O vulcão Susan Sontag e a lição de Machado

O vulcão Susan Sontag e a lição de Machado
Por Francisco Rohan de Lima

Generosa e terrível. Sedutora e implacável. Ao relembrar dois encontros
com a escritora, ensaísta retrata sua arte exusíaca – e mostra como o
autor de Brás Cubas deu a chave de seu melhor romance,
que explora o limiar entre a vida e a eternidade

Ainda veria a escritora norte-americana Susan Sontag, pessoalmente, uma última vez, por ocasião de sua visita ao Brasil em 1993. Ela veio ao país para o lançamento da versão brasileira do seu romance histórico O amante do vulcão, pela Companhia das Letras. A editora promoveu uma sessão de leitura com a autora no Teatro Delfin, no Humaitá, Zona Sul do Rio de Janeiro, e eu não pude deixar de ir. O teatro estava tomado por uma plateia atenta.

O romance, o melhor dos quatro que ela escreveu, aborda o período que vai do final do século XVIII ao início do século XIX. Por essa época, o grande almirante inglês Lord Nelson frequentava a baía de Nápoles interessado em Lady Emma Hamilton, esposa de Sir William Hamilton, o diplomata inglês colecionador de arte apaixonado pelo Vesúvio, que repousa ali perto. O triângulo amoroso escandalizou seu tempo. Sontag iniciara a escrita do romance em Berlim, no outono de 1989, logo em seguida ao meu encontro com ela em Nova York, no mesmo ano.

Naquele momento, o trabalho da escritora acabou sendo interrompido pelos acontecimentos. O famoso Muro veio abaixo e, com ele, não apenas metaforicamente, toda a experiência comunista na Cortina de Ferro. A gigantesca burocracia estatal soviética, que censurou, perseguiu, encarcerou e assassinou milhões de pessoas, desabou sem que fosse disparado um só tiro. E arrastou com ela colossais bibliotecas sobre a teoria econômica e política, a ponto – notem – de se proclamar então o fim da História.

O romance de Sontag conquistou o público e a crítica, que o elogiou largamente. Senão, vejamos: o jornal The Guardian o chamou de “tão grande, rico e complexo quanto esperado”. E acrescentou: “O amante do vulcão é um poderoso e intrincado romance de ideias: frequentemente impregnado com o feminismo de Sontag, a ele se aplica a lente moderna do Iluminismo moral, social, além de preocupações estéticas. É também um suave inventário do desejo: mapeamento intrincado da modulação da mania fria do colecionador à paixão do amante.

O New York Times afirmou que a decisão de Sontag em escrever um romance histórico foi “surpreendente”, assinalando ainda que O amante do vulcão, “a despeito de uns poucos cumprimentos à autoconsciência pós-modernista, é um grande livro à moda antiga. Walter Scott teria com certeza aprovado; de fato, ele provavelmente o adoraria imensamente”.3Em artigo publicado alguns dias antes, o mesmo NYT afirmara: “Sontag dotou seu romance com um ponto de vista moral e politicamente firme. Ela desmembrou a história de amor de Emma Hamilton e Lord Nelson com a história horrorosa do que aconteceu com a oposição republicana ao rei e à rainha de Nápoles; e, fazendo assim, ela colocou a alegre autoindulgência dos amantes numa perspectiva histórica (…). O amante do vulcão força o leitor a reconhecer o papel repreensível dos políticos de seu tempo.

E o jornal arremata: “Isto não implica que O amante do vulcão soe como um trabalho didático ou polêmico. A visão ideológica de Sontag, enquanto orgânica para o romance, não compromete sua habilidade ao retratar a vida interior de seus personagens com vivacidade e compaixão; não vicia sua capacidade de tratar suas histórias com energia e brio. De fato, ela alcançou a tarefa aparentemente impossível com O amante do vulcão: foi bem-sucedida em criar um romance passional e de ideias que oferece todos os prazeres à moda antiga de um romance tradicional.

O jornal The Independent também elogiou: “Em O amante do vulcão, altura e controle são animados pelo pensamento cristalino. Apesar de decantar algumas vezes pelas lentes do ensaísmo, mediante abstrações, não há separações tipo ‘caixinhas de surpresas’ entre as ruminações e a ficção, como muitos romances modernos bombásticos. Sontag enreda o leitor em seus grandes temas por meio da verdade e do seu tato na representação dos menores, mas não menos preocupantes eventos.

Benjamin Moser, que biografou Clarice Lispector, colocando-a no centro da curiosidade internacional, realizou uma tarefa ainda maior em sua esplêndida biografia de Susan Sontag, que já era, desde os anos 70, uma celebridade mundial. Aprendemos com ele, no seu Sontag, vida e obra, bem afastado de qualquer subserviência ao ícone midiático de Sontag, que ela foi uma crítica contumaz do governo de seu país; que atacou sem cessar todos os regimes totalitários, de esquerda ou de direita, que perseguiam escritores ou jornalistas; e que cobrou de seus colegas premiados e cultuados (García Márquez e José Saramago, entre outros) que fizessem o mesmo.

Nas polêmicas e nos debates públicos sobre qualquer assunto – rock, pornografia, teatro, moda, comportamento, guerra, cinema, fotografia, doença, arte, ópera, literatura, poesia e política –, Sontag exercia a sua ironia avassaladora. Venceu o câncer em duas batalhas, perdeu na terceira, em 28 de dezembro de 2004, aos 71 anos. Morreu invencível. Provou, com a morte, que algumas pessoas são insubstituíveis.

Moser nos conta que, com Vulcão (conforme ela própria resumia o título), Sontag, já tendo publicado muitos livros, finalmente se sentiu escritora, vendo seu best-seller apreciado pelo público e pela crítica, numa rara combinação de prestígio intelectual e popularidade. O biógrafo reproduz um pitoresco testemunho da escritora e scholar Terry Castle sobre o que ela chamou de prazer infantil de Sontag com o sucesso pleno do romance: “Um garçom chegou e disse: ‘Sei que a senhora é famosa, mas quem é a senhora?Ela ficou encantada com a pergunta. Respondeu: ‘Bem, eu sou Susan Sontag. Sou uma escritora, e meu livro mais recente foi um romance do qual você talvez tenha ouvido falar, chamado O amante do vulcão’. Em seguida, ela acrescentou:

Olhe aqui, vou escrever num guardanapo.’ Então escreveu seu nome, como se estivesse assinando um diário de um colegial, com O amante do vulcão também escrito no guardanapo.”

Mas, como escrevi em outro artigo, Sontag podia ser devastadora. Moser também conta que Salman Rushdie, autor de Os versos satânicos, reparou em uma festa em Nova York, na qual a escritora estava presente, que existiam duas Susans. Disse ele: “Ela era, de fato, duas Susans, a Susan Boa e a Susan Má. Enquanto a Susan Boa era brilhante, divertida, leal e bastante nobre, a Susan Má poderia ser um monstro amedrontador.

Recentemente, Peter Burke, professor de Cambridge, publicou uma obra sobre o que nomeou como polímatas, definindo-os como aqueles que se interessam por vários assuntos e apreendem muito sobre eles. Em seu livro, ele relacionou os 500 polímatas ocidentais do século XIV até hoje. Naturalmente, do seu ponto de vista. Na lista, o nome de Sontag aparece ao lado do de Freud, Copérnico, Descartes, Pascal, Newton, Vico, Voltaire, Hume, Tocqueville, Borges, Foucault, Derrida, Aron, Sartre, Bobbio, Berlin e Eco, entre outros gigantes.

Uma curiosidade: os brasileiros Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro estão na lista de polímatas de Burke. Um terceiro brasileiro citado é José Mariano da Conceição Veloso, que viveu entre 1743 e 1811, contribuiu nas áreas de história natural, química, matemática, linguística, economia e política. Veloso era primo de Tiradentes.

Pois bem, voltando a 1993, ao Rio de Janeiro e ao Teatro Delfin, Sontag fez a leitura de algumas páginas do Vulcão e, em seguida, Luiz Schwarcz, seu editor no Brasil, abriu um monte de notinhas com perguntas recolhidas da plateia. Minha pergunta foi uma das selecionadas. Fazia referência a um episódio envolvendo Umberto Eco que ela contara na entrevista que me concedera em 1989. A pergunta foi: “A senhora contou em uma entrevista que Umberto Eco lhe confessou, certa vez, que escrevia para ser imortal. E a senhora? Por que escreve?

Quando ouviu a pergunta, Susan soltou uma gargalhada junto com o público, motivada pela menção à notória vaidade intelectual do escritor italiano. Disse que a conversa com Eco ocorrera de fato, mas não se lembrava de tê-la narrado a alguém. Então explicou que escrevia porque sempre quisera fazer parte do clube das pessoas que escrevem livros, que amam a literatura. E que, além disso, ela precisava se exprimir e, quem sabe, ser lembrada na posteridade. Realmente, O vulcão foi a chave para o acesso de Sontag ao clube fechado dos escritores geniais e amados pelo público.

Nessas ocasiões em que participava de leituras ou debates públicos, Sontag mantinha uma postura recatada e muito observadora dos interlocutores, em particular, e da audiência, em geral. Mas, quando usava da palavra, não desperdiçava uma sílaba sequer. Dizia coisas surpreendentes e fazia comentários originais com uma clareza impressionante, incluindo ressalvas que impediam contra-ataques imediatos ou, ainda, reservas mentais que pudessem neutralizar a força de suas ideias.

Se afirmasse, por exemplo, que Ralph Emerson (um de seus heróis) foi um gênio absoluto do ensaísmo norte-americano, situava-o no século XIX, ou na língua em que se expressou, ou em certa temática. Com isso, o encanto radical da afirmação sustentava-se, incólume. Assim, o paradoxoentre a postura recatada e o tom de voz, mantido numa zona de conforto a qualquer ouvido, alicerçava-se no vigor da originalidade do pensamento, cujo frescor produzia a sensação única de inteligência circulando pela plateia. Tal postura de Sontag pode ser facilmente verificável em vídeos na internet.

Quanto a O amante do vulcão, de minha parte, modestamente, chamo atenção para a influência de Machado de Assis sobre Sontag, mais especificamente, de Brás Cubas, o narrador morto das Memórias póstumas. No final de O amante do vulcão, alguns dos personagens mortos, cada um por sua vez, passam, sucessivamente, a narradores póstumos das próprias histórias, exatamente como ocorre em todo o Brás Cubas. (No livro de Sontag, destaca-se uma certa Eleonora de Fonseca Pimentel, poeta, jornalista e histórica ativista do movimento republicano no reino de Nápoles, capturada, torturada e executada na forca. Seu último pedido foi uma xícara de café, e suas últimas palavras foram as de Virgílio, em Eneida: “Forsan et baecolimmeminissejuvabit”, que podemos traduzir como “Talvez um dia até isso será lembrado com alegria”).

Importante notar que apenas um ano antes de começar a escrever O amante do vulcão, Sontag havia produzido um ensaio estupendo sobre Machado de Assis e o seu Brás Cubas.11 Enfatizo o peso de Machado na escolha de Sontag pela memória e pelo depoimento além-túmulo de seus personagens, no final do romance. No ensaio sobre o gênio brasileiro, ela escreveu: “(…) por mais próximo do ponto ideal de observação a que a idade avançada possa levar o autobiógrafo, ele ainda estará escrevendo no lado errado da fronteira, além da qual uma história de vida, enfim, faz sentido… Só conheço um exemplo desse gênero fascinante… e que vem a ser Memórias póstumas de Brás Cubas.” Não consta que alguém, entre leitores e críticos em geral, tenha notado o tamanho e a importância dessa influência machadiana sobre a escritora, mas faz sentido, em minha opinião.

No teatro, quando chegou a minha vez na longa fila de pedidos de autógrafos, de pé e em frente à mesa em que ela estava, eu lhe disse que a havia entrevistado em sua casa em Nova York, no verão de 1989, e que a história sobre Umberto Eco ela contara a mim. Ela então ergueu lentamente os olhos, abriu um sorriso encantador, balançando a cabeça em reconhecimento, e disse: “Agora lembrei.” E acrescentou, ainda sorrindo: “Quase brigamos, não foi?” Era a Susan Boa, amável, acolhedora, agradável, com o seu melhor sorriso sedutor. Guardo até hoje essa imagem indelével.

Anos mais tarde, com a sua morte, fechou-se o ciclo. E Susan Sontag parece ter cumprido a sentença de Elias Canetti, ao definir que o escritor moderno é original, sintetiza e questiona a sua época. Em sua jornada neste mundo,

Susan pareceu mesmo precisar estar mesmo diante da dor dos outros: corajosa, ela estava em Cuba quando a Revolução começou; esteve sob bombardeio, em Hanói, e em Israel, durante a guerra do Yon Kippur; viu a queda do Muro de Berlim e a das Torres Gêmeas, em Manhattan; trabalhou em Saravejo, sob morteiros e fuzis. Mas, “a coragem”, disse ela, “é moralmente uma virtude neutra.

Ernest Hemingway, também correspondente de guerra e membro daquele clube fechado, teria amado essa colega inspirada e sem medo – nem de tiros nem dos homens. E, quanto aos homens, ela “não tinha sequer a noção de que devia temê-los”, como notou seu biógrafo. Aqui, porém, discordo de Moser. Afinal, o último parágrafo de O amante do vulcão mostra que a própria Sontag afirmou o contrário, embora os tenha mandado se danar, conforme se pode ler nas últimas palavras do livro, enunciadas pela personagem Eleonora Pimentel, a ativista do século XIX.

Com essas palavras finais, a personagem promove uma inversão genial, ao se referir à própria autora do livro, Susan Sontag, que, por sua vez, se esconde na personagem: “Às vezes eu tinha de esquecer que eu era mulher para realizar o melhor de que eu era capaz. Ou então mentia para mim mesma sobre como é complicado ser mulher. Assim fazem todas as mulheres, inclusive a autora deste livro. Mas não posso perdoar aqueles que não se importavam mais do que com a própria glória ou o bem-estar. Pensavam que eram civilizados. Eram desprezíveis. Danem-se eles todos.” Fodam-se, em bom inglês.

Quando o mundo enfrenta uma pandemia atroz e devastadora, sente-se de imediato a ausência de Susan Sontag na trincheira da Humanidade. Seu pensamento, todavia, está presente. Seus ensaios sobre a dor e as doenças, e suas metáforas, nunca foram tão citados como referência e pensamento vivo, pulsante. Mesmo sendo megacelebridade nos EUA, desejou que seu corpo repousasse no cemitério de Montparnasse, em Paris, ao lado de Charles Baudelaire, Samuel Beckett, Julio Cortázar, Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, membros ilustres daquele clube fechado ao qual ela, desde criança, quando lia enciclopédias e conversava com Thomas Mann, sempre almejou pertencer.

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