Artigo dominical – Um pregador corajoso

Um pregador corajoso 
Dom Pedro Conti, Bispo de Macapá

Um discípulo de Buda tinha decidido ser pregador. Antes, porém, de começar a sua peregrinação foi ter com o seu mestre para pedir a bênção.
– O que farás se o povo que vais encontrar começar a te injuriar? – perguntou-lhe o mestre.

– Vou pensar que o povo está sendo generoso comigo porque fica só me injuriando e não jogado pedras contra mim – respondeu o pregador.
– E o que farias se o povo que vais encontrar começasse de verdade a jogar pedras contra ti? – perguntou de novo o mestre.
– Pensaria ainda que o povo tem piedade de mim porque estaria poupando a minha vida – respondeu logo o discípulo.
– E se o povo decidisse tirar a tua vida? – insistiu o mestre.
– Então pensaria que não somente o povo é piedoso comigo, mas é também generoso, porque estaria me tirando um grande peso.

O mestre olhou para o discípulo e lhe deu a sua bênção:
– Meu filho seja bendito. As tuas palavras são santas. Vá em paz e ilumina os outros porque tu já és luz!

Não precisamos concordar com tudo o que a história conta. No entanto podemos nos perguntar qual mensagem pode ser luminosa e, ao mesmo tempo, suscitar a raiva dos ouvintes. Não conheço o ensinamento oriental, mas sei que algo semelhante aconteceu com Jesus e com muitos dos seus discípulos. Vale a pena nos perguntarmos como e por que uma mensagem de vida e de esperança pode se tornar motivo de inveja, de medo e, por fim, de morte? Também, um dia, quiseram calar Jesus, a Palavra de Deus feita carne. Ainda hoje, há quem acolhe a palavra dele como Palavra de vida eterna (cf. Jo 6,68) e há outros que gostariam de enterrar para sempre a Boa Notícia. Essa guerra nunca vai acabar. Vamos entender o porquê.

No evangelho desde domingo, tudo parece dar certo para Jesus. Ensina com autoridade e a sua fama se espalha em toda parte. Na sinagoga de Cafarnaum, em dia de sábado, cura um homem possuído por um espírito mau. Jesus tem poder, repetimos e cantamos isso muitas vezes. Contudo dizer que Jesus “ensinava com autoridade” não pode ser uma simples declaração sem consequências. Exige uma decisão. Nós reconhecemos muitos tipos de autoridade. A dos nossos pais, das pessoas competentes em sua profissão e disciplina e, às vezes, das pessoas que consideramos sábias, entendidas sobre as grandes questões da vida. Hoje, porém, essas “autoridades” sofrem a concorrência, para dizer assim, dos meios de comunicação, da propaganda, das coisas repetidas à exaustão até chegar a fazer acreditar que sejam verdadeiras. Quantas vezes acabamos concordando com a chamada “maioria” ou com um “todos”, não bem identificado, mas que nos poupa do esforço de pensar e nos faz acreditar que, afinal, estes “todos” não podem errar.

A autoridade de Jesus, porém, é outra. É a força da verdade e do amor. É aquela luz que não se mistura com a escuridão. Em nós, ainda pode ser fraca, mas já não é mais treva. Por isso, exige uma decisão. Podemos acolhê-la ou não, mas sempre, conforme a escolha, as consequências serão diferentes. Não tem mais lugar para mentiras disfarçadas de verdades, de interesses particulares mascarados de generosidade ou boa vontade. Quem reconhece a autoridade de Jesus confia na sua palavra, a mastiga até que ela se transforme na sua própria maneira de pensar e agir. Vale para cada um e para toda a comunidade dos cristãos juntos. É o testemunho da fraternidade e da busca do bem para todos. Quem tem medo da “autoridade” de Jesus responde, ainda hoje, com as mesmas palavras do espírito mau: “ Que queres de nós, Jesus nazareno? Por que vem para nos incomodar?” Já temos a “nossa” verdade. Já temos as “nossas” estrelas que acendemos e apagamos quando queremos. Não queremos uma luz que não podemos manipular. Vamos apagar quem fala diferente, quem quer abrir os olhos e as consciências das pessoas.

Nada de novo; ainda hoje pregar o Evangelho com a palavra e com a vida pode custar caro. Mas a luz de Jesus não se apaga. A verdade e amor dele continuam brilhando.

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