O Natal não mudou. Nós mudamos

Meu pai , Alcy Araújo Cavalcante  – o poeta do cais, dos marinheiros, dos anjos e das rosas – assistiu a passagem de muitos Natais. Ele nasceu em janeiro de 1924, na Vila de Peixe-Boi (PA), e em abril de 1989 partiu para mais perto dos anjos, de Deus e do Menino Jesus.

Certa vez ele me disse que o Natal não mudava. O Natal, disse ele, é a renovação do milagre do nascimento de Jesus. A manjedoura na gruta de Belém, com o Messias anunciado pelo Profeta do Velho Testamento.

O que mudou, disse-me, foi a humanidade. Mudaram as festas. Foi inventado Papai Noel e a oferta de lembranças estimulou a comercialização de presentes.

“O Natal saiu do recesso dos lares, do âmbito fechado da família. Passou a ser comemorado nos bares, nas boates, nos shows e restaurantes. Está estreitamente ligado à sociedade de consumo”, contou.

O chefe de família, dizia-me ele,  que presenteia a esposa com um moderno aparelho de televisão, está também se presenteando, o mesmo acontecendo com um pai que compra um ferrorama para o filho.

Mas ainda existem presentes individuais, singelos cartões, mensagens fraternais sinceras, embora a maioria seja um ato de relações públicas . O Natal, em si mesmo, não mudou. As igrejas ainda ficam lotadas de fiéis para os cultos ou missa. Onde é possível acontecem as ceias familiares e o sorriso das crianças. Do outro lado, há a fome e a tristeza. Nisto o Natal não mudou.

A humanidade, nós todos, mudamos. Às vezes ficamos desesperados, egoístas, medrosos ou coléricos. Mas ainda existe a esperança  em um mundo melhor, mais justo, mais fraterno. Esperanças que se renovam a cada Natal.

É o Menino trazendo, com teimosia e  persistência, a sua bela mensagem de Amor. O Natal não mudou. Nós mudamos e continuaremos em mutação até a consumação dos séculos.

Meu pai Alcy Araújo tinha alma de menino. Menino que acredita no Natal e na Esperança. E eu também.

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