Velhice – Ray Cunha

Velhice
Ray Cunha

raycunhaA preocupação com a velhice perpassa idades, gêneros, etnias, regiões e sociedades. Quase todo mundo se preocupa com ela, mas noto que a velhice atinge mais os jovens, e de maneira concreta. Quanto menos esclarecido, menos espiritualizado, menos educado é o jovem mais ele desdenha, e até hostiliza, os velhos, tratando-os com desprezo e nojo. O que é, pois, a velhice? Por que inspira tanta repugnância? Por que é tão menosprezada?

Envelhecer é morrer, pois que todos nascem com destino físico traçado, o código genético. A vida mental determinará o dia e a hora da morte, mas morrer é certo; podemos até voltar do corredor espiritual e ressuscitar, contudo, o corpo carnal não durará mais do que um século, e, se durar, não será por muito mais tempo. E até chegar ao fim, vai-se deslizando, cada vez mais depressa, num tobogã mais e mais liso; são as células morrendo mais do que nascendo, a pele se enrugando, os ossos tornando-se mais porosos, os órgãos falindo, até esvair-se a energia vital, a centelha do mistério da vida, e surgir o abismo, mas também a luz.

O desdém que alguns jovens e adultos dispensam aos velhos decorre de dois fatores: um, a animalidade dos jovens. Nela, a morte, e a velhice, não existem; no seu mundo só há beleza, vigor, primavera. O outro fator é o apego, a ilusão de que nossas quatro dimensões são para sempre.

Notaram que as crianças não excluem os velhos? Pois elas ainda têm aberto o portal que transcende as quatro dimensões, e que só pode ser transposto por meio da inexistência do apego, da pureza.

O fato é que o tempo nem é importante. Importante é a energia. Há velhos que jamais deixam de trabalhar, de produzir, de ajudar os jovens a construírem seus mundos, e de amar, E há os que morrem mentalmente, mas seus corpos continuam vagando por aí, deteriorando-se lentamente, às vezes crivados de piercings, ou com a pele quase toda furada em pequenos pontos coloridos, ou sob a mesa de um cirurgião plástico. A energia está na mente; os corpos são apenas prisão, da qual saímos porque amamos.

Já passei dos 60 e convivo com todo mundo, inclusive jovens. Não quero nada dos jovens além da oportunidade de vê-los na sua beleza imortal. O fato é que transcendi o tempo, porque de tanto ouvir o riso das crianças, de tanto observar as rosas, de sentir os jasmineiros umedecendo as noites tórridas do trópico, de inalar a fragrância do mar, que inunda minha alma, de tanto montar a luz no cataclismo do primeiro beijo, acabei por ouvir o atrito da Terra no espaço e de sentir que a eternidade é agora.
Brasília, 28 de dezembro de 2015

Sylvya , com dois ípsilons ou estudo de caso

SYLVYA, COM DOIS ÍPSILONS ou ESTUDO DE CASO
Ruben Bemerguy

Ruben_8-150x150Nenhum amor é igual a outro amor. Cada amor ordena uma ciência própria. Por isso o amor não se decora. Só se decora a tabuada. A poesia, como amor, também não se decora. Poesia se memoriza, especialmente se as letras têm o perfume de Macapá. Aprendi isso ainda menino.

Naquela época, e mesmo despertando uma adolescência febril, eu vigiava meus amores de longe. Tinha muito medo que meus amores soubessem de meu amor. Escondido de meus amores eu era como um córrego pequeno que corria por debaixo das ruas de Macapá. Às vezes eu também era poço. Às vezes, eu também era mato.

Essa estética de vida me impunha cultivar a imaginação na imaginação. Continue lendo

Prazer e felicidade – Por Débora Borralho

debora1b2“Prazer é bem diferente de felicidade”
Por Débora Borralho

Não é novidade nenhuma que Oscar Wilde é um dos maiores gênios da literatura mundial. E temos que concordar que seria um absurdo não reconhecer a grandiosidade de “O Retrato de Dorian Gray”, único romance escrito pelo autor em 1890.

A literatura Inglesa tem obras impressionantes, mas esta é, sem sombra de dúvidas, uma das que mais me deixam extasiadas no momento da leitura. A força das palavras usadas são as que nos envolvem e remetem ao enredo como se este pudesse estar acontecendo na atualidade.

Ainda hoje, a vaidade humana e o egoísmo destroem vidas e magoam pessoas. Pensando apenas em seu próprio benefício, visando apenas os prazeres da vida, o homem caminha a mesma trilha do jovem Dorian Gray: o da destruição.

Creio que Oscar era um visionário, pois mesmo após os inúmeros entraves para a publicação da obra e tantas críticas ao texto irônico que construiu, sabia que não estava apenas retratando a sociedade Inglesa da época, mas prevendo no que as pessoas do futuro iriam se tornar. Muitos de nós somos apenas belos retratos, belas figuras que caminham vazias.

A incapacidade de pensar no próximo como alguém igual a si próprio faz do mundo um deserto, refletir sobre o a imagem que estamos construindo de nós mesmos é essencial para que não nos assustemos tarde demais, como aconteceu com Dorian Gray que viu a podridão de sua alma exposta na obra de arte que o representava.

Busquemos a “harmonia do corpo e da alma, que nós (…) separamos para inventar uma idealidade vazia.”

Vidas Secas – Por Gabriel dos Santos Birkhann

gabrielVidas Secas
Por Gabriel dos Santos Birkhann (*)

Graciliano Ramos é, sem sombra de dúvida, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.

Sua escrita é afiada como uma agulha, não releva as calamidades, nem borda a seca.

É direta tal como a exige a situação: “Vidas Secas” publicado em 1938 até hoje comove gerações de leitores, que de diferentes partes do Brasil e do mundo, sentem compaixão da família de retirantes que atravessa o sertão em busca de algo melhor.

Graciliano mostra a dura realidade na sua forma nua e crua. O livro se abre de modo avassalador, já expondo todo o drama ao qual aquela família estava fadada na sua saga:

“Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos”. (p. 9).

Na realidade dura do sertão, em meio à saga ou “luta pela vida”, o coração do homem se endurece: Fabiano sabe que a demora é a morte, e por isso impele, com grito, o filho mais velho a caminhar.

Fabiano, no entanto, se no início não gostamos dele, o livro se encarrega de mudar nossa concepção dele: o vemos como fruto de um meio excludente, não incluído como cidadão brasileiro ¹ (as ações das “autoridades policiais” mostram a divisão da cidadania arbitrariamente realizada).

À medida que a narrativa vai se desenrolando, Ramos vai mostrando a humanidade dos personagens, tal como na Continue lendo

Sobre celulares, boas maneiras e outras – Por Gabriel Birkhann

gabrielSobre celulares, boas maneiras e outras observações a mais
Por Gabriel dos Santos Birkhann

Esse texto é para “os chatos”. Os “otários” (sic) para alguns. Os “certinhos” (sic) para outros.
É. Sou meio chato. Na verdade, chato em totalidade.
Sou chato porque aprecio o mínimo (o mínimo, apenas isso!) possível de educação nos ambientes sociais.
Sou chato porque acho falta de respeito fumar num hospital!
Sou chato porque também acho falta de respeito buzinar, falar alto ao telefone em lugares proibidos (e convenhamos se houvesse bom senso e SIMANCOL, nós nem de lei precisaríamos!), e também porque vejo horrorizado quem acha normal parar e/ou estacionar em lugar proibido, ou fazer manobras radicais em áreas urbanas sem a menor preocupação ética (se a tivessem, não fariam isso!).

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Palavras Cruzadas – Por Débora Borralho

debora1bO mais lido
Por Débora Borralho

A literatura de Best-Seller era vista por mim como algo negativo por ser considerada “literatura de massa” e não ter tanto prestígio perante os teóricos. A expressão inglesa “best-seller” é oriunda de um período em que a Literatura era para poucos e fazia referência aos livros mais vendidos do momento na sociedade americana.

Claro que hoje a expressão ainda faz referência aos títulos mais vendidos, mas não em um momento em que a Literatura é para poucos. Hoje a literatura é para todos e isso faz toda a diferença!

Mesmo que muitos livros recebam a nomenclatura de “best-seller” sem possuir a devida qualidade literária para tal fato, comecei a achar inusitado que as vendas de determinados livros só crescessem e passei a reanalisar as minhas ideias acerca do assunto. Afinal, se vendia tanto, deveria ter algo bom. Li livros encantadores, outros não (talvez me falte maturidade literária para ler e gostar do que escreve o Paulo Coelho).

Entra semana e sai semana, observo que alguns títulos mudam e outros parecem intocáveis na lista dos mais vendidos. Ponto para “O Pequeno Príncipe” que sempre está lá. Ocorre que depois de um tempo, percebi que os títulos mudavam, mas os temas eram mantidos. Não é preciso ser nenhum especialista para traçar um perfil dos leitores e do que eles querem ler. E se espalharam inúmeras sagas, trilogias, livros que ensinam como uma criança deve ser educada, outros que querem levantar a estima da mulher independente, alguns que mostram romances de adolescentes e outros que ensinam a ganhar dinheiro e ser um grande líder.

É bom mudarmos um pouco, mas sempre devemos lembrar das raízes. Continuo preferindo aqueles clássicos que outrora foram best-sellers em sua época e que hoje andam esquecidos nas prateleiras das livrarias, só que nem por isso deixarei de gostar de Cinquenta Tons de Cinza, mas isso eu conto para vocês só na próxima semana…

Palavras Cruzadas – Por Débora Borralho

debora1bQuais livros vamos deixar para o futuro?
Por Débora Borralho

Há alguns anos, dediquei-me ao estudo da importância da Religião para a Literatura e como os últimos acontecimentos mundiais também envolvem o tema religião, resolvi compartilhar com vocês um pouco do meu pensamento sobre o assunto.

Primeiramente, temos que ter em mente que a Religião é fundamental para a formação da sociedade e que ela é uma das mais antigas manifestações do homem. Portanto, interfere nas mais diversas áreas. A Literatura, por sua vez, é uma espécie de reflexo da sociedade. Nela, observam-se minuciosamente os anseios de uma população e seus sofrimentos, além de captarmos a ideologia dominante da época.

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Palavras cruzadas

Débora Borralho
Débora Borralho

Perdoa-me por me traíres
Por Débora Borralho

É complicado começar o ano falando de traição, mas temos que iniciá-lo encarando todas as adversidades que nos são impostas pela vida, para mostrar que somos dignos e merecedores de cada dia na terra.

No momento em que depositamos a nossa confiança em alguém corremos o sério risco de nos magoar e nunca estamos preparados para isso. Dói. Dói muito confiar em um amigo, em um parente, em um profissional, em um amor e perceber que não deveríamos ter feito isso.
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