Artigo

Se Deus quiser
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Um camponês, após ter trabalhado o dia inteiro no campo, voltou para casa. Disse à mulher:

– Amanhã ao meio dia, com certeza, acabarei de cortar e colher o trigo.

– Deve acrescentar: “Se Deus quiser”, porque sabes que a vontade dos homens não vale nada.

– O marido replicou: – Pode ter certeza, que nem Deus e nem o diabo poderão me impedir de acabar o serviço ao meio dia!

No dia seguinte, de madrugada, o camponês foi para a roça. No caminho cruzou com uma turma de cavaleiros e cortesãs. Era o séquito do rei. Um deles parou o camponês e falou:

– Bom homem, ordeno-lhe nos guiar até àquela montanha, lá no horizonte. O rei deve estar lá antes da noite, e nós não conhecemos o caminho. O agricultor não pôde recusar-se. Conseguiu voltar somente à noite avançada, e bateu na porta de casa.

– Quem é nesta hora? – perguntou a mulher.

– Sou eu, teu marido, se Deus quiser! Abra a porta, se Deus quiser! Porque quero dormir, se Deus quiser! –

Esta história nos mostra o quanto abusamos do “se Deus quiser”. O aluno não estudou, mas acha que, se Deus quiser, ele vai passar na prova. É apostador de loteria confiante que, se Deus quiser, desta vez tirará a sorte grande. Nesta época também, o político acha que Deus vai fazer campanha para ele e que, se Ele quiser, será eleito.

Convido-os a refletir. Em geral, quando usamos essa expressão, subentendemos que aquela seja, evidentemente, a nossa vontade e, portanto, se Deus é nosso amigo, ele deve fazer acontecer o que nós queremos. A prova disso é que, muitas vezes, acrescentamos, convencidos ou não: “e por que Ele não deveria querer?”

Esta maneira de pensar revela as nossas idéias sobre Deus; e vão do Deus “quebra-galho”, que deveria resolver as nossas dificuldades nos libertando das relativas responsabilidades, ao Deus “trapalhão”, que não acerta uma a nosso favor ou que, maldosamente, atrapalha a nossa tranqüilidade, os nossos planos e afetos. Nesse sentido todos precisamos refletir mais sobre o que entendemos e acreditamos a respeito da vontade de Deus! Só assim a nossa oração ganha sentido, confiança e compromisso. Com efeito, para podermos rezar o Pai-Nosso de coração sincero como Jesus ensinou, precisamos acertar algumas coisas.

A primeira é que Deus quer nos dar coisas boas. A comparação de Jesus é com um pai que, apesar de ser limitado e até mau, procura dar aos seus filhos o melhor possível. Nada de intragável, como cobras ou escorpiões. Somente peixes e ovos. Tudo bem comestível. A segunda sugestão de Jesus é que tenhamos a paciência de insistir. Não para cansar a generosidade de Deus, a princípio inesgotável, mas para manifestar, como o amigo importuno que pede de noite, a grande necessidade do que estamos exigindo. Se fôssemos desistir logo revelaríamos o pouco valor dado ao nosso pedido. Por que Deus deveria nos dar algo que, afinal, nem nós queremos? O exemplo que o próprio Jesus faz é nada menos que o pedido do Espírito Santo. Reclamamos de muitas coisas das quais sentim os falta, como saúde e dinheiro, mas raramente invocamos a luz e a força do Espírito Santo.

Deixei por último a oração do Pai-Nosso. A oração que Jesus ensinou. Ali estão somente quatro pedidos. O primeiro dá sentido e valor a todos os outros. Tudo o que pedimos e fazemos é para que “venha o reino” do Pai, não o nosso poder, ou o sucesso individual. É para todos que pedimos o pão necessário de cada dia, o perdão dos pecados e a libertação das tentações. Pão, perdão e libertação, tudo é dito “nosso” porque assim é o Reino do Pai. Um reino de todos os irmãos solidários, de todos os amigos incapazes de ofender e prontos a perdoar as ofensas dos outros; de todas as forças unidas na luta contra a mentira e a ilusão dos ídolos deste mundo. Se ainda temos famintos é porque pedimos o pão somente para nós. Se ainda temos inimigos com qu em disputar é porque pedimos sorte, sucesso e vantagens somente para nós. Se ainda sacrificamos vidas aos ídolos do lucro e do poder é porque queremos o nosso reino, pessoal, não, com certeza, o Reino de Deus.

Agora sabemos o que Deus quer e o que Jesus ensinou a pedir: o Reino de Deus. É dele, sim, mas é o único reino que também é verdadeiramente nosso, porque é de todos os filhos do único Pai, sem famintos e miseráveis, sem excluídos e sem escravos. Um Reino sem divisões, sem inimigos, sem ódio, sem disputas, porque é o Reino da fraternidade, da justiça e da paz. É este Reino que devemos pedir com insistência, sem nunca desistir; é este Reino que Deus quer.

E por que Ele não deveria querer?

  • Maravilhosa a reflexão!!!!Agradeço suas palavras,ajudam-me a fortalecer a minha fé!!Estou morando um pouquinho longe dessa linda cidade da Amazônia(estou na França).Mas antes de partir,fazia as minhas orações sempre com esse proposito de respeitar a vontade de Deus. E se DEUS QUISER terei forças para suportar a saudade da minha familia.Não falo ainda muito o francês,mas aos domingos estou eu la na missa “francesa”.

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