Artigo dominical

Generosidade e gratidão
Dom Pedro José Conti, bispo de Macapá

Certa vez houve uma festa no céu. Foram convidadas todas as virtudes. Muitas compareceram; pequenas e grandes. Essas últimas eram particularmente amáveis, porque quem é verdadeiramente grande não conhece nem a inveja e nem o ciúme. Todas eram felizes e conversavam amigavelmente entre si, justamente como nas ocasiões em que nos encontramos entre parentes e amigos. De repente, o Todo-Poderoso percebeu que duas senhoras muito bonitas pareciam não conhecer-se. Tomou a iniciativa. Pegou uma pela mão e a conduziu junto à outra. – Eis aqui a Generosidade – falou para uma e, em seguida, apresentando a outra disse: – Eis a Gratidão -. As duas virtudes ficaram se olhando sem palavras: desde a criação do mundo, época já bastante remota, era a primeira vez que se encontravam.

Mais uma historinha para dizer que, na maioria dos casos, a generosidade e a gratidão não andam juntas. Às vezes há muita generosidade e pouca gratidão. Outras vezes a gratidão não aparece por falta mesmo de generosidade. Em geral é difícil ser generosos e também agradecer, reconhecendo o dom recebido. Sem contar aquelas outras vezes que, apesar do que é dado e recebido, ainda há reclamação e insatisfação. Parece que o coração humano encontra dificuldade para ser generoso e mais ainda para agradecer.

Esquecemos a palavra “obrigado”. Os filhos com os pais; e os pais com os filhos nas coisas mais simples da convivência diária. Se pensarmos que tudo nos é devido e que, afinal, os outros têm a obrigação de nos atender – adultos ou crianças – sempre menos saberemos agradecer por um pequeno favor, por uma gentileza, por um gesto de ajuda. É mais fácil mandar que pedir; portanto por que agradecer? Mais ainda, se estamos colocando dinheiro em casa, se somos nós o sustento de tudo ou quase, os outros é que nos deveriam agradecer, reconhecer o nosso esforço. Assim os “provedores” da casa não praticam a generosidade com os outros membros da família e, às vezes, jogam-lhes na cara o fato que, senão fossem eles, estariam na miséria. Como exercer a gratidão se também não há generosidade do outro lado? Como os filhos aprenderão a agradecer se os pais não os educam e não lhes mostram a beleza e a grandeza da generosidade e da gratidão?

Também com Jesus aconteceu que, dos dez leprosos curados, só um entendeu que deveria voltar para dar glória a Deus e agradecer àquele Mestre Jesus que o havia curado. E os outros? Com certeza foram apresentar-se aos sacerdotes para serem reintegrados à sociedade, mas não tiveram a iniciativa de manifestar  sua gratidão a Jesus.

Essa falta de atitude vale também para todos nós. Quantos dons e quantos favores recebemos dos outros e não lembramos de agradecer? Vivemos numa sociedade onde parece que tudo pode ser comprado. Se estamos pagando ou se estamos usando de um serviço público remunerado por que deveríamos agradecer? Ninguém está fazendo nada de graça.

Estamos certos e errados ao mesmo tempo. Nós pagamos, sim, o serviço, mas não o sorriso de quem nos atende. Pagamos o trabalho da pessoa, mas não a gentileza dela. Isso é tão evidente que, muitas vezes, preferimos ser atendidos por um funcionário e não por outro pelo simples jeito educado e gentil da pessoa. A grosseria e o desinteresse acabam escondendo a competência. No entanto um aperto de mão, um olhar e um escutar atenciosos enaltecem qualquer serviço por mais simples e humilde que seja. Digo isso por mim mesmo. Várias vezes, as pessoas reclamaram comigo porque eu as atendia “caminhando”. Tive que aprender a dar tempo e atenção às pessoas. Nem sempre consigo, mas, garanto, basta pouco.

A gratidão é a resposta espontânea e alegre de quem se sente acolhido e valorizado. Assim como a verdadeira generosidade só pode ser o resultado do amor, também a gratidão deve brotar livremente como um dos nossos melhores sentimentos. Contudo devemos nos educar a olhar além do que nos é devido por obrigação e aprender a enxergar a longanimidade das pessoas que encontramos na vida. Generosidade e gratidão juntas aquecem os nossos relacionamentos e fazem de nós pequenos sinais do Deus-Amor, que sempre se doa sem pedir nada em troca, a não ser, também, amor para com o nosso próximo.

Nos dias do Círio usemos mais a palavra “obrigado”, na nossa família, no trabalho, na rua, na igreja. Unidos digamos também muito obrigado a Nossa Senhora, a pobre e pequena mulher de Nazaré, que todas as gerações chamam de bem-aventurada. Ela recebeu o maior dom que uma mulher podia recebe: ser a mãe do Salvador. E doou o seu Filho a todos. Gratidão e generosidade juntas. Muito obrigado Maria!

  • “Quem é verdadeiramente grande não conhece nem a inveja e nem o ciúme”. E por falar em gratidãi, obrigada D. Pedro por tão sábias palavras.

  • Deus ama um coraçao agradecido.Por causa da gratidao de Noé logo na descida da arca.Deus fez uma aliança com toda a humanidade.Esta virtude sao infelizmente de poucos.

  • Olá Alcinéa, gostaria de pedir sua permissão para assinar meus comentários com o nome do meu blog, uma tentativa de aumentar meus acessos, que andam baixos. Meu blog não tem fins lucrativos, não quero parecer uma aproveitadora, mas fique a vontade para analisar meu pedido. Abraço, Beth.

  • Mensagem repleta de significados. Cada um de nós tem sido muito generoso -consigo mesmo. Temos dificuldades até de lançar um simples olhar sobre o próximo. E não temos interesse em ler matérias comportamentais, as coisas valiosas do espírito, que nos fazem crescer como seres muito humanos -que deveríamos ser. Muito menos um mínimo de generosidade para praticar a fraternidade. O homem evolui na tecnologia, mas muitas vezes temos modos tão primitivos, como se tivéssemos nascido agora e não conhecÊssemos a vida em sociedade . Cadê o amor? E cadê as centenas de comentários que essa matéria deveria ter?

  • Infelizmente, de fato, existem pessoas que se dizem “esclarecidas” que propalam a ideia de que as coisas só valem a pena se tem valor financeiro. “Se conselho fosse bom, a gente não dava, vendia!”, repetem esse ditado idiota como se não se pudesse sair nada de dentro do ser humano que visasse apenas o bem-estar do próximo, que visasse apenas uma palavra de carinho, que visasse apenas uma tentativa de recolocar no caminho do bem aquele que caminha pelas trevas. Na verdade, as coisas que verdadeiramente saem do nosso coração não têm valor financeiro nenhum, o pagamento que esperamos é tão somente a melhoria da vida do próximo. Ser generoso é ser eternamente solidário com os outros; nem sempre receberemos a gratidão por agirmos assim, mas o nosso coração estará em constante paz por termos feito a nossa parte.

  • Bela mensagem. Obrigada por nos fazer lembrar esta lição. Que seu Círio tenha sido de muita fé e paz.
    Um grande Abraço da amiga Norminha, que viveu hoje, seu primeiro Círio,desde de que nasci, sem minha maior amiga. Mas sou grata a Deus, mesmo sem tê-la hoje, aqui,por ter me permitido ter sido sua filha por 80 anos. Por ter tido o privilégio de ter aprendido tantas lições maravilhosas.
    Bjs.

  • Muito bem lembrado…estamos precisando ter mais generosidade e agradecer a todo momento pelas dádivas que recebemos aos montes.

  • Esta angelical mensagem me faz relembrar do nosso eterno bispo Dom Aristide. Um pastor assim apascenta quaisquer rebanhos. Bela lição.

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