Artigo dominical

O caminho perdido
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Alguns monges estavam atravessando o deserto junto com o seu abade. O noviço mais novo era o encarregado de guiá-los na peregrinação. Apesar da sua boa vontade, ele tinha perdido o rumo do caminho. O abade e os irmãos já tinham percebido que estavam dando voltas e que o seu guia estava na maior confusão. O velho superior, porém, não queria humilhar ou repreender o jovem na frente de todos. No entanto, estava escurecendo e continuar a caminhar sem rumo no deserto era muito perigoso. O abade, com santa simulação, disse:

– Estou muito cansado, não aguento mais, melhor parar.

Os outros monges todos juntos disseram:

– Nós também estamos sem condições de continuar, vamos deixar para amanhã.

De noite, o ancião ficou a sós com o jovem e, juntos, reavaliaram o percurso. Ao amanhecer, com a luz do dia, o jovem guia reencontrou o caminho certo e conduziu os irmãos todos ao o destino da viagem.

Simples e brilhante a solução que o abade e os irmãos encontraram para não humilhar o jovem noviço. Em geral, apontar os erros e os malfeitos dos outros nos dá certa satisfação. Sentimo-nos superiores. Na verdade, errar, duvidar, ficar confusos é comum. Melhor seria corrigir o irmão com paciência e carinho, dando a perceber que nós também precisamos ser corrigidos. O irmão ficará agradecido e o nosso orgulho silenciado.

No evangelho que nos apresenta a dúvida do apóstolo Tomé, Jesus nos dá o exemplo. Mais do que repreender ou reprovar o apóstolo incrédulo, o exorta a ter fé, a confiar nele e nos companheiros. Todo mundo tem dúvida e incertezas e podem ser motivadas por várias razões. A nossa cabeça dura, por exemplo. Às vezes são os outros que achamos pouco confiáveis. Por fim, o próprio objeto da fé pode nos parecer inacreditável. No caso da ressurreição do Senhor continua a ser difícil acreditar que o “impossível” tenha acontecido. Não só Tomé, mas todos os apóstolos demoraram em acreditar. Quando, porém, superaram os questionamentos e as incertezas, começaram a espalhar a Boa Notícia e enfrentaram qualquer perigo e perseguição.

Perguntar não está errado e nem é vergonhoso. Pior é quando desistimos de buscar as respostas e caímos na indiferença. Não tenho dúvida. Perguntar, querer entender, é sinal de interesse e de boa vontade. Revela o desejo profundo de acertar, de decidir com a própria inteligência, de encontrar o sentido grande da vida e dos acontecimentos. Espanta-me a segurança com a qual algumas pessoas chegam à conclusão que tudo o que diz a respeito da religião é sem sentido, pura imaginação, para não dizer idiotice. Evidentemente as coisas materiais e imediatas parecem mais confiáveis que uma Palavra de Deus transmitida de geração em geração.

É mais fácil se conformar com o que parece comum, com uma vida já programada, seguindo a lógica do consumo e do prazer. Custa buscar um sentido na vida, questionamo-nos sobre o que fazemos e o porquê o fazemos. Facilmente se percebe a angústia de quem não consegue ganhar mais, de quem nunca fica satisfeito com o que tem. Parece que fazer o bem, cumprir a justiça, desmascarar as mentiras e as falcatruas, construir uma sociedade mais justa e fraterna, interesse muito menos que a própria tranquilidade, o próprio bem- estar.

Talvez o que dá gosto à vida não seja ter tudo pronto, arrumado, pensado e resolvido pelos outros, mas, justamente, buscar caminhos novos – ou reabrir antigos – encontrar respostas a perguntas nunca plenamente resolvidas – ou sempre abertas, apesar dos milênios da história humana. A insaciabilidade do nosso coração é um dom que recebemos, um convite à busca. Querer anestesiá-lo é só adiar o reconhecimento das nossas fragilidades. Tenhamos medo da indiferença, não de buscar e questionar. Se formos sinceros encontraremos o caminho e ouviremos Jesus nos dizer: – Não sejas incrédulo, tenha fé! -. Chegaremos à meta.

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