Ave Ternura – Alcy Araújo

AVE-TERNURA
Alcy Araújo (1924-1989)

Minha pobre avezinha. Lembro que te encontrei só, à margem do caminho. Havia medo em teu coração e falcões andavam à tua caça. E eu não possuía um ninho para te abrigar. Possuía apenas uma gaiola de ouro, com água fresca e alpiste. Nela eu te acolhi. E esperei que passasse o teu medo, a tua sede de ternura. Então, acariciei de leve, muito de leve, com muito amor, a tua plumagem.

Em raros instantes pensei que ia ouvir teu cantar. Um dia chilreaste um pouco. E eu senti que tua inquietação permanecia. Não temas. Esta gaiola de ouro não é uma prisão. É apenas uma pousada. A porta está aberta. Não estás prisioneira. Quando partires ela ficará vazia, de porta aberta e não terá nunca outro hóspede, outro ocupante.

O céu azul, o sol, as arvores verdejantes, as cascatas que murmuram, as flores que saúdam as manhãs estão lá fora, à espera do teu canto.

Vai. Cuida que não comas ervas venenosas, não bebas em água estagnada. Cuidado com as serpentes que atacam à noite os pássaros que dormem.

Há também os caçadores que matam por prazer. E há os caçadores que instalam armadilhas para fazer pássaros cativos. Cuida para que eles não te encontrem. Lá fora há amplidão, as árvores têm pomos de ouro e as flores são mais belas. Os bosques têm encanto e música. Aqui nesta gaiola há paz e há ternura.

Lá fora há o espaço e os perigos. E tu és uma avezinha solitária, deslumbrada e frágil.

Vai. A porta está aberta. Sempre esteve aberta. Ficará aberta, à tua espera, se quiseres voltar. Diariamente será renovada a provisão de alpiste, de água fresca e de ternura. Mesmo que não venhas.

O tempo não importa para o meu amor.

Se algum dia te encontrar novamente à margem do caminho, amedrontada e ferida, eu te recolherei, avezinha. Colocarei bálsamo em tuas feridas. Acariciarei com muito amor, muito de leve a tua plumagem e abrigarei a tua dor nesta gaiola de ouro. Não fecharei a porta. Quando sarares, poderás voar de novo. A porta ficará aberta, continuará aberta. O tempo não importa para o meu amar, feito de esperas renovadas

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