Artigo dominical

Loucura ou felicidade?

Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

O pássaro prisioneiro na gaiola e o pássaro livre da mata se amavam.
– Meu amor, vamos fugir para a floresta! – dizia o pássaro livre.
– Vem aqui, vamos viver juntos na gaiola! – respondia o pássaro prisioneiro.
– No teu espaço fechado não tem como abrir as asas – queixava-se o primeiro.
– Nos teus céus abertos não tem lugar para descansar – retrucava o outro.
O pássaro livre implorava: – Vou cantar-te os cantos das arvores e dos ventos.

Resignado o pássaro prisioneiro suspirava e dizia: – Infelizmente os cantos da floresta não podem ser ensinados, mas, se tu ficares aqui, posso ensinar-te a linguagem dos estudiosos.

Mas o pássaro livre não estava interessado na linguagem dos estudiosos e nem o pássaro prisioneiro podia entender os cantos da floresta. Ficaram assim, um bom tempo, tristes e calados, olhando-se um para o outro pela última vez, até que o pássaro livre tomou para sempre o caminho da mata.

Esse diálogo entre os dois pássaro nasceu de uma idéia do poeta Tagore. Pode nos ajudar a entender o que acontece com a nossa vida e, espero, um pouco também o evangelho deste domingo, no qual ficamos sabendo sobre o chamado dos primeiros apóstolos. Por exemplo, o ambiente familiar onde fomos criados e, portanto, passamos bastantes anos da nossa vida marca, para sempre, a nossa existência. Fica-nos difícil perder certos costumes e, se depois conhecemos outros, acabamos estranhando-os como se fossem esquisitos e até engraçados. Podemos chamar isso de educação, de cultura, mas o resultado é o mesmo: precisamos fazer um pequeno, ou grande, esforço mental para aceitar formas diferentes de viver.

Algo semelhante acontece com as vocações. Acabamos nos identificando com a nossa “profissão” ou situação de vida. Tudo, ou quase, é condicionado por ela: horários, vida familiar, linguagem, amizades, gostos. Quem não pertence ao ambiente não entende as gírias, as piadas, as referências às pessoas e aos fatos. O que é comum e corriqueiro para quem é do ambiente fica estranho para quem vem de fora. Em todo caso, não é tão simples entender o jeito dos outros quando mudamos de lugar, de cidade, de país.

O que pensar daqueles primeiros pescadores que Jesus chamou a deixar os barcos, as famílias, a beira do lago, os seus próprios projetos de vida, para tornarem-se “pescadores de homens”? Ficaram mais livres ou entraram na pior prisão – como muitos ainda pensam? Evidentemente cada um pode pensar o que achar melhor, mas é bom  lembrar que talvez esteja julgando a partir do seu próprio ambiente, da sua cultura e, porque não, da sua maneira de viver – ou não viver – a fé. Muitas vezes pretendemos julgar o que não conhecemos e nunca experimentamos.

Cada vez mais percebo que quando um jovem decide-se para a vida religiosa, sacerdotal ou missionária, é visto pelos outros como alguém diferente. Alguns chegam a perguntar-se se é “normal”, se bate bem da cabeça ou se está exagerando. Não seria suficiente um pouco mais de compromisso com a Igreja? Por que deixar tudo?  Por que Jesus parece ser tão exigente?

Difícil responder e mais ainda convencer quem não acredita ser possível ouvir, ainda hoje, a voz do Senhor que chama. Também há quem pense que confiar na Igreja seja arriscar demais e que é inevitável se arrepender mais tarde.

Faz parte, porém, do ser humano enfrentar desafios e tentar seguir um chamado. Todos, um dia, ouvimos um canto que nos fascinou. Somente nós o ouvíamos e sabíamos aonde iria nos conduzir. Muitos tentaram nos desencorajar, apresentando dificuldades e obstáculos, mas fomos em frente e, para muitos, aquela foi a escolha que deu sentido e alegria à sua vida. Trilhamos diferentes caminhos. Alguns mais ousados, outros mais prudentes. Todos em busca da felicidade.

Muitas vezes o que parece prisão para um, é liberdade para o outro e vice-versa. O que vale é seguir o canto que atrai, a palavra que convence, o sonho que inquieta.

Para os primeiros apóstolos foi decisivo o chamado de Jesus. Por sua causa quase todos entregaram as suas vidas até a morte. Foi prisão ou liberdade? Engano ou amor? Loucura ou felicidade? Cada um responda como puder.

  • Adorei o texto! é realmente para reflexão, as vezes achamos que somos livres. E vivemos em grande cárcere, idealizados por nós mesmo.
    E como já dizia uma velha mestra minha: Escolhas tem consequência…bybyb

  • Que beleza de texto! Serve pra todas as pessoas, de todas as idades,de todas as culturas. Fala de escolhas, de se pagar um preço por elas. Tem um tom terapeutico,lindo mesmo.

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