Artigo dominical

A grande árvore
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Lao Tzeu estava fazendo uma peregrinação com os seus discípulos. Chegaram a uma floresta onde centenas de lenhadores tinham cortado as árvores. Toda a floresta estava cortada, menos uma árvore gigantesca com milhares de ramos cheios de folhas. Aquela árvore era tão grande que centenas de pessoas podiam sentar-se debaixo da sua sombra. Lao Tzeu ordenou aos discípulos de perguntar aos lenhadores por que aquela árvore tinha sido poupada. Eles responderam:

– Aquele gigante de ramos e folhas é absolutamente inútil. Não serve para nada. Os seus ramos são todos tortos e entrelaçados. Nem prestam para serem queimados, só fazem fumaça. Por isso não a cortamos.

Os discípulos voltaram para Lao Tzeu e relataram-lhe a resposta dos lenhadores. O mestre sorriu e disse:

– Sejais como esta árvore. Se fôreis úteis, vós sereis cortados e sereis transformados em móveis para a casa. Sejais como esta árvore, absolutamente inúteis… Então crescereis, grandes e majestosos, e muitas pessoas encontrarão sombra perto de vós. Não é importante o que vós fazeis para os outros, mas o que vós sois para eles.

É bem provável que as palavras do sábio nos tenham surpreendido. Ser inúteis pode servir de exemplo e de incentivo? Basta reparar, porém, que aquela árvore gigantesca era, sim, inútil para certas coisas, mas utilíssima para outras: oferecia uma sombra agradável para muitos e muitos. De graça, sem pretensões.

No domingo de Pentecostes, continuamos a nossa reflexão sobre o Espírito Santo. Desta vez dando atenção aos seus dons. Diz a primeira carta aos Coríntios: “há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito… A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1Cor 12,4 e7). São Paulo teve muito trabalho para convencer os coríntios sobre o sentido e o valor dos dons do Espírito Santo. Eles achavam que alguns dons eram mais importantes que outros. Por isso, brigavam entre si. A ambição os levava a disputas e divisões. O apóstolo os repreendeu ensinando que os dons do Espírito deviam servir para a unidade e o bem de todos. Por fim, escreveu aquelas páginas maravilhosas sobre o corpo que precisa de todos os seus membros e sobre a caridade, o amor. Este, afinal, é o dom maior de todos, o único que vale mesmo.

A lição do apóstolo continua extremamente atual. Ainda damos valor a certos dons mais visíveis e, de certa forma, mais “úteis” e desprezamos outros mais humildes ou, pensamos, menos necessários. Tudo depende de como entendemos os nossos relacionamentos e qual deveria ser o uso destes benditos dons.

Vivemos numa sociedade onde a eficiência e o lucro tomam conta. Por isso, certas capacidades são muito valorizadas, outras não. Já deveríamos ter percebido que o sucesso de certas pessoas ou produtos depende mais do chamado “marketing” o que do seu valor real. Constroem-se estrelas para que brilhem até quando deem dinheiro, depois podem ser descartadas. Quantas pessoas sonham em ser famosas, nem que seja para alguns instantes, e quantos que já brilharam – o foram feitos brilhar – não aceitam mais a opacidade da vida comum.

Nas nossas comunidades também temos pessoas que parecem insubstituíveis, as únicas capazes de fazer as coisas, aquelas que aparecem mais. Tudo é dom de Deus. O que vale, porém, é a nossa unidade, o exemplo de fraternidade, sem disputas ou estrelismos. Precisamos de irmãos e irmãs que estreitem laços, que eduquem à paciência, à compreensão, ao perdão, que incentivem a generosidade e a gratuidade. Conheço muitas dessas pessoas; raramente aparecem nos mais altos degraus, mas são as verdadeiras colunas das nossas comunidades. Sabem escutar, consolar, propor, corrigir sem machucar. Afinal, elas sabem fazer o que? Aparentemente nada de importante, nada que apareça, mas alimentam o bem mais precioso: o amor. O amor que acolhe a todos, como a sombra daquela árvore. De graça.

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