Artigo dominical

Páscoa é hoje, Páscoa é aqui,
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

      A festa da Páscoa chega sem alarde. Chega depois de um tempo silencioso, de recolhimento, caridade e oração: o tempo da Quaresma. Não tem os pisca-piscas do Natal e nem a correria de final de ano. Talvez seja melhor. O novo da Páscoa não está na exterioridade, mas sim numa passagem inesperada, acontecida no silêncio da noite, algo que será descoberto por algumas mulheres somente ao amanhecer do primeiro dia da semana. Mas a notícia se espalha logo, ainda inacreditável, mas real. Jesus está vivo! Aquele que amou sempre, que amou a vida toda, até os inimigos na hora da morte, venceu e agora triunfa glorioso.

Apesar das suas palavras, quase ninguém acreditava. A condenação pelas autoridades e a morte na cruz foram demais para os seus seguidores. Agora, também, com ele vivo e ressuscitado, ainda eles têm muitas dúvidas. Tudo é novo demais. Sempre será assim. Para acreditar na ressurreição de Jesus não basta a experiência, o bom senso, alguma explicação com a pretensão de ser histórica ou científica. Somente a fé pode acolher algo que é mais do que simplesmente humano, mais do que um sonho ou uma ilusão, algo que é o começo de uma vida nova. – Jesus é o Senhor! – ensinarão os apóstolos. – “Meu Senhor e meu Deus!”, dirá Tomé caindo aos pés do ressuscitado.

A cada ano, a cada Páscoa, precisamos reavivar esta nossa fé. Sempre corremos o perigo de achar quase normal o acontecido, de considerá-lo pouco atual, uma lenda do passado, bonita, mas útil só para consolar alguns desavisados. O tempo passa, as ideias mudam, a sociedade avança, o dia a dia nos sufoca. Por que perder tempo com tudo isso? Como cristãos, não devemos nos espantar; não cabe ao mundo testemunhar a fé na ressurreição de Jesus, cabe a nós provar, com as nossas vidas, que algo de realmente novo aconteceu e sempre está acontecendo. Jesus continua vivo, à frente do seu povo, caminhando conosco. Quem não deve e não pode desanimar, quem não pode perder o foco da novidade somos nós. Esta é a nossa missão.

Para superar o desânimo precisamos, talvez, recomeçar a acreditar, de uma forma nova e mais viva. A rotina cansa também os mais generosos, mas a fé reanima e a confiança sustenta. Aquele pingo de apóstolos não tinha nem recursos e nem prestígio. Não faltava o temor, mas eles arriscaram, perderam as suas vidas e a boa notícia cresceu. Hoje inventamos desculpas para justificar a nossa falta de entusiasmo. Queremos ver resultados antes de nos entregarmos à missão. Queremos ganhar alguma coisa antes de gastar tempo e energias. Queremos negociar com as coisas do mundo, queremos ter a nossa cota de fama e de sucesso, porque gostamos de aparecer.

Não foi esse o caminho de Jesus e nem dos apóstolos. Jesus falava do Pai a quem queria obedecer custe o que custar. Os primeiros cristãos só falavam de Jesus porque era ele o mais importante, era ele que tinha morrido na cruz e ressuscitado por amor a nós pecadores. Muitas vezes, nós mesmos, nos lembra papa Francisco, estamos demais preocupados com a nossa organização, a nossa segurança, a nossa doutrina. Esquecemos que o que vale é a mudança em nossas vidas, a conversão, o jeito novo de fazer o bem, jeito que sempre escandalizará os mundanos.

Outro segredo para não desanimar é entender que a Páscoa continua, não acabou naquele dia. Somente começou e continua acontecendo na vida daqueles que sabem amar e perdoar, naqueles que se esquecem de si para fazer felizes os outros; naqueles que comunicam alegria, esperança, constroem a fraternidade e a paz; aqueles que têm fome e sede de justiça. Quase sempre tudo isso é pequeno, muito pequeno. Acontece no silêncio das casas, dos corações, à vezes, entre lágrimas. Mas esta é a verdadeira novidade que marca a vida das pessoas e as faz voltar a sorrir e a se abraçar. É a vida de Jesus que venceu o mal e a morte uma vez por todas. Cantemos, sem medo, e sempre o Aleluia pascal. Feliz Páscoa para todos.       

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