O fim do mundo

O fim do mundo
 
Quando disseram
que o mundo ia acabar
Tia Lila pegou seu terço
e pôs-se a rezar.
 
O dono da venda
dividiu toda a mercadoria com seus funcionários
e distribuiu o dinheiro do caixa para os mendigos.
 
A recatada dona Clotilde
jogou-se aos pés do marido
e implorando perdão
confessou que o tinha traído com o compadre.
 
Seu Joaquim, um santo homem, ajoelhou-se no meio da rua
ergueu as mãos para o céu
e pediu perdão a Deus pelos assassinatos que cometeu
como matador de aluguel.
 
No dia seguinte
o dono da venda pedia esmolas,
a recatada Clotilde, expulsa de casa,
foi morar num velho puteiro,
Seu Joaquim foi preso.
 
Só Tia Lila continuou do mesmo jeito.
De terço na mão continuou rezando
e entre uma oração e outra murmurava:
– É mesmo o fim do mundo
– Dona Clotilde, hein, quem diria?
– Seu Joaquim com aquela cara de santo, hein!
É o fim do mundo!
É o fim do mundo!
(Alcinéa Cavalcante)
  • ÊTA FIM DE MUNDO

    Virgem Maria Nossa Senhora,
    Não quero cair no sono profundo.
    Com terço ou sem terço eu escapo,
    Deus me livre desse tal fim de mundo.

    Juro que não tenho pecado mortal,
    Aos Santos rezo sempre a boa oração.
    O Credo e o sinal da cruz me protegem,
    Juro que sou homem de bom coração.

    Juro de mãos juntas que nunca menti,
    Ao padre confessei e dei o dízimo.
    A prova de que só conto a verdade,
    Pergunte ao meu Divino e Altíssimo.

    Ah, se Deus quisesse me desmentir,
    Diria vai pra rua de joelhos no chão.
    Mentiste pra Deus e pro mundo inteiro,
    Não és esse homem do bom coração.

    Deus se passou por mendigo na esquina,
    Tu viraste e nem pra Mim deste bola.
    Olha que saíste do banco com dinheiro,
    E nem pensaste no irmão pedindo esmola.

    JOÃO AIRES DA SILVA
    joao.aires@mpa.incra.gov.br

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