Perdi os dez reais

Perdi os dez reais
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Um homem e a sua esposa foram visitar alguns amigos numa cidade longe daquela onde moravam e estes os conduziram ao hipódromo. Fascinados pelas corridas dos cavalos e pelas apostas, os dois começaram a jogar. Fizeram isso a tarde toda e quando voltaram para casa somente lhe restavam 10 reais. No dia seguinte, o marido convenceu a mulher a deixá-lo voltar naquele lugar para tentar de novo a sorte. Dessa vez, apostou num cavalo que estava favorito e ganhou. Depois arriscou com outro cavalo menos conhecido e ganhou de novo. Continuou até a noite e juntou 57 mil reais. Voltou para casa, mas, no caminho, passou na frente de uma casa de jogo e lhe pareceu ouvir a mesma voz que o tinha aconselhado nas apostas dos cavalos e ela lhe dizia para entrar e apostar no número 13. Assim ele fez, apostou tudo naquele número. A rolete girou, girou, e saiu o número 14. Quando chegou em casa, a mulher perguntou: “E aí, como foi?&rd quo;. Ele respondeu: “Perdi os dez reais”.

Cada um de nós é insistente, ou desistente, de seu próprio jeito e em tantas coisas diferentes. Precisamos entender bem em que vale a pena insistir e, ao contrário, em que seja mais conveniente desistir. Por exemplo, desistir de jogar teria sido mais conveniente para os nossos amigos da historinha. No evangelho de Lucas, deste domingo, Jesus ensina a “rezar sempre e nunca desistir”. Ele conta a parábola de uma viúva que abusa da paciência de um juiz corrupto. O juiz, ao final, atende a mulher pelo simples fato de não aguentar mais a cobrança dela. Jesus diz que se o juiz desonesto fez isso, muito mais o Pai bondoso atenderá, com certeza, os escolhidos que “dia e noite gritam por ele”.

Lembramos que o assunto não é qualquer pedido e de qualquer jeito. A viúva está pedindo “justiça” contra adversários e sabemos que, na Bíblia, “órfãos e viúvas” são sinônimos de pessoas sem poder algum, sem nenhuma proteção. Também o evangelho está falando de “pedidos” feito em oração, ou seja, com o coração confiante e aberto para Deus. A questão, portanto, não é simplesmente o pedido em si, mas a insistência dos desamparados dirigida àquele do qual esperam tudo na vida: Deus Pai que ama seus filhos e filhas, sobretudo os pequenos esquecidos e abandonados. Insistir, portanto, pelas palavras de Jesus, não é algo negativo, é a atitude de quem acredita que a resposta virá e não se cansa de pedir. Mas é possível “rez ar” sempre? Nós todos temos obrigações a cumprir, temos responsabilidades familiares, trabalhos e relações humanas a cultivar. Essa é a nossa reação, porque pensamos que “orar” seja enfiar uma reza atrás da outra e, talvez, também fazê-lo numa igreja ou em algum lugar santo. A maioria dos cristãos nunca poderia fazer isso, porém, – e é o que importa – todos podemos fazer da nossa vida uma oração. O trabalho honesto é dar glória a Deus. A vida familiar na fraternidade e na comunhão é louvor a Deus. O respeito pela natureza e a vida de todos os seres é gratidão a Deus. Cada gesto de amor é perfume agradável ao Senhor. É a nossa maneira de viver e de nos relacionar que se torna oração e revela em quem acreditamos realmente.

Se insistimos no consumo e na diversão, se buscamos satisfazer os nossos caprichos a qualquer custo, é fácil saber a quem estamos seguindo. Se desistimos de defender a verdade e a justiça e compactuamos com as mentiras e as falcatruas, também revelamos o que mais nos interessa na vida. Provavelmente preferimos uma vida tranquila, sem os incômodos de quem tem a coragem de denunciar as injustiças e suporta críticas, porque nunca desiste de pensar com a própria cabeça. É sempre mais fácil insistir nas conversas repetidas sem gastar tempo e energias para averiguar, refletir, escutar mais as vítimas que os agressores, os perdedores que os ganhadores, os pequenos mais que os grandes.

No final do evangelho, Jesus nos deixa entender que o único bem sobre o qual vale a pena insistir seja mesmo a fé, entendida como entrega amorosa da nossa vida ao único Deus que merece ser amado e adorado, porque nunca decepciona os seus filhos e filhas. Também quando nós insistimos em desistir dele.

Bispo de Macapá encontra-se com o Papa Francisco

Na manhã desta terça-feira, no terceiro dia do Sínodo especial para a Amazônia, o bispo de Macapá, Dom Pedro José Conti esteve com o Papa Francisco.

No encontro, durante o intervalo das reuniões, Dom Pedro também esteve com os bispos da Diocese Cruzeiro do Sul, no Acre, Dom Flávio Giovenale, o bispo de Castanhal, no Pará, Dom Carlos Verzeletti e o bispo de Cayenne, na Guiana Francesa, Dom Emmaneul Lafont.

O Sínodo Pan-Amazônico está acontecendo na cidade do Vaticano, em Roma, com cerca de 120 bispos dos nove países da Amazônia, além de representantes dos povos indígenas e convidados.

As reuniões e estudos visam conhecer e elucidar a missão eclesial na Amazônia, a Evangelização, políticas voltadas aos povos indígenas e a Ecologia Integral. O Sínodo ocorre até o dia 27 de outubro.

(Texto e foto: Pastoral da Comunicação)

Artigo dominical

Depende em quais mãos se encontra
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Uma bola de basquete, nas minhas mãos, vale R$ 100, nas mãos de Michel Jordan, vale cerca de 100 milhões de reais. Um pincel, nas minhas mãos vale R$ 20, nas
mãos de Picasso vale 70 milhões de reais. Uma raquete de tênis, nas minhas mãos vale R$ 300, nas mãos de Roger Federer vale o prêmio milionário num torneio internacional.
Tudo depende em quais mãos estão as coisas. Um bastão, nas minhas mão, serve para me sustentar. Nas mão de Moisés, abriu o Mar Vermelho. Uma baladeira, nas minhas mãos é brinquedo. Nas mãos de Davi, derrubou o gigante Golias. Cinco pães e dois peixes, nas minhas mãos, são um almoço; nas mãos de Jesus foram alimento para cinco mil pessoas. Pregos nas minhas mão são objetos de trabalho, nas mãos de Jesus foram a salvação para o mundo inteiro. O valor das coisas depende nas mãos de quem elas estão.
No evangelho de Lucas deste domingo encontramos uma parábola que sempre chama a nossa atenção. Jesus nos fala de um administrador que roubava do seu patrão.
Quando descoberto, foi, justamente, demitido. – Chega! – disse o patrão – não pode mais administrar os meus bens. Pensando no seu futuro, o administrador quis ganhar
amigos às custas do dono. Chamou os devedores do patrão e perdoou parte da dívida deles. Surpreendentemente, em lugar de ficar aborrecido, “o senhor elogiou o
administrador desonesto porque agiu com esperteza” (Lc 16,8). Por isso, vem a pergunta: será que Jesus quis ensinar a mentira e o roubo? Com certeza não. Basta
continuar a ler o evangelho. Jesus quis nos ensinar que as coisas deste mundo devem ser administradas para fazer amigos, ou seja para o bem, sobretudo dos pobres que,
esperamos, um dia nos “receberão nas moradas eternas” (Lc 16,9).
O que move a sociedade hoje é o dinheiro, os grandes capitais que migram de um empreendimento ao outro para obter mais lucro. Para “o bem”, sim, mas dos
investidores, obviamente. Não para melhorar a vida dos pobres, dos pequenos, dos desempregados, dos carimbados de improdutivos para a sociedade. Mais ou menos
sempre foi assim, mas hoje as coisas são evidentes. Todos falam da “financeirização” da sociedade, porque quem manda e decide é o poder econômico. O bem e o mal são
avaliados sobre o quanto se ganha. O respeito à vida das pessoas, o bem-estar de todos, o futuro do planeta não são valores éticos, ou morais, levados em séria consideração.
Apesar de saber disso, dos alertas dos pobres, do grito de milhões de migrantes e famintos, estamos numa situação que parece irreversível. Como discípulos de Jesus, é
urgente pensar com critérios diferentes e buscar ações alternativas, também se isso nos parece muito difícil e, talvez, impossível. Devemos usar da esperteza do Espírito.
Começar a tomar a sério o fato que não podemos servir a dois senhores, a Deus e ao dinheiro, ao mesmo tempo. Ou seja, não basta rezar muito e cumprir obrigações
religiosas para, depois, deixar que a nossa maior preocupação seja enriquecer ou, simplesmente, multiplicar bens materiais e passageiros. Devemos nos convencer que a
solução está em nossas mãos, mas também em nossa inteligência e em nosso coração. Porque Jesus já nos entregou outros “bens”, diferentes, os mais valiosos de todos.
Podemos chamá-los de “amor de Deus”, mas também de amor fraterno, comunhão, capacidade de carregar juntos sofrimentos e alegrias. Hoje, luxo, aparências e
formalidades, valem mais que a sinceridade dos relacionamentos. Instrumentos tecnológicos, que poderiam nos aproximar e nos tornar mais solidários, nos oferecem
“amigos virtuais” aos quais dedicamos mais tempo que aos nossos legítimos e próximos familiares. Trocamos mensagens e figurinhas já prontas, para brincar e ganhar tempo, mas, talvez, para não nos comprometer a dizer com as nossas palavras e a nossa voz quanto amamos e queremos o b em daquelas pessoas. Temos nas mãos o maior tesouro e não sabemos como usá-lo. Temos no coração o único e infalível instrumento que pode mudar tudo neste mundo e não sabemos aproveitar. Não é o amor que perdeu o valor, são as nossas mãos que não sabem administrá-lo bem. Falta esperteza.

Revista do Círio será lançada domingo

A Pastoral da Comunicação da Catedral São José irá lançar a Revista Círio de Macapá Edição III, no próximo domingo (22) às 19h, na Catedral de São José. A apresentação da Revista será após a Missa do Envio do Bispo Dom Pedro, ao Sínodo da Amazônia. Um exemplar da Revista Círio de Macapá será entregue ao Papa Francisco, pelo próprio Bispo.

O Círio de Nazaré acontece todos os anos – no segundo domingo do mês de Outubro – e envolve pessoas de diferentes partes e classes. Mais de 150 mil pessoas se unem em devoção a Nossa Senhora de Nazaré. Essa é uma tradição religiosa que tem berço em Portugal, cresceu em Belém do Pará e estendeu-se para Macapá. Na época, a Diocese de Macapá ainda fazia parte do Grão-Pará, porém a festividade de Macapá tem uma identidade própria e única.

Contando a simbologia da estrutura da procissão, a revista está voltada para a religiosidade amazônica e outras temáticas que narram os elementos que compõem a grande romaria. As histórias são narradas por meio de reportagens, artigos, depoimentos e fotografias.

São histórias de superação, fé, devoção e amor pela Mãe de Jesus, a mulher que se fez Rainha da Amazônia. Algumas fotografias fazem parte dos arquivos da Diocese de Macapá e outras foram cedidas por alguns fotógrafos profissionais da capital.

Feita para um povo que é peça essencial para que aconteça a grande procissão, a revista Círio de Macapá 2019 busca mostrar em suas páginas um olhar sobre as comunidades tradicionais e a devoção mariana, além de apresentar as especificidades do Círio e suas características na sociedade com emocionantes depoimentos de devotos.

Produção

A revista foi produzida pela Pastoral da Comunicação da Catedral São José com o apoio da Comissão organizadora do Círio, do Bispo Dom Pedro, padre Rafael, diagramadores, revisores, jornalistas, fotógrafos, acadêmicos de jornalismo, padres, seminaristas, autoridades do judiciário, empresários e instituições de Macapá, sob a orientação da jornalista e idealizadora do projeto Mônica Nascos.

Objetivo

A revista tem objetivo de ajudar a custear a nova instalação elétrica da Catedral de São José, com o valor simbólico de R$ 10, será vendida durante as festividades.

(Fonte: Pastoral da Comunicação da Catedral São José)

Festa em honra a São Francisco de Assis

Devotos de São Francisco de Assis (Igreja dos Capuchinhos) já estão com muita alegria organizando uma bela festa em honra este santo. A festa ocorrerá no dia 5 de outubro, a partir das 19h na quadra da Igreja dos Capuchinhos. Haverá sorteio de valiosos prêmios e a cartela custa apenas 10 reais.

Artigo dominical

Provérbio chinês
 Dom Pedro José Conti -Bispo de Macapá

“Quando os sabres estão enferrujados e as pás luzidias, as prisões vazias e os celeiros cheios, os degraus do templo gastos pelos passos dos fiéis…
Quando as cortes estão cobertas de mato, os médicos andam a pé, os padeiros andam a cavalo, e quando há muitas crianças, o Império é bem governado”
 (proverbio chinês).

A sabedoria do povo chinês é milenar e sempre podemos refletir sobre alguma coisa. Também fique bem claro que não estou criticando um ou outro governo. Convido a ler e reler algumas vezes o provérbio e a se perguntar se é isso que gostaríamos ou não. Armas enferrujadas e trabalho para todos; prisões e tribunais vazios; povo com saúde e fartura de alimentos. A paz, enfim, com muitas crianças brincando felizes. Sonho da sabedoria do povo simples ou projeto de uma outra sociedade? Cada um responda como melhor pensa. Cabe a mim explicar o que tem a ver tudo isso com a página do evangelho de Lucas que encontramos neste domingo.

Se não tivéssemos informações por outros trechos evangélicos, estaríamos simplesmente num povoado anônimo, na casa de duas mulheres, que acolhem Jesus: Marta e Maria. Logo fica evidente que esta acolhida é diferente para cada uma delas. Marta está atarefada com “muitas coisas” e, facilmente, as podemos imaginar porque sabemos o que acontece quando temos algum hospede em casa. Maria, ao contrário, está sentada aos pés de Jesus escutando as palavras do mestre. Muito realista, Lucas nos apresenta a reclamação de Marta e o seu pedido para que Jesus ordene a Maria a ajudá-la nos trabalhos. Mas Jesus aproveita para nos dar mais uma lição. Vivemos no meio de tantas coisas para fazer, muitos compromissos e responsabilidades. Jesus não diz que tudo isso não vale nada, mas que, de todas, “uma só coisa é necessária” e é a parte melhor, aquela que Maria escolheu: ser discípula, atenta para aprender com o mestre Jesus.

Sempre haverá quem queira contrapor Marta e Maria. Isso porque cada um de nós tem as suas diferenças e preferências. Os mais ativos se reconhecem em Marta e acham acomodados e preguiçosos os demais. Ao contrário, os mais reflexivos julgam que os outros erram porque são precipitados e incapazes de planejar. Em ambos os casos tudo serve para polemizar e, quem sabe, defender a própria posição. Essa não foi a preocupação de Jesus no trecho de Lucas. Simplesmente nos é oferecida uma fonte onde atingir para motivar e escolher o nosso agir.

Todo ser humano é inteligente; não somos movidos só pelos instintos. Com mais ou menos consciência, todos temos razões que explicam o nosso agir. Por exemplo: a fome e a sede levam qualquer pessoa a buscar comida e bebida. O pavor de ficar sem alimentos nos faz construir as geladeiras ou os celeiros. Quem quer ser o dono do mundo, da vida e da morte das pessoas, constrói armas cada vez mais poderosas. A insaciabilidade da ganância organiza a sociedade para o consumo, sem levar em conta o desperdício, o lixo acumulado e o esgotamento do planeta. O medo dos assaltos nos faz transformar as nossas casas em pequenas fortalezas. Todos achamos que o objetivo da nossa vida é o maior e o mais importante, mas, no fundo, sabemos que, muitas vezes, além de ser extremamente egoísta é também bem mesquinho. Para muitos, a única coisa que interessa na vida é ele ou ela mesmo, o seu bem-estar, o seu sucesso ou o seu poder. Jesus já sabia dos projetos dos grandes e dos poderosos, mas disse que entre os seus discípulos não devia ser assim (Lc 22,26). Ele quer nos ajudar a encontrar uma meta que valha a pena mesmo, que não seja mero desperdício de inteligência e capacidades. Podemos chamar esse objetivo de paz universal, de amor entre as pessoas, de justiça e bondade, e assim por adiante, mas para que não sejam só palavras bonitas, precisamos de uma referência, de alguém que nos amou até o fim, de alguém que não foi um homem qualquer, mas o Filho de Deus. Alguém no qual podemos acreditar sem medo. Se não queremos confundir e errar a meta da nossa vida, precisamos sentar todos aos pés de Jesus e aprender com ele.

O furo na parede

O furo na parede
Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá

Havia uma casa de espessas paredes, construída há muito tempo no alto do monte. Estando isolada não era servida pela rede elétrica. Uma bela manhã, o velho camponês que a habitava, viu subir até a sua propriedade um carro cheio de material.

– Estamos para passar uma linha elétrica pelo planalto. Ela vai ficar perto da sua casa. O senhor gostaria de ser ligado a ela?

– Certamente! Seria maravilhoso! Terei enfim luz todas as noites, corrente para a serra e o torno, as imagens da televisão o dia inteiro!

– Mas as paredes da sua casa são espessas. Teremos que fazer um furo para a linha passar.

– Isso nunca! Vai fazer barulho, encher tudo de poeira! Na minha casa vocês não vão entrar! Não vão mexer nas minhas paredes! E o camponês teimoso, por não aceitar fazer uma brecha em sua carapaça de velhos hábitos, ficou sem luz em sua casa. Preferiu ficar no escuro e no escuro ficou.

Peço desculpa por contar uma historinha boba no domingo no qual encontramos uma das páginas mais lindas e comprometedoras dos evangelhos: a parábola do bom samaritano. A “compaixão” é a brecha que abre o nosso coração e deixa entrar a luz de Deus Amor. Dos três homens que encontraram o desafortunado caído no chão, somente um se deixou envolver, comprometeu-se e gastou do que era seu para ajudar. Somente ele se tornou “próximo” de verdade do ferido. Os outros dois, apesar da sacralidade e respeitabilidade do ofício, passaram adiante. Todos nós sabemos que é muito fácil encontrar desculpas para tentar justificar o nosso coração de pedra. Para muitos, hoje, a “compaixão”. É uma fragilidade sentimental. Para Jesus era só amor ao próximo, sem enfeites ou holofotes, sem tantas leis, verbas, projetos, ONGs e tudo mais. Algo, enfim, ao alcance de todos. Basta um coração amoroso e compassivo. Um coração “humano”, a imagem e semelhança do coração de Deus.

No final do trecho evangélico, ficamos sabendo que o mestre da Lei, que tinha feito a pergunta, entendeu o ensinamento. A ele, e a todos nós, Jesus diz: “Vai e faze a mesma coisa” (Lc10, 37). “Fazer”! A parábola do bom samaritano não é simplesmente um bom conselho ou uma orientação moral, é a exemplificação da identidade do cristão. “A vida eterna” é mais do que um prêmio ou uma herança para o outro mundo, após a nossa morte. Ela é a presença de Deus em nossa vida agora, deve ser a luz que ilumina e dá sentido ao nosso agir no dia a dia. O que virá depois será pura gratuidade de Deus da sua infinita misericórdia e bondade.

Nós, cristãos, tomamos muito a sério o “mandamento” de Jesus: “Fazei isso em minha memória”. Fazemos isso em todas as missas. É a “memória litúrgica” de Jesus à qual deveria corresponder a “memória existencial”, porque não pode ter separação entre o que cremos e celebramos e o que vivemos. Quem tem dupla personalidade está doente. Deve se deixar curar. E a cura vem do outro “mandamento” que Jesus nos deixou também na Última Ceia, antes da sua paixão e morte. No fim do lava-pés, Jesus perguntou aos discípulos se tinham entendido o seu gesto e, à resposta afirmativa deles, disse: “Dei-vos o exemplo, para que também vós façais assim como eu vos fiz” (Jo 13,15). De novo, um “fazer”! A fé cristã é mais que um conjunto de do utrinas e práticas religiosas. É uma maneira de encarar a vida humana com todas as suas belezas e fraquezas, com seus anseios e esperanças, mas também dúvidas e incertezas. Toda escolha traz um risco e revela em que confiamos mesmo. Se nos tornamos próximo dos sofredores é sinal que acreditamos no amor fraterno, que a nossa esperança não está tanto nas coisas e nos bens materiais, mas na possibilidade do coração humano de se tornar como deveria ser, fraterno e não inimigo, solidário e não indiferente. A luz da nossa vida não pode ser o dinheiro ou o último lançamento tecnológico ou a mais badalada diversão, só pode ser a capacidade de amar e fazer o bem a que precisar. Isto é possível a todos, cristãos e não, “homens de bem” e malfeitores. Basta abrir uma brecha. A luz do amor, que é Deus, entrará.

O incêndio – Dom Pedro José Conti

O incêndio
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

 Tempos atrás, num vilarejo, aconteceu um incêndio. Um rico e um pobre, até aquele dia bons vizinhos, perderam tudo o que tinham. O pobre ficou em paz; ao contrário, o rico caiu no desespero.

– Amigo – disse ele ao outro – Como é possível que você esteja tão tranquilo depois que perdeu tudo no incêndio?

– A mim ficou o meu Deus – respondeu o pobre – o seu queimou junto com a casa!.

Chegamos ao Sexto Domingo do Tempo Pascal. Encontramos mais umas palavras de Jesus aos discípulos na Última Ceia do jeito que o evangelista João as quis nos transmitir. Mais do que palavras de despedidas, são palavras de “presença”. Parece uma contradição, mas não é, porque Jesus nunca nos deixou “órfãos” (Jo 14,18). Ele continua no meio de nós, vivo e ressuscitado, mas de uma forma diferente de quando andou pelos caminhos da Palestina. Somente com o olhar da fé podemos “ver o invisível”, com a gratuidade do amor experimentar a sua presença e com a luz da esperança enfrentar os desafios da construção do Reino.

A principal condição para que a presença de Jesus – e do Pai e do Espírito Santo – não seja uma mera imaginação é a de “guardar” a palavra do Senhor. Isto é tão importante que esta será sempre a missão do “Defensor”, o Espírito Santo. A fidelidade à palavra do Senhor é a primeira garantia da sua presença. Porque nós cristãos, a Comunidade, grande ou pequena, chamada Igreja, não seguimos um “Jesus” imaginário, adaptado às circunstâncias mais ou menos favoráveis, úteis ou vantajosas para nós. Não devemos nos deixar enganar por critérios meramente humanos de quantidade, sucesso, riquezas e poder. Que a Igreja “católica” seja “importante” ou não, que influencie toda a sociedade ou não, é bastan te relativo e nunca pode acontecer à custa do esquecimento ou negação de alguma palavra de Jesus. Vale desde o Papa até o último cristão, porque somente assim “o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada” (Jo 14,23). Jesus disse que os cristãos devem ser “sal da terra e luz do mundo”. Não significa poder, dominação, controle ou algo semelhante, mas serviço amoroso e, sobretudo, consciência crítica dos valores inegociáveis da vida, da dignidade humana, da liberdade, da justiça e da paz. Qual paz?

Mais uma vez o próprio Jesus disse que a paz que ele ia deixar para os seus amigos, não tinha nada a ver com a paz que o mundo também promete. Desde sempre a humanidade fez guerras para organizar “a paz”, mas como resultado do silêncio do medo e da morte. São as duas formas mais antigas de calar quem pensa diferente dos sistemas dominantes. Aconteceu com Jesus. Hoje, porém, corremos o perigo de uma outra paz que usa até o nome de Deus. Acontece quando a Palavra dele, as orações e certas manifestações religiosas, na prática, servem como autoajuda, entorpecem as consciências e nos dão a impressão de nos “sentir bem”. Não significa que a palavra do Evangelho nos deve dar convulsões, tampouco, que deve paralisar a nossa “fome e sede de justiça”, por exemplo. A paz de Jesus vem da certeza de trabalhar por uma causa grand e, justa, capaz de transformar as estruturas excludentes e desumanas da nossa sociedade. Não é um jeito para apaziguar o coração dos chamados “homens de bem”, mas, ao contrário, os questiona se o tão badalado “bem” talvez seja a vantagem ou o lucro somente deles.

Por fim, Jesus diz: “Não se perturbe nem se intimide o vosso coração” (Jo 14,27b). Andar na contramão dos projetos de ganância e de poder, de dominação e violência, gera dúvidas e incertezas. Sempre seremos tentados a ficar omissos, a nos fechar dentro de igrejas e sacristias e a falar só para nós mesmos. São Paulo já escreveu aos cristãos de Roma: “De fato, vós não recebestes espírito de escravos, para recairdes no medo, mas recebeste o Espírito que, por adoção, vos torna filhos, e no qual clamamos “Abbá Pai”! (Rm 8,15). Já queimaram e ainda estão queimando casas e igrejas de cristãos, com as chamas, as calúnias, o desprezo, mas a “paz” de quem tem Deus no coração ninguém tira.

Salve Maria, Rainha da Amazônia Missionária é tema do Círio de Nazaré 2019

A Diocese de Macapá apresentou ontem, 20, o cartaz do Círio de Nazaré 2019. A maior festa mariana do estado do Amapá traz o tema “Salve Maria, Rainha da Amazônia Missionária” e o lema: “O Senhor fez por nós maravilhas, Santo é seu nome” (Lc 1,46-55).

Este ano, a festividade oportunizará a reflexão sobre a missionariedade e ecologia integral, em alusão ao sínodo da Amazônia e o Mês Missionário Extraordinário, declarado pelo Papa Francisco para outubro deste ano, quando a Igreja irá celebrar o centenário da exortação apostólica “Maximum Illud” de Bento XV, que trata sobre a atividade desenvolvida pelos missionários no mundo.

O cartaz traz ao centro a imagem de Maria de Nazaré com o menino Jesus, que deve ser o ponto de partida para os cristãos. Ao fundo um quebra-cabeças que é construído com imagens típicas da Região Norte, sua cultura, fauna, flora e os povos da floresta, além de alguns espaços em branco, que representam todo o trabalho que está sendo realizado, as graças alcançadas, os dons, desafios e muito do que ainda precisa ser vivido e realizado, disse o coordenador-geral da festividade do Círio, padre Rafael Donneschi.

A programação do Círio 2019 terá o concurso para universitários e estudantes do ensino médio, a produção de um curta-metragem e revista sobre a festividade, missas, peregrinações e corrida. Seu ponto máximo acontece no dia 13 de outubro, quando haverá a tradicional missa campal, seguida de procissão pelas ruas e avenidas da cidade com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré até a Igreja São José.

(Diocese de Macapá)