Artigo dominical – O europeu e a China

O europeu e a China
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Um homem, um europeu, viajando para o oriente, conheceu uma moça chinesa. Ele se apaixonou pela mulher, mas não podia conversar com ela. Não conhecia a língua e não podia lhe escrever e nem receber suas cartas. Voltando para o seu país, decidiu aprender chinês para se comunicar com sua amada. Depois de muitas dificuldades, encontrou onde aprender chinês. Mergulhou no estudo da língua e tanto se esforçou que se tornou um eminente conhecedor da língua chinesa, convidado a dar palestras no mundo inteiro sobre a língua e a cultura chinesa. Seus estudos, suas viagens e compromissos se tornaram tantos que, no começo, ele escrevia para sua amada e recebia a resposta dela. Depois, não conseguia mais tempo para escrever e nem sabia onde mandar as cartas. Ele acabou sendo um homem tão importante que esqueceu a mulher pela qual aprendeu chinês.

Escutar e falar são duas ações diretamente ligadas. Aprendemos a falar porque escutamos o som das palavras e, aos poucos, entendemos o sentido. Também falamos coisas sensatas se sabemos escutar com atenção o que os outros nos dizem. Quando não escutamos bem ou não prestamos atenção ao que nos falam, podemos responder errado ou mesmo falar bobagens. O que dizer, se não acompanhamos o assunto? Melhor mesmo ficar calados. No evangelho deste domingo, Jesus abre os ouvidos e a boca a uma pessoa surda que não conseguia falar bem. Surdez e mudez são dificuldades interligadas. Jesus liberta aquele homem do seu isolamento. Agora ele é gente; pode escutar o que lhe dizem e responder em conformidade. Entende e responde. Dialoga. Pode expressar ideias e sentimentos, pode partilhar o que os outros contam. Pode até discutir e gritar.  Jesus lhe pede que não divulgue o acontecido, mas, pelo jeito, ele não consegue silenciar a maravilhosa novidade que está vivendo. A conclusão do povo é o refrão dos novos tempos messiânicos prometidos por Deus nas palavras dos profetas: “Ele – Deus? Jesus? – tem feito bem todas as coisas: aos surdos faz ouvir e aos mudos falar” (Mc 7,37).

Falar, escutar, conversar, dialogar, significa comunicar e, assim, partilhar as nossas vidas. Sem palavras, sem escuta, não somente nos isolamos, mas também corremos o perigo de não nos entendermos mais com os outros e, afinal, com nós mesmos. Hoje, a questão não é tanto o silêncio, que não existe quase mais, mas a incapacidade de nos comunicarmos, de transmitir e receber algo que dê sentido a nossa vida. Enchemos ouvidos, olhos e cabeça de informações, repetimos palavras formais e costumeiras. Raramente refletimos sobre o que escutamos e dizemos. Assim, as nossas palavras não manifestam uma sabedoria sincera e amadurecida, mas revelam muitas vezes o vazio no qual estamos mergulhados. Na sociedade do barulho, da propaganda, dos slogans, das frases de efeito, onde tudo se torna espetáculo e audiência, sentimos a necessidade de palavras simples e verdadeiras. Precisamos voltar a confiar nas palavras que dizemos e escutamos e acreditar que não estamos sendo enganados mais uma vez.

Também a Palavra de Deus é desclassificada, manipulada, distorcida. Para muitos não tem autoridade nenhuma, é uma opinião como tantas outras. Vale menos que o pensamento individual. Às vezes, é usada como uma espada; infelizmente mais para ameaçar e castigar do que para converter e dar esperança. Apesar dos sinais, Jesus não obrigava a acreditar. Ele abria os corações a perguntas, para que as pessoas, sentindo-se menos seguras no orgulho das suas ideias e preceitos, aprendessem a se comunicar com a sempre nova linguagem de Deus: o amor. Um amor verdadeiro é sempre feito de gestos e palavras. Talvez mais gestos que palavras, porque tem ações que falam por si mesmas. O amor feito de afeto, acolhida e doação é uma linguagem universal. Não precisa estudar o chinês para amar. Como o professor de chinês que esqueceu o amor. Valeu a pena?

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