Artigo dominical

Santa por sorteio
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Celebraremos, neste mês, em Macapá, os cinqüenta anos de existência do Colégio Santa Bartolomea, que pertence à Congregação das Irmãs de Caridade das santas Bartolomea Capitanio e Vicença Gerosa, mais conhecidas como Irmãs de Maria Menina. Por esse motivo, achei por bem, no domingo da Solenidade de Todos os Santos, lembrar um pouco da vida e da espiritualidade de Santa Bartolomea, uma santa que, apesar da distância no tempo, ainda continua a inspirar a vida de tantas religiosas, tantos jovens e, espero, também de tantos cristãos e cristãs. Afinal os santos e as santas são propostos pela Igreja como exemplo a serem imitados por nós, por terem tomado a sério o seguimento de Jesus e o escolheram, para valer, como único Mestre e Senhor de suas vidas. 

Santa Bartolomea é conhecida por um episódio curioso: um sorteio. Conta a anedota que a Irmã professora das crianças na escola das monjas de Santa Clara, certo dia, quis fazer uma brincadeira com a melhor das intenções, claro. Madre Parpani, esse era o nome da freira, perguntou às meninas quem delas queria ser santa. Uma pergunta difícil demais para as crianças que, com certeza, não podiam ter plena consciência do seu sentido. Contudo todas levantaram a mão e gritaram: – Eu, eu, eu! – cheias de entusiasmo e alegria. Como combinado, porém, a questão não seria resolvida aos gritos, mas com um sorteio. A Irmã segurava um molho de palhetas. Cada criança devia escolher uma delas. Quem tirasse a palheta mais comprida havia de tornar-se santa antes de todas as outras. A história diz que foi justamente Bartolomea quem tirou a palheta mais comprida. Sinal de Deus, ou não, com a pequena consciente, ou não, Padre Angelo Bosio, confessor de Bartolomea, declarou que ela “prorrompeu num copiosíssimo pranto de alegria, ficou com o rosto em fogo, de tal modo que demonstrou publicamente que estava contentíssima”. Pouco sabemos dos sonhos e projetos de vida da pequena Bartolomea daqueles dias, no entanto, mais tarde, já adulta, ela mesma podia confirmar o seu grande desejo de ser santa. Escreveu: “Proponho fazer-me santa, uma grande santa, rapidamente santa”. Ela elaborou para si e para quem quisesse segui-la um caminho de santidade, um conjunto de coisas a fazer – e outras a ser deixadas – uma regra de vida rigorosa e exemplar. Santa Bartolomea morreu de tuberculose aos 26 anos, no dia 26 de julho de 1833. Apesar da sua curta vida, deixou um exemplo extraordinário de caridade com as crianças, os pobres e os doentes. A família religiosa que ela começou, junto com Santa Vicença Gerosa, continua ainda hoje comprometida com a educação e com todas as diversas formas da caridade cristã.

Sem dúvidas vivemos outros tempos. Se hoje, por acaso, uma irmã ou uma catequista fizessem semelhante sorteio – quem sabe um bingo com cartela cheia – muito provavelmente seriam mal entendidas ou acusadas de pressionar e sugestionar as crianças com idéias impróprias para a sua idade. De fato, conforme a nossa maneira de falar, os santos e as santas podem parecer às crianças de hoje não muito diferentes de tantos seres extraterrestres, de tantos desenhos animados que preenchem a imaginação delas. Talvez, heróis do bem, mas não muito mais do que isto. O pior é que talvez nós adultos pensamos o mesmo. A santidade nos parece cada vez mais impossível ou algo que não nos diz respeito. 

Contudo acontece hoje também que, ao menos algumas vezes, não podemos deixar de admirar pessoas que são exemplares por sua vida, dedicação, heroísmo e generosidade. Existem os famosos, como o Papa João Paulo II, que no dia do seu enterro o povo gritava: “Santo já!”. Mas existem os desconhecidos – muitas vezes bem perto de nós – que entregam as suas vidas às suas famílias, a uma missão, ao serviço de algum doente ou a uma pessoa com deficiência.  Para nós cristãos não deveria ser necessário lembrar as palavras do Concílio Vaticano II sobre a “vocação universal à santidade”. Um bom cristão não deveria se conformar com a mediocridade; deveria querer progredir na vida, naquelas virtudes que fazem feliz qualquer pessoa e agradecidos todos os que encontram esses homens e mulheres “virtuosos”. Precisamos, hoje, de santos e santa de vidas comuns, mas exemplares, na família, na profissão, na vida cristã. Santidade não é fanatismo religioso. Santidade é ter idéias claras sobre o sentido da própria vida, como vivê-la e como gastá-la, não para um sucesso passageiro e volúvel, mas para o bem, a paz e a justiça. Santidade é decidir, uma vez por todas, seguir a Jesus Cristo, confiando mais nele do que nas nossas forças. Enfim, um amor que dê “gosto” à nossa vida. Como escreveu Santa Bartolomea:“…gosto demais daquela bendita caridade com o próximo!”.  E assim viveu.                               

  • Os santos foram criados para que os fieis seguissem seus exemplos de santidade, caridade e castidade. Não sei por que cargas d’água, a devoção foi adulterada. Agora só se lembram dos santos para pedir alguma coisa. Até pra vencer campeonatos têm devotos pedindo ajuda dos santos. Sacanagem!

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