O caderno – Dom Pedro José Conti

O caderno
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Um turista parou numa pequena vila do interior. O pequeno cemitério chamou a sua atenção. Estava limpo e em ordem. Entrou. Grande foi a sua surpresa quando reparou no que estava escrito nas pedras junto aos túmulos. Depois do nome da pessoa leu: 9 anos, 6 meses e 2 dias. Uma criança, pensou. Numa outra pedra leu: 8 anos, 7 meses e 10 dias. Outra criança. Por aquilo que estava escrito, viu que eram só crianças. Ficou muito triste. Que lugar era aquele onde todos morriam tão pequenos? Uma senhora idosa, que também estava por lá, viu a aflição dele e, sorrindo, deu-lhe a explicação do mistério.

– Não fique com medo, senhor – disse ela – por aqui temos um costume antigo. Depois dos 15 anos, os pais dão de presente ao jovem um caderno. A partir daquele momento, todas as vezes que ele, ou ela, vive momentos de intensa felicidade vai anotando no caderno quanto tempo durou aquela alegria. Por exemplo: quando encontrou o amor da sua vida, quanto tempo durou a paixão? Quando se formou, iniciou a trabalhar, constituiu família, nasceu o primeiro filho… Quando fez uma viagem tão sonhada. Por quanto tempo ficou feliz pela alegria de outros? Assim a pessoa vai anotando as horas, os dias em que agradeceu pela vida, quando foi bonito viver. Quando ela morre, os familiares pegam o caderno e fazem a soma de tudo. Para nós este é o tempo que ela viveu verdad eiramente. Foram aqueles os momentos preciosos da sua vida.

Todos conhecem, acredito, a página do evangelho de João que chamamos de “ressurreição de Lázaro”. É o último dos evangelhos que, como lembrei nos domingos passados, os Catecúmenos deviam interiorizar antes do Batismo na noite de Páscoa. De novo, João nos conduz para o conhecimento de Jesus e o compromisso da fé. Dessa vez, o que está em jogo é a própria vida, como um todo, no seu sentido mais importante e profundo. À samaritana, Jesus se apresentou como o Cristo, o ungido, pronto a satisfazer plenamente a sede de amor do coração humano. Ofereceu-lhe uma água viva capaz de acabar com a aridez do egoísmo e da indiferença. Com certeza, só do amor br ota outro amor. A mulher tornou-se testemunha. Ao cego de nascença, após ter-lhe doado a visão dos olhos, ofereceu-lhe a visão da fé, condição insubstituível para acolher aquele homem tão diferente, que ensinava um Deus de perdão e misericórdia. Aquele que já foi cego, enxergou, fez o seu ato de fé e se ajoelhou aos pés de Jesus. Tornou-se adorador do Deus vivo e verdadeiro. À Marta e à Maria, as irmãs de Lázaro, Jesus não devolveu simplesmente o irmão, novamente vivo, mas ofereceu-se a si mesmo como “ressurreição e vida”. O amigo Lázaro saiu do túmulo atado de mãos e pés com os lençóis mortuários. Jesus mandou desatar os laços para que voltasse a caminhar. Vida é caminho, busca, encontro. Morte é laço que prende, fecha, mortifica.

Na simbologia do Batismo, o ainda não cristão é chamado de “homem velho”; é mergulhado na água, como se fosse um túmulo, para que saia dela “homem novo”, liberto das correntes do pecado e da morte. O Batismo é nascer de novo, “da água e do Espírito” (Jo 3,5). Nós não nascemos já cristãos, nos tornamos cristãos. Viemos ao mundo de um jeito que não tivemos a possibilidade de escolher. A vida nos foi dada e cada um carrega o seu fardo de qualidades e defeitos, risos e lágrimas. Não nascemos obras acabadas, somos seres sempre em construção. Aprendemos ao longo do caminho da vida. No entanto, a cada encruzilhada podemos escolher o caminho do bem, da humildade e da doação ou o do interesse, do cálculo, do prazer. Podemos nos abraçar e nos confraternizar com os companheiros da viagem ou disputar e excluir o tempo todo. Podemos partilhar alegrias e fazer os outros felizes. Podemos superar juntos obstáculos e colocar as bases de uma sociedade mais justa e solidária. Ou podemos pensar somente na nossa vantagem, na autopromoção e no lucro. Podemos viver mortos pela insensibilidade ou vivos pela compaixão.  Para o cristão só o amor, dado e recebido, é vida verdadeira, vida plena, que “não morrerá jamais”. Quantos dos nossos anos ficarão contados no Livro da Vida?

  • Cativante o texto de Dom José Pedro Conti,onde aos poucos,junta dois textos,interligadas no problemas humano na sua relação com o tempo em que as pessoas saibam aproveitar o que vivenciaram de felicidade,importante a relação com a face da adolescência…e depois,uma panorama nos exemplo do Evangelho de Cristo,onde ele oferece todo o seu amor…a verdadeira felicidade…captar a essência de Cristo!…nos momento do dia dia de nossa vida…enfim,um texto que se pode interpretar dentro de cada contexto de nossa vida.

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