Artigo dominical

Querer sempre mais
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

– É apenas o alfaiate, senhor, com a sua continha – diz uma voz choramingando do lado de fora da porta.

– Oh, está bem! – diz o professor às crianças – Vou já resolver o caso dele. Esperem um instante. E, este ano, quanto lhe devo, meu bom homem? – Perguntava o professor enquanto o alfaiate já tinha entrado.

– Veja, por tantos anos, o valor foi dobrado – respondeu o alfaiate meio brusco – e agora acho que realmente quero receber o dinheiro. São dois mil reais.

– Coisa pouca – observou despreocupado o professor, metendo a mão no bolso, como se carregasse sempre consigo esta soma – Mas será que você não gostaria esperar mais um ano para que os dois mil reais se tornem quatro mil? Imagine como você se tornaria rico. Imagine!

– Não sei, não – comentou o homem preocupado – mas, de fato, parece um monte de dinheiro! Bem! Acho que vou esperar.

– Claro que você vai esperar – disse o professor – Vejo que você tem boa cabeça. Bom dia e passe bem!

Assim a porta se fechou às costas do credor, Mariazinha perguntou ao professor Luiz:

– Algum dia o senhor vai pagar a ele esses quatro mil reais? – Nunca minha filha, nunca! – Respondeu logo o professor – Ele irá preferir dobrar a quantia até o dia de sua morte.

O evangelho deste domingo não fala diretamente de ambição e cobiça, mas deixa entender que, se não nos libertamos delas, podemos gastar mal a nossa vida. Até os apóstolos ficam envergonhados por discutir sobre estas coisas no caminho junto a Jesus. Querer ganhar mais, muitas vezes, pode ser um direito legitimo, mas pode ser também o fruto da insaciabilidade do nosso coração ou mesmo do nosso enraizado egoísmo.

Jesus fala, novamente, dos sofrimentos que terá que enfrentar quando será entregue “nas mãos dos homens”, mas os discípulos não compreendem e têm medo de perguntar. Eles não estão interessados nas dificuldades que podem vir. Preferem continuar a imaginar coisas boas, sucesso, riqueza e poder. Estão focados num outro assunto, sobre o qual, porém, ficam calados quando Jesus pergunta. De fato, discutiam entre si quem era o maior entre eles ou, talvez, na sociedade daquele tempo. Os poderosos do mundo, os ricaços de todas as épocas, sempre fizeram questão de se apresentar aos pobres cheios de privilégios e mordomias, sobretudo, circundados por muitos servidores e servidoras prontos a satisfazer-lhes qualquer pedido. Poder gozar da intimidade de alguém considerado importante ainda é o sonho de muitas pessoas, dispostas para isso a renunciar à liberdade e a silenciar até a própria consciência.

Jesus pensa diferente; quem quer ser grande de verdade deve ser o servidor de todos: o último. Ele não nega a autoridade, mas a propõe como serviço aos demais. Pensando bem, toda autoridade deveria ser assim: um zelador ou zeladora das coisas comuns, para que todos, a começar pelos mais pobres, possam ter uma vida melhor. Estar na frente, no comando, é uma grande responsabilidade. Tem as suas alegrias, mas também as suas angústias, quando se quer mesmo o bem da comunidade. No entanto, movidos pela ambição ou pela sede de poder, nós continuamos a enxergar somente as vantagens dos primeiros lugares. É difícil pensar diferente com tantos maus exemplos de desmandos, impunidade e esperteza em usar da posição social para encher o próprio bolso. A corrupção é filha da ambição e da insaciabilidade do coração humano.

Nesta altura, Jesus pega uma criança, a coloca no meio de todos e a abraça. Convida-nos a acolher os pequenos e quem o fizer estará acolhendo o próprio Senhor e o Pai que o enviou. Crianças não são criaturas perfeitas, mas tem algo que nós adultos já perdemos: só podem ser amadas e servidas de graça. Elas não têm dinheiro para pagar, não têm como devolver, não votam. Querem ser felizes; viver e brincar, sem medo, sem violência, sem chantagens ou cobranças. Uma lição evangélica para todos aqueles que só pensam em ganhar sempre mais até o fim da própria vida.

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