Quadrilha

A moça, muito elegante, trajando um tailleur e carregando uma pasta, entra no gabinete daquele político
– Bom dia, Excelência.
– Bom dia, minha filha, sente-se por favor. A que devo a honra de sua visita?

– Vim aqui pedir o seu apoio para uma quadrilha que estou organizando.
– Ah, quadrilha é comigo mesmo. A-do-ro! Mas eu não quero apenas apoiar, eu quero participar, quero fazer parte, quero ser integrante. Posso até comandar, você sabe eu tenho know-how nessa arte.

– Será um prazer tê-lo como integrante da nossa quadrilha. Com Vossa Excelência fazendo parte ganharemos todas.
– Então, vamos ser objetivos. Quais são as obras? De quanto vai ser minha propina?

– Excelência, acho que está havendo um mal entendido.
– Como?

– Como o senhor sabe estamos no mês de junho e a quadrilha da qual estou falando é quadrilha junina e acho que com seu apoio e sua participação ganharemos todas as competições.
– O que? Quadrilha junina??? Ora, ponha-se daqui pra fora. Não tenho tempo a perder com essas babaquices. Tempo é dinheiro, minha filha. Suma da minha frente e não volte nunca mais aqui com uma proposta indecorosa dessas.

(Alcinéa Cavalcante, junho/2007)

  • Alcinéa, Parabéns!
    Diálogo de “ficção”, perfeito, que simboliza (ou será que caracteriza?) o que, verdadeiramente, ocorre nos “bastidores do poder” no Brasil. Onde a frase basilar é: “VAMOS NEGOCIAR. O QUE GANHO???”.
    Considerando a máxima (justificativa fajuta e imoral de “quadrilheiro”) de que “os fins justificam os meios”, acredito que os idealizadores da série de “ficção” da Netflix “HOUSE OF CARDS” se sentem frustrados. Pois, no Brasil, no presente momento, teriam material vasto para escreverem seus episódios e, pelo menos, centenas de séries paralelas e entrelaçadas que corresponderiam a elencos diferenciados. Com direito de, ao final de cada capítulo, de cada série, escreverem: “BASEADO(A) EM FATOS REAIS”.

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