Chá das cinco

Participação
Alcy Araújo Cavalcante

Estou convosco.
Participo dos vossos anseios coletivos.
Vim unir meu grito de protesto
ao suor dos que suaram
nos campos e nas fábricas.

Aqui estou
para juntar minha boca
às vossas bocas no clamor pelo pão
sancionar com este rumor que vai crescendo
a petição de liberdade.

Estou convosco.
Para unir meu sangue ao sangue
dos que tombaram
na luta contra a fome e a injustiça
foram vilipendiados em sua glória
de mártires
de heróis.

Vim de longe
percorrendo desesperos.
Das docas agitadas de Hamburgo
das plantações de banana da Guatemala
dos seringais quentes do Haiti.
Vim do cais angustiado de Belém
dos poços de petróleo do Kuwait
das minas de salitre do Chile
Passei fome nos arrozais da China
nos canaviais de Cuba
entre as vacas sagradas da Índia
ouvindo música de jazz no Harlem.
Afundei nas geladas estepes russas.
morri ontem no Canal da Mancha
e hoje no de Suez.
Tombei nas margens do Reno
e nas areias do Saara
lutando pela vossa liberdade
pelo vosso direito de dizer
e de amar.

Estou convosco.
Voluntariamente aumento o efetivo
dos que não se conformam
em viver de joelhos
morrendo sufocando lágrimas
nas frentes de batalha
nas prisões
para dar à criança recém-parida
o riso negado aos vossos pais
o pão que falta em vossas mesas.

Meu filho
e o filho do meu filho
saberão que o meu poema não se omitiu
quando vossas vozes fenderem o silêncio
e ecoarem inutilmente nos ouvidos de Deus.

(Do livro Poemas do Homem do Cais, do poeta Alcy Araújo Cavalcante, meu pai, lançado no Rio de Janeiro em 1983)

  • Alcinéa, seu pai foi e é um dos melhores no campo das letras, em minha opinião. Parabéns por preservar a memória dele. Queria deixar um poema para você, aí vai. Um abraço, Beth.

    A cara do Amapá (que o seu voto pode mudar)

    O que trazes n’alma, Amapá,

    além de tua rara beleza?

    O que se vê do visor

    do baluarte da Fortaleza?

    O Amapá é o funcionário público

    ou o desocupado funcional?

    É o que consulta em clínica do Sul

    ou o que pena no Hospital Geral?

    É o corrupto de terno e gravata

    ou o que leva gravata do policial?

    É o que coleciona jaguar turbinado

    ou o que se espreme num ônibus lotado?

    É o que embucha na farinha

    ou quem seca na lipoaspiração?

    São os “escolhidos” no ar condicionado

    ou os excluídos na insolação?

    É o que dança em Dubai

    ou o que dança nessa contradição?

    É o “bom” que tem que continuar?

    Ou virá um novo revolucionar?

    Amapá para todos

    que construiremos, nós mesmos?

    Ou Amapá para poucos, assim,

    a esmo?

  • que belas palavras,foi o primeiro contato com a net!que privilegio meu!muito bom saber que tivemos entre nós pessoas tão inteligente como seu pai!sabe lendo, este poema,tive a impressão de ser um autor de outro estado ,depois quando li a autoria,tive certeza essa é de macapá!um grande abrç minha conterrânea e amiga!e continue ajudando os macapaense a ter sempre informação com qualidade, respeitando as opiniões diversas!bom trabalho e ou lazer!

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