Procura-se um pen drive

– Hedynus  vai  lançar um CD, mas ainda é segredo. Confidenciou José a Dona Maria.
No dia seguinte, Dona Maria já tinha espalhado na aldeia toda que Hedynus ameaçava lançar um CD.

Uns ficaram torcendo para que o  “evento cultural” não tardasse a acontecer naquela aldeia carente de programações culturais. E sonhavam com um grande show em praça pública, sorteio de CDs e apresentação do cantor Mascarado – que anos atrás animou um comício político e fez todo mundo rir com suas palhaçadas no palco.
Um fã de carteirinha até lembrou das palavras de Hedynus na abertura do show: “Eu canto porque o momento existe e só depende de você ser alegre ou triste”. Uau!

Outros ficaram preocupados diante da ameaça de ouvir dia e noite nas emissoras de rádio aquele tipo de música (Sim. Dia e noite porque a gravadora, embora fosse de fundo de quintal, tinha um bom dinheiro para pagar o jabaculê). Fora isso, o CD tocaria a todo volume nas domingueiras dos clubes e rodaria a aldeia de madrugada nos carros dos pleiboizinhos.
Um crítico musical, numa rodada de cerveja no bar do turco, perguntou:
– Não se oferece nada que preste aos jovens dessa aldeia?
Foi aplaudido por uns e contestado por outros.

As opiniões na aldeia se dividiam. “Aquilo não é arte“, diziam uns. “Deixa o cara cantar, tem gosto pra tudo”,diziam outros. E tinha aqueles que falavam “é ruim pra ouvir, mas é bom pra dançar.” E não faltava quem dissesse que era uma boa sugestão de presente para o inimigo.
Pois bem, durante algum tempo na pequena aldeia a ameaça ou anúncio de um novo CD de Hedynus era assunto em todas as rodas.
Depois outros assuntos entraram na pauta e o CD caiu no esquecimento.
Mas eis que de repente o assunto volta à baila.
Foi numa manhã chuvosa. Quem ligou o rádio de manhã cedinho, ouviu o cantor  chorando copiosamente no rádio informando que um pen-drive com suas músicas inéditas (as tais músicas do próximo CD) tinha sumido da sua casa.
E todo mundo começou a especular.
– Isso é jogada de marketing
– Ele tem uns amigos larápios, vai ver que foi um desses amigos que roubou
– É isso que dá andar mal acompanhado
– Graças a Deus estamos livre da ameaça
– Dizem que a polícia confundiu com droga e apreendeu.
Foi tanta coisa que falaram. Chegaram até a suspeitar de uma autoridade. Lá mesmo, no bar do turco, um maledicente disse que o sonho da tal autoridade era ser cantor de sucesso, aparecer no fantástico e no faustão, por isso inventou uma tal de operação que invadiu a casa do astro com a desculpa de investigar uma denúncia, mas na verdade era para afanar o pen-drive de músicas inéditas para se apropriar delas e quando se aposentar sair por aí, por esse Brasilsão fazendo shows nos melhores teatros e quiçá na Europa.

Todos se calaram quando adentrou o bar do turco um fã de Hedynus com o rosto molhado de lágrimas.
O moço contou que as paredes do seu quarto são cobertas com posters do cantor. “Mais jovem, porém com a mesma boniteza”, ressaltou. E propôs, ali mesmo no bar, que fosse feita  a campanha   “Devolve o pen-drive”. Pregariam cartazes com essa frase em todos os postes, árvores, muros, escolas, mercearias e bares da aldeia.

Ninguém contestou. Não porque apoiasse a campanha, mas porque o amor do fã pelo seu ídolo deixou todos emocionados. Um vereador, para animar o fã, disse: “Se fosse comigo eu diria: me tirem o mandato, a honra, a vida, se preciso, mas devolvam meu pen drive.”
E enquanto o fã, munido de pincel atômico e cartolina, preparava os cartazes, o ídolo se embalava tristemente numa rede folheando um surrado exemplar de “Quem mexeu no meu queijo”, obra que por muito tempo foi seu livro de cabeceira.

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