Aos cem anos, faleceu hoje a doce e sábia Diva Façanha

Diva, ladeada pelos filhos Celso, José, Maria e Luís

Aos cem anos de idade, Dona Diva Façanha faleceu na tarde de hoje. A triste notícia me chegou pelo whatApp. Como? Como a doce Diva partiu assim e eu nem pude ir abraçá-la? Veio um choro silencioso. Não. Não devo chorar. Devo é agradecer a Deus pelo privilégio que tive de tantas vezes receber seu carinho, seu abraço, sua ternura e ouvir suas histórias. Enxuguei as lágrimas e abri um sorriso, lembrando da sua doçura. Dona Diva era linda, carinhosa, sábia e tinha um sorriso que transmitia ternura, segurança e amor.
Nossas famílias se conheceram ainda na juventude em Belém. Ela nasceu em Belém, exatamente no dia do aniversário de Macapá. Veio para o Amapá em 1939, acompanhando o marido Lourenço Borges Façanha, que era cabo do Exército e veio servir em Clevelândia, no Oiapoque.
Em 1941 transferiu-se para Macapá, onde o marido veio trabalhar no comércio. Alguns anos depois, meu pai, o poeta Alcy Araújo, veio para Macapá para integrar a equipe do governo do então Território Federal do Amapá. E adivinhem onde ele morou logo que aqui chegou? Exatamente na casa dos seus amigos de juventude – o casal Diva e Lourenço. Era um casarão perto da rua da praia. Diva chamava para o meu pai de Nenê, pois era assim que minha avó e alguns amigos do Telégrafo e da Pedreira o chamavam. Não sei se meu pai mudou-se da casa de Diva só quando casou ou antes.
Mas sei que ele e Lourenço gostavam demais de acari, um peixe delicioso. Então, de vez em quando, para se divertirem e alegrá-los, Diva e minha mãe, a professora Delzuite Cavalcante, iam pegar o tal peixe na beira do rio (lembre-se, a casa de Diva era pertinho do rio) e faziam aquele delicioso almoço animado com muita conversa e risos. Eu falei “pegar” o peixe? Sim. Não era pescar, me explicou um dia o Zé. “A fartura era tanta que os acaris ficavam presos na beira do rio após a enchente”.
Nós, filhos de Alcy/Delzuite e Lourenço/Diva, somos amigos e costumamos dizer, com orgulho, que essa amizade vem de longe, vem de nossos pais.

Eu adorava conversar com Dona Diva, principalmente depois que perdi meus pais. Gostava de ouvir suas histórias sobre Macapá, sobre o antigos moradores. Uma vez ela me contou que Mãe Luzia – que fazia os seus partos – não gostava de usar sabonete nos recém-nascidos. Não lembro agora se foi quando o Zé ou o Luís nasceu, aparado por Mãe Luzia, Diva disse a ela: “Comadre, o sabonete para dar banho no menino está aí em cima da penteadeira”. Ao que ela respondeu: “Pra que isso, Diva? O menino não tá sujo, não veio do mato”. E parturiente e parteira caíram na gargalhada.

Dona Diva foi uma das primeiras mulheres – ou talvez a primeira – a exercer altos cargos na administração pública do Território do Amapá, dentre os quais o de Assessora e Chefe do Gabinete do Governador e Tesoureira da Senava.

Ela está eternizada em nossos corações, na história do Amapá e na paisagem da cidade.

Quando ela fez cem anos fui abraçá-la em nome da família Cavalcante

Meu último encontro com Diva foi dia 4 de fevereiro deste ano quando ela completou cem anos. Foi uma festa bonita feita pela família em sua casa.
Diva estava feliz, deslumbrante, cercada de muito afeto pela família e amigos. Eu sei da finitude da vida, mas não sei por que nunca me passou pela cabeça que Diva morreria um dia. Daí o impacto que senti quando recebi a triste notícia.
E neste momento – que cumprimos isolamento social por causa da pandemia – não posso abraçar meus amigos, filhos da Diva. Mas meu coração, queridos Zé, Luís, Celso e Maria, abraça o coração de vocês.

E já imagino, lá no céu, Lourenço, Diva, Alcy e Delzuite se reencontrando e lembrando dos acaris, hein.

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Na página do Memorial Amapá tem uma biografia de dona Diva Façanha escrita pelo historiador Wanke do Carmo. Para ler clique aqui

 

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