O meu guru

“Preciso de um guru. De um sábio que me guie quando o coração falhar ante o universo das dúvidas e a condição humana soçobrar nos vagalhões das ondas. De um sábio que esclareça meus mistérios…” (Nélida Piñon)

Uso este trecho de uma crônica da Nélida Piñon porque hoje (e isso não é raro) estou com saudade do meu guru. Nélida está à procura de um guru. Eu já tive um.

Negro, alto, forte, riso gostoso, olhar penetrante, fala mansa e cinco anos mais velho que meu pai. Era assim o meu guru.

Tinha a capacidade de decifrar minha alma, ler meus pensamentos, me fazer rir quando estava prestes a chorar e me indicar caminhos e atalhos quando eu estava perdida e sem prumo.
Meu guru sempre me recebeu de braços abertos e com um largo sorriso no pátio de sua casa, onde passávamos horas conversando sem nem te ligo para o resto do mundo. Eu tinha a impressão que ele sempre estava à minha espera e isso me envaidecia.

Em algumas datas, que ele adivinhava serem especiais para mim, antes de me desejar bom dia ou boa tarde, ia logo dizendo: “Eu sabia que tu vinhas hoje.” E caía na gargalhada. Era uma gargalhada tão marota e tão gostosa que parecia que o mundo inteiro estava rindo com ele.

Ele me contava histórias e estórias. Ah, como eu gostava de ouvi-lo falar das peripécias do meu pai nos bairros boêmios da Pedreira e do Telégrafo, em Belém, e o início do namoro do meu pai com a minha mãe.

Meu guru me contava coisas que aconteceram nesta latitude zero quando eu ainda “nem sonhava em nascer”, me falava de política, de futebol, do cotidiano de gente importante e de gente simples desta terra. Tecia suas narrativas com a mesma habilidade com que confeccionava os ternos das autoridades locais e o fardamento da Guarda Territorial.

Meu guru decifrava meus enigmas, desvendava os segredos do meu coração, lia minha alma e meus pensamentos como se estes fossem um manuscrito exposto ali naquele pátio.
Certa tarde estávamos em silêncio, olhando o movimento da esquina (olhando é um modo de dizer, pois eu não via nada), de repente, com voz serena e paternal, ele me surpreende:
– Escuta, quando tu vais resolver isso?
– Isso o que?
Perguntei
– Ora, o que? Isso mesmo que estás pensando.
Dei um sorriso amarelo e desviei o olhar. Sim. Ele sabia, tenho certeza, o que eu estava pensando naquele momento em que fingia olhar para a rua.
Como fiquei quieta ele não insistiu. Passados mais alguns minutos de silêncio, ele murmurou: “Ah, esses jovens! Vocês são muito cabeça-dura” e deu uma gargalhada e disse: “Vamos mudar de assunto”. Como mudar de assunto se não estávamos conversando absolutamente nada? Acontece que o silêncio era também uma forma de diálogo, pois para ele meus pensamentos, meu coração, minha alma, eram como um diário que eu tivesse esquecido aberto no portão daquela casa. Meu guru conhecia segredos meus que nem eu conhecia, me ajudava a entender sentimentos, o mundo, a projetar o futuro, a fazer a sementeira correta para colher o bom fruto.

Pois bem, “mudamos de assunto”. Ele passou a me contar como conhecera sua amada, a pequena e cheirosa Joana, com quem estava casado há várias décadas e tinham oito maravilhosos filhos. Um casamento no estilo felizes para sempre. E foram!

O meu guru era um sábio, mas ria das bobagens que eu falava. E, como o guru que a Nélida quer, contestava “com inesperada graça os arroubos da minha liberdade”. Nunca deixou de me alertar sobre os perigos do mundo e me dava lições de como desarmar as armadilhas que eu encontrasse nos itinerários da vida. Também elogiava o meu esforço para ser cada dia melhor. Às vezes até exagerava nos elogios. Só para me alegrar.

Certo dia, quando era maio no mundo, meu guru partiu. Sereno. E eu fiquei assim, como a Nélida Piñon, sem guru. Mas com uma grande vantagem sobre ela: já tive um.

Ops…. Tive??? Calma aí. Acho que ainda tenho, pois no exato momento em que eu colocava o que seria um ponto final neste texto quando digitei a palavra “um”, ouvi aquela gostosa e marota gargalhada e parece que todas as estrelas riram junto.
Ah, esse meu guru…

  • Olá Alcinéa! Tenho que ler sua crônica” O Meu Guru” para o PS da Unifap e estou com dificuldades para a pesquisa. Vc pode me ajudar? Desde ja lhe agradeço e lhe parabenizo pelo trabalho grandemente reconhecido. Bjs

      • Olá minha querida,tenho um platônico por uma pessoa,e essa mesma pessoa ama o seu trabalho,cada trecho de suas frases é uma emoção pra nós dois,eu gostaria muito de poder realizar o desejo dele de poder lhe conhecer,seria o dia mais feliz da vida dele,aquela alma linda precisa de uma sensação na vida como essa, autêntica e plena.😍
        Por favor,assim que ver minha mensagem,contata-me.

  • Olá Alcinéa! Preciso ler sua crônica “O Meu Guru” para o PS da Unifap. Estou tendo dificuldades para a pesquisa, vc pode me ajudar??? Desde já agradeço e lhe parabenizo pelo trabalho grandemente reconhecido!

  • Eu que não a conheço sua história e familia, conduzi um possível avô a ser o seu gurú, leitura divertida, coloca mais uma aí vai , rs. Parabéns!

  • Alcinéa,
    até eu, cá do Rio, fiquei pensando em teu guru e suas risadas. Se pudesse, eu pediria emprestado, só um pouquinho, as memórias que tens dele. Talvez, a falta que sinto de um guru, fosse preenchida com o amor que sempre terás pelo teu.
    Por dividir seu coração, obrigado.

  • Sou do maranhão e a tempo sou leitor de seu blog, pelas dificuldades que enfrenta vejo vc como um heroína. Continue assim.Adicionei vc nos meus blogs favoritos. Deseho um dia lhe conhecer. forte abraço e sucesso

  • Alcineia,boa tarde!TUDO BOM??sou aluna da escola alexandre vaz tavares aluna do professor paulo cambraia de história,meu nome é brenda fonseca,que me indicou a sua procura foi um trabalho tem como o tema conhecendo nossa cidade de antigamente alguns pontos turisticos de macapá a mais ou menos 30 anos atrás e o tema do meu trabalho é sobre o trapiche eliezer levy,encontro muita difuculdade em minha pesquisa pois as referencias que eu tenho são poucas e me indicaram a senhora como essa referencia por favor se tiver como a senhora me ajuda ficarei muito agradecida meu emaiil-lindinha[email protected] meu telefone é 81314195 desde ja lhe agradeço 😉 obrigada e boa tarde!

  • Alcineia,boa tarde!TUDO BOM??sou aluna da escola alexandre vaz tavares aluna do professor paulo cambraia de história,meu nome é brenda fonseca,que me indicou a sua procura foi um trabalho tem como o tema conhecendo nossa cidade de antigamente alguns pontos turisticos de macapá a mais ou menos 30 anos atrás e o tema do meu trabalho é sobre o trapiche eliezer levy,encontro muita difuculdade em minha pesquisa pois as referencias que eu tenho são poucas e me indicaram a senhora como essa referencia por favor se tiver como a senhora me ajuda ficarei muito agradecida meu [email protected] meu telefone é 81314195 desde ja lhe agradeço 😉 obrigada e boa tarde!

  • Menina Alcinea,
    Vi na Revista Época 07/09/2009, As novas redes da Amazônia (A DEVEDORA DO SARNEY) rsss. No momento estou fuçando no seu blog; ja tem meu voto para o Nobel Fascinante, rsss
    Ah ! acredite, até ouvi a gargalhada marota do seu GURU
    Outro ah! vou mandar um foto pra que mande minha carterinha de fã.
    One kiss for you rss
    Nossa! esqueci… sou chato, veja aí, que está faltando a letra “n” em Messagem rss

  • Néia. Costurava fardas da guarda territorial, gargalhada gostosa, morava na esquina, casado com dona Joana, pai de 8 filhos, talvéz 5 homens e 3 mulheres, contava coisas dos bairros da pedreira e telégrafo. Seu Guru não era o sr. Herundino do Espirito Santo?

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