A Empregada – Dom Pedro José Conti

A empregada
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

A empregada era trabalhadeira, mas bastante vagarosa. Por sua vez, a patroa era apressada e queria tudo na hora. Quando dava uma ordem devia ser para já ou para… ontem. Às vezes, exigia mais tarefas ao mesmo tempo. Certo dia, ficou zangada e gritou para a empregada:

– Vê se corre logo na farmácia para comprar meio quilo de esperteza!

A moça foi e, chegando na farmácia, fez o pedido, com a maior simplicidade:

– Seu Antônio, a minha patroa mandou perguntar se aqui tem esperteza para vender.

– O que? Esperteza para quem? – respondeu o farmacêutico. Ele, porém, conhecia a madame e sabia da grosseria dela.

Assim respondeu brincando:

– Volte e diga à sua patroa que a esperteza acabou. Mas tenho no depósito várias caixas de paciência. Pergunte se ela não quer mandar comprar. Pelo jeito, está precisando e muito.

Retomamos, também, no evangelho deste Sexto Domingo da Páscoa, algumas palavras do discurso de Jesus na última Ceia. Entre outras coisas, ele fala do Espírito Santo, diz o que ele irá fazer para nós e o chama de defensor. Para entender, um pouco, o que Jesus quis dizer, devemos começar a refletir sobre algo surpreendente: aqueles que amam o Filho, também serão amados pelo Pai e acontecerá uma intimidade extraordinária deles com o próprio Pai e o Filho. Jesus chama isso de “morada”. Toda moradia deveria ser lugar de familiaridade, encontro, confiança. Quando é assim, todo viajante, todo migrante, deseja voltar para a sua casa. Lá tem algo que nos pertence, inseparável da nossa vida e da nossa história.

Como é possível que Deus Pai e Deus Filho venham “morar” conosco? Jesus usa, de fato, essa comparação. No entanto, até os demônios podem “morar” em nossa casa… É questão de acolhida. Como numa família, nem em todas a acolhida é a mesma. Em algumas não passamos da porta. Em outras, a nossa chegada é uma festa e quem nos acolhe nos faz sentir bem. As pessoas dizem: “Sinta-se em casa”. O que nos faz sentir mesmo bem, porém não será a poltrona cômoda, a comida gostosa ou a cama cheirosa e bem arrumada. Não! O que realiza o encontro, o que nos faz sentir família, são as conversas, a capacidade de lembrar pessoas e fatos. Às vezes, são situações alegres, outras doloridas, algumas têm o perfume da gratidão outras a emoção da saudade. Sem rostos para lembrar, sem casos para contar, sem sentimentos para vibrar, não tem comunhão. Podemos estar perto, mas, de fato, ficamos…longe, estranhos, porque não temos nada que nos possa unir.

Por isso, e muito mais, Jesus fala do Espírito Santo como aquele que nos “recordará” tudo o que ele disse. Talvez ajudando a distinguir o que disse a todos, no caminho, nas praças, no Templo, e o que disse aos seus amigos, em casa, justamente, o momento mais precioso, quando ele lhes abria o coração e o discípulo amado reclinava a cabeça sobre peito dele. Sem o Espírito Santo seria impensável essa familiaridade entre Deus e o ser humano, entre o amor perfeito e nós, pobres criaturas ainda marcadas pelo pecado e a morte. No que diz respeito a Jesus, o Espírito Santo ajuda a nos lembrarmos dele e, do lado dos discípulos, abre o coração à confiança. Sem memória haveria o vazio, ou seja, nada para partilhar; mas também sem a certeza da confiabilidade, tudo ficaria igual a uma história talvez bonita, mas distante no passado, aos poucos esquecida.  É o Espírito Santo que torna presente e vivo Jesus para nós. É ele que nos conduz ao ato da fé.

Vou chamar essa ação do Espírito de “paciência”. Não por causa da historinha que contei, mas porque o Espírito Santo não se cansa nunca de manter viva a memória de Jesus, de nos lembrar o quanto ele nos amou. O faz para todos, juntos, como Povo de Deus, como discípulos do Senhor, mas também para cada um de nós como um dom pessoal, para que a alegria de crer não seja nem superficial e nem passageira. Haja paciência mesmo! O bom é que o Espírito Santo não a vende, a doa. Basta pedir. Mas será que pedimos mesmo ou…já “perdemos a paciência” de querer conhecer a Jesus?

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