Meu pai

Num dia de tristeza me faltou o velho
E falta lhe confesso que inda hoje faz
(…)
Eh, vida voa
Vai no tempo, vai
Ai, mas que saudade
Mas eu sei que lá no céu o velho tem vaidade
E orgulho de seu filho ser igual seu pai
Pois me beijaram a boca e me tornei poeta
Mas tão habituado com o adverso
Eu temo se um dia me machuca o verso
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
(Trechos de “Espelho”, de João Nogueira e Paulo César Pinheiro)
E sinto uma grande saudade também do meu sogro Moacyr Monteiro Costa. Ele foi como um pai para mim por isso sempre digo que foi um privilégio tê-lo como sogro.
Sei que neste segundo domingo de agosto, Alcy e Moacyr – que estão lá no céu, bem pertinho de Deus – sorriem para nós e nos abençoam.

Chá da tarde – Lirismo

LIRISMO
Alcy Araújo

(1924-1989)

Não,
eu não te darei um mal-me-quer.
Eu te darei
uma rosa de todo ano
e uma estrela
e uma lua branca
muito branca
um lírio
– porque os polichinelos ficaram inanimados
no bazar.
Depois
farei o poema do nosso primeiro beijo
recostarás tua cabeça no meu peito
e meus dedos compridos
acariciarão os teus cabelos
e Deus saberá
que nós estamos nos amando
porque haverá luz
e um grande silêncio
no pensamento das coisas.

Quando a alma é uma canção

QUANDO A ALMA É UMA CANÇÃO
Alcy Araújo Cavalcante


O poeta pensou que fosse fácil falar, fosse fácil escrever, dizer qualquer coisa, neste dia de amor filial. A emoção, porém, interdita o gesto de escrever. As palavras ficam prisioneiras e a alma é uma canção que chora silêncios, neste domingo do mundo.
Penso no olhar de minha mãe rezando. No olhar que me viu pela primeira vez e adivinho um universo de ternura. Ternura que se transmitiu a mim e me fez poeta. Acho que sou poeta porque a sensibilidade de minha mãe assim o desejou.
Tanta coisa para dizer e este poeta sem palavras, com o coração cheio de lágrimas. E a inspiração defronte, doendo como um remorso. O poeta se pergunta se é um bom filho. Se merece amor. E não encontra resposta. É que hoje é dia das mães.
Que pode dizer este poeta, meu Deus, neste domingo? É melhor não dizer nada. É melhor pedir perdão. Bênção, minha mãe… perdoe seu filho.
Depois beijar as mãos enrugadas de mamãe e chorar. Chorar muito, até a alma se purificar com o fogo das lágrimas. Lágrimas caindo no rosto de minha mãe, no beijo de minha mãe, nos cabelos grisalhos de minha mãe.
Mãe que é perdão, súplica, oração, bondade, fé. Mãe onde ainda posso depositar minhas mágoas, meus desencantos, minhas grandes dores, minhas angústias só minhas.
Mãe que me pôs no mundo para a glória de ser poeta, para amar, para sentir as grandezas e as misérias do mundo. Mãe que me fez homem. Que me ensinou a ser bom, até o limite em que um homem pode ser bom. Que me ensinou a ser generoso até onde me permitem as minhas humanas limitações. Que me fez humilde até onde é possível meu orgulho. Enfim, que me fez filho, nada mais que um filho que ainda precisa de carinho porque não encontrou o caminho do retorno.
Minha mãe, acabaram as minhas palavras. Mas o meu amor permanece.

(O poeta, escritor e jornalista Alcy Araújo Cavalcante, meu pai, nasceu em 7 de janeiro de 1924 em Peixe-Boi, no Pará, e morreu em 22 de abril de 1989 em Macapá. Sua mãe, Elvira Araújo Cavalcante, morreu em novembro de 1971 em Macapá)

Conto Abril – Século XX

Conto Abril – Século XX
Alcy Araújo (1924-1989)

É abril. Esta, a grande e universal verdade. Abril – Século XX, explico. Relembrando judas, o que traiu, e Pilatos, o que lavou as mãos, e Pedro, o que negou. Abril trazendo até nós a lembrança de que numa sexta-feira do mundo crucificaram o Homem Bom. O que acreditava na remissão dos homens. O que andou sobre a poeira escaldante dos caminhos e sobre a leveza das espumas, conduzindo de público o gesto de bondade. O que não traiu. O que não foi indiferente. O que não negou. Eu sou a Verdade, disse. Capaz de todos os sofrimentos e de amar sobre todas as coisas. Sabia que amar é um modo de sofrer.
Numa sexta-feira do Mundo, o Homem Bom subiu a colina fora da cidade. Com o Homem, o Cirineu, as mulheres, os centuriões, a turba. Do alto da cruz elevou-se ao seu reino. César era de outro mundo. Ficaram a turba, os centuriões, as mulheres, o cirineu.

Vinte séculos depois de trinta e três anos de exemplos, envergonhado e triste, diante do templo, da imagem, círios lacrimais, o poeta não tem coragem de pronunciar o seu santo nome.

Bastaria isso. Estariam salvas as almas migratórias, desencontradas, exodoidais que habitam as latitudes do poeta.

Sabeis. Muitos séculos viveu o poeta. Do Gênesis a abril do corrente século. Mais precisamente. Do caos ao hoje. Por isso os sentimentos. A traumatização da palavra sagrada, disse, há pouco. Melhor direi inibição. Melhor ainda. Descoberta de velhos sentimentos, na contemplação das almas do poeta.

Contarei a descoberta. O poeta contemplava nesta hora do século os olhos de suas almas multiplicadas, fixos nos céus, por onde passam anjos, estrelas, música de rádio, imagens de TV. E o poeta – cheio de experiências bem vividas – Caos, Paraíso, Dilúvio, Sodoma, Babilônia, Cartago, Roma, Wall Street, etc. etc. – se comoveu.

Suas almas, almas de poeta, todas ali, sem faltar nenhuma, na muda contemplação do azul, do infinito, dos horizontes do Pai. Emotivo e feliz, o poeta chorou. O poeta chora como os anjos.

Seus olhos, então, alçaram vôo, enquanto a mão emocional acariciava os cabelos cor de lago da alma recém-nascida.

Era chegado o momento. Tudo consumado. Ao longe, imóvel, pairava o disco voador.

Perdoai, Senhor, eles não sabem o que fazem. É abril – Século XX.
(Extraído do livro Autogeografia, de Alcy Araújo, lançado em 1965)

Poema com destino à Noruega

Poema com destino à Noruega
Alcy Araújo

Eu ando com a cabeça baixa e dolorida
tateando na sombra dos guindastes
o corpo flácido das mulheres das docas
dentro da noite no cais.

Por que passam por mim tantos
marinheiros, navios, ondas balouçantes?

Se eu pudesse
descansaria a cabeça dolorida
num saco, num fardo, numa caixa,
depois escreveria um poema simples
e montava-o na onda com destino à Noruega.
E a moça loira que o lesse ao sol da meia-noite
não saberia nunca que sou negro, fumo liamba
e tenho as mãos revoltadas e calosas.

(Do livro Autogeografia – Macapá-AP – 1965)

Para não esquecer Alcy Araújo

Hoje, 7 de janeiro, comemora-se 96 anos de nascimento do poeta, escritor, compositor e jornalista Alcy Araújo Cavalcante, meu pai. Um dos nomes mais importantes da cultura amazônica. Ele está nas principais enciclopédias e antologias brasileiras.
Alcy faleceu em 22/04/1989

Com uma saudade imensa dele, retirei do fundo do baú  esta entrevista que ele concedeu no dia 6 de novembro de 1981, na Rádio Equatorial, aos repórteres e radialistas Pedro Silveira e Edivar Mota.

Pedro – Você está disposto a conceder a entrevista e responder perguntas mesmo indiscretas?
Alcy
– Em primeiro lugar não gosto de dar entrevistas nem de entrevistar. Mas a seqüência tem que ir ao ar e eu subo ao patíbulo.

Pedro – Qual é a sua, poeta? Você é profissional de imprensa. Com mais de 40 anos de tarimba…
Alcy
– Certo. Mas não gosto de conceder entrevistas porque nem sempre as perguntas são inteligentes. Agora mesmo não sei se vocês vão fazer perguntas inteligentes.

Pedro –  Não se preocupe que eu e o Edivar bolamos algumas perguntas inteligentes. Afinal de contas a gente integra o que você já chamou de “trio de ouro” da radiofonia amapaense. Lá vai a primeira pergunta: Você parece ter idade indefinível e possui traços fisionômicos caboclos, amazônicos. Por que?
Alcy – Tenho a idade que aparento. Nem um ano a mais, nem um ano a menos. Vim do espaço sideral e aterrissei em Peixe-Boi, na extinta Estrada de Ferro de Bragança, Pará, Brasil, município de Igarapé-Açu.

Pedro – Quer dizer que sua terra natal é Peixe-Boi?
Alcy – Exato. Por isso não sou carne nem peixe. Mas sou estradeiro como o doutor Alberto Lima, o doutor Pedrosa e meu compadre José Epifânio de Souza.

Pedro – Seu nascimento em Peixe-Boi justifica os traços caboclos. Mas, em que ano você chegou ao planeta Terra?
Alcy – No conturbado ano de 1924. Em janeiro, dia 7.

Pedro – Você aterrissou em Peixe-Boi. E depois?
Alcy – Fui crescendo. Aprendi a profissão de marceneiro, de polidor de móveis e de fazedor de versos e mais alguma coisa.

Pedro – Nesta alguma coisa está o jornalismo. Quando foi que começou?
Alcy – O jornalismo foi uma questão de salário e não de vocação. Eu ganhava salário mínimo, na marcenaria São Pedro, na Rua Sete de Setembro, em Belém, perto da Praça da Bandeira. Eram seis mil réis por oito horas de batente pesado. O jornal “A Folha do Norte”, do Paulo Maranhão, pagava oito mil réis por um plantão de revisão. Troquei a bancada da oficina por uma mesa de jornal. Daí a coisa foi indo naturalmente. Repórter de polícia, de esporte, de política, noticiarista, redator, secretário de redação, diretor, editor …. passei pelas redações do “O Estado do Pará”, “Pará Ilustrado”, “Diário Associados” e “O Liberal”.

Pedro – Como foi que você veio para o Amapá?
Alcy – Coisa de política. O Magalhães Barata, meu saudoso amigo, foi derrotado eleitoralmente para o governo do estado, depois de uma campanha terrível onde foi assassinado Paulo Euletério Filho, moço de grande inteligência, intelectual, que foi o primeiro chefe de polícia aqui do Território do Amapá integrando a equipe de Janary Nunes. Aí a coisa ficou difícil em Belém, não dava mais pra ficar lá. Então eu escrevi uma carta para o poeta Álvaro da Cunha, oficial de gabinete do governador Janary Nunes, dizendo que aceitava um convite que me havia sido feito para trabalhar no Amapá, em 1947. Vim, fiquei, estou aqui.

Edivar – Como funcionário público você venceu aqui no Amapá?
Alcy – Funcionário não vence. Tem vencimentos. Eu hoje em dia nem isto tenho. Tenho proventos de aposentado.

Edivar – Mas você ocupou cargos de relevo em algumas administrações. Eu lembro que você ocupou os cargos de diretor da Imprensa, oficial de gabinete, chefe do gabinete do governador, secretário geral. Falta alguma coisa?
Alcy – Falta. Fui chefe de expediente da Secretaria Geral, chefe da Assessoria Técnica do governador, assessor técnico da Câmara, diretor da Difusora, assessor de imprensa e assessor de relações públicas.

Edivar – Isto compensou sua vinda para o Amapá?
Alcy – Compensou. Valeu pelo que foi possível realizar numa terra em estágio pioneiro de desenvolvimento. Eu sou testemunha e participante de um período da  história do Amapá.

Pedro – Dizem que você é um técnico em ideias gerais. O que você realizou nessa estranha profissão?
Alcy – Muitos trabalhos. Alguns bem gratificantes moralmente. Tutu mesmo não deu. Atuei na elaboração do primeiro plano qüinqüenal da SPVEA e no plano de emergência para o mesmo organismo após o golpe de 1964. Esses trabalhos carrearam grandes recursos para a região.

Pedro – Um aparte. A SPVEA foi transformada no que é hoje a Sudam.
Alcy – Exatamente. Sou autor do quadro de pessoal da Câmara de Macapá e do plano de classificação do legislativo macapaense. Integrei a equipe que elaborou os projetos de desenvolvimento do Amapá, para o governo Jânio Quadros. Foi uma experiência frustrante. No dia em que a equipe concluiu os trabalhos o homem da vassoura renunciou. Mas existem outros trabalhos, como conferências, projetos, monografias e o mais ….

Pedro – E na literatura, o que você fez?
Alcy – Escrevi. Poemas, contos, crônicas que andam por aí em livros, antologias, suplementos literários e esta coisa toda.

Pedro – Há informações de que você vai lançar mais um livro
Alcy – Os originais do livro “Poemas do Homem do Cais” já se encontram no Rio de Janeiro e o lançamento está previsto para dezembro, quando completarei 40 anos de profissão como jornalista.

Pedro – Por falar nisto, como jornalista quais são os destaques de sua vida profissional?
Alcy – Não há destaques. Como jornalista a gente escreve para o dia e pronto. É o fato passando. É a ocorrência diária.

Pedro – Mas você foi contemplado com “menção honrosa” em concursos de reportagem e tem seu nome incluído em antologias e enciclopédias até no estrangeiro. Não considera isto como destaque?
Alcy –  Quando eu escrevi a reportagem “Amapá – verde Território da esperança” eu não visava prêmio, mas mostrar o Amapá para o leitor dominical. Aí deu “menção honrosa” e isso foi bom. Quanto as antologias e enciclopédias estão por aí. Modernos Poetas do Amapá, Brasil e Brasileiros de Hoje, Grande Enciclopédia da Amazônia, Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira e outras.

Edivar – Você disse que não gosta de entrevistar. Qual é o motivo?
Alcy – É que o entrevistado sempre veste roupa limpa por cima da roupa de baixo, nem sempre imaculada. Diz meias verdades, meias mentiras e, quando percebo isto, fico chateado.

Edivar – Quem você já entrevistou?
Alcy – Muita gente. Assassinos, dignatários da Igreja, ladrões, políticos, presidentes e ministros da República, governadores, atletas, artistas, intelectuais. Todo mundo. Inclusive a Rachel de Queiroz, a pessoa mais difícil de entrevistar que eu já encontrei. Nesta época em que a realeza está em baixo astral, quando se diz que vão restar apenas cinco cabeças coroadas – que são as quatro do baralho e a da Inglaterra – eu já entrevistei um rei. (aqui Alcy ri)

Pedro – Peraí, Alcy, que rei foi este?
Alcy – Foi o Sacaca, rei momo do nosso carnaval.

Edivar – De que é que você gosta?
Alcy
– Gosto de flores, de juventude, de gente bonita passando, de mar, de noite, de anjos, de crianças sorrindo, de pato, pato vivo, pato assado, pato no tucupi e de outras coisas que Deus deve gostar também.

Edivar – E do que você não gosta?
Alcy – De gente burra, música tocando alto, gritos de dor, guerras, violência, bebida ordinária. E peço perdão por não gostar de alguma coisa que deve ser amada.

Pedro – Fale um pouco da sua vida particular
Alcy – Sou jornalista. Não tenho vida particular. Só tenho a pública. Acontece que há a vida íntima e desta eu não falo. A vida íntima pertence a cada homem, seja ele o Papa João Paulo II ou um gari da Prefeitura. De minha intimidade eu não falo.

Pedro – E das mulheres? Quantos amores em sua vida?
Alcy
– Ah, as mulheres. Acho que tenho um pouco de Vinicius de Moraes, mas ele ganhou o jogo. Ele deixou o gramado por morte e eu por aposentadoria.

Edivar – E como radialista, como é que tem sido?
Alcy – Tem pouca coisa pra dizer. Comecei lá pelos anos 40, na antiga PRC-5, Rádio Clube do Pará, nos tempos de Roberto Camelier. Depois estive fora dos microfones por uns 15 anos. Só retornei aqui no Amapá, numa emergência para apresentar o programa “Umas e Outras” do Agostinho Souza, na Rádio Difusora. Depois veio a Rádio Equatorial onde fui diretor de jornalismo. Em seguida, trabalhei na projeção e organização da Rádio Educadora. Fiz tudo ou quase tudo em rádio. Locução, produção, animação de auditório e o mais. Agora estou de volta aqui na nova rádio Equatorial.

Pedro – Fale agora do compositor.
Alcy – Na realidade não sou compositor, sou poeta e letrista. Tenho viajado muitas canções com Nonato Leal. Tenho parcerias com Aimoré Batista, Jacy Rodrigues, Nair Miranda e não sei quem mais.

Pedro – Você já venceu festivais e carnavais de rua
Alcy – Fui vencedor do Primeiro Festival da Canção Amapaense, com Nonato Leal. Com o mesmo parceiro consegui um segundo e um quinto lugar e com Jacy Rodrigues um segundo lugar. Nos carnavais de rua, de escola de samba,  consegui três primeiros lugares com Lendas e Mitos da Amazônia, Mãe Luzia e Banco do Brasil.

Pedro – Vamos parar. Uma vida como a do tio Alcy não cabe numa entrevista. Muita coisa deixa de ser perguntada e muita coisa deixa de ser respondida. Resta apenas saber uma coisa: você, Alcy, foi sincero?
Alcy
– Fui sincero comigo mesmo.

Pedro – E comigo, com o Edivar e com os ouvintes?
Alcy – Falei algumas verdades, algumas meias verdades e nenhuma mentira.

É tempo de esperanças

VÉSPERA
Alcy Araújo

É tempo de esperanças…

Do céu descem os cânticos dos anjos e da terra sobem as canções dos pastores. Os campos vestem a alva pureza dos lírios.

O céu é mais azul e uma imensa luz chega no coração dos homens de boa vontade.

No vento soprando, na canção dos que vem do mar, na luz da tarde, no silêncio das florestas, no sorriso das crianças, no cansaço dos peregrinos, em toda parte há um anúncio de paz.

De longe vem a mensagem de amor que desliza no ar iluminado, que escorre no fio das águas das fontes, que está no murmúrio dos regatos, que desce nos prateados raios da estrela dos pastores.

Nas lágrimas das mães, no pranto dos órfãos, na poeira dos caminhos, em tudo está a harmonia celestial.

Ajoelhemos nossas almas no altar da humildade, porque este momento é um momento de Amor. Cristo vai nascer. É véspera de Natal.

(Do livro “Tempo de Esperança”, do poeta e jornalista Alcy Araújo, meu pai)

Para meus filhos

PARA MEUS FILHOS
Alcy Araújo Cavalcante (1924-1989)
Escrevo para meus filhos. Para dizer que é tempo de esperança entre tantas desesperanças e que há, no coração grisalho, a certeza de que me realizei em vocês, em cada nascimento de vocês, em cada Natal de vocês.
Poderia dizer outras palavras, alinhar outras expressões. Mas acho que dizendo que me realizei em vocês, estou dizendo o melhor que vem do meu dentro, do que sou, do que amo como pai e como homem, cargueado pelas vivências cotidianas e relativas.
Desejo que vocês e todos que tomarem conhecimento desta crônica fiquem sabendo que eu os amo, porque vocês estão em mim, nas minhas horas nuas, nos meus instantes mais íntimos, nas coisas que mais me pertencem, como me pertencem as mágoas que plantei como um lavrador de angústias.
Estamos mudando e eu não vou garimpar palavras, nem costurar termos estabelecidos, nem concretar um poema. Não que vocês não mereçam. É que tenho medo de não ser transparente, não existir à luz equatorial, não exibir suficientemente esta alegria de curtir vocês em cada vereda por onde passam meus pés nus e pesados como barcos que buscam o fundo do mar, do grande mar absoluto.
Gostaria de construir nesta página o meu sonho, o destino de cada um. E vocês teriam as mais belas profissões, como as de santos, poetas, sacerdotes, pintores… mas quem sou eu, além de um pai, para construir destinos?
Todavia, eu ergo as mãos plenas de carinho e acaricio a cabeça de cada um, num gesto de bênção. Deus os abençoe, pelo muito que consegui ser como poeta e como homem sofrido. Feliz Natal para vocês…