Urubus leitores – Por José Machado

Urubus leitores
José Machado

Ontem quando caminhava, ao passar próximo a um prédio em restauração, havia um coletor de lixo transbordando de entulho e calhamaços de obras literárias que infelizmente poderiam reciclar mentes humanas. Mas naquele momento os únicos leitores eram urubus pousados sobre elas bicando a procura de algo pra se alimentar fisicamente.
Parei, e um breve olhar nos títulos, percebi que a maioria era de autores estrangeiros, todos, ali, espalhados no chão, na calçada misturados a resíduos sólidos: Mansfield Park, Jane Austen; Emily Dickinson, Thomas Wolf e um autor que não conhecia Pearl S. Buck.
Foi o que vi por alto até afastar um e outro volume e ver “O Quarto Enorme” , E. E. Cummings ( publicado em 1922, relato da sua prisão na França, em Setembro de 1917, no estertor da Primeira Guerra Mundial. Cummings e um amigo foram acusados de espionagem, mas o futuro poeta foi prontamente ilibado, o que não impediu três meses de cativeiro)
Uma raridade já sem capa, algumas páginas rasgadas e outras sujas de cimento. Confesso que se não fosse essas avarias o teria levado. O autor, Edward Estlin Cummings, usualmente abreviado como e. e. cummings era aquele poeta, ensaísta e dramaturgo norte-americano, que era avesso as convenções e, começou por abolir o uso tradicional das maiúsculas, inclusive do próprio nome.
A excentricidade, valeu-lhe o apelido de senhor “caixa baixa”. Recordei meus vinte anos, quando li pela primeira vez uma de suas obras e, confesso não foi uma leitura fácil e, sinceramente, não sei se compreendi na totalidade aquilo que ele diz, por sua fraseologia e pelo uso irregular que fazia da pontuação, ausência de espaços a seguir às vírgula etc.
Ao retornar pelo mesmo trajeto, encontro um homem de cinquenta e poucos anos, agachado, escolhendo alguns. Dei boa noite e falei – Que tristeza não ? Ele virou o pescoço e disse: Cara, olha só ! Não pude deixar de pegar alguns. Veja, este em francês. Estou levando pra minha sogra que lê fluentemente neste idioma. E este aqui, é sobre Museologia. Levantou-se e seguimos na mesma direção conversando.
Comentou que era biólogo e que no edifício onde morou com sua mãe em São Paulo, centenas de livros incríveis vez por outra, eram jogados na lixeira do prédio, e ele resgatou dezenas deles e ainda os têm.
Uma quadra mais adiante nos apresentamos, despedimo-nos e cada um seguiu seu rumo. pensei,quais argumentos levam um indivíduo a jogar fora ou destruir livros? É um paradoxo imaginar que ele esteja contribuindo para a geração da LIXOTECA que está se transformando este País.
Livros são fontes, abrem vasta possibilidades de aprofundar nossa compreensão do passado. Não que funcionem como janelas transparentes para um mundo que perdemos.São coleções de relatos escritos por profissionais ou historiadores, dentro das convenções de seu ofício. Transmitem a maneira como seus contemporâneos interpretavam os fatos e, encontravam algum sentido na confusão ruidosa do mundo que os cercava.
Peter Sloterdijk, filósofo alemão estava certíssimo quando disse: “ o que nos restou no lugar dos sábios são seus escritos, com seu brilho áspero e sua crescente obscuridade; eles ainda continuam à disposição em edições mais ou menos acessíveis, e ainda poderiam ser lidos, se ao menos os homens soubessem por que ainda deveriam lê-los”.

  • Oh! Bendito o que semeia
    Livros à mão cheia
    E manda o povo pensar!
    O livro, caindo n’alma
    É germe – que faz a palma,
    É chuva – que faz o mar!

    Castro Alves ALVES, C., Espumas Flutuantes, 1870.

    Meu nobre amigo Machado, uma cenas dessas talvez infartasse o grande Castro Alves!
    Semeando livros em lixeiras, em vez de doa-los a uma biblioteca! Uma sacanagem!
    Eu conhecia o urubú do ver o peso, aquele de dona Onete. O da sacanagem do pitiú!!! Mas urubú leitor é a primeira vez!!

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