O Dia do Professor – Ernâni Motta

O Dia do Professor
Ernâni Motta

Sempre fui um aluno um pouco abaixo da linha da mediocridade, porém, minhas professoras jamais desistiram de mim! Eu até acho que os dois neurônios, que me foram dados, possuíam uma boa sinapse, o problema é que sempre fui preguiçoso, quando o assunto era, principalmente, estudar!

Eu acho também que elas percebiam com facilidade a minha preguiça, daí, insistirem comigo. Não vou citar nomes para não ferir suscetibilidades, ao esquecer de uma delas, já que foram em um número significativo! Como já vivi algumas décadas, sou do tempo em que a gente começava pela alfabetização, passava pelo primário, secundário, científico para se chegar à faculdade!

Daí que, por ser um cara preguiçoso, vocês podem imaginar o meu sofrimento ao me envolver com livros, cadernos, trabalho de casa… essas coisas! E vocês imaginem também quantas professoras passaram pela minha vida. Isso sem contar os professores, que lá no Ginásio de Macapá, chamávamos de “Mestre”! Esses eram um pouco menos condescendentes comigo, mas, nenhum desistiu de mim!

Então, nesse Dia do Professor, acredito que a melhor homenagem às pessoas que, com tanta abnegação, conseguiram me ensinar um pouco além do que a minha preguiça permitiu, é reconhecer a sensibilidade, a paciência, a sabedoria em lidar com um aluno como eu!

No meu tempo de aluno, os professores eram respeitados, queridos, vistos como fonte do saber, pois, era isso que eles eram! Hoje, lamentavelmente, vemos reiteradas vezes professores sendo agredidos pelos próprios alunos e seus pais e/ou responsáveis, sem contar os parcos salários, as precárias condições das salas de aula, o descaso dos governantes.

Agora, essa penúria não são vistas apenas nas escolas públicas, nas particulares com boa frequência pode-se ver o professor sendo submetido ao mesmo tratamento… senão, pior!
Todavia, o professor é um intrépido, um obstinado, por isso, nunca desiste de sua missão de ensinar, isto é, nenhum obstáculo, por mais penoso que seja, o faz renunciar à missão que Deus lhe concedeu!

Meus eternos Mestres, muito obrigado, pela obstinação em me ensinar o “bê-a-bá”, que tanto me serviu e continua a me servir pela vida afora! Que a inteligência, com a qual vocês são dotados, seja potencializada a cada vez que encontrarem um novo aluno como eu! Que Deus os abençoe!

E, como esse reconhecimento aos meus professores, faço a minha homenagem a todos os professores, homens e mulheres, tratados com tão pouco caso, nesse país! Mas, se posso dizer alguma coisa, faço um pedido: Como os meus professores, jamais desistam do sacerdócio que Deus atribuiu-lhes!

Cenas cariocas – Rui Guilherme

CENAS  CARIOCAS
Rui Guilherme*

Cena de ida. Manhã de primavera na praia de Copacabana. Céu azul, mar caribenho, temperatura 27 graus. Perfeito.

Jonas ao volante do táxi amarelinho. Gordinho, puxa assunto de  futebol. Minha resposta foi que ao fim deste mês nosso Flamengo vai devorar o Grêmio. Maracanã é nossa casa. Aqui não vai ter árbitro argentino, nem VAR argentino para garfar três gols do Mengão e dar de bandeja, no apagar das luzes, o empate ao Imortal de Porto Alegre.

Jonas fecha a cara. Respeitosamente, mas fecha. – “Ué”, estranho eu. – “Até parece que você ta virando gaúcho…”,.. – “Gaúcho, não, doutor. Carioca, sempre. Mas Botafogo, sempre.”. Novo ué da minha parte. – “Mas, Jonas, se o amigo fosse vascaíno, até que eu entenderia você não torcer pelo Flamengo. Mas, Botafogo?!? – “Pois é, doutor. No dia do jogo tou pensando até em encarar um chimarrão…”

Lembrei-me de meus bons amigos gaúchos de Macapá. Gremistas, estarão prometendo oferendas para o Negrinho do Pastoreio para ver se passam pelo tsunami rubronegro. E os gaúchos colorados, estes estarão todos em solidariedade com a urubuzada.

Cena de volta. Na porta do laboratório, no Leblon, um outro táxi amarelinho. Toyota Corolla, modelo antigo, transmissão mecânica. Motorista, um grandalhão sorridente, queimado de sol.

-“Táxi? Vamos lá, doutor.”. No banco do passageiro, um jovem com a camisa do Vasco mexia no painel. –Tá livre? Mas é que eu quero ir no banco da frennte por causa do cinto de segurança…” – “Sem problema. Esse vascaíno aí é meu filho que tá acertando pra mim o relógio digital. Só essa moçada é que entende dessas coisas modernas”, fala o chofer, um largo sorriso a iluminar-lhe a cara bonachona.

-“O senhor gosta de mágica?”, perguntou. –

–“Hein?”. – “Olha a ponta da caneta. Que cor é? – “Azul”, respondi. – “Não, doutor. É rosa.” – E mostrou um coração rosa na ponta da caneta.

– “É que minha profissão é mágico. Tou aqui dirigindo este meu táxi para complementar a renda e ajudar no meu condomínio, que tá muito caro.”

Passou-me cartão de visita: Janjão, mágico. Aceito fazer espetáculos em eventos e aniversários. – “Ligue pro meu telefone e em seguida  eu apareço.”

Janjão contou-me que trabalhou muito tempo na Globo, fazendo mágicas no show da Xuxa. Até colocou no televisor do carro um show em que ele aparecia fantasiado de preto, com cartola e tudo, arrasando com a Rainha dos Baixinhos.

– “Pois é, doutor. Quando eu tava na Globo, ganhava muito bem. Consegui comprar minha cobertura aqui no Leblon, com vista da praia. Mas meu pai bem que dizia que, ao morrer, iria deixar o táxi dele para mim. Assim, quando meu velho morreu, fui lá na prefeitura e consegui passar a chapa pro meu nome, e com isso vou pagando minhas contas, fora os espetáculos, quando me contratam. Formei o mais velho, que é músico e cientista político. Ele tem uma banda e me conseguiu ingresso para a área vip no Rock in Rio. E é pra lá que vou hoje á noite, de BRT, curtir meu heavy metal. Sou fã, sabe? E, quando as coisas apertam, se vejo que estou querendo ficar de mau humor, paro tudo e me jogo na praia para pegar onda. O mau humor some como num passe de mégica!”

Perguntei da Xuxa. Disse que ela está se virando, que as coisas não eram mais para ela como um dia já tinham sido, mas que ela até comprara um apartamento em Nova Iorque, onde mora a Sasha (- “que conheci menininha”, disse).

“Pois é, doutor”, arrematou quando finalizamos a corrida de volta, em Copacabana. – E assim se vai levando a vida. Como meu coroa dizia, nada é para sempre.”

Nada é para sempre. Nem os carrinhos da Kibon na praia, onde se compravam sorvetes Chicabon e Eskybon. O Chicabon era tipo picolé, com o palitinho de madeira. O Eskybon era tipo um tijolinho com cobertura de chocolate e miolo de creme, sem palito, embalado numa caixinha, muito gostoso.

Naquele tempo, e até bem antes da Xuxa e do mágico Janjão, fazia enorme sucesso o maravilhoso cantor Cauby Peixoto.

Lembramos, Janjão e eu, que o Cauby, que Deus já levou, era um  moreno boa pinta, que usava pesada maquiagem, homosseual assumido. Cauby inspirou o carioca a apelidá-lo de Eskybon. Por que? Porque, como o Eskybon, era moreninho, fresquinho e sem pauzinho.

Passou Cauby, passou a Xuxa, passou o apogeu do Janjão. Tudo passa. Nada é para sempre, dizia, filosoficamente, o pai do mágico. Para sempre, que eu saiba, só as ondas e as\ dançantes águas do mar Atlântico a beijar as areias douradas das praias da Cidade Maravilhosa.

*Rui Guilherme é poeta, escritor, autor de vários livros, juiz aposentado e atualmente mora no Rio de Janeiro

O início da televisão em Macapá

O início da televisão
Cléo Farias de Araújo*

Antes de 1974, só assistia televisão quem viajasse pra fora de Macapá. Belém era o lugar mais próximo. Era comum alguém, “querendo aparecer” pros outros, dizer que assistiu tal programa ou tal novela em Belém. Imagem, mesmo, só nos cines João XXXIII, Macapá e Paroquial, pois ainda estávamos na era da novela de rádio.

Depois de algum tempo, surgiram boatos de que, na casa do Seu Assis da SEVEL, a antena era tão poderosa que pegava uma emissora de Caracas, na Venezuela. Aí começou a multiplicação de antenas na cidade. Lembro que tinha uma na casa do Pachequinho e outra, na casa do seu José Maria Papaléo, da CAESA. Motivado, meu pai chegou até a comprar uma TV p/b, Colorado RQ, com pernas girafa. Papai, eu e meu irmão mais velho, instalamos a antena. Pra conseguirmos alguma possibilidade de imagem, a antena teria que ficar em lugar bem alto. Assim fizemos. Era um monte de cano de ferro, cheio de argolas, por onde passávamos umas cordas, a fim de sustentá-la. No dia da inauguração da nossa “retransmissora”, parece que o mundo todo estava fora do ar, pois só apareceu chuvisco. E a gente ficou com “cara de burro na frente da igreja”. Descobrimos que, ao menos lá em casa, esse empreendimento foi mera balela. Ainda assim, ficamos vários dias, olhando a TV, enquanto um de nós ia lá fora, para mudar a antena de posição.

Imagem e som inteligíveis, só mesmo com a criação da TV, em nosso pedaço tucuju, no ano de 1974, para a transmissão da copa do mundo da Alemanha. Posteriormente, em 1975, virou TV Amapá. Ali, por algum tempo, trabalhei indiretamente, pois eu tocava numa banda (na época, chamavam-se conjuntos) que fazia a parte musical do programa “Tabajara Família Show”, nas manhãs de sábado, com supervisão de Damião Jucá de Lima.

Porém, há um fato a registrar, pois, em certo lugar de Macapá as transmissões começaram quase dez anos antes.

Em 1967, tal qual Chico Orellana, em relação a Cabral, vindo da Leopoldo Machado, aportou na Av. Mendonça Furtado, ao lado da casa do Sr. Milton Barbosa, um inventor que antecipou o sonho da imagem e som, fora do cinema, ou seja, reproduzidos, conjuntamente, em um aparelho portátil. Esse garoto, com apenas 11 anos criou, de maneira econômica, o invento que revolucionou sua família: uma televisão.

A peça criada, consistia numa caixa de papelão (daquelas nas quais se acondicionavam latas de leite daquela marca famosa) com o fundo cortado, como se fosse uma TV de verdade. No lugar, colava-se papel de seda branco ou amarelo-claro. Atravessando horizontalmente a caixa, a fim de segurar os artistas, um pedaço de fio grosso ou barbante. Para iluminar o invento e fazer com que as figuras aparecessem na TV, era usada uma vela ou lamparina (casa de pobre tinha muito disso). Além disso, o garoto cortou uma figurinhas em papel de embrulho, daqueles rosa ou cinza, das compras feitas nas tabernas do seu Nabi, seu Manoel da Estrela, no Borracha ou no seu Ladico, pois antigamente não havia supermercado e, geralmente, todo dia tinha que se fazer compra para atender as necessidades caseiras.

Como todos os filhos daquela família estudavam pela manhã, suas tardes, após o almoço, eram nas sessões de TV, já que os moleques daquele tempo não dormiam à tarde.

Passearam pela telinha vários heróis. Da Branca de Neve ao Zorro, pois o inventor, copiando o som das novelas de rádio (O Direito de Nascer e Jerônimo, o Herói do Sertão), aprendeu a fazer bem o barulho dos tiros, tropel de cavalos, água jorrando e trovão. Todos os dias a TV era ligada, para alegria da molecada daquela casa. Tempo em que a imaginação transportava os “telespectadores” aos níveis mais altos dos sonhos infantis. Tudo ia muito bem, até o dia em que a mãe da família chegou em casa, à tardinha e nenhuma tarefa doméstica fora feita.

Camas por arrumar,
Casa por varrer,
Louça por lavar,
Tudo por fazer!

Naquele dia ficou fácil se ver pedaço de zorro, Roy Rogers, seus cavalos, Noviça Voadora, Tarcísio Meira e Glória Menezes de papel por todo lado. Até o Batman e o Superman sucumbiram, pois agindo igual ao pessoal da ditadura, quando acabou com o “Jornal do Povo”, a dona da casa não só destruiu a emissora, como distribuiu “aplausos” pelas “mãos” de um famoso “artista”: um galho de goiabeira retirado naquele momento e destinado a “reger a orquestra de ociosos”.

Depois, “de couro quente”, após realizarem as tarefas domésticas, a meninada foi autorizada a construir outra emissora, com a seguinte lição: “Primeiro a obrigação. Depois, a devoção”!

*Cléo Farias de Araújo é advogado, escritor, poeta, membro da Academia Amapaense de Letras

Matinês paroquiais

Matinês paroquiais
José Machado*
As vezes sou surpreendido pelas lembranças da infância,do cinema no barracão paroquial. Ficava a contar os tostões durante toda a semana, na esperança de que eles pudessem bastar para comprar a entrada da matinê de domingo.
Além de me desdobrar para conseguir a grana fazendo pequenos serviços, ainda tinha que obter média às “Composições” (simuladão de provas) que eram aplicadas todas as sextas feiras.
Era um só dia de diversão, uma data marcada, uma solenidade para o espírito, a única grande atração da arrastada existência infantil daquele tempo.
Ás tardes de domingo logo após o almoço, lá ia eu para ver o Gunga Din, Sansão e Dalila, o Gordo e o Magro, Robin Hood- Durango kid, Johnny Mack Brown – Apolong Cassidy, Roy Rogers e, tantos outros ídolos dos Far West.
Mas nada se comparava aos seriados – principalmente quando era do Batman (o homem morcego). Era o sonho de um menino embalado uma vez por semana, apenas uma tarde, o resto era estudo ou trabalho.
Enquanto aguardava a abertura da bilheteria, a garotada se concentrava em frente ao barracão paroquial improvisado de cinema, barganhando a troca de gibis.
Parecia um antigo pregão da bolsa de valores ou mercado persa – pela algazarra generalizada de todos falando ao mesmo tempo, trocando ideias de como o mocinho do seriado se salvaria do perigo.
Quebrávamos a quietude e a rotina dos padres. Recordo, com carinho, das velhas máquinas Hows & Bells de 35 milímetros, que carinhosamente chamávamos de dois tempos, e que rebentavam o filme sempre no melhor momento – era o caos.

Com perfuração dos dois lados, os filmes em preto e branco vinham em duas grandes latas metálicas presas por uma correia de couro.
Enquanto o carretel da fita partida rodava em alta velocidade, a molecadas batia o pé no assoalho de madeira que pela densa nuvem de poeira, creio que nunca sequer fora varrido, quanto mais lavado.
Começava então, uma guerra de bombons que literalmente viravam balas, acompanhada de assobios e palavras de ordem “não vale roubar “e “morra a mãe” – deixavam o Nemias e o Cascavel operadores, muito mais nervosos.
Por questão de ordem, acendiam as luzes. Aqueles que eram surpreendidos pelos padres, levavam um série de cascudos e eram postos para fora com chutes na bunda.
Colada a fita, reiniciava o filme, muitas vezes numa cena que nada tinha com a anterior quando foi rompido. As palavras de ordem acima recomeçavam, até o padre ameaçar encerrar definitivamente a sessão.
À maioria das vezes não dava pra continuar, nunca se entendia o enredo. Muitos deixavam espontaneamente o cinema. Como se não bastasse a descontinuidade do filme, acrescente-se a retaliação dos manifestantes postos pra fora a tapas e chutes, que conturbavam a sessão, atirando pedras sobre o telhado de zinco.
O assoalho de madeira, sem declive, com longos bancos sem encosto, dificultava a visualização, situação que se agravava principalmente quando algum retardatário ou aqueles que deixavam o cinema antes do término da sessão passavam em frente do foco de projeção obstruindo a cena.
Momentos inesquecíveis e hilariantes perdidos no tempo. Se a vida fosse tão simples como o cinema de antigamente nos mostrava, não precisaríamos nos preocupar em recarregar os revólveres.
E sempre que tivéssemos de sair às pressas de um restaurante ou bar, atiraríamos dinheiro em cima da mesa sem precisar contá-lo e sem esperar que o garçom trouxesse a nota.
Em antiquários, museus, onde quer que estejam, as velhas Hows & Bells merecerão sempre o carinho e a admiração de uma geração que não se continha de tanto encantamento e, era feliz até o THE END.

*José Machado é jornalista e escritor

Uma aventura pitoresca

Uma aventura pitoresca
Cléo Farias de Araújo

Certa vez, indo de caminhão com meu pai, fazer compras no supermercado da Icomi, em Santana, ao dobrarmos na Av. Pe. Júlio Maria Lombaerd, ele falou:
—Preste atenção, meu filho: esta é a estrada que vai para Santana!
Aquela observação ficou em mim, para sempre.
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Em meados dos anos 60, antes de me mudar com a família, para o bairro da Favela, eu morava no Trem, também conhecido como o bairro proletário. E viver ali era tudo pra mim: tinha escola, campos de futebol, praia do Araxá, rádio valvulado, a taberna do seu Lauro Colares igreja e….cinema! E, como não havia televisão no Amapá, as opções de diversão eram poucas.
No quesito estudantil, eu tinha que atravessar a cidade, diariamente, pois estudava na Escola Gen. Azevedo Costa, no Laguinho. Calçando um sapato kerandá, de borracha, o trajeto virava um carrossel de situações: no inverno, as constantes poças d’água, ensejavam que nossos pés ficassem iguais a carne de supermercado, exposta no resfriador. No verão, a mistura do calor, suor e poeira, produzia o tão desagradável chulé. Mas também tinha o lado bom desse percurso diário: alem do exercício físico, colher mangas na rua, ver a revoada dos pássaros conhecidos como papa-arroz, na Rua Odilardo Silva, na ilharga do Hospital Geral e, descendo a ladeira, rumo ao Trem, merendar aquelas grandes e deliciosas goiabas, daquela árvore gentilmente plantada pela avó dos amigos Mário e Eulálio Lucien. Vale ressaltar que, de tão grande, uma só goiaba já enchia o bucho de um moleque. Mas eram tantas disponíveis e os bolsos de nossas calças curtas, tão generosos, que não resistíamos e sempre levávamos algumas, as quais nos serviam de trunfo de troca.
Descendo ainda mais, na Odilardo Silva, vinha aquela imensa ponte de madeira, que ligava os bairros da Favela e do Trem. Para mim, passar por ali era um tormento: quando chegávamos à metade da ponte, meu irmão mais velho se movimentava de um jeito que fazia a ponte balançar. Com medo que meus cadernos caíssem na água (o que seria surra em casa, na certa), eu me ajoelhava na ponte, prendendo-os sob os joelhos, até meu irmão parar com aquela marmota.
Certo dia, vendo passar o lotação, pedi ao papai que me deixasse ir de ônibus para a escola. Afinal, eu já sabia o caminho. Mas o velho Luizão sempre adiava esse sonho, alegando um magote de justificativas. E eu continuava indo ao Laguinho, a pé.
Certo dia, em que o almoço demorou a ficar pronto e como eu tinha prova no horário vespertino, meu pai me deu o dinheiro para a condução, via lotação, evitando que eu chegasse atrasado para aquele compromisso.
—Que bom! —Exclamei, olhando, sobretudo, para o mano Carlito, na intenção de lhe dizer que, embora eu ficasse sem as goiabas, também me livraria do terror da ponte.
Corri para o ponto de ônibus, que ficava em Frente à Estância Brasil, onde hoje é o Shopping Macapá, próximo de onde eu morava. Subi no lotação, todo garboso, como se tivesse ganho na loteria. “Sentei na janela”, a contemplar a cidade, de um outro patamar. Cheguei a pensar: “ser rico,deve ser bom. Quase não anda de viação canela!”.
Perdido em meus devaneios, só percebi que o motorista dobrou da Leopoldo para a Rua de Santana…
—Meu Deus! Ninguém me disse que esse carro vai primeiro em Santana e só depois é que faz o resto do percurso! Para o carro, motorista! Se não, perco a prova!
Meio espantado, Maranhão freou, no canto do Canta Galo, moveu a alavanca que abria a porta e me deixou sair…
—Ufa! Pelo menos, se eu apressar o passo, chego depois do hino nacional, mas com tempo para a prova.
E me embrenhei, passo ligeiro, como aqueles participantes da marcha atlética, sem, porém os requebros daquele exercício. Da Leopoldo, quebrei na FAB e segui. Quando chego ao Posto CAN, um departamento da Aeronáutica, onde meu pai trabalhava e ouço aquele barulho de motor Mercedes Benz. Para a minha surpresa e chateação, eis que passa o lotação, que apenas havia contornado parte do bairro da CEA, seguindo pela FAB, rumo ao mercado central.
Papai viu o ônibus e me viu, a pé. Dali mesmo e pensando que eu havia gastado o dinheiro da passagem, com garapa e donzelas, fez aquele tão conhecido gesto, significando: “Em casa, a gente conversa!”

Macapá do meu coração!

Macapá do meu coração!
Ray Cunha

Adelantado de Nueva Andaluzia, assim foram chamadas as terras tucujus, futura Macapá, por Carlos V de Espanha, em 1544, numa concessão ao navegador espanhol Francisco de Orellana. Macapá nasceu de um destacamento militar, instalado em 1738 na Praça São Sebastião, atual Veiga Cabral. Em 4 de fevereiro de 1758, o capitão-general do Estado do Grão-Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, fundava a Vila de São José de Macapá, e foram surgindo edificações, como a Fortaleza de São José de Macapá.

Amo muitas cidades. Cada uma delas marcou meu coração. Há, contudo, uma que me ilumina, pois é como uma mulher que desejamos por muito tempo e que de repente está diante de nós, nua, aos primeiros raios do sol de julho. Macapá emerge da boca do rio Amazonas avançando na Linha Imaginária do Equador, e quando a cidade nos engole, mergulhamos num mundo prenhe de jasmineiros que choram nas noites tórridas, merengue, a poesia azul da Alcinéa Maria Cavalcante, a casa do Fernando Canto, que recende ao Caribe de Gabriel García Márquez, mulheres cheirando a Chanel número 5 e maresia, o embalar de uma rede no rio da tarde, mapará com pirão de açaí, tacacá, Cerpinha.

Quando entro neste santuário, dispo-me de todas as feridas, e oferto rosas, pedras preciosas e luz, toda a minha riqueza, aos que eu amo, e te chamo, Macapá, de querida!

Sempre me perco em ti, e sempre de propósito, numa vertigem da qual só me recupero em Brasília, dias depois. As viagens que fazemos no coração são vertiginosas demais para a pobre física terrena. A casa da minha infância, cada palavra que garimpei em madrugadas eternas, cada gota de álcool com que encharquei meus nervos, cada mulher que amei nos meus trêmulos primeiros versos, cada busca do éter, nas noites alagadas de aguardente, os jardins da casa da Leila, no Igarapé das Mulheres, o Elesbão, a casa da Myrta Graciete, a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho, na Rua Mário Cruz, o Macapá Hotel, o Trapiche Eliezer Levy, estão para sempre no meu coração, que enterrei na Rua Iracema Carvão Nunes.

“ A vida não é a que a gente viveu. E, sim a que a gente recorda”

“ A vida não é a que a gente viveu. E, sim a que a gente recorda”…
José Machado
Ontem, transitei pela rua em que morei 40 anos e, de repente me vi em todas as idades que tive, os amigos que conquistei, minhas alegrias, sofrimentos, todos os dias pelos quais passei, as vidas pelas quais respirei, que guardam histórias de convívios.
E a cada idade que vinha, o peito apertava de recordações dispostas como uma fresta por onde dores e alegrias passam de mãos dadas. Rua que me levou e me trouxe de volta à casa da minha infância, da qual tenho sonhos recorrentes. Que me permitiu o acesso à escola, a igreja e também as diversões.
Que me levou as compras na taberna da esquina onde por muitos anos comprei o pão, leite, café, feijão, charque e querosene para as lamparinas e candeeiros. Rua dos Sonhos, do conto por escrever, da felicidade, foi ali onde tudo iniciou… Onde comecei a escrever a história da minha vida.
Rua dos desejos; onde a felicidade era ilimitada, onde inúmeras famílias partilhavam o dia a dia. Que era hábito atender os íntimos, pela porta dos fundos da casa (cozinha). Às vezes não sei se vivi ou se sonhei, e as memórias parecem à distância, doces infusões da realidade.
O primeiro traçado lógico de sua topografia, foi lavrado pelas lâminas de um trator Caterpillar de esteira D-8, operado pelo irmão mais velho, tratorista da ICOMI, que á época – seu canteiro de obras era conhecido como zero.
Instalada na periferia da cidade (quadra que abrange hoje as av. Antônio Coelho de Carvalho e Henrique Gallucio) Santa Rita –onde foi construída EE.D. Aristides Pirovano, Senac e centro de Doenças Tropicais.
Minha rua, pois tenho o sentimento de pertencimento, a família Machado foi a primeira a se instalar naquela gleba em (1945) quando tudo era campo e fragmentos de floresta nativa. Meus ancestrais, levantavam em tempo de ver as plantas e o cerrado orvalhados.
Onde às tardes após os estudos, improvisávamos um campinho para as peladas e, sem ninguém combinar o pessoal ia aparecendo espontaneamente. Não havia tempo predeterminado para as partidas. O jogo encerrava com o início da noite quando já não se enxergava a bola ou quando o grito de uma mãe, chamava para o banho e o jantar.
Viela de chão batido, onde fiz muitos amigos, onde também briguei. Espaço das minhas eternas saudades. Minha rua querida com muita lama e um buraco para cada morador.Local onde brincávamos de: peteca, pião, caveira – onde a alegria era uma constante. Estava mais para um caminho tomada pelo mato.
Somente quando a motoniveladora (patrol) raspava, é que lembrávamos que se tratava de uma via pública. E, foi assim por muito tempo.Rua dos Pregões dos vendedores ambulantes, que caminhavam cantando para anunciar alimentos ou guloseimas. Se destacavam do emaranhado polifônico, e os clientes eram seduzidos pelo ouvido. Do cascalheiro, que chamava atenção pelo toque no triângulo de ferro.
O poeta alemão Rainer Maria Rilhe, estava em um momento de felicidade quando disse que “a verdadeira pátria do homem é a sua infância”. A minha rua,na verdade é uma avenida chama-se Cônego Domingos Maltez -Trem. Ontem ao percorrê-la, não encontrei nem resquício do bairro que retinha na memória.
O que encontrei no entanto, foi uma via de lembranças –quase não existe nenhum contemporâneo vivo e as histórias são sussurros soltos no eco. É impossível esquecer a paisagem dos primeiros anos. Em sua autobiografia ( Viver para Contar) o velho Gabu estava certo quando disse: “ A VIDA NÃO É A QUE A GENTE VIVEU. E, SIM A QUE A GENTE RECORDA.”

Alma desmentida – belíssima crônica de Ruben Bemerguy

Alma desmentida
Ruben Bemerguy

No tempo em que eu era criança, a Maria, empregada lá de casa, me ensinava muito. Ensinava de um tudo. O papai e a mamãe trabalhavam de manhã e a tarde e eu passava a maior parte do dia com a Maria. Até hoje sinto saudades da Maria. Maria sempre desejou meu bem.
Era ela, a Maria, quem cuidava de meus projetos de vida. Maria se dizia adivinho do futuro. Ela acreditava nisso mesmo. Eu também acreditava. Ela se comunicava, e isso era segredo da Maria, com uma luz e essa luz contava pra Maria tudo o que estava por vir.
Ouço, como hoje fosse, que a luz da Maria contou pra Maria que eu teria duas opções profissionais: ou eu seria médico ou seria jogador de futebol. Não fui, e não sou, nenhuma coisa nem outra. Acho que me desviei um pouco da rota da luz da Maria. Esse desaviso, essa minha indisciplina, desobediência mesmo, talvez seja responsável por meus muitos momentos de tristeza e minha tristeza é, seguramente, o resultado da falta cometida com a luz da Maria.
Quando eu sentia alguma dor, uma pequena luxação muscular que fosse, Maria dizia que eu havia desmentido a parte do corpo que me doía. Eu desmenti o dedo, a perna, o joelho, o calcanhar e as costas, muitas vezes. Maria ia até sua luz e depois me benzia. Ninguém poderia saber que a Maria me benzia. Maria era enfática: “se alguém souber dá azar e tu não fica bom nunca mais”. Eu tinha pavor que essa informação vazasse. Seria meu fim.
Eu cresci e virei adulto. Não fui médico e nem jogador de futebol, mas aprendi que existem desmentidos na vida que doem muito mais do que os desmentidos do dedo, da perna, do joelho, do calcanhar e das costas.
É a dor da dor, esse desmentido que eu aprendi na vida adulta.
Na última quarta-feira eu estava em Brasília, por razões profissionais. Tive uma madrugada muito dura. Fui incapaz de dormir. Teria um julgamento muito importante no Tribunal onde eu faria sustentação oral e eu não parava quieto um só minuto.
Dormia de repente e acordava de repente. Lembrei muito da Maria. Eu sempre lembro da Maria em momentos difíceis. Se a Maria me benzesse eu teria dormido, sem dúvida nenhuma. E, como sempre, ninguém saberia que a Maria havia me benzido. Nem os juízes e nem Tribunal saberiam. Só eu a Maria. Se Maria me benzesse eu venceria a causa, fosse ela árdua ou não. Mas a Maria não estava comigo em Brasília. Portanto, eu teria que desmentir a falta de sono sozinho. Mas, sem está benzido pela Maria, não consegui. Lógico.
Foi assim que na manhã da noite que eu não dormi, recebi no quarto de hotel a dor da dor. Dessas que desmentem a alma. O meu amigo querido Romero Serrano havia morrido. Até aquele momento eu não tinha sequer ideia de que meu amigo querido estava adoentado. Andei de um lado para outro no quarto que agora só agasalhava a dor da dor. A dor que me desmentiu a alma.
Procurei pela Maria, ela precisava me benzer. Se a Maria curava meu dedo, minha perna, meu joelho, o meu calcanhar e as minhas costas desmentidas, Maria curaria a dor da dor que desmentiu minha alma naquele quarto de hotel.
Não encontrei a Maria e nem a luz da Maria. Luz que lhe contava de um tudo do futuro. Zanguei com a Maria. Tive raiva da luz da Maria. Maria traiu seu juramento. Primeiro porque não fui médico e nem jogador de futebol. Depois, Maria não adivinhou o futuro de meu amigo querido para que eu pudesse protegê-lo. Não bastasse, Maria permitiu que a vida me desmentisse a alma. Além de tudo, Maria não me benzeu no mais severo desmentido da vida: o desmentido da alma.
Sigo agora sem a Maria, sem a luz da Maria e sem meu querido amigo Romero Serrano. Sem velocidade, sigo com a dor da dor e a alma desmentida. Me desculpa Romero.

Poucas novidades e velhas canalhices

Poucas novidades e velhas canalhices
Elton Tavares

Há um novo bar restaurante na cidade. Também a velha mania de parar por qualquer evento diferente, tipo coisa do interior. Mas até aí tudo bem, faz parte da fuga por coisas novas.

Também há muita insatisfação, descrédito e desejo de mudança. Também jovens ávidos por uma chance, um emprego e velhos professores aflitos pela retirada de benefício salarial ou os novos, pela falta de um reajuste justo.

Há crianças se prostituindo e velhos coronéis ainda no poder. Há gente morrendo nos hospitais e alguns ainda dizem que tudo está no seu lugar.

Há caos, desordem e desonestidade à rodo. Há má vontade…

Há sonhos engavetados e paixões idiotas. Há muita grana a ser gasta com a massa de manobra por interesses obscuros. Há medo!

Há pessoas assistindo a tudo sem fazer nada. Uns por egoísmo, outros por conveniência. Há ameaças, exonerações, chantagens e acordos.

Há violência. E de toda forma. Corpórea e moral. Há assédio, mas todos chamam de “Lei do mais forte”.

Há casamentos, separações, mortes e nascimentos. Há loucos impetuosos e covardes acomodados. Há muita alienação e burrice colorida. Há canalhas demais!

Há muita beleza natural, muita gente do bem, tanto por fazer e amores (sur)reais. Mas há poucas novidades e velhas canalhices, mas todo mundo só pensa na porra do novo bar restaurante na cidade.