Artigo dominical

O bem e o mal
Dom Pedro José Conti,Bispo de Macapá

Certo dia, um mestre perguntou aos seus discípulos:

 – Como vocês poderiam definir o ser humano dotado de razão?

Um aluno respondeu:

– Aquele que sabe distinguir o bem do mal. – Mas o mestre revidou:

– Também os animais sabem distinguir o bem do mal

– Qual é, então, a diferença para o ser humano que tem o uso da razão? – Perguntaram todos juntos os discípulos.

–  Aquele que, de duas coisas boas, sabe reconhecer a melhor e, de dois males, sabe reconhecer o pior.

O sentido desta anedota é um convite, muito simples, a usar da melhor maneira possível a nossa inteligência. Todos os dias devemos escolher muitas coisas, das mais comuns às mais complexas. Sempre somos levados a fazer comparações. Nem sempre o que aparece cômodo e barato compensa o seu preço. O que parece fácil e atraente, depois se revela não ser realmente o que estávamos procurando. Mais difícil ainda é escolher a melhor entre as coisas boas ou evitar a pior entre as coisas erradas. Nesse caso, precisamos apelar à nossa experiência e refletir bem sobre as consequências da nossa decisão. Uma boa inteligência aproveita sempre da nossa memória e daqueles em quem confiamos. Mas o que fazer quando algo de realmente novo aparece à nossa frente? Como decidir? Com que fazer comparações?

Foi o que aconteceu a Pedro, na página do evangelho que a Liturgia nos apresenta neste domingo. É a continuação do trecho refletido no domingo passado. A novidade que Jesus anuncia aos discípulos é para eles, no mínimo, surpreendente. Ele é sim o Filho do homem, o messias esperado, mas agora começa a falar de ir para Jerusalém e diz que lá irá encontrar sofrimentos, morte e, enfim, a ressurreição. Pedro reage, não entra no esquema dele essa morte. Uma coisa dessas é simplesmente impensável, melhor nem falar. Se isso chegar a acontecer, todos os planos dele, não ditos, mas sonhados, de sucesso, de grandeza e de poder vão cair por terra. Nada podia ser pior.

Ficamos espantados com a resposta de Jesus: – Vai para longe, Satanás!…porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens! – Para Pedro o melhor era viver, passar bem. A morte só podia ser o pior. Quem pensaria diferente?

É nesta altura que a razão, por si só, não sabe mais o que dizer. Precisa outra luz, uma nova visão: precisa a luz da fé. O melhor pode ser mesmo perder a vida para reencontra-la. Pode ser o caminho difícil do sofrimento para que algo de muito melhor, mas muito mesmo, comece a acontecer. Esta será sempre a novidade de Jesus: a cruz; ao mesmo tempo escândalo e loucura, mas, para quem acredita, caminho de salvação. Tudo isso não somente porque aquela morte foi do próprio Filho de Deus feito carne, mas porque foi a revelação plena do amor de Deus, inimaginável para os homens. Amar tanto ao ponto de, em seu Filho, fazer-se solidário com os fracos e pecadores, com os homens desobedientes e afastados. Amar a nós  todos também, com certeza, bem pouco merecedores de tão grande amor. No entanto, foi aquela vida doada que venceu o pecado e a morte. A maior derrota, foi a maior vitória sobre o mal. A decisão de Jesus de nos amar até o fim, foi o supremo gesto de amor, capaz de resgatar a humanidade inteira.

Ainda nos custa entender e reconhecer o valor dos gestos de generosidade. O sabem, porém, as mães que se sacrificam para que os seus filhos pequenos cresçam com saúde. O sabem os jovens que renunciam a alguma diversão para aperfeiçoar os seus talentos. O sabem, muito mais, todos aqueles e aquelas que fazem o bem – de mil formas e maneiras – sem pretender recompensas ou reconhecimentos. Custa ser diferente, agir diferente, mas sempre será este conjunto de gestos de amor, compaixão e solidariedade a tornar este mundo melhor. Com certeza não serão o egoísmo, a indiferença e a ganância.

É difícil para todos aprender a olhar as coisas com o olhar amoroso de Deus. O melhor para nós pode não ser o bem verdadeiro ou o bem maior para os demais. Em todos os casos, o pior será sempre não amar ou amar menos. Quando vamos aprender a escolher?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *