Perdi os dez reais

Perdi os dez reais
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Um homem e a sua esposa foram visitar alguns amigos numa cidade longe daquela onde moravam e estes os conduziram ao hipódromo. Fascinados pelas corridas dos cavalos e pelas apostas, os dois começaram a jogar. Fizeram isso a tarde toda e quando voltaram para casa somente lhe restavam 10 reais. No dia seguinte, o marido convenceu a mulher a deixá-lo voltar naquele lugar para tentar de novo a sorte. Dessa vez, apostou num cavalo que estava favorito e ganhou. Depois arriscou com outro cavalo menos conhecido e ganhou de novo. Continuou até a noite e juntou 57 mil reais. Voltou para casa, mas, no caminho, passou na frente de uma casa de jogo e lhe pareceu ouvir a mesma voz que o tinha aconselhado nas apostas dos cavalos e ela lhe dizia para entrar e apostar no número 13. Assim ele fez, apostou tudo naquele número. A rolete girou, girou, e saiu o número 14. Quando chegou em casa, a mulher perguntou: “E aí, como foi?&rd quo;. Ele respondeu: “Perdi os dez reais”.

Cada um de nós é insistente, ou desistente, de seu próprio jeito e em tantas coisas diferentes. Precisamos entender bem em que vale a pena insistir e, ao contrário, em que seja mais conveniente desistir. Por exemplo, desistir de jogar teria sido mais conveniente para os nossos amigos da historinha. No evangelho de Lucas, deste domingo, Jesus ensina a “rezar sempre e nunca desistir”. Ele conta a parábola de uma viúva que abusa da paciência de um juiz corrupto. O juiz, ao final, atende a mulher pelo simples fato de não aguentar mais a cobrança dela. Jesus diz que se o juiz desonesto fez isso, muito mais o Pai bondoso atenderá, com certeza, os escolhidos que “dia e noite gritam por ele”.

Lembramos que o assunto não é qualquer pedido e de qualquer jeito. A viúva está pedindo “justiça” contra adversários e sabemos que, na Bíblia, “órfãos e viúvas” são sinônimos de pessoas sem poder algum, sem nenhuma proteção. Também o evangelho está falando de “pedidos” feito em oração, ou seja, com o coração confiante e aberto para Deus. A questão, portanto, não é simplesmente o pedido em si, mas a insistência dos desamparados dirigida àquele do qual esperam tudo na vida: Deus Pai que ama seus filhos e filhas, sobretudo os pequenos esquecidos e abandonados. Insistir, portanto, pelas palavras de Jesus, não é algo negativo, é a atitude de quem acredita que a resposta virá e não se cansa de pedir. Mas é possível “rez ar” sempre? Nós todos temos obrigações a cumprir, temos responsabilidades familiares, trabalhos e relações humanas a cultivar. Essa é a nossa reação, porque pensamos que “orar” seja enfiar uma reza atrás da outra e, talvez, também fazê-lo numa igreja ou em algum lugar santo. A maioria dos cristãos nunca poderia fazer isso, porém, – e é o que importa – todos podemos fazer da nossa vida uma oração. O trabalho honesto é dar glória a Deus. A vida familiar na fraternidade e na comunhão é louvor a Deus. O respeito pela natureza e a vida de todos os seres é gratidão a Deus. Cada gesto de amor é perfume agradável ao Senhor. É a nossa maneira de viver e de nos relacionar que se torna oração e revela em quem acreditamos realmente.

Se insistimos no consumo e na diversão, se buscamos satisfazer os nossos caprichos a qualquer custo, é fácil saber a quem estamos seguindo. Se desistimos de defender a verdade e a justiça e compactuamos com as mentiras e as falcatruas, também revelamos o que mais nos interessa na vida. Provavelmente preferimos uma vida tranquila, sem os incômodos de quem tem a coragem de denunciar as injustiças e suporta críticas, porque nunca desiste de pensar com a própria cabeça. É sempre mais fácil insistir nas conversas repetidas sem gastar tempo e energias para averiguar, refletir, escutar mais as vítimas que os agressores, os perdedores que os ganhadores, os pequenos mais que os grandes.

No final do evangelho, Jesus nos deixa entender que o único bem sobre o qual vale a pena insistir seja mesmo a fé, entendida como entrega amorosa da nossa vida ao único Deus que merece ser amado e adorado, porque nunca decepciona os seus filhos e filhas. Também quando nós insistimos em desistir dele.

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