Artigo dominical

Nós cantamos e dançamos juntos
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Muitos anos atrás, um missionário atravessava um país da África e um jovem lhe servia de guia. Todas as noites, quando o sol estava se pondo, num momento certo, o jovem se colocava na frente da luz. Começava a mover ritmicamente os pés e a cantar bem baixo uma doce música, cheia de saudade. Ver aquele jovem africano cantar naquele momento, iluminado pelos últimos raios do sol, suscitava a admiração e a curiosidade do missionário. Assim, uma noite, perguntou ao guia:

– O que significa este cerimonial que você faz todas as noites?

– É muito simples – respondeu o jovem – eu e a minha esposa criamos esta música. Quando estamos longe um do outro, em qualquer lugar que estejamos, cada um de nós, ao pôr do sol, se vira na direção dele e começa a dançar e a cantar. Desta maneira, todas as noite, também se estamos afastados, cantamos e dançamos juntos.

Pensando bem, quando tem comunhão de amor, basta pouco para sentir a presença de quem amamos. Entre esposos esta deveria ser uma experiência real e gratificante para ambos, apesar das circunstâncias que podem, temporariamente, os separar. O pensamento e o afeto encurtam as distâncias. O tempo parece passar mais rápido e logo acontecerá o reencontro. Algo semelhante acontece, também, entre pais e filhos, entre familiares unidos por laços saudáveis e carinhosos. Ter saudade da própria família revela um grande coração humano e fraterno. Algo que está muito acima e muito além de qualquer interesse ou estratégia: um simples fruto do amor.

O evangelho deste domingo nos traz o ensinamento de Jesus a respeito do matrimônio. Ele responde a uma pergunta sobre o divórcio, mas deixa entender que o que está em jogo é mais que uma lei a ser obedecida ou não. A alternativa não está tanto na permissão, ou não, para repudiar a mulher e casar-se com outra. A questão está entre o projeto inicial, que pede ao homem e à mulher para serem “uma só carne”, uma realidade nova abençoada por Deus, ou a dureza do coração com a conseguinte separação. O casal que decide unir a própria vida tem uma missão a cumprir: manifestar visivelmente a grandeza e a força do amor. Ou seja: tem algo de divino no homem e na mulher que se unem. Cada pessoa, em si, já é imagem do Criador, mas também a união conjugal, como caminho de comunhão de vida e de amor, revela a identidade amorosa de Deus. A “fidelidade” é um atributo de Deus. “Deus é fiel” repete a Bíblia. A “fecundidade” também é sinal da sua generosidade e da sua vontade de nos fazer participantes da obra da criação. Não somos prisioneiros de um planeta que viaja casualmente pelo espaço cósmico. Somos engenheiros de um mundo, chamados a decidir, na liberdade, se construí-lo ou destruí-lo, se torná-lo mais humano e habitável ou travar entre nós uma guerra interminável de poder e de morte.

Continuamos a discutir muito sobre a família e, talvez, nunca estivemos tão confusos como nestes tempos sobre o assunto. Estamos preocupados com leis, direitos e deveres. Queremos soluções fáceis para situações difíceis, como se um papel valesse mais da vida e dos sonhos das pessoas, sobretudo das crianças e dos jovens. Deveríamos lutar pela união das nossas famílias e defendê-las das ideologias desagregadoras, mas, às vezes, pensamos que a dissolução de um lar traga, por si só, felicidade e paz para todos os seus membros. Quantas famílias já começam com o casal desencantado, cada um cuidando dos seus negócios e decidido a alcançar os seus objetivos individuais. Se preocupar com o bem do outro ou da outra, do bem-estar das crianças e dos idosos, parece ser uma exigência pesada demais para quem busca o sucesso e a afirmação pessoais. Quando prevalecem os muitos “eu” nas nossas famílias, fica pouco espaço para o “nós” da comunhão e da solidariedade. O amor fica sufocado; a indiferença domina e as conversas familiares parecem tempo perdido. Precisamos inventar novas “canções” de amor e de paz, de saudade e de alegria e cantá-las, sem medo e sem cansar, do nascer ao pôr do sol, pela vida inteira.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *