Artigo dominical

A Balança Adulterada

Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Um comerciante vendia vários tipos de farinha, de arroz e de milho. A toda hora estava pesando alguma mercadoria. Assim achou por bem dar uma ajeitadinha ao fiel da balança, para que sempre marcasse cinqüenta gramas a mais. Pouca coisa; tão insignificante que ninguém percebia. Ano após ano esta pequena quantia, roubada, engordou o cofre do comerciante. Um detalhe: ele era muito guloso e acabou ficando obeso, além da conta. Um dia o diabo o visitou. Sem muitas voltas disse ao homem:
– Compadre eu sei muito bem quem você é. Já trabalhou muito para mim neste mundo. Quero que descanse no outro. Daqui a um mês vai morrer, quero que você vá para o paraíso. Mas, para que isso aconteça, precisa que faça ao menos um gesto de boa vontade. Quanto você pesa agora? Cento e cinqüenta quilos? Pois bem, em um mês deve pesar, ao menos, um grama abaixo dos cem quilos.
– O comerciante achou extraordinária a generosidade do demônio e começou imediatamente a fazer de tudo para emagrecer. Caminhou quilômetros, subiu e desceu milhões de degraus, levantou pesos, jejuou rigorosamente, até que no trigésimo dia pesava dez gramas abaixo dos cem quilos. Chamado no outro mundo se apresentou abatido e cansado, mas triunfante.
– Consegui – gritou ao diabo. Subiu na balança para conferir.
– Você pesa exatamente cem quilos e quarenta gramas – afirmou Satanás. O homem empalideceu e perguntou gaguejando:
– Com, com qual balança você me pesou?
– Com a sua, obviamente – respondeu o demônio – Você não estava lembrado?
Imediatamente o homem lembrou, tantos anos se passaram. Ele havia esquecido, mas Satanás não.
Chegando aos últimos domingos do ano litúrgico encontramos sempre leituras que nos falam do fim dos tempos e, por conseqüência, também do fim de nossa vida. Ter consciência de que somos peregrinos sobre esta terra, e que esta não é a nossa morada definitiva pode nos dar medo. Contudo é um medo salutar, de quem sabe que não é verdadeiro dono de nada e que tudo terá um fim. Significa lembrar, mais uma vez, que devemos fazer bom uso dos dons que recebemos: a vida, o tempo e as coisas.
É por isso que na confusão atual das idéias, na espera do nosso dia e bem conscientes de que tudo passa, devemos nos perguntar se existe algo que permanece. Existe uma certeza neste universo que não pára? Há algo ou alguém que não seja tão passageiro como nós?
Jesus disse: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão.” Isso não diz respeito só as palavras dele guardadas nas Escrituras, diz sobretudo àquilo que Jesus fez e ensinou. Palavras e gestos de esperança, de perdão, de amor, de vida nova. Ou se preferirmos, significa que somente quem confiar nas palavras de Jesus está construindo sobre a rocha, sobre a Verdade que é Ele. O resto: bens, sucessos, poderes, disputas e ideologias vão passar com o vento da história humana.
Por que não buscar nas palavras de Jesus o sentido da nossa vida? Por que não confiar naquilo que ele ensinou com o seu próprio exemplo? O medo de errar tudo é um medo salutar, quando buscamos uma saída. A consciência das nossas limitações é coisa boa, para não desperdiçarmos o que somos chamados a administrar.
Não estamos vivendo simplesmente num planeta qualquer, numa galáxia qualquer, por um instante qualquer num universo de bilhões e bilhões de anos. Existimos porque uma Palavra de amor nos chamou à vida, deu-nos condições e capacidades para decidir e organizar este mundo. Esta Palavra se fez um de nós. Ensinou-nos a viver e a morrer. Ensinou-nos a amar e a servir. Nós passamos, mas para quem acredita nela, esta Palavra de Vida não vai passar, porque já venceu aquela que para nós, eternos incrédulos, parece ser a última e definitiva palavra: a morte. Ele é a Vida para sempre. Esta sempre será a melhor notícia: a Vida que vence a Morte; a ressurreição de Jesus.
Se o nosso amigo da historinha tivesse sido honesto ou adulterado a balança para menos e não para mais, com certeza não teria ficado rico, mas após tantos anos, a lembrar do bem que podia ter feito, teria sido Jesus a avaliá-lo e não o satanás. Melhor ser pesados pelo bem que fizemos e não pelo mal. Também Deus, que seja sempre bendito, não esquece.

  • Ótimo texto.Eu só espero que a minha balança não esteja desregulada pelo tempo e que Deus se compadeça de mim.
    Vc conhece o texto de Mark Twain sobre a orelha do monge?

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