Hoje é Dia Estadual da Poesia

Instituído pela Lei N. 580, de 21/06/2000, 8 de agosto é o Dia Estadual da Poesia. A data foi escolhida em homenagem ao poeta, médico, professor e ex-prefeito de Macapá Alexandre Vaz Tavares, nascido em Macapá no dia 8 de agosto de 1858. Consta que ele foi o primeiro poeta a escrever poemas sobre Macapá. Sua poesia “Macapá” (praticamente desconhecida das novas gerações) foi publicada pela primeira vez em agosto de 1889, na Revista de Educação e Ensino do Pará. Vaz Tavares morreu em abril de 1926, aos 67 anos.

MACAPÁ
Alexandre Vaz Tavares
(1858-1926)

Na esquerda margem selvosa
Do rio-mar, o Amazonas,
Pensativa e descuidosa
Como essas gastas madonas
Das noites de bacanal,
Descansa da atividade
Dos anos, na nova idade,
A minha amada cidade,
Minha cidade natal.

Para leste orientada,
Em face encara o nascente,
De onde lhe envia a alvorada
Um beijo róseo-nitente
Em cada raio de sol.
À noite a lua de prata
Fios de perola desata
Por entre a florida mata
Onde dorme o Rouxinol.

Ao Oiapoque, o guiano,
Vão seus solos marginais,
Que se prolongam, no plano
Das divisas boreais,
Em serras em alcantil
A oeste, vastas campinas,
Amplo tapiz de boninas,
Com pingues raças bovinas,
Riquezas e encantos mil.

Por atalaia gigante,

Ou em sinal de defesa,

Do granito mais possante

Levanta uma fortaleza

Negras muralhas ao sul.

Outrora adornadas de aço,

Faziam troar o espaço

Dos canhões seus com o fracasso,

No vasto horizonte azul.

 

Outrora, quando ascendia

Sobre aquela grimpa ingente,

Entre os sons da artilharia

O pendão aurifulgente,

O auriverde pavilhão:

Trajava a cidade inteira

Alva roupagem faceira,

Pela data brasileira

Oufesta de devoção.

 

Então, que alegre não era

Ver-se o ledo rodopio,

Em manhãs de primavera

Ou nas tardinhas do estio,

De um povo em festa a folgar:

Moças com laços de cores,

Raparigas com mil flores,

Rapazes buscando amores…

Tudo era rir e brincar!

 

Hoje…Lá jaz o colosso

Quase em total abandono,

Formando quasi um destroço

Na triste nudez do sono

Do desprezo mais cruel.

É correção de soldados;

É presídio de forçados;

É terror de condenados;

De criminosos, quartel.

 

Hoje o bronze já não salva

Da galharda bateria,

Quer assome a estrela D’alva,

Quer venha a findar o dia.

Não fosse a luta feral

Do rio-mar com a procela,

Ou os brados da sentinela

Quando, acaso, a noite vela,

Fora tudo em paz mortal…

 

Maldito! Maldito seja

Vezes mil um tal governo

Que insaciável deseja

Céus e terra e até o averno

Desfeitos em outro só!…

Maldito, porque os legados

De nossos antepassados,

Em vez de serem zelados,

São desprezados sem dó!

 

Sim! Maldita a Monarquia

Aleijão de privilégios,

Que cegamente confia

Aos fátuos caprichos régios

A sorte de uma nação.

Ao sistema, imperialismo,

Ao torpe maquiavelismo

D’El-Rei, Senhor, egoísmo,

Maldição! Sim, maldição!…

Dorme, cidade e, em teu sono,

Sonha os fulgores de outrora…

Veneza já teve um trono,

Já foi dos mares Senhora

E às nações já leis ditou;

Mas, hoje…Ei-la: descansa,

Rememorando a pujança

Dos tempos lhe arrebatou…

 

Dorme!… Tens aos pés prostrado

O rio-mar, bardo eterno,

Que entoa sempre inspirado

Ora, o canto mais galerno,

Ora, os hinos do tufão…

Dorme aos sons das cavatinas

Das aves entre as cortinas

Dessas florestas divinas

De teu risonho sertão!

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