Artigo dominical

A casa das janelas de ouro
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Uma criança morava numa casa no cume de uma colina. Certa manhã, quando saiu para ir à escola, ficou encantada com outra casa, no cume da colina à sua frente: ela tinha as janelas todas de ouro. Pensou ser um palácio encantado e quis vê-lo de perto. Como tinha chegado lá? Quem morava numa casa tão extraordinária? Esqueceu o caminho da escola e começou a subir para conferir o que lhe parecia tão maravilhoso.

Quando chegou lá, uma senhora estava na porta da casa e ao lado dela uma menina que tinha, mais ou menos, a mesma idade. O menino perguntou onde estava o palácio das janelas de ouro.

–  Por aqui não tem nenhuma casa como você falou – disse a mulher – a nossa é a única e as janelas são de vidro comum!
– Vendo a decepção do menino, a senhora disse:
– Já que está aqui, fique para brincar com a minha filhinha, vou preparar uma merenda para os dois.

As duas crianças brincaram o dia inteiro até chegar o pôr-do-sol. O menino contava a história da casa com as janelas de ouro para a menina e ela escutava arregalando os olhos. Devia ser a morada de algum rei ou rainha. De repente, a menina apontou algo com o dedo: era verdade, do outro lado do vale também tinha uma casa com as janelas de ouro. Era fantástica. O menino, porém, olhou bem e exclamou:

– Mas aquela é a minha casa! Tem dois pinheiros e a minha mãe está retirando a roupa do varal.

Os dois continuaram olhando. Aos pouco, o sol desapareceu e com ele também as janelas de ouro daquela casa. O menino pensou que a mãe dele devia começar a ficar preocupada e se despediu da outra criança e daquela senhora tão meiga e acolhedora. Correu em disparada colina abaixo e subiu rumo à sua casa. Lá encontrou sua mãe que o aguardava sorrindo e com os braços abertos para abraça-lo. Nunca mais duvidou que o encanto e a alegria morassem nas casas com janelas de vidro comum, onde o sol resplandecia festivo.

Todo ano a solenidade de São Pedro e São Paulo nos oferece a possibilidade de refletir um pouco sobre a nossa Igreja. Muitas vezes somos atraídos ou confundidos, também, pelas notícias da mídia. Evidentemente a eleição de um novo Papa chama a atenção e vira manchete, mais ainda quando a pessoa dele não estava no rol dos papáveis. Grande surpresa quando ele escolheu o nome de Francisco querendo lembrar a opção preferencial pelos pobres, os bem-aventurados do evangelho. Do outro lado, também escutamos notícias escandalosas e boatos de supostos complôs no Vaticano. Podemos juntar também as conversas de realidades mais próximas de nós, da nossa Diocese, das nossas paróquias, dos nossos padres e religiosos. Pessoalmente já fui transferido de Macapá não sei quantas vezes. O pior é que os sempre bem informados sabem exatamente para onde me querem mandar. Haja paciência!

As notícias ou as fofocas podem nos deixar entusiasmados, perplexos ou duvidosos. No mínimo, precisamos de bom senso, discernimento e clareza. Sobretudo precisamos de fé. A Igreja católica, no nosso caso, recebeu de Jesus o mandato de continuar a missão que o Pai lhe tinha confiado até o fim dos tempos. Para fazer isso, o Senhor escolheu pessoas humanas bem concretas, pessoas que encontrou e chamou para segui-lo. Significa que para cumprir a missão divina o Espírito Santo se serve de homens e mulheres pecadores e mortais. O que parece um defeito, na realidade, é o maior dom que o Senhor podia fazer à sua Igreja: a possibilidade de envolver todos, santos e pecadores, numa obra maior que todos nós, uma obra que sempre será dele. Por isso, na Igreja tem as ”colunas”, como São Pedro e São Paulo, mas nela estamos também nós,  rosto desta Igreja perto da nossa casa, encarnada neste tempo com todas as graças, mas também as fraquezas que a nossa humanidade sempre carrega.

Não precisamos ir atrás de uma “igreja” imaginária, sem defeitos, com janelas de ouro. Ela não existe. É o sol da fé e do amor que transforma qualquer casa, qualquer pequena ou grande comunidade, numa realidade maravilhosa onde experimentamos as dificuldades do caminho, mas também a alegria e a confiança, a fraternidade e o perdão. Se a nossa Igreja não tivesse nada de humano, nós, que não somos anjos, nunca  poderíamos  conhecer e amar Jesus vivo neste nosso tempo de hoje. Apesar do material ordinário, a nossa casa, quando resplandece o sol, tem janelas de ouro. É sempre a mais bonita porque lá mora a nossa família. A família de Deus.

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