Uma história de superação, força de vontade, criatividade e cidadania

Onze anos atrás, dona Rosalina Santos e seu esposo, Cledson Saldanha, saíram de Santa Isabel do Pará, com os quatro filhos, rumo ao Amapá, para tentar uma vida melhor. Por quase dois anos moraram no lixão do município de Santana, se alimentavam com o que catavam, e hoje, após a determinação de mudar a realidade e muito trabalho, se tornaram empreendedores, e na fábrica no quintal da casa, criaram equipamentos e transformam garrafas pet em vassouras, reaproveitando o plástico que comumente é jogando em ruas, e nesta época, são grandes responsáveis por alagamentos e poluição em muitas cidades.

A família foi visitada nesta quarta-feira, 16, pela equipe técnica do Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente (CAOP/AMB) que dá suporte à Promotoria de Defesa do Meio Ambiente de Macapá e demais promotorias dos municípios, que puderam acompanhar a história de vida da família, ao buscar iniciativas populares de beneficiamento de descartáveis, que ajudam a melhorar o meio ambiente e a qualidade de vida da humanidade. O incentivo à reciclagem de lixo e a redução de uso de objetos plásticos no cotidiano é um dos projetos que o Ministério Público do Amapá (MP-AP) abraça a partir de 2019.

Reciclar, trabalhar, criar
Para dona Rosa, sair do lixão para uma casa no bairro Jardim de Deus é mais que uma vitória, é a prova da capacidade de superação de uma família, e que ela conta com orgulho e sem resquícios de fragilidade ou tristeza. Ao chegar em Santana, sem nenhuma expectativa, a família foi morar embaixo de uma lona no lixão, com mais 7 famílias na mesma situação. “Comíamos o que era despejado na lixeira, peixes, frutas, restos de lanche, e graças a Deus estamos aqui. Depois cheguei a trabalhar como empregada doméstica, mas nunca desistimos do sonho de montar um pequeno negócio familiar”.

Após cerca de dois anos morando no lixão, eles tiveram que sair, e foram para a invasão mais próxima, até que um programa da Prefeitura ofereceu curso de reciclagem de lixo para os catadores, e a família de dona Rosa foi a única que aproveitou a oportunidade, que os encorajou a colocar em prática a ideia do reaproveitamento de garrafas pet. À experiência como catadores de lixo, aliaram os sonhos, e começaram com um pequeno equipamento totalmente manual, que tomava tempo e exigia muito esforço físico. Foi quando a necessidade de inventar objetos com o que era encontrado no lixão e a criatividade nata entrou em cena, e seu Cledson  e  toda família inventaram  o maquinário para agilizar a produção com o dinheiro de um pequeno empréstimo.

A maior parte da fábrica é feita com material reutilizado. Um motor de máquina de lavar, correia, ferros encontrado no lixo, bobina de fios elétricos, madeira, lâmina, pedaços de sandálias de borracha, e outros objetos que muitas vezes são dispensados como lixo, se transformaram nos equipamentos que hoje produzem 20 dúzias de vassouras recicladas por dia, evitando que sejam despejadas no lixo, 25 mil garrafas por semana.  O maior problema enfrentado pela família é a falta de matéria-prima, o que faz com que  a produção reduza ou até pare por dias. Dona Rosa conta que procuraram diversos órgãos públicos e empresas, em busca de apoio e parceria, mas poucos deram retorno, a exemplo da fábrica de envasamento de refrigerante que funciona em Santana, que doa para a família as garrafas que não são utilizadas.

“Recebemos as doações da fábrica, mas ainda assim temos que sair para catar garrafas e refugo de madeira nas ruas, que são utilizados na fabricação das vassouras. Bati em muitas portas de gabinetes e escritórios, mas a resposta quase sempre é não, o que inviabiliza a produção contínua. Chegamos a ter 18 funcionários, mas tive que dispensar justamente porque tem tempo que ficamos sem garrafas”, disse a empreendedora, que não desiste do sonho de trabalhar só com mulheres e construir um galpão ao lado da casa para a fábrica, que hoje funciona em um pequeno cômodo nos fundos da residência.

Nestes 8 anos de atuação da empresa familiar, onde trabalham os pais e os quatro filhos, conseguiram comprar o terreno onde moram, construir a casa, e os anos de fome e frio ficaram para trás. “Nunca desistimos do desejo de uma empresa onde todos nós trabalhássemos, e hoje temos uma casa  sem luxo, mas é aconchegante e nossa. Continuamos a catar no lixo, é um trabalho digno e ainda ajudamos a preservar o meio ambiente tirando lixo das ruas, mas não temos vergonha”, conta dona Rosa, que tem 44 anos e estudou até a 6ª série. “Meu marido continua a trabalhar aqui, mas  faz outros serviços por fora, porém o que nos sustenta é a fábrica”.

Seu Cledson tem 39 anos e chegou a concluir a 7ª série, futuro que eles não querem para os filhos Aran Afonso, 27, João Vítor, 22, Adriacaline, 18, e Henrique, 15. Apenas Aran parou os estudos ao concluir o segundo grau, Vítor estuda Rede de Computadores e os menores estão nas séries corretas para a idade. A demora para que o mercado aceitasse as vassouras de plástico reciclado é lembrado como superação, e atualmente os mesmos que olhavam com dúvidas o produto, hoje o revendem com sucesso.

Cada vassoura é confeccionada com 15 a 25 garrafas e duram anos, dependendo dos cuidados, tirando de circulação as garrafas pet, que levam até 400 anos para se decompor. As ações de reciclagem da família Saldanha não termina com a finalização da vassoura, e as extremidades, que não aproveitadas, são encaminhadas para fábricas de roupas, principalmente uniformes, e as tampas são vendidas para empreendimentos náuticos, que as utilizam para ajudar na flutuação de embarcações.

“Estas iniciativas precisam ser incentivadas, e o MP-AP está buscando estes pequenos empreendedores para que se encaixem nos projetos de incentivo da reciclagem, para que a gente consiga reduzir a quantidade de plástico descartado no planeta. Esta família é um exemplo de que podemos fazer nossa parte em casa e na sociedade. O MP-AP, assim como a maioria dos órgãos públicos, utiliza centenas de garrafas de água mineral, que na maioria das vezes são descartadas irregularmente, quando poderiam ser doadas para quem as reutiliza e ainda contribui para uma vida saudável. Este é apenas uma das propostas de ações sociais em favor do meio ambiente, que além do nosso trabalho cotidiano, estamos encampando a partir deste ano”, disse a promotora de Meio Ambiente, Ivana Cei, também coordenadora do CAOP/AMB.

(Texto e foto: Mariléia Maciel)

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