Artigo dominical

Os frutos
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Um homem, que buscava a sabedoria, resolveu subir numa montanha onde, a cada dois anos, aparecia Deus. Durante o primeiro ano, alimentou-se com aquilo que o lugar lhe oferecia. Depois, tudo acabou e, não tendo mais nada para comer, teve que voltar para a cidade.

– Deus foi injusto comigo – exclamou – será que Ele não viu que esperei todo esse tempo para ouvir a sua voz? Mas agora estou com fome e vou embora sem tê-lo escutado.

Naquele momento apareceu um anjo que lhe disse:

– Deus teria gostado muito de poder falar com você. Por isso o alimentou um ano inteiro. Esperava que você mesmo providenciasse os seus alimentos para o ano seguinte. Mas, o que você plantou durante o primeiro ano? Se um homem não sabe produzir nenhum fruto lá onde mora, como pode pensar em estar pronto para falar com Deus?

Eis uma pequena história para ajudar, espero, na compreensão das duas parábolas sobre o reino de Deus que encontramos no evangelho deste domingo. A primeira nos lembra que os frutos da terra são também o resultado da própria natureza que cumpre as suas leis. De noite, quando o agricultor dorme, o trigo continua crescendo. A segunda parábola é aquela, bem conhecida, do grão de mostarda. Por ser tão pequeno, não inspira nenhuma confiança; acontece, porém, que, ao crescer, se torna a maior de todas as hortaliças, oferecendo sombra e abrigo aos pássaros.

Podemos aproveitar de ambas as parábolas para entender melhor o jeito “novo” do reino de Deus, que Jesus veio anunciar e iniciar. O reino de Deus é, antes de tudo, um dom oferecido gratuitamente e não pode ser medido pelas aparências ou pelo tamanho delas. Exatamente o contrário das duas grandes tentações que sempre nos atraem.

A primeira é a tentação da grandeza. Julgamos o valor e o resultado das coisas pelo tamanho das construções, pela riqueza acumulada, pelo número dos participantes. Claro que tudo isso nos empolga e nos faz sentir importantes. O sucesso sobe à cabeça de qualquer um; também porque junto com os invejosos sempre aparecem muitos bajuladores que nos enaltecem mais do que merecemos. Como sempre, é a tentação do orgulho que nos cega e ensurdece. Contra essa tentação, Jesus nos alerta a medir as coisas mais pela paciência que pelos resultados imediatamente visíveis. Os tempos do crescimento do reino não são os tempos que deveriam recompensar a nossa dedicação, como pensamos.

Do outro lado, se o reino é “dom” de Deus, por que nos esforçarmos tanto? Esta é a segunda tentação: esperar que Deus faça a parte dele – e Ele a faz com certeza – sem nenhuma colaboração ou participação de nossa parte; só aguardando para ver se tudo vai ser tão bom como foi prometido. Nesse caso são a preguiça e a indiferença que tomam conta da nossa vida de cristãos.

Resumindo os dois extremos: temos cristãos que medem as “coisas” de Deus com as mesmas medidas das coisas humanas, isto é, com o sucesso, a fama, a grandeza. O reino cresce em outras dimensões: no amor, na paz e na justiça, por exemplo. Cresce, sobretudo, no coração dos que têm fé. Temos também cristãos que não ligam para nada, cobram e exigem de Deus sem nenhum compromisso pessoal e concreto. Gratuidade não significa absolutamente acomodação e inatividade.

Em ambos os casos, a nossa participação deve ser ativa e confiante. É verdade que o trigo cresce também de noite, quando o agricultor repousa, contudo, cabe ao agricultor a colheita, para que o campo possa continuar a produzir mais frutos.  Pensando bem, a humildade e a gratidão deveriam ser os primeiros “produtos” da colheita. Outros podem ser a partilha e a solidariedade, para não cair no pecado do rico tolo que só pensava em aproveitar das riquezas acumuladas (cf. Lc 12,16-21).

Sempre teremos que agradecer e sempre teremos que trabalhar. Os frutos sempre serão, ao mesmo tempo, um dom de Deus e uma busca incansável de nossa parte. Não deve acontecer como ao homem que queria ouvir a Deus; aproveitou da fartura encontrada, mas esqueceu de plantar para o futuro. O reino de Deus sempre será dom e compromisso: nunca será só um presente para preguiçosos e acomodados. Menos ainda para os orgulhosos.

  • BELISSIMO ARTIGO DO BISPO CONTI. PARABENS MESMO…
    ESSA PARABOLA DEVERIA SER LIDA PELO GOVERNADOR DO AMAPA E DOS OUTROS ESTADOS DO BRASIL…ORA ORA, JA SE PASSARAM UM ANO E SEIS MESES E ATÉ AGORA NADA NADA NADA…NAO ESQUEÇA Q NA “ISTORINHA” AI CONTADA PELO BISPO 1 ANO É PARA COMER, O OUTRO ANO É PRA TRABALHAR, ENTAO ? TÃO ESPERANDO O QUE ?
    BOA NOITE E UM EXCELENTE INICIO DE SEMANA.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *