O corte perfeito

O corte perfeito
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

 Certo homem foi nomeado mandarim na China, uma espécie de conselheiro. Envaidecido, pensou em mandar confeccionar roupas novas. Para isso, um amigo lhe recomendou um alfaiate que sabia dar o corte perfeito à roupa de cada cliente. Depois de tomar nota de todas as medidas necessárias para o serviço, o homem perguntou:

 – Há quanto tempo o senhor é mandarim?

 – Ora, o que tem a ver isso com a medida da minha roupa? – respondeu o mandarim.

– A informação é importante – continuou o alfaiate – porque quando o mandarim é um recém-nomeado, ele fica tão deslumbrado com o cargo que anda com o nariz empinado. Nesse caso, eu preciso fazer a parte de frente maior do que a de trás. Depois de alguns anos, ele ocupa-se cada vez mais com seu trabalho. Torna-se sensato e olha para frente para ver o que vem na sua direção. Para esse eu costuro um manto de maneira que fiquem iguais a parte de frente e a de trás. Mais tarde, o corpo dele fica encurvado pela idade e pelos trabalhos cansativos. Sem falar da humildade que adquiriu ao longo da vida. Esse é o momento de fazer a parte de trás mais longa.

O mandarim saiu da loja pensando muito nas palavras daquele sábio alfaiate.

No evangelho de domingo passado, Jesus declarava Simão Pedro “feliz”, porque o Pai o tinha ajudado na resposta à pergunta sobre a sua identidade. Em seguida, no evangelho deste domingo, Jesus diz ao mesmo apóstolo para ficar longe dele e o chama de “satanás”. O que foi que aconteceu para ele usar palavras tão pesadas? Foi só Jesus falar de sofrimento e de morte que todas as ideias, que circulavam anteriormente entre os discípulos, de um “messias” poderoso e triunfador, desmoronaram. Ainda pensavam que o “reino” do “messias” vindouro era mais ou menos semelhante aos reinos deste mundo. Com isso, Mateus quer nos dizer que não bastou proclamar Jesus Senhor, Cristo, Salvador e tudo o mais. O que importava mai s era entender como ele realizaria aquela “salvação”.

O evangelista – que escreveu anos depois dos acontecimentos –  não esconde a dificuldade dos discípulos de todos os tempos de entender as provações que estavam aguardando Jesus no seu caminho rumo a Jerusalém. Tudo, palavras, gestos e sinais davam a entender que ele era o grande esperado. Então, por que demorava tanto a instaurar o novo “reino”? Por que os anciãos, os sumos sacerdotes e os mestres da Lei o matariam em lugar de aclamá-lo rei? Justamente agora, que começavam a sonhar com poder e grandeza, Jesus foi falar de sofrimento, morte e de uma ressurreição tão inacreditável e incerta. O que tinha de errado em desejar uma vida mais cômoda e confortável? Será que tinham deixado t udo em troca de nada? Esta era e sempre será a maior e mais difícil questão que, pessoalmente e como Igreja também, qualquer um que queira ser discípulo de Jesus deve resolver.

O “tesouro” da parábola ou “a vida” da qual fala o evangelho deste domingo, não são coisas materiais e vantajosas do ponto de vista “mundano”. Jesus aponta para outras riquezas e outras alegrias. Segundo ele, esses “outros” bens valem mais do que a própria vida temporal. Essa, iremos perder com a nossa morte. Mas o “sopro” de vida divina, que está em nós, continuará junto de Deus Pai, aquele que é a Vida, mas também é o Amor, a Paz, o Bem único e mais precioso que a posse do mundo inteiro.

Quem aprendeu a não desejar alegria somente para si, mas a doar amor e vida mais digna aos irmãos desprezados, pobres, sofredores e esquecidos, experimentará, já neste mundo, um pouco da própria “vida” de Deus. Todos, sempre, teremos a tentação de estar do lado de Jesus para ter alguma vantagem imediata. Numa sociedade que exalta os ricos e os poderosos, quem se dispõe a seguir um “mestre” pobre que morreu crucificado? Ele foi um perdedor ou o único que pode nos salvar das loucuras do poder e da ganância humana, sempre causa de injustiça, exploração, escravidão, corrupção e morte?  Nem para Pedro foi fácil aprender a lição. Acreditar que a vitória d o amor de Deus passa pela derrota da cruz sempre será um dom que devemos pedir ao próprio Jesus.

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