Sylvya , com dois ípsilons ou estudo de caso

SYLVYA, COM DOIS ÍPSILONS ou ESTUDO DE CASO
Ruben Bemerguy

Ruben_8-150x150Nenhum amor é igual a outro amor. Cada amor ordena uma ciência própria. Por isso o amor não se decora. Só se decora a tabuada. A poesia, como amor, também não se decora. Poesia se memoriza, especialmente se as letras têm o perfume de Macapá. Aprendi isso ainda menino.

Naquela época, e mesmo despertando uma adolescência febril, eu vigiava meus amores de longe. Tinha muito medo que meus amores soubessem de meu amor. Escondido de meus amores eu era como um córrego pequeno que corria por debaixo das ruas de Macapá. Às vezes eu também era poço. Às vezes, eu também era mato.

Essa estética de vida me impunha cultivar a imaginação na imaginação. Exercitei por muito tempo muitas imaginações na casa de banho lá de casa. Meus amores nunca souberam ou saberão disso. Mas eu e meus amores ausentes produzimos sessões cinematográficas na casa de banho lá de casa.

Eu tinha, portanto, como se vê, um capítulo de vida a ser estilhaçado. Um castiçal a vela fundeado, indigente das ventanias e era essa minha parte náufraga pronta a submergir e ser dilacerada. A candura da casa de banho já era um flagelo desditoso demais para mim. Assim, exatamente assim, fadado a cilhar, em flexão deslizei nos seios da cidade lamparinando úmidos orifícios.

Dei, então, com o Palácio da Moral. O Palácio da Moral era um sobrado acanhado em que bacharéis e noviços se equivaliam. É que nesses ambientes solenes e castiços o níquel tem a capacidade da equidade, antes e depois da guerra. Desse jeito, todos mantinham honrado renome no Palácio da Moral.

Lá, tudo que se via era feito em pranchas de madeira bruta e sem nenhum tratamento e essa constatação nunca diminuiu a opulência daquela Corte de vida.

Embaixo do sobrado, um botequim. No botequim, um balcão em eloquente desasseio e nem por isso menos frequentado por cotovelos cativos e reverentes a religiosidade daquele lar. Atrás do balcão uma prateleira que acondicionava a ruma de garrafas de bebidas destiladas. No Palácio da Moral eu vi Rum, cachaça, vodka, cinzano, Martini, Macieira. Ao lado da prateleira uma geladeira para as cervejas e que, de resto, também agasalhava o Flip Guaraná, Grapette, Guarasuco e Larasuco. Isso é tudo o que ainda lembro.

Por curioso que pareça, no Palácio da Moral o Seu Artur, dono do Palácio e do Botequim, mantinha também um alguidar com chiclete Ping Pong, Ploc, Menta e Jujuba. Ali no Palácio da Moral, também se bebia o Ki-Suco de groselha.

Toda a administração e operação do Botequim do Palácio da Moral era de responsabilidade do Seu Artur. Não havia um único serviçal. Por isso era um Palácio. Palácio verdadeiro.

Me esgueirei muitas vezes ao entorno do Palácio da Moral. Queria ser voluntariamente abduzido para o interior daquela nave mãe e conhecer suas entidades extraterrestes. Um contato imediato, digamos assim, e adeus casa de banho lá de casa. Ela – a casa de banho – que se fosse para as memórias de agora.

Foi assim que armazenei toda minha confiança naquela noite. Atravessei corajosamente para o outro lado da lua. Meu bem jurídico mais bem tutelado – o castiçal – entretanto, não correspondia ao meu destemor. Senti a musculatura do meu bem jurídico mais bem tutelado se contrair tanto que parecia não acusar um único centímetro de existência. Temi muito por meu castiçal. Seria, sinceramente, uma obscenidade desaparecer do lugar onde se obrigava estar naquela noite de confiança. Se isso se concretizasse mesmo eu decidiria por fazê-lo voar aos pedaços sem recrutar nenhum de seus fragmentos.

Deitei, assim, o pé direito no Palácio da Moral. Aprendi com a vovó que entrar com o pé direito em ambientes suntuosos, onde importantes decisões serão tomadas, evita agouros. Até hoje repito escrupulosamente esse ritual quando entro, por exemplo, em um Parlamento ou na sede de um Tribunal.

Nem bem entrei no Palácio da Moral e Sylvya se aproximou de mim. “Sylvya com dois ípsilons”, ela logo se apresentou e me advertiu: “Sylvya, Sylvya com dois ípsilons”. Eu quis gritar socorro, mas era tarde demais. Toda a arquitetura de meus planos de aproximação foi por água abaixo pela só presença de Sylvya, Sylvya com dois ípisilons. Foram dias em vão aqueles em que ensaiei letra a letra um texto de sedução.

Senti o castiçal desacomodar como se redimindo tão logo fotografei o vestido branco de Sylvya com dois ípisilons. Unhas severamente vermelhas. Tez e dentes cor de leite. O contorno do rosto feito uma maçã com ossinhos malares mais agudos e olhos decididamente orientais. Não cultivei mais nenhuma dúvida: eu havia penetrado no Palácio da Moral.

Sylvya com dois ípisilons perguntou se eu poderia oferecer um drink. Palavra dela: drink. Assenti com a cabeça e uma dose de Cinzano, gelo e limão, pousou no balcão do botequim do Palácio da Moral. Sylvya com dois ípisilons me disse que Cinzano era bebida digestiva. Em pouco tempo Sylvya com dois ípisilons consumiu mais outras duas doses. Desassosseguei por meus poucos níqueis e também pelas consequências da bebida digestiva de Sylvya com dois ípisilons.

Sylvya com dois ípisilons sugeriu que subíssemos a seu quarto – se dizia quarto mesmo – que ficava nos altos do botequim do Palácio da Moral. Antes, porém, entreguei obrigatoriamente alguns níqueis a Seu Artur em troca das doses de Cinzano e pela estadia da hora no quarto de Sylvya com dois ípisilons.

Minhas pernas sacudiam meu corpo inteiro e, ainda assim, curiosamente, o castiçal içara a âncora produzindo em mim um apressado pé de vento/vela.

O quarto, pequenino mesmo, era de uma iluminação quase mulata. Eu, pálido, dava meus primeiros passos naquela espaçonave de assoalho desobscurecido por frestas de luz que disponibilizavam assistir o botequim do Palácio da Moral.

Sem nenhuma cerimônia, Sylvya com dois ípisilons me abraçou. Em vertigem, correspondi. Na multidão de nós sumiram vestes sacerdotais, seja veste cristã, seja veste judaica. O elemento pagão chamou-me à vida.

Nunca mais retornei ao Palácio da Moral. A diplomática razão de ser do Palácio da Moral estava cumprida. Desconfio até hoje que Seu Artur edificou aquele Palácio para mim. Pôs lá em assobio o Flip Guaraná, Grapette, Guarasuco, Larasuco, chiclete Ping Pong, Ploc, Menta e Jujuba só para que um dia me fosse possível contar essa história. História com três ípsilons.

  • FANTÁSTICO, GENIAL!!! Que linguagem sutil (Fico imaginando esse texto na linguagem popular) Sou fã incondicional do Ruben, sabe usar as palavras com maestria…Só me resta compartilhar esse magnifico texto!

  • Ruben Bemerguy, Dr. Ruben Bemerguy, meu quase vizinho de infância no espaço e no tempo: pelo bem de nossas letras e do deleite de seus leitores, faça um passeio nos labirintos de sua memória, descubra onde jazem e ressuscite as Sylvyas com dois ypsylons ou com dois ii, as Marias santas e nem tanto santas. Ou seja o que for. Junte com outros tantos escritos e, se ainda não publicou, publique. Valeu!

  • Meu velho amigo, cresci nas proximidades dessas plagas. E lhe digo: que sensação, essa primeira incursão! Que maestria na pena! Parabéns!

  • O Palácio da Moral, na Rua do Canal, beco das meretrizes, como descreveu o poeta Isnard Lima….a dois passos da Boate Hollywood….Olha Bemerguy, eu vou ter um problema contigo!…rsss….Genial!….

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *