Saiba quem foi Claudomiro Moraes

Euclides Moraes

Claudomiro Moraes – Perseguição, resistência e luta pela democracia no Amapá
Por Euclides Moraes

A CHEGADA
Contam os mais antigos que, ao desembarcar no velho trapiche da cidade, a primeira pergunta do recém-chegado Intendente da Capitania dos Portos de Macapá foi dirigida a um velho marinheiro, tripulante da embarcação, com quem deu-se o seguinte diálogo:
-Aqui tem governo?
-Tem, respondeu o marujo.
-Pois sou contra, disparou o mais novo habitante da cidade. Instituindo, naquele momento, a oposição no Amapá que mais tarde abrigou-se sob a bandeira do Partido Trabalhista Brasileiro, o PTB de Vargas.

LIDERANÇA E PERSEGUIÇÃO
E lá se vão mais de cem anos desde o dia em que Claudomiro Moraes ancorou seus sonhos na terra dos Tucujus. “Seu Zito Moraes”, como passou a ser conhecido pela gente do lugar, era uma pessoa carismática. Afável, bem humorado, amigo de um bom papo, instrução básica. Um autodidata e boêmio emérito que não dispensava uma ou outra rodada da boa pinga nos botecos da moda, com preferência aos mais democráticos onde a frequência permitisse confraternizar, sem discriminação, com todos os níveis da representatividade social, política e econômica da época.
Foi assim que Zito Moraes construiu sólida liderança na pequena cidade onde capitaneou dezenas de campanhas políticas e amargou igual número de memoráveis derrotas por conta dos bizarros expedientes eleitorais praticados à época pelos donos do poder que, entre a violência e o terror, “emprenhavam” urnas substituindo as cédulas da oposição por votos de seu interesse. Era assim que funcionava. A oposição nunca saia vitoriosa. Nunca.
Assim, sucessivamente derrotado nas contendas eleitorais, Zito Moraes passou por humilhações terríveis alternadas por prisões gratuitas, perseguições inomináveis e até apedrejamento da casa onde morava com a mulher, Dona Dica, e os seis filhos.

ENFIM, A ESPERANÇA
Em 1970 articulou, agora no MDB, Movimento Democrático Brasileiro de Ulysses Guimarães, o lançamento de uma força jovem para enfrentar o todo poderoso caudilho Janary Nunes – velha raposa política que dominou por longas décadas com a família os destinos do então Território Federal do Amapá. O MDB ganhou as eleições e Antônio Pontes, o candidato, entrou para a história como o primeiro político a vencer a oligarquia Nunes no Amapá.

ZITO MORAES NÃO FOI À FESTA DA VITÓRIA
ULTIMO ATO
Mas Zito Moraes sequer foi às urnas das eleição que enfim venceria. Morreu dia trinta de outubro, dezesseis dias antes do pleito que lavaria a sua alma e premiaria a sua longa e corajosa militância política.
No fervilhar da campanha eleitoral Zito Moraes, internado no Hospital Geral de Belém, no Pará, muito debilitado e privado de quase todos os sentidos, apenas falando e ouvindo com dificuldade, chamou o filho mais novo e, sussurrando-lhe aos ouvidos, pediu-lhe notícias da campanha. Queria saber se o partido e seu candidato ganhariam ou não as eleições. A resposta foi um entusiasmado SIM. Nesse instante foi possível perceber naqueles lábios contraídos pela dor da enfermidade um enigmático e derradeiro sorriso. Esse foi o último ato político de Claudomiro (Zito) Moraes.

FOI MELHOR ASSIM
Zito Moraes não viu nem festejou a vitória dos seus ideais, é verdade. Mas é verdade também que, partindo prematuramente, pelo menos privou-se de frustrações maiores como a de assistir aos descaminhos dos interesses que hoje pontificam o exercício na política no país e no Amapá, onde a ética, a honestidade e o compromisso com os interesses comuns são cada vez mais raros.

EPÍLOGO
E hoje fico imaginando seu Zito Moraes, depois de sua grande e última viagem aportando no cais do Paraíso e perguntando a Pedro: Aqui tem governo?
(Euclídes Moraes)
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Claudomiro (Zito) Moraes, foi Prefeito de Macapá em dois períodos: o primeiro de março a agosto de 1951 e o segundo de novembro de 1952 a 31 de dezembro de 1954. Por ordem do Presidente Getúlio Vargas, contrariando os planos do governador Janary Nunes

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