Adeus, Tia Cila. Hoje não tem carnaval na avenida do samba, mas tem na avenida celestial

Voa azulão, azulão azulão
leva o meu coração, leva o meu coração
pra morar contigo, azulão
no reino da ilusão, voa voa azulão.

Aqui hoje não tem carnaval na Avenida do Samba, mas na Avenida Celestial está a maior animação. Todas as escolas se reuniram numa só para homenagear Cila Trindade.
Paulo Rodrigues organiza o desfile, auxiliado por Marjô; Mestre Monteiro comanda a bateria e Ivo Canuty,  Macunaíma e Sobral puxam o samba. Manoel Torres cuida da harmonia.
Vai começar o desfile. “Solta o azulão, Tia Cila”, grita o Ivo com aquele vozeirão. E a escola entra na avenida com toda empolgação, alegria e, principalmente doçura, que era uma característica marcante de Tia Cila.
Um desfile impecável que se encerra com a passagem da rainha Tia Cila num lindo carro alegórico (feito pelo Estêvão), azulzinho como o céu e decorado com estrelas e nuvens.

Cila França Trindade, a Tia Cila, faleceu ontem à noite, dias após ter sido submetida a uma delicada cirurgia no cérebro.
Figura das mais queridas e mais conhecidas foi uma professora exemplar. Nas redes sociais seus ex-alunos lamentaram sua morte e ressaltaram suas qualidades; o mesmo fizeram seus colegas de magistério. Ela fez história na educação amapaense.  E fez história também – e muita – no carnaval.
Foi fundadora da Unidos do Buritizal e presidente da Liga das Escolas de Samba.
Na época do carnaval, sua casa virava sede da escola, ateliê, barracão etc etc.
Cila lutava pelo carnaval amapaense, não só pela sua escola, mas por todas. Por isso era tão amada pelos amantes do carnaval, brincantes e dirigentes de escolas de samba.

A escola Grêmio Recreativo Cultural Acadêmico Escola de Samba Unidos do Buritizal foi fundada na casa da Tia Cila em julho de 1990. Em 1991 fez seu desfile de apresentação (não concorria ao título) com o enredo “Uma viagem ao mundo da fantasia”; em 1992 já entrou na disputa e sagrou-se vice-campeã do grupo de acesso com o enredo “Alcy Araújo, o poeta do cais”. E foi nesse ano que começou nossa amizade com Cila Trindade. Por vários anos desfilei na comissão de frente da escola e depois passei para a ala da “Velha Guarda”.
Mas o que eu quero falar aqui é da doçura da Cila, do carinho com que ela nos recebia cada vez que íamos na casa dela; do abraço tão carinhoso que ela nos dava quando nos encontrava em qualquer lugar. E ela tinha um sorriso tão lindo e a voz tão suave. Nunca vi Cila de cara amarrada, falando alto, resmungando ou de mau humor. Até quando garfavam sua escola ela protestava sem perder a elegância, a suavidade, a ternura.

Lembro que às vezes faltando dois ou três dias pro desfile eu corria lá na casa dela. “Tia Cila, a minha fantasia”. E ela com aquele sorriso tão lindo, me dizia: “Mas tu mesmo, só vens em cima da hora tirar a medida”. No outro dia minha fantasia estava prontinha. Raras vezes deixei de desfilar na escola. E eu sempre dizia que era apaixonada pelo Buritizal tanto quanto pelo Maracatu da Favela. Hoje estou na dúvida se minha paixão era pela escola ou por Tia Cila.

Ah, Tia Cila, ontem quando soube da tua partida eu chorei, chorei mesmo. Mas depois fiz uma prece a Deus pedindo a Ele que te receba no reino do Céu com muita ternura e agradeci a Ele ter tido o privilégio da tua amizade, do teu carinho, do teu cuidado.
Vai em paz, Tia Cila. Voa, Tia Cila, nas asas do azulão para o céu.
Obrigada por tudo que você fez pela cultura, carnaval e magistério.

Eu na Comissão de Frente da Unidos do Buritizal em 1992. Foi aí que começou minha paixão pela escola e por Tia Cila

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