O investidor estrangeiro resolveu fazer as malas?

O investidor estrangeiro resolveu fazer as malas?
Leandro Távora*

Passada as semanas de euforia em que o Ibovespa – principal índice de ações brasileiras – subiu pouco mais de 20% desde o início do ano e bateu os 121.570 pontos e em que o real foi uma das pouquíssimas moedas que se valorizou perante o dólar, temos vistos nos últimos dias o movimento completamente inverso, só na semana passada o Ibovespa caiu 2,54% e quase anulou os ganhos do ano de 2022, mas, o que está ocasionando este movimento?

Cabe relembrar, o movimento que originou esse crescimento do Ibovespa e valorização do real, movimento esse, inclusive, comentado em momento oportuno numas das colunas anteriores. O estrangeiro, de olho na taxa de juros brasileira e nos “descontos” na bolsa, mergulhou de cabeça com dinheiro no Brasil, o que valorizou nossa moeda e fez com que as ações brasileiras valorizassem enquanto o ambiente no exterior, não era tão favorável assim.

Essa entrada de recurso, foi inclusive, objeto de recorde para a serie histórica, pois até março, por exemplo, o saldo de capital externo na Bolsa de Valores chegou a R$ 71,06 bilhões, superando o número de todo o ano passado, recorde da série histórica, de R$ 70,78 bilhões, com investidores interessados, principalmente, nas commodities brasileiras. O que explica o fato de que, dos 33 setores representados na bolsa brasileira, menos de um terço ter se valorizado esse ano e apenas 3 terem ganhos acima de 10%, é o caso da mineração, agropecuária e petróleo e gás.

Nosso índice principal índice brasileiro de ações – o Ibovespa – é fortemente impactado por esse movimento, pois tem em sua composição, pelo menos 30% em ações desses segmentos. Esses movimentos foram responsáveis por fazer o dólar bater a casa dos R$ 4,60, menor cotação em dois anos e atingir níveis pré-pandemia. Hoje, o dólar já está batendo R$ 5,11.

Ao que parece, o investidor estrangeiro tem se assustado com a permanente escalada da inflação (não só no Brasil, mas mundo afora). Na semana passada, o FED – o Banco Central Americano – elevou a taxa de juros dos EUA em 0,5%, para 0,75% a 1% a.a., o que significa a maior alta em 22 anos, visando que conter a inflação que já está em seu maior nível em mais de 40 anos.

Acontece que nem a fala do Jerome Powell, presidente do FED, pareceu acalmar os investidores, antes firme em ratificar que a inflação não seria um problema, Powell agora em todas suas falas tem sido categórico sobre a escalada da inflação, ou seja, para o mercado, o aumento da taxa juros americanos se dará além do que tem declarado o presidente.

Outros fatores, como a guerra no Leste Europeu que não tem uma definição e a recente escalada da COVID-19 na China que ao menor sinal de aumento de casos estabelece lockdowns em algumas cidades do país, fazendo assim que haja dificuldade na logística nos portos de embarque e desembarque de mercadorias, dificultam ainda mais a confiança dos investidores.

Consequente, o Brasil tem sofrido com todos esses fatores, anteriormente “paraíso” do dinheiro estrangeiro, agora o país se vê com uma fuga maçante de investimentos, no mês de abril, foram retirados R$ 7,7 bilhões, no primeiro mês de fluxo negativo este ano, derrubando a nossa bolsa e consequentemente a valorização de nossas empresas e também do real. Com a ascendente curva de juros de americana, os investidores tendem a alocar seu dinheiro no mercado mais “seguro” do mundo.

*Leandro Távora é empresário, pecuarista e investidor, formado em Direito pela Estácio Seama com MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getulio Vargas.
Ele escreve toda semana neste site sobre economia, investimentos e negócios.

Twitter: @leandrotavora
Instagram: @leandrotavora

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