiares, parentes e amigos enlutados que sofrem neste momento de profunda dor.

Há 101 anos padre Júlio Maria Lombaerd fundou uma banda de música em Macapá

UM DIA NA HISTÓRIA
Por Nilson Montoril*

16/09/1919 – O Padre Júlio Maria Lombaerd fundava, em Macapá, uma Banda de Música a qual denominou “Philarmônica São José”.
Inicialmente, 15 garotos tocavam instrumentos de sopro diversos e ele, além de regente e instrutor, era clarinetista e saxofonista.
Posteriormente, a Philarmônica foi regida por um músico vindo da cidade da Vigia, no Pará, e chegou a ter 25 componentes. Os instrumentos, todos novos, foram doados por instituições europeias, que apoiavam as atividades de catequese realizadas pelo ilustre sacerdote belga.

*Nilson Montoril é professor, historiador e presidente da Academia Amapaense de Letras