O caos na saúde – Leia o desabafo da enfermeira

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Ediane Andrade

Desabafo de uma mulher cidadã que cuida de outras mulheres cidadãs 
Ediane Andrade

Compartilho 2 sentimentos que neste momento ocupam meu coração: Tristeza e Decepção.
Nas últimas 2 semanas estamos tendo um pico excessivo de lotação hospitalar na maternidade onde trabalho, Lembrando que isso já é vivido por muitos anos, mas nessas 2 semanas está pior.
A minha saúde mental e dos meus colegas de trabalho está no limite, quem sabe até já existam trabalhadores com problemas emocionais e por falta de cuidado com a saúde do trabalhador não se tenha dados reais.
Estamos atendendo no pré parto o triplo da capacidade de usuárias por leito, estamos juntando 4 pessoas num leito (2 mulheres e 2 bebês ) e mais pessoas sem condições de permanência pois acompanham as usuárias e não possuem uma cadeira para sentar e nem um banheiro para usar. O cenário é arrasador. E o pior, eu ter que ir pedir para dividirem leito para poder garantir para outra mulher que tenha ao menos uma cama para parir enquanto a outra gestante aguarda numa cadeira ao lado.
Estamos sem material estéril para usar porque a rede hospitalar pública não está oferecendo o quantitativo adequado para a demanda, estamos ficando sem lençol para cobrir leitos na madrugada, estamos mantendo pós operadas em macas e mesa cirúrgica por falta de sala de recuperação anestésica e leitos no pós operatório. No local dos partos e nascimento temos um cenário frio, hostil, onde ainda perdura diferentes condutas, onde podemos ter um parto tranquilo, mas tbm podemos ter um parto frustrante com um profissional subindo na barriga da mulher a outro tocando sua vagina como se estivesse lavando uma panela.
O outro hospital que atende o SUS manda paciente com síndrome hipertensiva para operar na minha maternidade pois lá não tem anestesista de madrugada. E isso pode? Mesmo que eu diga que não tem material, não tem leito, de nada adianta, a maternidade por ser pública tem que assumir tudo.
As mulheres estão expostas a tantas violências, desrespeitos e muitas vezes vindo de outras mulheres que já perderam sua sensibilidade por conviver com essa situação caotica. Estamos brigando entre nós, profissionais, gestantes e acompanhantes, estamos perdendo a noção do adequado e o improvisado passou a ser regra.
Queria que todos os deputados, vereadores, prefeito e governador visitassem a minha maternidade, mas que fosse acompanhado por um de nós plantonistas que vive na pele todos os dias o DESCASO com a saúde de mulheres e profissionais, para ouvir de nós e delas o que realmente ocorre nos bastidores.
Queria que os homens com mandato lembrassem de suas mães na hora de prometer uma outra maternidade, parece que eles nem se quer conhecem o que funciona lá.
Ninguém nesse mundo sendo humano, foi chocado ou nasceu de um ovo, todos nós nascemos de uma mulher. E POR QUE CONTINUAMOS TRATANDO AS COISAS DE MULHERES DE FORMA DESRESPEITOSA?
Saimos eu e os outros colegas do plantão com a sensação de derrota. Isso mesmo, estamos nos tornando DERROTADOS naquilo que a Constituição Federal falou que era Direito do povo e Dever do Estado (a saude) estamos longe de ter o que merecemos. Onde está o recurso do executivo para a saúde? Uso fios grossos E agulhas grandes para costurar a pele de mulheres ao invés de fios finos com agulha pequena. Não tenho um leite quente para oferecer para elas depois do parto nas longas madrugadas no CPN.
E aí eu pergunto: Onde está o Ministério Público do Estado que não vê que e impossível uma maternidade de referência não ter uma autoclave? Não ter leito para as mulheres com seus filhos (que são incapazes) e já nascem expostos a infecção cruzada? Que pela falta de condições de trabalho pode levar um profissional a gerar dano ao usuário pela sobrecarga de trabalho e falta de material? E os deputados? Que no momento só se preocupam com a presidência da Assembleia e em quem vai derrubar o oponente do governo? E a associação de mulheres? E os sindicatos e conselhos de classe das categorias que estão nessa FAIXA DE GAZA amapaense?
E a imprensa que só publica os problemas mas não cobra de fato uma mudança?
Enfim, estou cansada, preciso descansar pois estarei a noite novamente convivendo com o horror. Onde deveriamos ter e oferecer um ambiente seguro e tranquilo, temos um local cheio de equivocos e desrespeitos. Falando em horror ainda nos é pago e com atraso 100 e 150 reais para técnicos e enfermeiros passarem 12h por esse processo todo porque ainda não temos reconhecido e efetivado o plano de cargos e salários, porque assumimos a carga horária de noturnos e finais de semana pois o governo não paga plantões para a Enfermagem.
Lembrando que em 2013 fui até a ALAP enquanto ABENFO pedir uma audiência pública para discutir o parto e nascimento e as condições de trabalho no HMML pois já me desgastava as milhares de difamações sobre o nosso trabalho. É difícil ser hostilizado publicamente como um trabalho desumano e porco qdo nem se quer somos ouvidos.
Vamos ver o que ocorrerá hoje, ou quantas críticas e retaliações receberei por expor 1/3 do que vivemos. O que ja vem acontecendo por perseguição política!

*Ediane Andrade é enfermeira obstetra

  • Onde está uma certa autoridade que faz parte do MP e foi Secretário de Saúde deste DesGoverno pra fazer a devida denúncia, enquanto houver esse repasse absurdo de MILHÕES para apenas 24 Deputados Estaduais que deveriam está fiscalizando o executivo esse sim é o papel deles, a SAÚDE sempre estará na UTI, aliás no corredor, triste realidade no Amapá.

  • Francamente amiga. Deveria ser assim, com franqueza a vida pública. Mas não é. Estamos largados a própria sorte. Sem ninguém que se manifeste ao nosso favor.

  • Quero saber quando a sesa vai se posicionar junto A nós. Quero saber quando vão pagar nossa insalubridade adequada para a nossa exposição?
    Nossa gratificação e aperfeiçoamento?
    Vivemos expostos a tantas coisas e eles nos tratam como lixo.

    • Só Deus mesmo para ficar o coração do governador e fazer ele acordar para avaliar a gestão da Sesa que está equivocada.

  • Eu me coloco no lugar desta Enfermeira e imagino a sensação de frustração em querer exercer sua função com dignidade, mas essa vontade é interrompida por tanto descaso destes políticos corruptos que só pensam em si.
    Eu me recordo que fui internada nesta maternidade para a realização do meu parto e eu fui obrigada a compartilhar um único leito com quatro mulheres grávidas, sendo que o correto é nós ficarmos esperando a hora do Nascimento do filho deitada, mas nós ficamos as quatro sentadas.
    Se eu fosse relatar o tratamento desumano que sofri e vivenciei lá, teria que escrever um livro.
    É extremamente desesperador saber que tudo isso acontece e ninguém faz nada para resolver.

    • Precisamos buscar forças para reagir. Hoje o poste está urinando no cachorro. Pessoas me ligam a estão me aconselhando a ter “cuidado” com as retaliações. Como pode?

    • Hoje a sua experiência e discuta no seu grupo ganhar e de amigos, reflita, busque votar melhor. Eu vou fazer o mesmo, ou pelo menos tentar.

      • O tarefa difícil Ediane! A gente mudar o pensamento das pessoas em relação à suas escolhas é complicado. Muitas se vende por uma carrada de terra, um saco de cimento ou uma cesta básica. Os políticos já se acostumaram com isso, tanto é que eles dizem: “só ganha quem tem dinheiro!”
        Bom eu nunca vendi meu voto, mas sinceramente torço muito para que essa realidade das pessoas venderem seu voto mude.

  • Realmente o que a colega colocou não é de hj, mas essa tendência é piorar. Seus comentários mostram a necessidade de mais profissionais como você, criticos e compromissados com o atendimento da mulher no momento do parto. Parabéns. José. Natanael. Enfermeiro

    • Precisamos dar as mãos ecreconhecer onde erramos. Corrigir urgentemente o que depende de nós. A tendência é piorar. Mas o que mais me envergonha é ver as autoridades caladas.

    • Você é um deles amigo Natanael, não somente pelo lado profissional mas pelo ético e cristão. Nos ajude, de boa as nossas lástimas.

  • Ediane, você não tem que ser criticada, e sim, apoiada pela coragem em expor a situação que muitos conhecem, mas tem medo de admitir e de divulgar, a respeito das péssimas condições que a Maternidade oferece. O poder público precisa desse tapa na cara e a população também precisa saber o que realmente acontece ali e que o dinheiro que paga com impostos e mais impostos não está sendo aplicado na saúde!

    Sou da produção do Programa Meio Dia e gostaria muito de sua ajuda para denunciarmos este caos na televisão, através de uma matéria. Se você puder e se interessar, estou à disposição.

    Aguardo seu contato por e-mail.

    • Querida estamos vivendo em miséria estrutural e emocional. Qdo visitei o prédio da justiça Federal, sai de lá deprimida por ver tanta beleza para praticamente ninguém vislumbrar.
      Nos hospitais lidamos com estrutura precária, mas se vc for buscar o orçamento destinado para a execução das áreas fundamentais vc vai ficar deprimida tbm.

  • Concordo e compartilho em todos os graus do mesmo sentimento q nos decepcionam a cada dia vivido num ambiente deste. E sim ele existe.

    • Estamos adoecendo e os governantes não percebem que se não investem no trabalhador podemos adoecer e assim nos tornamosais caros para o estado.
      Estamos sendo lesados em nossa saúde e dignidade.

  • Ler esse texto e não se sentir tocada e impotente, é praticamente impossível. E apesar de não trabalharmos nessa área e de nossas demandas no Estado não chegarem a ser “urgentes e emergentes”, a situação vivenciada em outras áreas no Estado não é diferente. Hoje chegamos ao absurdo de vivermos num cenário onde os próprios Gestores desistiram de cumprir os seus objetivos, e afirmam em alto bom som “Não tem jeito, não temos o que fazer”… Pois bem, se não há algo a ser feito, então vamos colocar todos os cargos comissionados do Estado à disposição, nós servidores públicos efetivos, vamos pedir demissão, já que não existe sentindo e necessidade a pessoa levantar todos os dias pra fingir que está resolvendo os problemas da administração pública, se ela mesmo não acredita que há uma solução.

    O dia que deixarmos de acreditar que os problemas existentes na nossa cidade, no nosso Estado, não tem mais solução, considero que talvez seja hora de irmos embora, adotarmos um outro lugar para vivermos.

    Que não nos deixemos contagiar pelo discurso da crise e do “não tem mais jeito”, pois enquanto houver esperança, temos que lutar para mudar esse estado desproteção e não garantia dos direitos dos cidadãos.

    • Gostaria muito de ver que atitude o MPE e a ALAP vão tomar para nos ajudar. Ontem faleceu um bebê grave que ficou sendo ventilado manualmente pelas neonatologistas e enfermeiras por não ter respirador. Vc imagina o que é ficar 4h ambuzando um ser aguardando equipamento que o mantenha vivo?
      E o que a justiça fará?

  • Sou trabalhadora da saude desde 1982 comecei. na maternidade mae Luzia e nos faziamosem media 28 partos nao tinha leito suficiente era obrigado colocarmos2 maes e 2 bebes.Imagina agora sei o quanto todos os trabalhadores da saude sofre com esse descaso de nossos governantes que nao fazem nada precisamos fazer um corrente do bem pra combater essa pouca vergonha que esta acontecendo fortalecer o nosso sindicato pensar muito bem quem vamos eleger como politico inserir enfermeiros e tecnic oo s na politica quem sabe possa melhorar .sou solidario com a nossa clase.

  • Enfermeira Ediane comungo com seu desabafo e sei que tudo que você escreveu é uma realidade. Trabalho na docência onde tenho que acompanhar acadêmicos para demonstrar conhecimento e assistência humanizada a essas mulheres em seu melhor momento na vida e, quando chegamos nesse local de deposito humano, desculpe a expressão, pois jamais gostaria de me reportar a esse hospital dessa forma, mas, é como se encontra hoje esse local, nos deparamos com o descaso das autoridades públicas do Estado. Mas enfermeira, coragem para continuar lutando e nunca calar. Saúde mental para todos nós enfermeiros e demais profissionais

    • Se fossemos ter uma avaliação psicológica e mental creio que vários trabalhadores iriam estar com desvios comportentais. Quem sabe paasando pela sindrome de BURNOUT ou ate mesmo com um estagio mais agravado.
      Vivemos sem estilos, apenas com cobranças das responsabilidades.
      Será que vale apena viver nessas condições? Subjugados?
      Sem saúde mental adequada nunca produziremos o adequado.

  • Triste realidade contada por alguém que vive na pele o que é tentar tornar um momento que é único na vida de uma mulher mas que o sistema desestruturado não permite e muitas vezes se torna traumático. Vamos ver se falando as claras e com todas as letras, aqueles que elegemos para nos representar, nos represente de fato. A Enfermagem e a maternidade precisam ser valorizadas. População, de nada adianta ficar reclamado do atendimento ou que nao tem isso ou aquilo, precisamos cobrar daqueles que foram eleitos pra providenciar melhorias na saúde. ACORDA AMAPÁ!!

    • Precisamos entender que não cairá do céu um libertador. Que não está Brasília a salvação de nossos problemas.
      Nós temos força pra mudar isso. Depende de cada um. Devemos aprender a cobrar dos governantes o que nos foi prometido. Devemos exigir que eles demoram quem não está cumprindo suas obrigações.
      Queria muito olhar para o governador e conversar com ele 1h. Para falar pra ela como estamos sendo tratados e como estamos tratando as pessoas.
      Queria saber o que o faz jantar pessoas que não possuem uma receita positiva em cargo a tão sérios.
      Juro que não entendo.

      Mas Elisabete vamos cutucar nossos amigos e familiares nas próximas eleições.

  • Que absurdo Ediane, estamos totalmente do seu lado e apoio de repúdio a tal situação. Dessa forma quem vai precisar de tratamento são vcs os profissionais por trabalharem de forma insalubre e desrespeitosa. As usuárias, bebês e acompanhantes sendo violentados de forma Obstétrica e institucional. Tem que denunciar mesmo. Estamos com vc em prol de uma melhor qualidade de vida à população Amapaense, tendo em vista tb que este caos está acontecendo em todo o Brasil, esta a verdade.

    • Rejane hoje falei com 2 pessoas que é mesma forma pediram pra eu ter cuidado e 1 pessoa falou que estão querendo me retalhar no alto escalão da Seda, não sei se é verdade, mas se for, tenho certeza que essas pessoas são um equívoco na função pública. Que deveriam passar 24h vivendo junto a população e trabalhadores o descaso nos hospitais e nas ubs que não conseguem oferecer o que o povo precisa e tem direito.
      Ouvi por acaso de uma advogada que trabalha na sesa o seguinte: ” compramos respiradores, e esse povo vai e liga o aparelho numa tomada e 210, e danifica o aparelho, chegou a fumaçar, eles são responsáveis e assim vai continuar morrendo gente, eles precisam aprender a mexer com esses equipamentos”. Eu olhei pra ela e falei: senhora quem está na emergência não vai procurar saber se a tomada é a carta ou não. Deveria ter uma equipe de manutenção que tratasse disso, principalmente qdo se muda de local e vai para um improvisado como está agora a unidade neo.
      Oras pra aí está nos gabinetes, que não tem noção do que vivemos, é fac culpar. Fiquei horrorizada de ouvir isso.

  • Compartilho com o desabafo da colega .. Tb sou Enfermeira Obstetra e trabalho na maternidade. . a situação realmente está insustentável. . precisamos que alguem ouça nosso grito … Vivemos momentos de terror em nosso local da trabalho … Um local que deveria ser saudavel … Descontraído … Enfim … Precisamos urgente mudar esse cenário. . SOCOOOOOORROOOOOO

    • Além de alguns membros da imprensa, ninguém com responsabilidade sobre nós se manifestou. Absurdo. Governo, gestores, agentes públicos estão lá para nos representar e não Nos tolos ou nos massacrar.

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