Artigo dominical

A Sombra
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Muito tempo atrás viveu um homem que parecia verdadeiramente capaz de amar e perdoar a todos aqueles que encontrava. Por isso, Deus enviou um anjo para falar com ele.

– Deus me pediu para visitar-te e para dizer-te que quer premiar a tua bondade – disse o anjo – quer te dar um presente. Queres o dom da cura?

– Com certeza, não – respondeu o homem – Prefiro que seja Deus a escolher quem deve ficar curado.

– Queres ter o dom de reconduzir os pecadores no caminho certo?

– Este é um serviço para anjos. Não quero ser reverenciado por todos ou servir de exemplo permanente.

– Desculpa-me, amigo – insistiu o anjo – mas não posso voltar para o céu sem deixar-te um presente. Ou tu escolhes ou eu tenho que escolher para ti!

O homem refletiu um momento, e depois disse:

– Gostaria de fazer o bem, mas sem que ninguém perceba que fui eu: assim não cometerei o pecado da vaidade.

O anjo abençoou a sombra dele e lhe deu o poder da cura. Dessa maneira, onde o homem fosse os doentes ficariam curados, a terra produziria os seus frutos e as pessoas tristes reencontrariam a felicidade. O homem viajou por muitos países, espalhando milagres em todo lugar, mas sem perceber, porque a sua sombra estava atrás dele. Assim, conseguiu viver e morrer sem conhecer a sua santidade.

Neste domingo, o evangelho nos fala do chamado dos primeiro discípulos a deixar os barcos e as redes de pesca para se tornarem “pescadores de homens”. Quando escuto essa página, sinto-me obrigado a pensar um pouco, também, na minha própria vida. Afinal, eu não deveria ser “pescador de gente”? Será que estou conseguindo? Imediatamente penso em tantos outros padres, sobretudo naqueles que, por sua vez, pescaram-me e me permitiram chegar a esta missão. Com isso, quero dizer que ajudar as pessoas a encontrar e a conhecer Jesus Cristo é um grande bem que podemos fazer. É uma grande caridade, como ensina o papa Bento XVI.

Infelizmente, hoje, poucos pensam assim. Parece que gastar a própria vida para evangelizar seja tempo perdido, quase um jogar fora a própria vida. O padre não pode e nem deve ficar rico, renuncia a ter uma família, não faz nenhuma carreira. Ser bispo não é “carreira”, é mais responsabilidades e preocupações! Muito trabalho, sacrifícios, cobranças o esperam.  Satisfações e sucessos não estão garantidos por contrato.  A vida do padre parece solitária, tão diferente e, para alguns, esquisita.  É sempre legítimo para um jovem ter dúvidas a respeito da própria vocação religiosa ou sacerdotal, mas hoje a sociedade não ajuda muito, para não dizer que desencoraja. Tudo parece tão mutável, incerto, inseguro, que se comprometer com uma vida inteira a serviço do povo de Deus, da evangelização, das comunidades, do povo mais pobre passa, no mínimo, por uma loucura. Com certeza ser padre não é uma “profissão” como as outras, não é para ambiciosos, menos ainda, um atalho para uma vida cômoda e sossegada. Pode ser que alguns pensem que deveria ser assim, no entanto estão equivocados ou trocaram o Evangelho por suas próprias idéias ou projetos pessoais. Os escândalos de quem erra também não ajudam a decidir-se para a vida sacerdotal celibatária. Está difícil arriscar, não adianta esconder.

Jesus, porém, continua passando e continua chamando. Primeiro convida a dar atenção ao Reino de Deus que, diz ele, já está presente, já começou a se realizar. Depois convida a fazer parte deste Reino e a chamar outros para ajudar na missão. É sempre Ele, o Senhor que chama. Por isso, a vocação e a relativa resposta sempre serão um desafio, um caminhar numa direção diferente, um deixar pai, mãe, barco, empregados e muito mais coisas para seguir Jesus.

Com certeza, ainda hoje, bastante jovens querem dar um sentido bonito à própria vida, querem sentir-se úteis lutando do lado certo, para a vitória do bem, da verdade e da justiça. No entanto, duvidam que a vida de um padre, doada a serviço do Reino, onde Deus e o seu amor estejam em primeiro lugar, seja assim. Não querem compactuar com as injustiças e a corrupção, mesmo se, às vezes, estas oferecem uma vida cômoda e de fácil enriquecimento. Faltando comodidade e dinheiro, duvidam que o padre consiga ter uma vida feliz.

A esta altura, não posso e nem quero dizer que a vida de todo padre, incluindo a minha, seja sempre um mar de bem espalhado por aí. Somos humanos, frágeis e pecadores como todos. Mas não tenho dúvida de que a nossa “sombra” faça muito bem. Quando pregamos uma Palavra, que não é nossa, ela produz fruto. Quando administramos sacramentos, que não são nossos, a bondade do Senhor perdoa, alimenta, liberta, conforta e salva. O Senhor precisa de corpos – vidas doadas a serviço do Reino – para que, ao menos as suas sombras, façam milagres. Assim os padres fogem da vaidade, mas podem acertar o caminho da santidade.

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