De como o açaí deixou de ser veneno

De como o açaí deixou de ser veneno

Antonio Juraci Siqueira*

Das muitas histórias do arco da velha que ouvi quando criança, no Cajari, gosto desta, contada pelo tio Tavino, marido de uma irmã de minha mãe, que explica por que o açaí não faz mal a ninguém. Nem mesmo quando tomado azedo, de um dia pro outro, sem nenhum processo de conservação.

Tio Tavino afirmava, do alto de sua sabedoria cabocla, que o açaí “não era veneno por um grau” (Até hoje fico matutando no tipo de aparelho usado para medir o grau que separava o açaí do veneno). E explicava:
– No tempo em que Nosso Senhor Jesus Cristo andava pelo mundo, passando um dia, em companhia de São Pedro, por baixo de um açaizeiro, encontrou vários caroços espalhados pelo chão. Curioso, apanhou um caroço e roeu. Em seguida, cativado pelo sabor peculiar do fruto, resolveu abençoá-lo para que todos pudessem desfrutar de suas nutritivas qualidades. E foi assim, segundo o tio Tavino, que a partir daquele momento o açaí velho de guerra deixou de ser veneno.
Em minha infância de menino do interior, eu acreditava em tudo o que os mais velhos contavam. E ficava imaginando Nosso Senhor Jesus Cristo, com sua longa túnica branca e pés descalços, andando pelas matas do Cajari sempre acompanhado do seu amigo Pedro. E era como se estivesse vendo o momento da bênção: O Divino Mestre agachado e proferindo as santas palavras com os lábios roxos de açaí…
E que assim seja para sempre. Amém!
*Antonio Juraci Siqueira é professor universitário, poeta e escritor, autor de dezenas de livros.

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