A minha gostosa Macapá de outrora

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Walter Junior

Lembro quando o bairro do Laguinho era longe.

Nasci numa casa em frente onde é hoje a TV Equatorial, no coração do Laguinho. Fui apanhado por uma parteira. A cidade, compacta, vinha da Fortaleza, concentrava-se no entorno da Igreja Matriz de São José e ia até Escola Industrial de Macapá. A Avenida Procópio Rola não existia, era praticamente o final do campo de pouso que também cruzava onde é hoje a Avenida FAB. Um pouco distante, um hospital em construção: o Alberto Lima.

O Laguinho era famoso pelo Marabaixo, pela farinha, as parteiras, as lavadeiras, poetas, a boemia e pelos negros simpáticos, mas bons de porrada. O Laguinho era mato. Era longe.

Quando o meu pai começou a trabalhar na BR 15, atual 156. Fomos pra mais longe ainda. Eu passava boa parte do meu tempo na fazenda do meu avô na cidade de Amapá, as vezes dava um passeio pela Base Aérea pra ver os aviões descerem e subirem ou nos acampamentos da estrada que avançava na direção de Calçoene. Menino, assisti a construção da ponte sobre o rio Amapá Grande e a “descoberta” da Cachoeira Grande. Passei um Natal lá neste acampamento. Mas isso já é uma outra história.

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Fiz o Jardim de infância no Barão do Rio Branco ,em um pavilhão cheio de mesinhas e cadeirinhas. A professora era a Maria Façanha, parecia uma fada. O nosso recreio era na Praça Barão do Rio Branco regado a canecas de leite da Aliança para o Progresso que eu achava muito gostoso e repetia.

Depois veio a Escola Paroquial São José, dos beliscões da professora Carmelita, da ternura da professora Maria das Dores, da minha paixão pela professora Maria Emília Jucá. Eu deveria ter de 5 a 7 anos no máximo. Era um segredo que só eu e a minha mãe sabíamos.
w2Torci pelo Juventus, vendi Voz Católica, assisti filmes em um barracão antes do Cine João XXIII e dancei quadrilha marcada pelo Novena e um.

Frequentei o pensionato. Fui coroinha da Matriz de São José e assisti muitos filmes no João XXIII, após a missa. E o que restou dessa época? O que era o monumento mais antigo da cidade, agora é apenas uma igreja desprestigiada prestes a desabar. O resto virou o Vila Nova, um shopping que utiliza o nosso centro histórico como estacionamento e não aparece um cristão para tomar uma providência. Tomara que Dom Aristides Pirovano interceda por nós, porque fazer queixa ao bispo nem adianta mais.

Naquele tempo para tirar uma foto ou você ia a um estudio ou contratava um fotógrafo. Eu também tirei retrato uniformizado no estudio do Foto Cruz, o seu Guilherme caprichava. Ao lado havia uma loja de discos, insisti tanto com a minha mãe e ganhei a minha primeira bolacha preta: um 78 RPM com a música “Cabecinha No Ombro”, de Paulo Borges, no lado B, uma belíssima guarânia que na interpretação de Alcides Gerardi tocava toda hora na Difusora. Tropecei na descida da Cândido Mendes e o disco caiu no chão e quebrou. Eram muito frágeis. Chorei sem ter onde encostar a minha cabecinha inconsolável.

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Uma vez me perdi nessa mesmíssima Cândido Mendes e fui encontrado dentro de uma das canoas à vela ancoradas na Doca da Fortaleza. Numa outra vez fui levado para a delegacia de policia que ficava em frente a Praça Veiga Cabral. Neste dia cheguei em casa em uma moto que tinha um carrinho do lado. Uma aventura! Aliás aventura era o que não faltava. Naquela época, final dos anos 50, inicio dos anos 60 era comum os nossos pais saírem para visitar amigos, ir ao cinema ou aos bailes do Aeroclube ou da Piscina Territorial. E nós crianças ficávamos brincando na frente da casa. Vivíamos as cantigas de roda, as brincadeira de cowboy, esconde-esconde, que os Toyotas, uns paulistas que chegaram em Macapá com umas Pick ups estranhas, apelidaram de 31 Alerta!

Naquele tempo quase todos se conheciam e quando chegava alguém de fora, a hospitalidade falava mais alto e se fazia de tudo para que a nova familia se sentisse em casa. Éramos todos uma grade família.

Você pegava um carro de praça, os taxis de hoje, e dizia apenas o nome do dono ou da dona da casa e o chofer o levava no endereço certo. Da mesma forma o telefone, você rodava a manivela do aparelho e dizia: – telefonista, me ligue pra residência do senhor fulano de tal.

Dormia-se de janela aberta. É claro que com um bom mosquiteiro.

w3Eu vivia perambulando pela cidade. Na porta do cinema invejava os vendedores de bombons com aquelas caixas cheia de divisórias penduradas no pescoço, principalmente os que ficavam na porta do Cine Teatro Territorial, a primeira sala de projeção da cidade. O Cine Territorial, foi construído e inaugurado em julho de 1944 por Janary Gentil Nunes e foi palco de inúmeros shows de grandes artistas brasileiros. Luís Gonzaga, Dalva de Oliveira e Ângela Maria, ícones da música popular da época, encantaram a plateia macapaense em apresentações memoráveis.

Minha carreira de vendedor de bombons foi logo substituída pela de colecionador de revistas e de figurinhas e a porta dos cinemas era um lugar ideal para essa nova atividade.

Vivi grandes aventuras no cinema. A minha especialidade era furar na entrada e assistir os filmes impróprios para a minha idade. Um descuido ou uma vista grossa do porteiro e lá ia eu para o mundo mágico do cinema. Numa das sessão as escondidas do Cine Macapá, lembro do filme Acorrentados, com Sidney Pointier e Tony Curtis… Foram muitos filmes. Teve um filme polêmico: Os Cafajestes, com Jece Valadão e Norma Bengell. Esse eu não consegui furar. Era considerado um filme pornográfico. Foi exibido no Cine Macapá em duas sessões: uma para mulheres e outras para homens. Muitos anos depois assisti na televisão.

Mas, o mais divertido mesmo era assistir escondido os bailes da Piscina Territorial. Tínhamos a cumplicidade dos garçons que de vez em quando nos levava um Flip Guaraná. Mas quando a luz dava uma diminuída, o conjunto atacava o prefixo de encerramento era hora de correr pra casa. Naquela época os bailes começavam cedo. A energia “ia embora” às 23h, no máximo. E duas diminuídas na intensidade era o sinal, na terceira, o breu. No dia seguinte ficávamos ouvindo os comentários do baile que a gente também “havia ido”.

Aos domingos as famílias se encontravam no barracão da praia do Araxá e a juventude da época ia para as festas no barracão da Fazendinha.

Quem viveu os bailes do Amapá Clube, Esporte Clube Macapá, Assembleia Amapaense, Circulo Militar, Santana Clube… Tem muita coisa pra recordar. Dariam deliciosas crônicas. Lembro daquela romaria de pessoas, descalças na avenida FAB com os sapatos nas mãos no final dos bailes. Ah tempo bom!

Em 1967 conheci a minha grande paixão. Entrei para o Colégio Amapaense. E olha só essa turma da primeira série ginasial: Aluizio Teixeira, Sergio Torres, Alcinéa Cavalcante, Délrio Façanha, Chico Miccione, Alex Houat, Regina Craveiro… Neste mesmo ano fui mascote da Banda do CA. Não perdia um ensaio. Acompanhava toda a construção das alegorias e não perdia uma disputa do CA seja que modalidade fosse nas olimpíadas. Neste ano o Colégio Amapaense foi o campeão do desfile  de setembro. Comemoramos em passeata, em ritmo de carnaval, da frente do CA até o Gato Azul.

As matinês do Cine João XXIII, a tacinha de sorvete do Macapá Hotel, o trapiche que, naquele tempo não tinha torres de rádio alugadas para hastear bandeiras, abrigava uma verdadeira peregrinação de pessoas no tradicional passeio dominical, são imagens guardadas no coração, que nos enchem de saudade.

Até hoje o rio Amazonas é testemunha das inúmeras juras de amor dos casais de namorados no trapiche Eliezer Levy e daqueles que ajudaram com amor, suor e trabalho a construir a historia desses 258 anos de Macapá.

  • Pôxa Walter Júnior, que bela crônica! Sua infância na nossa querida Macapá foi mais ou menos parecida com a minha. Também estudei na EPSJ, GM, depois por força das circunstâncias tive que mudar pra Belém, onde prossegui meus estudos. Só não morei na fazenda no município de Amapá, mas sim na Ilha Maruinteua, no arquipélago do Jurupari onde passava minhas férias. Talvez você não lembre! Mas fomos coroinhas da Igreja São José na mesma época. Você tinha um outro irmão que não lembro o nome, me desculpe por isso. Na segunda sessão aos domingos no Cine João XXIII, era onde paquerávamos as garotas da época, até tentei namorar uma de suas garotas (eram várias), mas não teve nada pra mim! Afinal você pertencia à elite amapaense. Continue fazendo muito sucesso como jornalista, escritor, publicitário, é o que deseja este anônimo que lembrou de vc como se fosse hoje. Um grande abraço!

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