Minha primeira lembrança de Copa do Mundo

A primeira lembrança que tenho de Copa do Mundo é de 1962, quando o Brasil foi bicampeão no Chile.
Estávamos no Rio de Janeiro mamãe, eu e meu irmão Alcione. A cidade maravilhosa toda enfeitada. Eu era muito criança ainda e quase nada entendia do que se passava. Sabia apenas que o Brasil estava participando de algo muito importante e que todos torciam pelo sucesso.
Só se falava nisso, mas eu nem dava trela. Era conversa de adulto e eu só queria brincar.
No dia que a Seleção chegou ao Brasil trazendo o título foi a maior festa. O povo se amontoando nas ruas e nas janelas dos edifícios para saudar os bicampeões do mundo. Mas para mim, tão criança ainda, o espetáculo foi a chuva de papel picado que caía dos edifícios e foi essa chuva que guardei na memória. Que coisa linda para uma criança ver. Eu nem olhava para o carro aberto que conduzia os jogadores, nem lembro como estavam trajados. Eu só olhava para cima, encantada com a chuva de papeizinhos coloridos.
Não pergunte em que rua ou avenida estávamos para ver o desfile da Seleção. Sei que fomos – eu e meu irmão – com minha mãe, pois ela era muito fã do goleiro Gilmar e do lateral Djalma Santos, por isso queria vê-los de perto e aplaudi-los.

Só muitos anos depois me interessei pelas histórias da Copa. Principalmente dessa em que vi pela primeira vez uma chuva de papel picado.

Pois bem, em 1962 o Brasil foi bicampeão com um timaço onde formavam Gilmar, Djalma Santos, Nilton Santos, Didi, Zagalo, Vavá, Pepe, Bellini, Zito, Garrincha, Pelé e Amarildo.
O Gilmar, de quem minha mãe era super fã, foi um dos maiores goleiros do Brasil. Aliás, do mundo. Foi considerado pela FIFA como um dos vinte maiores goleiros do mundo do século XX.

O Brasil fez uma campanha bonita. Foram cinco vitórias e um empate. 14 gols a favor e 5 contra. Venceu o México por 2 a 0; a Espanha por 2 a 1; a Inglaterra por 3 a 1; o Chile por 4 a 2; empatou com a Tchecoslováquia na primeira fase em 0 a 0.
A final foi no dia 17 de junho no estádio nacional do Chile com o Brasil sagrando-se bicampeão ao derrotar a Tchecoslováquia por 3 a 1. O placar foi aberto por Josef Masopust aos 15 minutos do primeiro tempo, mas dois minutos após Amarildo fez o gol de empate. O primeiro tempo terminou 1 a 1. No segundo tempo o Brasil entrou com mais garra em campo e aos 24 minutos Zito marcou o segundo gol do Brasil e aos 33 minutos Vavá fechou o placar.

Quarta-feira, o Brasil entra em campo para enfrentar a Escócia. Já não sonho com chuva de papel picado; sonho com a vitória da nossa seleção, que nesta Copa de agora nos decepcionou na estreia  empatando com o Marrocos e e voltou a nos dar esperança  vencendo o Haiti.

(Alcinéa Cavalcante)

Do fundo do baú

Nesse tempo o nome da Biblioteca Elcy Lacerda era apenas Biblioteca Pública; o Amapá não era Estado, era Território Federal; eu era professora no Ginásio de Macapá (GM), que depois virou Escola Integrada e hoje é Escola Antônio Cordeiro Pontes.
A carteirinha dava direito a pegar livros na Biblioteca, levar pra casa e devolver dez dias depois.

Cultura, memória e lazer – Governo inaugura Parque da Residência sexta-feira, 29

O Governo do Amapá se prepara para entregar à população um novo e emblemático espaço de cultura, lazer e memória. O Parque Residência será inaugurado na próxima sexta-feira, 29, em Macapá, consolidando-se como um dos principais pontos turísticos e culturais do estado e um marco na valorização da identidade amapaense.

Mais do que a requalificação de um espaço histórico, o projeto representa um investimento estratégico da gestão estadual na preservação da memória coletiva e no fortalecimento do sentimento de pertencimento da população.

“É algo tão importante que já se tornou um fato histórico. É isso que nós queremos: aguçar a criatividade, a imaginação e o sentimento de pertencimento e amor pelo Amapá. Tudo isso será contado por cada elemento desse espaço, reunindo histórias desde a década de 1940 até os dias atuais”, afirmou o governador Clécio Luís.

Um espaço para viver a história do Amapá

O Parque Residência foi concebido para proporcionar uma experiência imersiva ao público. Ao todo, o local contará com seis salas de exposições, que irão apresentar desde os primeiros registros da formação do estado até acontecimentos mais recentes, conectando gerações por meio da história.

Um dos grandes atrativos do parque será o conjunto de peças históricas em exposição aberta ao público. O destaque vai para o avião Embraer EMB 110 Bandeirante, que marcou uma época no desenvolvimento do estado ao realizar mais de 200 missões governamentais entre as décadas de 1980 e 1990.

A aeronave, que recentemente percorreu as ruas de Macapá em um translado histórico acompanhado por estudantes e moradores, agora passa a integrar o acervo permanente do parque. Ao lado dela, estarão também uma locomotiva, vagões de passageiros e de minério, compondo um cenário que resgata diferentes ciclos econômicos e sociais do estado.

O espaço também valoriza o conhecimento tradicional. Uma das exposições será dedicada aos “Mestres dos Saberes”, com destaque para a carpintaria naval do Elesbão, prática ancestral que representa o modo de vida das comunidades ribeirinhas.

Outra ala será voltada à história da comunicação pública, reunindo documentos e registros da Imprensa Oficial, evidenciando a evolução institucional do estado ao longo das décadas.

Novo cartão-postal do Amapá

Previsto no Plano de Governo, o Parque Residência é a retomada de um espaço que estava fechado há aproximadamente 10 anos, considerado um símbolo da história amapaense.

A antiga casa do governador tem 9 mil metros quadrados e está localizado na Rua Cândido Mendes, no Centro de Macapá, próximo à orla da cidade. O projeto conta com galeria de arte, praça de alimentação, espaços de exposições, áreas de empreendedorismo, anfiteatro e outros equipamentos culturais.

Com a inauguração, o estado dá um passo importante na valorização de sua história e na construção de um futuro que reconhece e preserva suas raízes. O Parque Residência surge, assim, como um convite aberto para que todos conheçam, vivenciem e se reconectem com a essência do povo amapaense.

(Secom/GEA)

129 anos do nascimento de Pixinguinha

Por Dilva Frazão

Biblioteconomista e professora

Pixinguinha (1897-1973) foi um músico brasileiro, autor da música “Carinhoso”, uma das obras mais importantes da Música Popular Brasileira. Foi arranjador, instrumentista e compositor, um dos maiores representantes do “choro” brasileiro.

Alfredo da Rocha Viana Filho, conhecido como Pixinguinha, nasceu na Piedade, Rio de Janeiro, no dia 23 de abril de 1897. Era filho do flautista e funcionário do Departamento Geral dos Telégrafos, Alfredo da Rocha Viana e de Raimunda Viana.

Infância

Pixinguinha cresceu em meio a dezessete irmãos. Estudou no colégio mantido pelo Mosteiro de São Bento. Nunca foi um aluno brilhante, estudava só para agradar os pais.

Durante as serenatas que o pai promovia em casa, Pixinguinha ficava quieto em um canto da sala, só escutando e fascinado pelas valsas, lundus e pelas polcas da moda.

O apelido de “Pixinguinha” foi resultado do nome colocado por sua avó Edwiges, africana de nascimento, derivado do dialeto natal, “Pizindin” (menino bom), que depois virou Pixinguinha.

As primeiras lições de flauta de Pixinguinha foram dadas por seu pai e começaram aos oito anos quando a família foi morar em um casarão de oito quartos e quatro salas, na rua Vista Alegre, logo apelidado de “Pensão Viana”, pois estava sempre cheio de gente.

Com 12 anos Pixinguinha já dominava os conhecimentos de teoria musical, ensinados por César Borges Leitão. Nessa época, tocava flauta, cavaquinho e bandolim, mas sonhava com uma clarineta de sons agudos.

Um dos frequentadores da casa era o professor Irineu de Almeida, que em 1911 levou Pixinguinha, com apenas 14 anos, para o grupo carnavalesco “Filhas da Jardineira”.

Carreira musical

Ainda em 1911, Pixinguinha compôs sua primeira música, o chorinho “Lata de Leite”. Entusiasmado com o progresso do filho, seu pai importou da Itália uma flauta especial, surgindo assim mais um músico na família.

Levado pelo irmão China, que tocava violão, Pixinguinha foi contratado para o conjunto que tocava na “Concha”, casa de chope da Lapa. Logo ganhou fama na vida noturna carioca. Tocou ainda no Ponto, no ABC e no Cassino.

Pixinguinha foi convidado pelo violonista Artur Nascimento para tocar com a orquestra do Maestro Paulino no Teatro Rio Branco. No teste, mostrou perfeita harmonia com a orquestra e logo garantiu seu lugar. Estreou tocando na peça “Chegou Neves”, com o melhor elenco da época.

Primeira gravação

Em 1915, Pixinguinha fez sua primeira gravação para a Casa Falhauber com o grupo “Choro Carioca”, interpretando o tango brasileiro “São João Debaixo d’água”, de seu professor Irineu de Almeida.

Em 1917 gravou para a casa Edison o choro “Sofre Porque Queres” e a valsa “Rosa”, da parceria com Alfredo Vianna:

Rosa

Tu és
Divina e Graciosa
Estátua Majestosa
Do amor
Por Deus esculturada
E formada com o ardor
Da alma da mais linda flor…

Oito Batutas

Em 1918, Pixinguinha e o amigo Donga foram convocados pelo proprietário do cinema Palais, na Av. Rio Branco, para formar uma pequena orquestra para tocar na sala de espera.

pixinguinha

O grupo “Oito Batutas” foi formado com Pixinguinha na flauta, José Alves (bandolim), José Palmieri (pandeiro), Nelson dos Santos (cavaquinho), Donga e Raul Palmieri (violão), Luís de Oliveira (bandolim e reco-reco) e China (canto, piano e violão).

No dia 7 de abril de 1919 o grupo estreou no saguão do Palais tocando maxixes, lundus, batuque e tangos, uma música intensa e animada fez vibrar o público, acostumado com a música importada.

O conjunto fez diversas apresentações em Minas Gerais e São Paulo e logo começou a se apresentar no cabaré “Assírio”, no subsolo do Teatro Municipal.

Em 1921, Pixinguinha foi convidado para uma temporada em Paris, financiada pelo milionário Arnaldo Guinle. Com sete integrantes o “Les Batutas” embarcou no vapor Massilia, rumo à Europa.

O Les Batutas permaneceu por mais de seis meses em Paris, tocando em diversas casas. O público francês entusiasmou-se com o chorinho e o samba, ainda com tons do maxixe, que o grupo apresentava.

Quando retornou ao Brasil, Pixinguinha comprou uma casa em Olaria. O grupo retomou seu lugar no Assírio, e fez várias apresentações no Rio de Janeiro. Nessa época, Pixinguinha começava a experimentar o “saxofone”, instrumento que tocou durante vinte anos.

Em 1926 passou a dirigir a orquestra do Teatro Rialto. Nesse mesmo ano, casou-se com Albertina de Sousa, estrela da companhia de revista que ali se apresentava.

Em 1927, com uma nova formação, os Batutas iniciaram uma turnê na Argentina, onde passaram cinco meses. Apresentaram-se  em Mar Del Plata, Mendoza, Rosário e Córdoba.

Dois anos depois, desfez os Batutas e organizou com Donga a Orquestra Pixinguinha-Donga, que gravou vários discos, entre tangos, sambas e chorinhos seus, como: Mulher Boêmia, Pé de Mulata, Quem Foi Que Disse e Lamento que mais de trinta anos depois receberia letra de Vinícius de Moraes.

Década de 30

Em 1932, Pixinguinha fundou o grupo da “Velha Guarda”, junto com Luís Americano, Vantuil, Donga, João da Baiana e outros. Gravaram: Linda Morena, O Teu Cabelo Não Nega e Moleque Indigesto, todas de Lamartine Babo.

Em 1937, Orlando Silva gravou “Carinhoso”, composta por Pixinguinha, em 1923, mas que só depois recebeu a letra de João de Barro e se tornou o chorinho preferido de Pixinguinha e uma das obras mais importantes da Música Popular Brasileira.

Carinhoso

Meu coração
Não sei por que
Bate feliz
Quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas
Vão te seguindo
Mas mesmo assim
Foges de mim…

Década de 40

Na década de 40, Pixinguinha trocou a flauta pelo saxofone e se interessou pelo jazz. Tornou-se amigo de Louis Armstrong sem deixar de ser o senhor absoluto das rodas de choro.

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Pixinguinha e Louis Armstrong

Em 1942 fez sua última gravação como flautista em um disco com dois choros de sua autoria: Chorei e Cinco Companheiros.

Com o flautista Benedito Lacerda gravou 34 discos de chorinhos em apenas cinco anos e todas as composições eram suas.

Em 1945 participou da estreia do programa “O Pessoal da Velha Guarda” dirigido e apresentado pelo radialista Almirante.

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Pixinguinha e seu saxofone

Década de 50

Em 1951, Pixinguinha foi nomeado pelo prefeito do Rio de Janeiro, João Carlos Vital, para lecionar música na escola Vicente Licínio. A parir de 1953 passou a frequentar o Bar Gouveia com tanta assiduidade que acabou tendo uma cadeira com seu nome gravado, onde só ele poderia sentar.

Em 1954, com João de Barro e Donga, Pixinguinha formou o conjunto “Velha Guarda”. Entre 1955 e 1956 gravou três discos. Em 1955 se apresentou na casa noturna Casablanca.

Últimos anos

Em 1962 foi convidado para criar a trilha sonora para o filme “Sol Sobre a Lama”, junto com Vinícius de Moraes. Nessa época, Vinícius colocou letra na música “Lamento”.

Em 1964, Pixinguinha sofreu um enfarte. Enquanto esteve internado, compôs vinte músicas, uma por dia, entre elas, as valsas: Solidão, Mais Quinze dias e No Elevador.

Em 1968, Pixinguinha disse: “Hoje só quero saber de sossego e de viver em paz com todo mundo. Tenho medo que a morte me apanhe de surpresa”.

Com mais de 40 anos de casados, Albertina e Pixinguinha não tiveram filhos, mas adotaram Alfredo, que também tinha dons musicais.

Pixinguinha faleceu no Rio de Janeiro, no dia 17 de fevereiro de 1973, enquanto apadrinhava uma criança na Igreja de Nossa Senhora da Paz.

Saiba mais sobre o percurso de outros negros que foram imprescindíveis para a humanidade lendo o artigo A biografia de 21 personalidades negras muito importantes da história.

(Fonte: portal https://www.ebiografia.com/)

Os vovôs e vovós de mãos santas e mágicas

Há algum tempo em suas andanças atrás de notícias, o meu amigo jornalista Sílvio Souza  foi bater no bairro Novo Horizonte e lá viu este anúncio na frente de uma casa. Fotografou e mandou pra mim.
Revendo hoje a foto, lembrei de uma vizinha chamada Otília que curava rasgadura nas costas. Com uma linha branca enfiada numa agulha, ela fingia que estava costurando enquanto fazia uma oração. Terminada a reza, colava um emplastro Sabiá (lembram?)  na costa rasgada e mandava que só fosse tirado quando começasse a coçar. E dava certo, viu?
No meu bairro da Favela (hoje chamado de Centro) moravam, além de Otília, outras pessoas de mãos santas, das quais lembro agora Zeca Caiana, “Tio” Congó, Antônia Mangabeira, Seu Zuza, Dona Maria Sabiá, Antônia Duarte, Antonio Lopes e  “Tia” Maria Grande.

(Falar em seu Zuza, lembrei que minha irmã Alcilene quando era criancinha queria ter como bichinho de estimação um filhotinho de onça. Seu Zuza prometeu e… Outro dia eu conto essa história)

Quem nunca conheceu uma velhinha ou teve um avô ou vizinho de “mãos mágicas” que rezava em cima da rasgadura, “puxava” barriga de grávida e dava jeito em pé desmentido? Se você teve, conte aqui  na caixa de comentários ou mande para o email [email protected]
Vamos contar a história dessas pessoas de mãos santas.

De um dia inesquecível

Em junho de 2011 declamei este poema no Senado, numa sessão especial da Comissão de Direitos Humanos sobre poesia. Para mim foi um momento marcante, principalmente quando ao término o poeta Thiago de Mello disse que estava comovido com minha poesia, me abraçou e me deu um beijo. E isso não tem preço.

Poema do Retorno
Alcinéa Cavalcante

Voltaste
driblando nuvens e pássaros
e trazendo nas mãos
estrelas azuis que me encantam.

Durante a tua ausência
tentei plantar a paz,
clamei pelo direito de ser livre
e colhi dores e desenganos
que abriram feridas profundas
e machucaram o meu verso,
inaugurando revoltas e frustrações.

Voltaste
trazendo no olhar marrom
esperanças que arranham
as minhas desesperanças.

Mais uma vez,
talvez inutilmente,
uniremos nossos gritos
pedindo liberdade para viver
amar
cantar
e sorrir.

Serão protestos aos crimes
cometidos contra a liberdade
os nossos gritos
(ainda que não encontrem eco).

Mas, se te faz bem,
posso dizer
que não é proibido
sonhar que todos os caminhos se abrirão
e a liberdade será uma realidade palpável.

(Do meu livro Estrela Azul – lançado em julho de 2001)

Hoje – Centenário do nascimento do poeta Thiago de Mello

O pão de cada dia
Thiago de Mello

Que o pão encontre na boca
o abraço de uma canção construída no trabalho
Não a fome fatigada
de um suor que corre em vão.

Que o pão do dia não chegue
sabendo a travo de luta
e a troféu de humilhação.
Que seja a bênção da flor
festivamente colhida
por quem deu ajuda ao chão.

Mais do que flor, seja fruto
que maduro se oferece
sempre ao alcance da mão.
Da minha e da tua mão.

Em 2011 – Senador Randolfe, eu e o poeta. Na mão esquerda do poeta o meu livro “Estrela Azul”

Engasga Engasga: a mentira que aterrorizou Macapá e prendeu inocentes

Por João Capiberibe *
Em 1973, uma onda de pânico tomou conta de Macapá. Mulheres estariam sendo atacadas nas ruas. A cidade parou.
Macapá, capital do Amapá, era uma cidade pacata, com ruas e avenidas largas e bem traçadas. Havia muitos espaços vazios destinados à urbanização futura, onde crianças improvisavam suas brincadeiras. Mangueiras de copas frondosas formavam um mar de sombras — ponto de táxi e de gente sem pressa, parada obrigatória em busca de brisa e proteção contra o sol escaldante do meio do mundo.
Os macapaenses, isolados na margem esquerda do Rio Amazonas, sem televisão e sem rodovia que os conectasse ao restante do país, viviam em um recanto de tranquilidade. Sem grandes ambições e com tempo de sobra, sentavam-se nas portas de casa ao fim da tarde, deixando as horas correrem em conversas simples, longas e sem urgência.
Foi nesse cenário — e entre essa gente pouco voltada para o que acontecia fora dali — que tudo mudou.
De repente, tensão e medo se espalharam como rastilho de pólvora. A vida virou de ponta-cabeça.
Naquele dia de maio de 1973, que parecia seguir como qualquer outro, o rumo da cidade mudou ao meio-dia. O locutor da Rádio Difusora de Macapá — emissora oficial do governo — interrompeu a programação. Com música de suspense ao fundo, leu pausadamente o Comunicado Oficial nº 1, assinado pelo secretário de Segurança Pública, coronel Gentil Almeida Campos:
“A situação é grave e de grande perigo, motivo de aflição e insegurança para as famílias que vivem nesta pacata cidade. Cabe-nos informar que, nos últimos dias, registramos vários ataques com as mesmas características: tentativa de estrangulamento de mulheres indefesas.
Ontem mesmo, ainda com o dia claro, uma mulher foi atacada no momento em que ia ao banheiro no fundo do quintal de sua casa.”
Após longos considerandos, o comunicado recomendava:
1. Evitar saídas desnecessárias, mesmo durante o dia;
2. Reforçar trancas, portas e janelas;
3. Evitar o uso de sanitários localizados no fundo dos quintais.
E concluía:
“Nós, defensores da lei e da ordem, não mediremos esforços para garantir a segurança do povo bom e ordeiro dessa terra.”
Quarenta e oito horas depois, o governo decretou toque de recolher em Macapá, proibindo a circulação de pessoas entre 20h e 6h.
Parecia um pesadelo.
A cidade silenciou. Ruas vazias, portas fechadas. A sensação era de confinamento coletivo. Dentro das casas, o medo circulava livre: qualquer ruído parecia ameaça, e o tempo custava a passar até o amanhecer.
Mas o tempo passou.
Cinco décadas depois, a memória desse episódio — apelidado pelo povo de “Engasga Engasga” — permanecia incompleta. Faltava o depoimento de alguém do governo que revelasse o que se passou nos bastidores do poder.
A Comissão da Verdade, criada em 2013 pelo então governador Camilo Capiberibe, investigou os crimes da ditadura no Amapá, mas encontrou enorme dificuldade para colher depoimentos. Poucos se dispuseram a falar.
Durante muito tempo, vindo dos governantes da época, quase nada se soube, até que um dia…Janete me surpreendeu com um maço de folhas amareladas, datilografadas.
— Lembra disso? — perguntou.
— São textos teus sobre o “Engasga”. Tem entrevista com o Chaguinha… e com o Dr. Adamor.
Comecei a ler e não parei mais.
Eram cerca de trinta páginas: vinte com textos meus, escritos de forma romanceada sobre o “Engasga” e outras com a degravação de duas entrevistas — uma com Francisco das Chagas Bezerra, o Chaguinha, vítima da farsa, e outra com o advogado Adamor Oliveira, então assessor do secretário de Segurança.
Coincidência ou não, eu já estava retomando esse tema para um livro. Mas, diante do ineditismo do depoimento de Adamor, decidi torná-lo público imediatamente.
As entrevistas foram realizadas, ao que me recordo, em dezembro de 1989, no final do meu primeiro ano como prefeito de Macapá. Trinta e sete anos depois, esses escritos perdidos reaparecem, e com eles as entrevistas que compartilho com vocês.
Boa leitura.
Entrevista
Francisco das Chagas Bezerra — Chaguinha. Em dezembro de 1989.
Nascido em 1907, em Fortaleza (CE), militante do Partido Comunista. Chaguinha tinha 84 anos quando me concedeu esta entrevista.
“Isso começou por volta do dia 20 de maio de 1973. Eu só ouvia falar que havia homens atacando mulheres, tentando estrangulá-las, mas sem matar. O medo foi crescendo. Em todos os bairros se falava disso. A cidade entrou em pânico.
Eu não levava muito a sério no começo. Eram muitos comentários. Mas o terror foi tomando conta de todos.”
No dia 31 de maio, ao sair do trabalho na antiga Beira — onde fazia carretos — encontrou um amigo:
“Seu Chagas, estão prendendo muita gente. Já levaram Isnar Lima, Jorge Padeiro e o filho dele. Melhor o senhor ir pra casa.”
Chaguinha seguiu pela Avenida FAB. Ao chegar, a polícia já o aguardava.
“Me deram voz de prisão na porta de casa. Disseram que era por esse ‘negócio’ e por ordem superior. Entraram e reviraram tudo. Livros, fotos… até livro da Rachel de Queiroz. Era horrível. Eu estava apavorado, mas não demonstrei.”
Foi levado à Fortaleza de São José, onde já havia cerca de vinte homens presos.
“No dia seguinte, os soldados entraram mandando todo mundo encostar na parede. Rasgaram roupas, colocaram as camisas na cabeça como capuz. Aquilo era humilhante. Depois nos amarraram com arame.”
Reconheceu conhecidos entre os presos.
“Quando me chamaram pelo nome, amarraram minhas mãos. Um soldado que me conhecia disse: ‘Não aperta muito, é o velho Chagas’. Aquilo me salvou.”
Depois, foram levados em caminhão ao aeroporto e embarcados em um avião do Exército rumo a Belém.
Ao desembarcarem em Belém, foram transportados para a 5ª Companhia de Guarda do Exército. Lá, um oficial ordenou que as amarras fossem retiradas e que os detidos fossem alimentados. Entre os presos, havia uma mulher loira, posteriormente identificada como uma jovem vendedora de confecções em Macapá, acusada de distribuir bombons envenenados para crianças.
Os presos foram chamados individualmente para interrogatório. Hermínio Gugel, ao retornar, demonstrava angústia, afirmando que não seria contra as autoridades. À noite, um soldado tentou intimidar os detidos, ordenando que repetidamente se levantassem e sentassem. Um dos presos, um paraibano com problemas no joelho, recusou-se a obedecer, desafiando os soldados a atirarem nele. Outro soldado interveio, lembrando que os detidos estavam sob a responsabilidade do major Amorim. Depois de três semanas de interrogatórios e maltratos, o inquérito policial militar (IPM), instaurado para investigar o caso, chegou a conclusão que tudo não passara de uma farsa grotesca, e todos foram postos em liberdade.
Entrevista
Dr. Adamor Oliveira
Advogado, à época assessor do secretário de Segurança Pública. Dezembro de 1989
Adamor inicia sua fala com um desabafo que revela o sentimento de perplexidade que o acompanhou anos depois:
“Eu só fui entender o que estava acontecendo muito tempo depois. Quando percebi, pensei: como éramos ingênuos.”
E foi direto ao ponto:
“Gentil Almeida Campos queria justificar a criação da Polícia Militar no Amapá. Para isso, precisava de um fato concreto. A estratégia foi simular ataques para gerar pânico. Assim nasceu o ‘Engasga Engasga’.”
Segundo ele, o personagem central da farsa foi um estrangeiro conhecido como Itapai.
“Ele vivia no Brasil com documento falso. Gentil mandou integrá-lo às rondas. Com o tempo, percebemos que ele próprio era o ‘engasgador’.”
Mesmo com suspeitas, o secretário o protegia.
“Houve uma vez em que ele desapareceu durante a ronda. Nesse intervalo, ocorreu um ataque perto de onde estávamos.”
Paralelamente, começaram a mapear antigos militantes políticos.
“Levantaram nomes de pessoas presas em 1964. Depois vieram as prisões.”
Cerca de vinte pessoas foram detidas e enviadas a Belém em avião militar.
“Quando prenderam todo mundo, os ataques simplesmente pararam.”
O objetivo estava cumprido.
“O Itapai foi colocado no meio dos presos para ouvir conversas e relatar tudo depois. Em Belém, foi liberado. Os demais ficaram.”
O Inquérito Policial Militar foi conclusivo:
“Não havia nenhuma atividade subversiva. O próprio Exército concluiu que tudo não passava de uma simulação.”
O processo foi arquivado.
Sobre o destino de Itapai:
“Gentil mandou que ele deixasse o país pela Guiana Francesa. Foi preso no caminho, voltou, recebeu dinheiro e ordem para desaparecer. Nunca mais se ouviu falar dele.”
Adamor encerra com uma síntese dura:
“Hoje está claro: tudo foi montado. Uma operação para justificar poder e repressão.”
Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça.
Histórias como essa nos lembram que a democracia não é um dado permanente — é uma construção cotidiana. Quando o Estado fabrica o medo e manipula a verdade, o que está em jogo não é apenas a liberdade de alguns, mas a segurança de todos. Defender a democracia é, antes de tudo, garantir que nunca mais o medo seja usado como instrumento de poder contra o próprio povo.
*) Prefeito de Macapá, governador e senador do Amapá. Autor da Lei Complementar nº 131/2009 (Lei da Transparência). Empreendedor da economia da floresta em pé.

Guardo com muito carinho

Em 1975, ano do jubileu de prata do estádio Glicério de Souza Marques, o Glicerão, eu ganhei da Federação Amapaense de Desportos-FAD (hoje Federação Amapaense de Futebol) esta linda medalha de Honra ao Mérito. Foi o reconhecimento do meu trabalho como repórter esportiva, numa época em que  os homens dominavam o jornalismo esportivo.
Guardo até hoje, com todo cuidado e carinho, essa medalha.
Era comemorado também os 30 anos de fundação da Federação.
1975 foi um dos anos em que o Amapá exportou mais jogadores para outros estados e a imprensa paraense referia-se ao então Território Federal assim: Amapá, um celeiro de craques. O presidente da Federação era Manuel Antônio Dias e o vice era Pedro Assis de Azevedo.

História do morro da Mangueira

Quando em 1559 tem início, oficialmente, o tráfico de escravos negros, trazidos da África para o Brasil, transportados aos milhares nos navios negreiros, os que sobreviviam às terríveis condições da travessia eram vendidos nos mercados de escravos. Numa terra estranha, separados de suas famílias e nações, misturados a outros escravos de origem e idioma diferentes dos seus, sofrendo todo tipo de maus-tratos, juravam se libertar e voltar à terra de origem. Mesmo obrigados a adotar um nome cristão e a religião do branco, mantiveram-se fiéis aos seus costumes e crenças religiosas. Para cultuar seus Orixás, usavam subterfúgios, adotando para cada entidade africana um santo católico “de fachada”. Era nas festas dos santos dos brancos que podiam fazer seus batuques e cantos africanos. Se por um lado tiveram que adotarem muitos dos costumes impostos, sua cultura africana, forte e viva, foi se infiltrando entre os brancos.

O Brasil se transforma, deixa de ser colônia, se torna reino, conquista sua independência de Portugal, mas para os negros não há o que comemorar. Continuam escravizados. O sonho da liberdade permanece. Alguns conseguem comprar sua alforria, muitos fogem. Nos fundos do terreno onde foi construído o palácio, residência do imperador – a atual Quinta da Boa Vista – eleva-se um morro, que naquela época era chamado do Pedregulho. Era lá, entre as suas mangueiras, que a cavalaria ia procurar os escravos fujões das casas do nobre bairro de São Cristóvão.

Em 1852, foram erguidos nele os postes das linhas telegráficas e o nome foi adotado, passou a chamar-se morro do Telégrafo. Quando, em 1861, foi instalado o serviço de transporte ferroviário na cidade, havia uma fábrica de chapéus, entre as estações de São Cristóvão e São Francisco Xavier, naquele terreno coberto por mangueiras.

Como o trem, fora das estações, só fazia rápidas paradas para os passageiros saltarem, o jeito era avisar o condutor que ia descer lá nas mangueiras. Quando foi inaugurada a estação, em 1889, um ano após o tão esperado fim da escravidão, seu nome só podia ser este, Estação Mangueira. Nome com que passou a ser conhecida toda a região. O nome Telégrafo permaneceu identificando uma parte do morro, que tem também as localidades chamadas de Pendura Saia, Santo Antônio, Chalé, Faria, Buraco Quente, Curva da Cobra, Olaria, Candelária e outros pequenos núcleos populacionais, que formam o complexo do Morro da Mangueira. A área do antigo palácio, que tinha ficado abandonada e se transformado num matagal, depois da proclamação da república é uma das regiões que o Prefeito da cidade resolve urbanizar, junto com o Centro. As casas em volta do 9º Regimento de Cavalaria, onde moravam muitos militares e alguns civis, tinham que ser demolidas, mas o Comandante permite que levem o material e construam em outro local. Esse lugar foi o morro da Mangueira e teve início sua ocupação.

A esse núcleo inicial vieram juntarem-se as famílias expulsas dos cortiços do centro da cidade, demolidos para dar lugar a grandes avenidas e modernas construções. Surgiu assim na Mangueira uma comunidade de gente pobre, constituída quase em sua totalidade por negros, filhos e netos de escravos, inteiramente identificados com suas manifestações culturais e religiosas.

(Fonte: Portal da Magueira)

Álvaro da Cunha, um poeta a serviço do Amapá

“Tu sabes que onde eu for
Amapá
irá o amor
amor que a tua paisagem
de sonho acenderá
no mais profundo
e lírico sial
de que sou feito e contrafeito.
Meu olho oral
vê e fala do teu ar
do teu céu
do teu mar
das tuas florestas.”
Esta declaração de amor ao Amapá é parte do poema “Amapacanto” de Álvaro da Cunha, poeta que carregava na alma a paisagem amapaense.
Nascido em 5 de agosto de 1923 em Belém do Pará, o poeta veio para o Amapá com 23 anos de idade, onde desempenhou cargos e funções de relevo na administração, como a presidência da Companhia de Eletricidade do Amapá. Fundou e colaborou com várias revistas literárias, como a Rumo, Mensagem e Latitude Zero.
Faz parte da primeira geração de poetas do Território Federal do Amapá, ao lado de Alcy Araújo, Ivo Torres, Aluísio Cunha e Arthur Nery Marinho. Estes cinco movimentaram o setor cultural amapaense, fundando revistas, criando clubes de artes e editoras, promovendo noites lítero-musicais e cursos de teatro e artes plásticas.
Sobre Álvaro, Alcy dizia que era “ um poeta a serviço do Amapá”. Estudioso dos problemas da região, escreveu a mais importante obra sobre a exploração do manganês:  “Quem explorou quem no contrato do manganês”. Por causa desse livro sofreu perseguições e teve que deixar o Amapá e se estabelecer no Rio de Janeiro, onde atuou no setor privado como técnico e diretor de escritórios de consultoria especializados em planejamento econômico.
Foi embora mas não perdeu os laços com esta terra onde, segundo ele, em vez de criar poemas “recolhia-os já feitos na paisagem”.
Alcy Araújo dizia que Álvaro nunca se liberou do sol da Latitude Zero. “Álvaro não desassumiu também sua deslumbrada e aberta responsabilidade de usuário, de amante e intérprete do verde incomum da Latitude Zero”, disse Alcy no prefácio do livro Amapacanto, considerado um atlas poético dessa região. “O Amapacanto, lançado em 1989, é uma verdadeira exaltação ao Amapá”, afirma o presidente da Associação Amapaense de Escritores e imortal da Academia Amapaense de Letras, Paulo Tarso.
Além de “Amapacanto” e de “Quem explorou quem no contrato de manganês, Álvaro lançou também “Pássaros de Chumbo”, em 1961 no Rio de Janeiro.
Há centenas de poemas seus publicados em jornais e revistas do Amapá, Pará e Rio de Janeiro, que deveriam ser organizados numa rica antologia para que a nova e as futuras gerações possam conhecer um dos maiores poetas modernistas da região Norte.
Álvaro Cândido Botelho da Cunha morreu no Rio de Janeiro em 22 de fevereiro de 1995.
“A gente se perdeu
Amapá e eu há muitos anos.
logo nós dois
tão semelhantes e afins
que parecíamos drágeas da mesma vagem
múltiplos mútuos
grãos germinados gêmeos um do outro”
MISERERE
(Do livro “Amapacanto”)
A mulher operária tinha o ventre achatado pelo peso da fome. Levantei-lhe a cabeça, perguntei o seu nome e a sineta soou. Era a hora do almoço. A mulher abaixou-se, sacudiu o menino, o menino acordou. A mulher operária tinha o ventre achatado pelo peso da fome. Cuspiu sobre os seios – eram uns seios sem leite – e a criança mamou.
– Tomei nota em meu livro, e alguém protestou.
Outra vez fui às docas. Conversei com Maria, na “Pensão da Estiva, e Maria explicou:
O meu homem me obriga a trabalhar para ele. Chega tonto de sono, e eu tonta de amor. Nos seus lábios tem éter, licor, ambrosia, mas os beijos que trazem são beijos cansados, desses beijos pesados, de amargo sabor.
– Registrei em meu livro, e alguém protestou.
A menina passava. A roupinha de trapos, a carinha mirrada, o corpinho franzino. Dei-lhe um copo com água, pus-lhe as mãos no cabelo, e a criança chorou.
– Mencionei no meu livro, e alguém protestou.
No irmão da menina, os dois olhos abertos eram duas estrelas que a lama ofuscou. Ele estava tão sujo, e olhava o meu terno com tanto interesse, que o embrulho de peixe escorreu-lhe das mãos e ele nem reparou.
Recuei assustado; encerrei o meu livro e joguei-o nas águas, mas o livro boiou. Apanhei-o com nojo. Rasguei-o em pedaços. E a angústia passou.
– Para que registrar as misérias da vida?
– Para que registrar? … minha voz repetia
e ninguém protestou.