Semana Álvaro da Cunha

Nesta segunda-feira, 5 de agosto, meu calendário cultural marca os 90 anos de nascimento de Álvaro da Cunha – um dos maiores poetas da região norte. Nascido em Belém do Pará, aos 23 anos veio para o Amapá onde desempenhou cargos e funções de relevo na administração, fundou revistas literárias, desenvolveu grandes projetos nas áreas econômica e cultural. Sofreu perseguições após ter lançado o livro “Quem explorou quem no contrato do manganês” e teve  que deixar o Amapá. Morreu no Rio de Janeiro em 1995. Mas está vivo, muito vivo, na alma e no coração daqueles que conhecem, amam e valorizam a literatura amapaense.
Tenho belas lembranças desse poeta que frequentava muito nossa casa. Era padrinho de batismo do meu irmão Alcione. Nossa família guarda, com muito cuidado e carinho, fotos, artigos e poemas dele e cartas trocadas entre ele e meu pai Alcy Araújo.
Esta é a “Semana Álvaro da Cunha” aqui no blog. Todos os dias publicarei alguma coisa dele ou sobre ele. E você, querido leitor, pode contribuir enviando fotos, textos, comentários, recortes de jornais etc dele ou sobre ele.

Começo postando  esse texto que escrevi e publiquei em 2008: 

Álvaro da Cunha – Um poeta a serviço do Amapá

 
“Tu sabes que onde eu for
Amapá
irá o amor
amor que a tua paisagem
de sonho acenderá
no mais profundo
e lírico sial
de que sou feito e contrafeito.
Meu olho oral
vê e fala do teu ar
do teu céu
do teu mar
das tuas florestas.”

Esta declaração de amor ao Amapá é parte do poema “Amapacanto” de Álvaro da Cunha, poeta que carregava na alma a paisagem amapaense.

Nascido em 5 de agosto de 1923 em Belém do Pará, o poeta veio para o Amapá com 23 anos de idade, onde desempenhou cargos e funções de relevo na administração, como a presidência da Companhia de Eletricidade do Amapá. Fundou e colaborou com várias revistas literárias, como a Rumo, Mensagem e Latitude Zero.
Faz parte da primeira geração de poetas do Território Federal do Amapá, ao lado de Alcy Araújo, Ivo Torres, Aluísio Cunha e Arthur Nery Marinho. Estes cinco movimentaram o setor cultural amapaense, fundando revistas, criando clubes de artes e editoras, promovendo noites lítero-musicais e cursos de teatro e artes plásticas.
Sobre Álvaro, Alcy dizia que era “ um poeta a serviço do Amapá”. Estudioso dos problemas da região, escreveu a mais importante obra sobre a exploração do manganês:  “Quem explorou quem no contrato do manganês”. Por causa desse livro sofreu perseguições, inclusive do governo federal, e teve que deixar o Amapá e se estabelecer no Rio de Janeiro, onde atuou no setor privado como técnico e diretor de escritórios de consultoria especializados em planejamento econômico.
Foi embora mas não perdeu os laços com esta terra onde, segundo ele, em vez de criar poemas “recolhia-os já feitos na paisagem”.
Alcy Araújo dizia que Álvaro nunca se liberou do sol da Latitude Zero. “Álvaro não desassumiu também sua deslumbrada e aberta responsabilidade de usuário, de amante e intérprete do verde incomum da Latitude Zero”, disse Alcy no prefácio do livro Amapacanto, considerado um atlas poético dessa região. “O Amapacanto, lançado em 1989, é uma verdadeira exaltação ao Amapá”, afirma o presidente da Associação Amapaense de Escritores, Paulo Tarso.

Além de “Amapacanto” e de “Quem explorou quem no contrato de manganês, Álvaro lançou também “Pássaros de Chumbo”, em 1961 no Rio de Janeiro.
Há centenas de poemas seus publicados em jornais e revistas do Amapá, Pará e Rio de Janeiro, que deveriam ser organizados numa rica antologia para que a nova e as futuras gerações possam conhecer um dos maiores poetas modernistas da região Norte.
Álvaro Cândido Botelho da Cunha morreu no Rio de Janeiro em 22 de fevereiro de 1995.
“A gente se perdeu
Amapá e eu há muitos anos.
logo nós dois
tão semelhantes e afins
que parecíamos drágeas da mesma vagem
múltiplos mútuos
grãos germinados gêmeos um do outro”
MISERERE
(Do livro “Amapacanto”)
A mulher operária tinha o ventre achatado pelo peso da fome. Levantei-lhe a cabeça, perguntei o seu nome e a sineta soou. Era a hora do almoço. A mulher abaixou-se, sacudiu o menino, o menino acordou. A mulher operária tinha o ventre achatado pelo peso da fome. Cuspiu sobre os seios – eram uns seios sem leite – e a criança mamou.
– Tomei nota em meu livro, e alguém protestou.
Outra vez fui às docas. Conversei com Maria, na “Pensão da Estiva, e Maria explicou:
O meu homem me obriga a trabalhar para ele. Chega tonto de sono, e eu tonta de amor. Nos seus lábios tem éter, licor, ambrosia, mas os beijos que trazem são beijos cansados, desses beijos pesados, de amargo sabor.
– Registrei em meu livro, e alguém protestou.
A menina passava. A roupinha de trapos, a carinha mirrada, o corpinho franzino. Dei-lhe um copo com água, pus-lhe as mãos no cabelo, e a criança chorou.
– Mencionei no meu livro, e alguém protestou.
No irmão da menina, os dois olhos abertos eram duas estrelas que a lama ofuscou. Ele estava tão sujo, e olhava o meu terno com tanto interesse, que o embrulho de peixe escorreu-lhe das mãos e ele nem reparou.
Recuei assustado; encerrei o meu livro e joguei-o nas águas, mas o livro boiou. Apanhei-o com nojo. Rasguei-o em pedaços. E a angústia passou.
– Para que registrar as misérias da vida?
– Para que registrar? … minha voz repetia
e ninguém protestou.
  • Ola Alcinea,bom dia!…
    Obrigado pelas significativo textos de seu Blog sobre a semana do Poeta Álvaro Cunha…estive ontem na Biblioteca pública de Macapá,e estou interessado em saber um pouco dos poetas e escritores..penso que por estar pouco tempo em Macapá,preciso informações sobre a natureza do macapaense e do Amapá,acredito que os artistas,escritores e poetas…possa me apresentar muitos aspectos relevantes sobre a alma do Amapá e de Macapá….depois verei o que fazer com estas anotações…pois gosto de escrever na minha página do meu perfil do Facebook.
    Obrigado e bom dia!

  • Alcinéa,
    Segue um poema de 1994 que não sei se você conhece.
    Beijos e obrigada pela belíssima inciativa.

    Soneto

    No meio em que vivemos, diariamente,
    sem mesmo suspeitarmos , nem de leve,
    há uma força que move e que escreve
    em cada peito um drama diferente.

    A alma do homem, iniludivelmente,
    recalca o sonho a que não se atreve
    -o que se deve fazer, ou não se deve
    : eis a moral sumária do ambiente.

    Mas um dia, por muito que façamos
    e o bom senso prudência nos sugira,
    surge um instante fatal: nos revelamos,
    aprendendo por fim, com a humanidade,
    que é melhor ser feliz pela mentira
    do que ter de sofrer pela verdade.

    Álvaro da Cunha

  • “A mulher operária tinha o ventre achatado pelo peso da fome”. Este trecho não corresponde á realidade, exceto se essa operária não for pobre. Nessa “república das bolsas” em que vivemos, o que se mais se vê é exatamente o oposto: mulheres com o ventre convexo.

  • Alcinéa,

    o resgate do Álvaro da Cunha
    é o imperativo de atender a sua vontade exposta no poema

    DOS TEMPOS:

    ” é inútil
    reclamar
    do algoz
    o sangue indébito

    mas cabe
    justiçar a vítima

    a vítima
    ao menos
    deve ser
    legítima”

    Allcinéa,
    Vamos, sim, materializar esse apelo do poeta.

    José Maria

  • Belíssima iniciativa. Tive o privilégio de conhecer e conviver com o poeta Álvaro Cunha através de minha amizade com sua filha Hiléia, logo estendida à toda a família. Os almoços de domingo regados à poesia estarão sempre na minha memória. Evoé, Dom Álvaro! De onde esteja, receba esta justíssima homenagem.

  • Sou filho do José Maria Botelho da Cunha, irmão do Álvaro. E este, era meu padrinho.
    Meu pai está trabalhando nessa coletânea do grande poeta há alguns anos. Grande abraço.

    • A percepção do Àlvaro sobre o comportamento humano era muito contundente. A imagem do homem apaixonado por uma mulher inacessível e indiferente aos seus silenciosos apelos, está
      muito bem retratado no verso em que confessa: “…com a mesma ansiedade do nordestino
      olhando o céu de chumbo
      e o gado morrendo nos pastos calcinados,
      assim, espero de teus lábios,
      que vivem derramando chuvas de sorrisos
      em campos alagados,
      e que refresquem esse olhos tresnoitados
      que andam te seguido à toda parte
      com um nervosíssimo de desesperados.
      Tenho todo o teu corpo sem nada suspeitares.
      Tenho o teu sorriso,
      a tua voz,
      os teus menores traços.
      Mas, na tua indiferença
      nem percebes que amo a tua presença
      e que na ternura de meus olhos quando chegas
      vai todo desespero de meus braços…

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