Artigo dominical

Uma grande pretensão
Dom Pedro José Conti, bispo de Macapá

           Certo dia um chefe de família foi visitar Sri Rama e falou assim:

– Homem de Deus, ouvi dizer que você viu o Senhor. Mostra-o também a mim e explica-me como isso é possível.
Respondeu o mestre:

– Tudo depende da vontade de Deus. Mas também da sua. Se você está sentado na beira de uma lagoa e somente fica dizendo: “Tem peixes bonitos por aí”, será que vai pegar algum deles? Vá antes buscar o necessário para pescar: o caniço, a linha e alguma isca. Depois joga o anzol na água e fica esperando. O peixe subirá do fundo do lago, se aproximará da isca e você fará de tudo para pegá-lo. Está me pedindo para ver a Deus e fica ali tranquilo sem o mínimo esforço. Você queria que eu tirasse o leite da vaca, pegasse a nata, a transformasse em manteiga e a colocasse em sua boca numa colher de prata. Meu amigo, você é bastante estulto, não acha?

No evangelho de domingo passado, deixamos Jesus indo embora porque “queriam lavá-lo para proclamá-lo rei” (Jo 6,15). Continuando a leitura do capítulo seis de João, inicia agora o diálogo entre ele e os que o procuravam. Ambos usam as mesmas palavras, mas com um sentido completamente diferente. Entre uma questão e a outra, João aproveita para colocar a sua mensagem. De um lado está em jogo a busca do alimento porque ficaram satisfeitos com os pães e os peixes. Esta é a necessidade cotidiana de todo ser vivo que sente fome: a alimentação. No entanto, Jesus quer nos conduzir a procurar, com o mesmo capricho com o qual buscamos o alimento que “se perde”, outro alimento: aquele que “permanece até a vida eterna e que o Filho do homem vos dará”. Refletindo um pouco, as coisas se esclarecem.

O que diferencia o nosso ser “humano” de outros seres vivos é que precisamos de alimento não somente material, mas também, digamos, espiritual. Nós todos precisamos de sonhos, projetos e ideais de vida. Estes motivam e alimentam a nossa existência, as nossas lutas, nos sustentam nas conquistas e nas derrotas. Hoje, talvez mais do que nunca, experimentamos o que signifique o vazio existencial. Preenchemos a nossa vida de objetos, às vezes úteis outras não, de coisas e atividades, que, porém, não satisfazem aquele algo mais ao qual anseia o nosso coração. Estamos todos muito ocupados, temos mil e mais relações, infinitos seguidores nas redes sociais, mas, muitas vezes, não confiamos em ninguém; os que parecem tão perto – no mundo virtual – na realidade estão longe, atrás de uma telinha de celular ou de computador. Experimentamos a maior solidão.

Existe uma saída? Também a Jesus perguntaram “o que devemos fazer para realizar as obras de Deus”? De novo Jesus responde com algo que, aparentemente, não parece uma “obra”, um “fazer”, mas que, na realidade é a grande obra de cada ser humano em busca do sentido da própria vida. Diz Jesus que precisa “acreditar” naquele que Deus enviou: ele mesmo. Está falando da “obra” da fé! Com isso Jesus nos convida a buscar o sentido da vida “fora” de nós mesmos, mas não para fugir ou ficar alienados, mas para encontrá-lo em Alguém maior do que nós. Quem fica contemplando a si mesmo, se exalta, mas fecha o seu horizonte. Passa a vida se autocontemplando e, um belo dia, com ele mesmo, acabará tudo. Quem busca o olhar de Deus e confia nele, abre a sua vida além do imediato e do contingente. Todo gesto de amor e de generosidade ganha uma dimensão eterna, entra a fazer parte da única grande história de amor-doação do próprio Deus, revelada e manifestada no amor total de Jesus. Aprender com Jesus a amar como ele amou é a grande “obra” da fé. É crer para fazer o amor acontecer.

Toda “obra” passa por projeto e realização, por momentos de sofrimento, pequenos passos ou avanços inesperados. Talvez nunca chegue ao fim neste mundo, mas vale a pena gastar a nossa vida nesta empreitada divina. Ninguém pode fazer isso no nosso lugar. A opção da fé, o nosso compromisso de amor, é pessoal. Pensar que outro possa nos substituir, além de ser acomodação, seria perder tempo, burrice.

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