O incêndio – Dom Pedro José Conti

O incêndio
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

 Tempos atrás, num vilarejo, aconteceu um incêndio. Um rico e um pobre, até aquele dia bons vizinhos, perderam tudo o que tinham. O pobre ficou em paz; ao contrário, o rico caiu no desespero.

– Amigo – disse ele ao outro – Como é possível que você esteja tão tranquilo depois que perdeu tudo no incêndio?

– A mim ficou o meu Deus – respondeu o pobre – o seu queimou junto com a casa!.

Chegamos ao Sexto Domingo do Tempo Pascal. Encontramos mais umas palavras de Jesus aos discípulos na Última Ceia do jeito que o evangelista João as quis nos transmitir. Mais do que palavras de despedidas, são palavras de “presença”. Parece uma contradição, mas não é, porque Jesus nunca nos deixou “órfãos” (Jo 14,18). Ele continua no meio de nós, vivo e ressuscitado, mas de uma forma diferente de quando andou pelos caminhos da Palestina. Somente com o olhar da fé podemos “ver o invisível”, com a gratuidade do amor experimentar a sua presença e com a luz da esperança enfrentar os desafios da construção do Reino.

A principal condição para que a presença de Jesus – e do Pai e do Espírito Santo – não seja uma mera imaginação é a de “guardar” a palavra do Senhor. Isto é tão importante que esta será sempre a missão do “Defensor”, o Espírito Santo. A fidelidade à palavra do Senhor é a primeira garantia da sua presença. Porque nós cristãos, a Comunidade, grande ou pequena, chamada Igreja, não seguimos um “Jesus” imaginário, adaptado às circunstâncias mais ou menos favoráveis, úteis ou vantajosas para nós. Não devemos nos deixar enganar por critérios meramente humanos de quantidade, sucesso, riquezas e poder. Que a Igreja “católica” seja “importante” ou não, que influencie toda a sociedade ou não, é bastan te relativo e nunca pode acontecer à custa do esquecimento ou negação de alguma palavra de Jesus. Vale desde o Papa até o último cristão, porque somente assim “o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada” (Jo 14,23). Jesus disse que os cristãos devem ser “sal da terra e luz do mundo”. Não significa poder, dominação, controle ou algo semelhante, mas serviço amoroso e, sobretudo, consciência crítica dos valores inegociáveis da vida, da dignidade humana, da liberdade, da justiça e da paz. Qual paz?

Mais uma vez o próprio Jesus disse que a paz que ele ia deixar para os seus amigos, não tinha nada a ver com a paz que o mundo também promete. Desde sempre a humanidade fez guerras para organizar “a paz”, mas como resultado do silêncio do medo e da morte. São as duas formas mais antigas de calar quem pensa diferente dos sistemas dominantes. Aconteceu com Jesus. Hoje, porém, corremos o perigo de uma outra paz que usa até o nome de Deus. Acontece quando a Palavra dele, as orações e certas manifestações religiosas, na prática, servem como autoajuda, entorpecem as consciências e nos dão a impressão de nos “sentir bem”. Não significa que a palavra do Evangelho nos deve dar convulsões, tampouco, que deve paralisar a nossa “fome e sede de justiça”, por exemplo. A paz de Jesus vem da certeza de trabalhar por uma causa grand e, justa, capaz de transformar as estruturas excludentes e desumanas da nossa sociedade. Não é um jeito para apaziguar o coração dos chamados “homens de bem”, mas, ao contrário, os questiona se o tão badalado “bem” talvez seja a vantagem ou o lucro somente deles.

Por fim, Jesus diz: “Não se perturbe nem se intimide o vosso coração” (Jo 14,27b). Andar na contramão dos projetos de ganância e de poder, de dominação e violência, gera dúvidas e incertezas. Sempre seremos tentados a ficar omissos, a nos fechar dentro de igrejas e sacristias e a falar só para nós mesmos. São Paulo já escreveu aos cristãos de Roma: “De fato, vós não recebestes espírito de escravos, para recairdes no medo, mas recebeste o Espírito que, por adoção, vos torna filhos, e no qual clamamos “Abbá Pai”! (Rm 8,15). Já queimaram e ainda estão queimando casas e igrejas de cristãos, com as chamas, as calúnias, o desprezo, mas a “paz” de quem tem Deus no coração ninguém tira.

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